|
|
|
Chico César Por
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa O cantor e
compositor paraibano Chico César colocou de “uns tempos pra cá”
o nome da Paraíba em evidência na cena musical nacional,
juntando-se a Zé e Elba Ramalho, ao seleto time dos
astros da música popular brasileira. O Zé e a Elba foram
favorecidos pelo momento histórico vivido pelo país e pela MPB no início
da carreira e por fazerem música regional. Já o Chico
César, depois de passar pela incubadora do Jaguaribe Carne
(grupo de música experimental e livre nascido na periferia de João
Pessoa – PB e liderado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró),
enquanto se dividia entre a música e curso de jornalismo nos anos 80, como
outros de sua geração teve que enfrentar um cenário adverso à renovação
dos nomes. Após se formar, cortou o cordão umbilical com o Jaguaribe
Carne, seguindo para o sudeste e depois fixando residência em São
Paulo. Nos anos 80 o rock era rei dentro e fora na paulicéia
desvairada. Então, o jornalismo virou a opção para o sustento e a música
seguia no paralelo. Nesse período a MPB e a música regional tinham como
espaços apenas os barzinhos dos bairros: Bexiga, Vila Madalena
e Pinheiros. Mas o som do Chico encontrava dificuldade por ser
urbano demais para os barzinhos de som regional e regional demais para os de
som urbano. Os projetos culturais da prefeitura com música gratuita nas praças
e casas de cultura eram a salvação. Depois de comer muita poeira no
anonimato o início dos anos 90 o brindou com seu primeiro sucesso nacional À
primeira vista (música gravada por Daniela Mercury) que colocou
o nome do compositor em evidência e em 1995 lançou o seu primeiro CD
autoral: Aos Vivos. Embalado pelo calor do sucesso de sua canção
nasce um disco voz e violão mostrando algumas baladas com o mesmo clima de À
primeira vista e músicas mais viscerais. Só me ocorreu ter
conhecimento deste CD em 1996, época em que era aluno de comunicação
social em Campina Grande – PB, mas não procurei ouvir o
trabalho por duplo preconceito ou motivo(s). O primeiro, por conta da badalação
do nome do músico nos corredores da universidade focando mais o glamour da
fama que a qualidade da obra. E o segundo, porque fazia seis anos que eu só
ouvia e pesquisava os clássicos da MPB nacional e regional (era um aprendiz
de violão) e a música que era sucesso do compositor não dizia muito para
quem estava embriagado com a obra de outro Chico, o Buarque.
Aquele sim, um velho Chico de água caudalosa, com produção vasta,
original e criativa a se perder de vista. Mas confesso abestalhado que ao
ouvir todas as músicas de Aos Vivos, três anos após o lançamento,
percebi o óbvio, que as outras canções do Chico César eram mais
que Á primeira vista. A poética da música Mulher eu sei me
tomou de assalto e refleti: nasce um Caetano Veloso das cinzas, e
repaginado. Mas era pouco para um cara sortudamente alienado com a obra do Buarque
de Holanda e os primeiros discos de Zé Ramalho, Alceu Valença,
Geraldo Azevedo e Cantoria 1 e 2 (Elomar, Xangai, Vital Farias e Geraldo
Azevedo) e Gilberto Gil. Eu nadava contra a onda rock e a do Mangue Beat
(liderada por outro Chico, o Science). Assisti pela
primeira vez em 1997 em Campina Grande a um show do Chico César e me
surpreendi com a qualidade de sua banda e sua desenvoltura no palco. Um
artista completo e de alto nível. Ele só se mostrou um pouco apreensivo
quando chamou seus pais ao palco para cantar coco e samba de roda (acho que
tinha dúvida de qual seria a reação do público), mas a receptividade foi
positiva. O que lhe tirou a paciência e o fez perder a linha foi um
inconveniente grupinho que não parava de gritar: “toca Raul”. Ele parou
o show e se impôs cobrando respeito à sua arte. E avisou que já tocou
muito Raul Seixas, mas que o show era do Chico César. O show
continuou e o grupinho continuou na cantilena “tocar Raul”, mas nada
disso arranhou o brilho da sua primeira apresentação na cidade. A sua
postura ganhou a minha admiração por mostrar personalidade e
profissionalismo. Não é à toa que ele faz mais show fora do Brasil. A cada disco
meu preconceito e desconfiança diminuíam. No final do ano 2000, eu já
morando em São Paulo fui acompanhando e conhecendo a
cada dia um Chico César bem articulado com a mídia e transitando
bem entre os músicos da cena alternativa e os famosos. Entrevistei muitos músicos
para a RM que têm e/ou tiverem contato pessoal e profissional com
ele e todos são unânimes em elogiá-lo e respeitá-lo. Suas letras, vão
do suave ao árido, da balada romântica à critica social com um refinado
deboche. Uma poética que visita ora o concretismo, ora o lirismo. A cada disco
uma obra e um artista diferente. Eu prefiro os discos em que ele é mais
festeiro do que os que exigem mais do lado cantor (intérprete). Segue
abaixo entrevista de Chico César cedida em 01/09/2008 para a www.ritmomelodia.mus.br: 1-) Ritmo Melodia – Qual sua
cidade de origem e data de nascimento? Chico César - Catolé do Rocha, 26 de janeiro de 1964. 2-) RM - Como seu primeiro
contato com a música? Chico César - Foi ouvindo meu pai e minha mãe cantando. 3-) RM - Quais as primeiras influencias musicas? E quais as que permaneceram nos dias atuais? Quais as atuais influencias? Chico César - Minhas primeiras e eternas influências são: Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. 4-) RM - Qual sua formação musical(teórica) e qual sua formação acadêmica? Chico César - Estudei primeiro flauta doce ainda criança. Mais
tarde estudei guitarra no Centro Livre de Aprendizagem Musical, escola do Zimbo Trio em São Paulo. Eu sou formado em Comunicação Social, com especialização
em Jornalismo. 5-) RM - Quando e como você iniciou a carreira musical profissionalmente? Chico César - Minha primeira composição fiz aos 12 anos. Mas
antes, quando eu tinha só 10 anos de idade, um colega de escola chamado Vanílson que tocava bateria em uma
bandinha me chamou para fazer uma espécie de audição nessa banda. O
"dono" da banda, chamado Arlindo,
me ouviu e me "contratou". Eu virei o cantor de músicas nacionais
do grupo. O nome era Super Som Mirim
e noutro momento se chamou The Snakes.
Aos 14 fiz parte do Grupo Ferradura,
ao lado de Escurinho,
percussionista que depois seguiu carreira solo e já está no terceiro
disco. Aí nós só tocávamos composições próprias e participamos de
muitos festivais pelo interior da Paraíba.
Chegamos inclusive a fazer show em João
Pessoa, no Circo Teatro Piolin. Penso que isso já era o começo
da vida profissional. Mas só fui viver de música a partir de 1992, quando
deixei o jornalismo. Três anos depois gravei meu primeiro disco, "Aos
Vivos". 6-) RM - Qual a importância do grupo de estudo Jaguaribe Carne (idealizado e liderado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró) na sua formação musical e intelectual? Chico César - Na minha chegada em João Pessoa, eu os conheci e fui praticamente adotado por eles. Eu
tinha só 16 anos e eles me abriram os ouvidos para muitas coisas, como música
aleatória, jazz europeu, poesia concreta e pornô, arte postal, experimentação
a partir das referências nordestinas, brasileiras e latino-americanas. O Jaguaribe Carne foi uma universidade
paralela em minha vida. Eles eram muito pobres, materialmente falando.
Moravam inclusive em casas cobertas de palha. Mas tinham a melhor discoteca
que vi em minha vida. Tinham tudo do selo Carmo, de Egberto Gismonti, e tudo da ECM
records. Muitas preciosidades. E uma cabeça maravilhosa, livre,
irreverente. O curioso é que não bebiam nem fumavam nada, não usavam
nada. Eles (Pedro e Paulo) só tomavam guaraná Sanhauá, uma marca
local, com bolo baeta. Era tudo o que um adolescente recém-chegado do sertão
podia querer. 7-) RM - O mais recente CD do grupo Jaguaribe Carne saiu pelo seu selo musical (Chita Discos). Porque a opção deste CD (Vem no vento) que mostra o universo das canções (musica com letra) do grupo e não o lado experimental? Chico César - O disco chegou pronto em minhas mãos. Creio que
ele foi feito meio como uma dívida do grupo com a cena paraibana. Os
admiradores do grupo sempre se queixavam de que ele ainda não havia feito
nenhum disco de canções, apesar de eles serem ótimos compositores. Mas há
o desejo de regravar o disco instrumental de violão deles, que saiu só em
vinil. Ou talvez só remasterizar. 8-) RM - Qual a importância do grupo Jaguaribe Carne na área musical experimental? Chico César - O Jaguaribe
Carne sempre experimentou, desde o fim dos anos 70, usando como base
ritmos nordestinos: maracatu, boi, ciranda, coco de roda, coco de embolada.
Mas sem folclorismo. Penso que é um grupo pioneiro, formador. E sobreviveu,
o que aumenta o seu mérito. Além de ajudar na formação de muita gente,
como eu. 9-) RM - Existe em sua opinião uma música genuinamente paraibana? Chico César - Acho que não. A música paraibana já produziu
tantas coisas distintas. Acho que não existe música genuína, não. 10-) RM - Qual era o panorama musical e cultural paraibano no seu início carreira? Chico César - Tínhamos o Musiclube
da Paraíba, que se reunia toda semana no Círculo Operário de Jaguaribe. Antes era no Teatro Lima Penante, espaço cedido por Fernando Teixeira e Ednaldo
do Egipto. Éramos mais de trinta músicos, de diferentes tendências.
Tinha gente de baile, de seresta, do forró. Tinha de tudo. Discutíamos
questões de nossa categoria profissional e organizávamos shows dos
colegas. Era bacana. Foi fundamental. Quem queria se apresentava no projeto Fala Bairros também. A Diretoria Geral de Cultura do Estado tinha Raimundo Nonato Batista à frente e
organizava projetos coletivos como Araponga,
Boca da Noite e Gazi de Sá. Era frentes que se abriam para os artistas
mostrarem seus trabalhos. 11-) RM - No seu início de carreira qual sua relação pessoal e profissional com Zé Ramalho, Elba, Bráulio Tavares, Vital Farias e Jarbas Mariz? E como é hoje? Chico César - Era de admiração e continua sendo. Nunca tive
muito contato com Vital Farias,
apesar de admirá-lo muito. Desde garoto. É um excelente violonista e
compositor. Zé Ramalho, eu conheci há pouco tempo, mas já nos tornamos parceiros. Jarbas é um parceiro muito querido
de velhos carnavais, desde os tempos do Musiclube. É um grande profissional
e sempre nos ajudou a buscar profissionalismo em todas as situações. Bráulio Tavares é em minha opinião,
é a melhor cabeça da cultura paraibana. Pelo menos é a melhor com a qual
tive a felicidade de ter contato. É um renascentista em tempos mórbidos.
Discute, com conhecimento e afetividade, assuntos diversos como cordel e ficção
científica ou tal disco de Bob Dylan
e a envergadura de tal repentista, lembrando a faixa xis do lado B e vários
versos que foram improvisados em uma cantoria num boteco de Campina Grande. É uma mente
generosa, aberta. Elba eu ainda
conheci quando trabalhava como jornalista. Fiz entrevistas com ela.
Tornou-se uma das minhas principais intérpretes e minha comadre. Uma irmã,
para falar sobre tudo. Discordar. Ouvir com atenção. Tem amor em tudo o
que ela fala. E põe esse amor em tudo o que canta. Um amor universal,
transcendental. 12-) RM - Quando se falava em músicos paraibanos conhecidos fora do Estado, os nomes Zé Ramalho, Elba Ramalho, Jackson do Pandeiro, Vital Farias e Antonio Barros eram os citados. Como você analisa sua entrada na década de 90 nessa relação? E para você qual a importância da obra dos citados para identidade da música paraibana? Chico César - Penso que a minha chegada se deu junto com uma
dessas reviravoltas em que a música brasileira vem beber na cacimba
generosa da música nordestina. Tem sido assim desde Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro.
Depois com os baianos: Tom Zé, Caetano, Gilberto Gil, Bethânia. Depois com a geração de
Alceu Valença, Djavan, Geraldo
Azevedo, Zé e Elba Ramalho, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, os
cearenses Ednardo, Belchior, Fagner,
Amelinha. O Nordeste virou mainstream aí. E a juventude brasileira
voltou-se para a cena rock, como algo alternativo e de linguagem urbana,
direta. A minha geração, a mesma de Zeca
Baleiro, Lenine, Ivan Santos e Zeh Rocha ficou "emparedada".
Éramos nordestinos demais para os anos 80. A segunda metade dos anos 90
abriu-se para uma música mais melódica e acústica. Cazuza e Paralamas do Sucesso aproximaram-se
inegavelmente da MPB. O surgimento
de Marisa Monte no fim dos anos
80 arejou bastante o ambiente. Outro fator decisivo nisso tudo foi o disco "Sobre Todas as Coisas",
de Zizi Possi. Era uma cantora do
mainstream dando um grito de independência e inovando no formato. Depois
vem o "Olho de Peixe",
de Lenine e Marcos Suzano, e o meu "Aos
Vivos". São discos de MPB, mas ricos em sofisticação e
simplicidade contemporâneas. Tem ainda a eclosão do movimento mangue beat,
cheio de tambores e guitarras distorcidas. Pronto. Estavam abertos os
ouvidos da juventude para o Nordeste de novo. Sem contar a imensa contribuição
para isso das férias dos jovens paulistanos no sul da Bahia e a explosão
do que se chamou forró universitário.
Penso que artistas como esses citados, são sempre referências para
qualquer artista de qualquer região. Artistas que colocam os seus trabalhos
acima de tudo e resistiram, são pioneiros, abriram caminho, criaram vocabulário.
A identidade da música paraibana é a diversidade, se pensarmos na Orquestra Tabajara, na Metalúrgica Filipéia, em Sivuca, nos Quatro Loucos que geraram Zé
Ramalho. 13-) RM - Os Conjuntos de Baile na Paraíba na década de 60 e 70 foi à primeira iniciativa de um mercado musical com uma estrutura profissional de apresentação de show (mesmo os grupos não tocando música autoral). Os compositores torciam o nariz para esses grupos. Como você analisa grupos? Chico César - São perspectivas bem diferentes a de quem cria e a
de quem repete. Por isso, o conflito. Ambas têm grande importância. Se não
tiver o que repete a criação fica confinada. Tem que ter esses
multiplicadores. 14-) RM - Qual a influência Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque na sua formação musical e intelectual e na sua obra? Chico César - Essa é uma geração maravilhosa. É tão
importante que muita gente não acredita em vida inteligente depois deles.
Eu ouvi muito esses mestres, mas também ouvi outros contemporâneos deles,
como Elomar Figueira de Melo, e
artistas posteriores como a chamada vanguarda paulistana, de Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Premeditando o Breque. Eles
formataram o que na cabeça da maioria das pessoas convenciona-se chamar
MPB. É de certa forma o que eu faço, mas desde pequeno presto atenção na
ficha técnica, nos caras que tocam. No Lanny Gordin, no Tuzé de Abreu, no Toninho Horta, Fredera, no Piau, no Chico Batera. E sempre me liguei
nos parceiros, no Edu Lobo, no Francis Hime, no anjo torto Torquato Neto, em Capinan. Por aí. E ouvi também João Bosco e Aldir Blanc, Luiz Melodia, Djavan, Bartô Galeno,
Claudia Barroso, Silvio Caldas, Núbia Lafayete, Kraftwerk, Secos e Molhados.
Tudo isso lá em Catolé do Rocha
ainda. Essa mistura é que me define. Não uma coisa só. 15-) RM - No seu primeiro CD - Aos Vivos - até que ponto se anunciava um "Caetano" atualizado com seu tempo? Chico César - Em nenhum ponto. Eu sempre fui mais ligado em Ednardo do que em Caetano Veloso. Estava mais próximo como referencial. Era alguém
depois de Caetano, fazendo uma
ponte que um jovem compositor nordestino podia pegar ou não. Eu peguei, mas
Pedro Osmar me obrigou a saltar
dela logo e vencer o rio de braçada. Nadar, nadar até chegar a sua própria
nascente. Esse foi um desafio interessante. E continua sendo. 16-) RM - Na sua opinião quando se deu o corte do "cordão umbilical" de sua obra com suas influencias musicais nas busca de uma identidade própria? Chico César - Nunca se deu. E eu quero continuar ligado às
minhas influências. Que serei se me afastar do Gilliard, Altemar Dutra, Noca do
Acordeon? Não posso virar só um leitor de Haroldo de Campos. Em São Paulo já tem gente demais
fazendo isso. Vou permanecer misturando. Sou sujo, poluído, como o Riacho
Agon que atravessa lentamente Catolé
do Rocha cheio de gasolina, óleo queimado; resíduos tóxicos em direção
ao sítio do Cajueiro. Limpeza
obsessiva é um transtorno mental, eu acho. 17-) RM - Você é um musico diferenciado nos tempos atuais por cultivar uma postura intelectual (tipo papo cabeça dos anos 60 e 70) que virou marca registrada de Gil, Caetano, Chico Buarque, Belchior e etc. Essa postura até que ponto tem haver com sua formação e atuação como jornalista? Chico César - Não se trata de uma "postura", uma coisa
de "atitude". Venho de um tempo e um lugar em que é importante
ter informação: o Sítio Rancho do
Povo, a quatro quilômetros de Catolé
do Rocha, há cerca de 40 anos. O jornalismo entrou na minha vida apenas
como forma de sobrevivência, pois eu sabia que não poderia colocar a minha
música como meu arrimo. E eu precisava fazer alguma coisa para pagar o
aluguel, coisas assim. Pedro Nunes
e Carlos César, meus conterrâneos, já estavam na faculdade e me
deram uns toques de que não seria tão doloroso sobreviver como jornalista.
E as meninas eram "descoladas". Eu gostei. Tenho amigos até hoje
dessa fase. 18-) RM - E pegando esse "gancho", falei de sua atuação profissional como jornalista? Chico César - Minha atuação foi a mais inofensiva possível.
Meu primeiro trabalho foi entrevistar Nara
Leão, numa coletiva no Hotel Tropicana. Praticamente entrei mudo e saí
calado. Ela falou um pouco mais do que eu, incentivada por meus colegas
cheios de questionamentos sobre isso e aquilo outro. Eu acompanhava os
movimentos inquietos daqueles olhos lindos dos interlocutores para os
joelhos. Demoravam-se mais nos joelhos. Eu também. Pensei, então: vou
ficar fazendo isso até o dia em que eu mesmo tenha que olhar para os meus
próprios joelhos. Fiz minhas anotações e voltei para a redação. O texto
foi devidamente copidescado (revisado e editado) por Valter Galvão e Valter Santos. Ganhei o emprego. Eu
estava ainda no segundo ano da faculdade. Logo que me formei, capei o gato.
Vim-me para São Paulo, passando
por Ouro Preto, Rio de Janeiro e Barra Mansa,
no sul-fluminense. Aqui trabalhei
bastante como revisor de texto, repórter freelancer, copidesque. Sobrevivência. 19-) RM - Porque você escolheu São Paulo para atuação profissional no início de carreira? Chico César - Vim pra cá para ficar perto da vanguarda
paulistana. Mas em 1985 a cena já era bem diferente da que idealizava. O Lira Paulistana, principal espaço
dessas manifestações, logo fechou. O grupo Rumo também havia acabado; Ná Ozetti iniciava carreira solo, Itamar Assumpção estava largando a
Isca de Polícia para criar as Orquídeas do Brasil. Mas São Paulo sempre teve lugar para
tudo, tinha Mulheres Negras (de Maurício Pereira e André Abujamra) e uma porção de espaços como o Centro Cultural São Paulo, os sescs, as
casas de cultura. A cena boêmia já começava a se transferir, lentamente,
do bairro do Bexiga (Bela Vista) para Vila
Madalena. Penso que só em São
Paulo eu poderia desenvolver meu trabalho. E foi muito acertado vir para
cá. 20-) RM -
Como você superou o obstáculo em São Paulo de sua proposta musical ser:
Regional demais na cena musical urbana e urbano demais na cena musical
regional? Chico César - Eu tocava e pequenos bares e teatros, além de
projetos públicos da Prefeitura e do Estado. 21-) RM -
Como era o panorama musical de São Paulo na década de 80 e 90? Chico César - Era muito rico e variado. Muito rock, muita música
instrumental, muita música dodecafônica, muito show de graça ao ar livre. 22-) RM - Qual sua relação pessoal e profissional com o movimento musical Vanguarda Paulistana? Chico César - Sempre foi de admiração. E depois me tornei
parceiro de Itamar Assumpção e de Tetê Espíndola e amigo
de muita gente, como Suzana Sales, Passoca, Ná Ozetti.
Estudei na escola de música do Ricardo Brein (ex-pianista do Rumo). 23-) RM - Qual sua relação pessoal e profissional com os músicos nordestinos que atuavam no mercado musical em São Paulo quando você chegou? Chico César - Fui ajudado por Chico de Abreu, músico
cearense que fazia programação para a Secretaria de Cultura. Ele
ouviu uma fita minha, nos tornamos amigos, fizemos shows juntos e ele também
me encaixava nos projetos locais. Também fiz shows com Fuba, Lula
Cortes e Jarbas Mariz. 24-) RM -
Qual sua relação pessoal e profissional nessa época e hoje com Zeca
Baleiro, Rita Ribeiro e Jarbas Mariz? Chico César - Zeca Baleiro e Rita
Ribeiro não eram dessa época. Chegaram depois. Fiz muitas coisas junto
com Jarbas Mariz. Dividimos shows, fui músico acompanhante e banking
do trabalho dele. No final da década de 80 é que chegaram os maranhenses Zeca
e Rita. Ficamos amigos e realizamos muitos projetos juntos, além de
tocar bastante em casa. Tornei-me parceiro de Zeca, dividimos
apartamento e sempre que podemos renovamos a parceria com encontros reais ou
virtuais. 25-) RM -
Quais as situações mais inusitadas que já ocorreram em momentos de show e
no contato com fã? Chico César - Teve um show em São Paulo em um bar em que
a dona do estabelecimento esqueceu-se de que havíamos marcado aquela data e
não contratou som. Então não aconteceu o show. De fã não lembro nada. 26-) RM – Eu presenciei um show seu em 1997 em Campina Grande – PB. Que teve a participação dos seus pais cantando. E um grupo de pessoas começou a pedi para você cantar músicas do Raul Seixas. E você tentou convencer as pessoas que eles estavam no show do Chico César até você perder a paciência. Como você analisa esse lamentável episodio? Chico César - Faz parte da cultura local. 27-) RM - Você já sofreu algum golpe financeiro por parte de empresários ou produtores? Chico César - Sim. 28-) RM - Quantos discos lançados? Qual o perfil e a proposta de cada um? Chico César - São sete discos de carreira, dois infantis, um
compacto simples com duas músicas, um disco em parceria com Zezo Ribeiro
para a Espanha. A proposta é estar vivo. 29-) RM - Analisando sua discografia. Dizer que ela é Eclética, você acha que é uma definição ideal? Chico César - Eu faço os discos. Os outros definem. 30-) RM - Quando grava um novo disco, você pensa como um conjunto de sua obra de forma evolutiva. Ou cada um tem vida independente? Chico César - Eu sinto e procuro deixar fluir de modo orgânico.
Tento ir para onde o desejo me leva. 31-) RM - Em 2006 você lançou o CD: De uns tempos pra cá. Sai o Chico César "festeiro" e entra o intelectual centrado, pensativo, menos festeiro. O que lhe motivou a fazer esse divisor de águas em sua obra? Virão mais? Chico César - Agora já estamos de novo na festa, com o Francisco
Forró y Frevo. Tomara que possa ainda fazer muitos outros. 31 -) RM -
No CD - De uns tempos pra cá - o interprete foi mais exigido por conta de
melodias e arranjos bem elaborados. Como você analisa seu desempenho como
cantor? Chico César - Cito o cearense: "eu quero que esse canto
torto feito faca corte a carne de vocês". 32-) RM - Você há anos vem desenvolvendo uma carreira internacional, principalmente na Europa. Como você administra sua carreira no mercado nacional e internacional? Chico César - Artistas de minha geração não podem ser
regionais ou nacionais. O mundo se abriu e a troca de bens simbólicos está
aí. Passo um terço ou um quarto do ano toando fora do Brasil, e adoro. 33-) RM - Fale do seu projeto social e musical na sua cidade de origem? O que lhe motivo a esse empreendimento? Chico César - O Instituto Béradêro volta-se para a educação
e a valorização da auto-estima de crianças e jovens através da arte,
principalmente da música e de seu aprendizado. O que motivou a apoiá-lo é
a necessidade de ter interlocutores em minha cidade para assuntos que me
interessam: a vida, os valores humanos, a arte e a cultura. Chico César - O grupo Jaguaribe Carne me fez criar o selo
para lançar o disco deles. Depois vieram os meus infantis, o meu compacto
simples, o Swami Jr, a Josi e uma cantora alemã chamada Dota
Kerh. 35-) RM - Na atualidade com tantos artistas saindo das grandes gravadoras e se tornando artistas independentes. Como você analisa a cena musical independente? Chico César - É um celeiro maravilhoso, uma cena riquíssima. 36-) RM - Quais os projetos futuros? Chico César - Agora estou rodando com o show Francisco Forró
y Frevo. Mais na frente é possível que faça um DVD dele. Contatos: www.chicocesar.com.br |