Entrevista do Mês: 02/08/2008

 

Fábio Dantas

Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

ritmomelodia@hotmail.com

O cantor, pianista e compositor paraibano Fábio Dantas é filho caçula de uma família de artistas. O pai, Adhemar Dantas, é um dos mais conhecidos e atuantes intelectuais paraibano, tendo sido precursor do atual movimento teatral da cidade. E sua mãe, Norma Dantas, passou-lhe as primeiras instruções sobre piano aos cinco anos de idade.  

Descobrindo os primeiros acordes, ele passou a desenvolver uma técnica pessoal, priorizando o simples e genuíno prazer pelo som resultante dos acordes. No seu processo autodidata descobriu a música popular e com o auxílio de sua mãe conheceu a música clássica (seu compositor favorito é Chopin). Porém, o pianista confessa sentir um prazer bem maior ao tocar "de ouvido", uma vez que isto possibilita uma maior expressividade, bem como aumenta as possibilidades de criação de novos acordes, muitas vezes experimentais e insólitos...

Fábio concilia a carreira de médico com a de músico e de radialista (apresenta e produz um programa especializado em MPB na rádio Campina Grande FM, há 20 anos). Já se apresentou ao lado de praticamente todos os artistas de Campina Grande, incluindo nomes como Capilé, Kátia Virgínia, Gabmar Cavalcanti, Marinês, Cida Lobo, Emerson Uray, Moisés Freire, Fidélia Cassandra, Tony Dumont, Sandra Medeiros e Jorge Ribbas. Participou e co-produziu espetáculos de grande repercussão na cidade como: Vias Abertas, Preto no Branco, Sol e Lua, Grande Encontro de MPB Campinense e o Tributo a Elis Regina. Seus últimos projetos musicais incluem a gravação, ao vivo, do CD - Chico em Voz e Piano, em 2005, com a participação do cantor Júnior Meneses, e o mais recentemente, o CD - “Sobreamigos”, lançado em outubro de 2006, com um repertório inédito e autoral, contando com participações especiais de diversos artistas locais.

O projeto mais recente é o CD - “Outros Tons”, exclusivamente autoral, em que Fábio canta parte do repertório, ao lado da cantora Kátia Virgínia. O CD traz também poemas, declamados por Fidélia Cassandra, e a participação dos excelentes músicos Gabmar Cavalcanti, Beto Piller, Luciano Salsa e Harlann Santos. O CD é temático, trazendo a visão de diversos assuntos, incluindo a preocupação ambiental, política, religião e outras questões sociais cotidianas. O lançamento está previsto para agosto de 2008. Segue abaixo entrevista exclusiva de Fábio Dantas em 02\08\2008 para a www.ritmomelodia.mus.br :

1-) Ritmo Melodia – Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Fábio Dantas - Nasci em Campina Grande - PB, em 19 de setembro de 1965.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

FD - Desde criança, sempre me interessei por música. Minha mãe e minha irmã tocavam piano, e eu gostava de ouvir, e tentar reproduzir o que elas tocavam. A partir dos cinco anos de idade o piano começou a ser minha grande paixão.

3-) RM – Qual sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

FD - Não tenho formação musical formal, fui autodidata, embora minha mãe tenha me ensinado a leitura de partitura. Sou formado em odontologia e em medicina. Após concluir o curso médico, fiz residência médica e pós-graduação em neurologia em São Paulo - SP. Depois, prestei prova para especialista em neurofisiologia clínica (áreas de eletrencefalografia e polissonografia) e em medicina do sono, sendo aprovado em todas elas. Atualmente, atuo como professor da Universidade Estadual da Paraíba, e trabalho com polissonografia e eletrencefalografia.

4-) RM – Quais suas influencias musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

FD - Influências do passado: Chico Buarque, Elis Regina, Taiguara, Milton Nascimento, Djavan, Ivan Lins, Tom Jobim, Edu Lobo, Johnny Mathis, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Barbra Streisand.

Influências do presente: Harry Connick Jr., Josh Groban, Leila Pinheiro, Roberta Sá, Jorge Vercilo, Lenine, Jane Montheit. Nenhum deles deixou de ter importância.

5-) RM – Quando, como e onde  você começou sua carreira profissional?

FD - Em 1987, participando de um festival de música em Campina Grande, a convite de amigos cantores. A partir daí, muitos eventos e participações viriam.

6-) RM – Fale do seu primeiro CD (músicos que participaram nas gravações).? Qual o perfil musical do CD? E quais as musicas que estão entrando no gosto do seu público?

FD - Meu primeiro CD se chama "Chico em Voz e Piano", lançado em 2005. Eu e o cantor Júnior Meneses registramos ao vivo um show realizado em Campina Grande, com repertório exclusivamente de Chico Buarque de Holanda, por quem temos profunda admiração pelo artista. O CD teve grande repercussão, e o show foi apresentado cerca de 10 vezes, inclusive em Belo Horizonte - MG. Depois, veio o "Sobreamigos", de 2006, meu primeiro trabalho autoral, com participação especial de diversos amigos da música, cantando e tocando. O perfil é variado, mas se baseia na tradicional MPB, com Bossa Nova, Canções e arrisca viagens musicais diversas, como o Tango e o Blues.

7-) RM – Quais são seus principais parceiros musicais?

FD - A cantora Kátia Virgínia e o músico e arranjador Gabmar Cavalcanti. Tenho profunda admiração por eles, e um orgulho muito grande por tê-los como parceiros e amigos.

8-) RM – Nesse seu CD em que você contou com a participação vários artistas campinenses. Faltou algum parceiro musical que você gostaria que participasse?

FD - Acredito que o "Sobreamigos" foi um trabalho muito consensual, não imagino outros cantores ou músicos participando do disco. Para outros, quem sabe...

9-) RM – Como você define seu estilo musical?

FD - Acho que sou predominantemente ligado ao estilo MPB clássico, mas arrisco incursões em outras áreas, em outros estilos, como os que permeiam o jazz e o blues.

10-) RM – Como é seu processo de compor?

FD - É um processo de difícil definição. A inspiração normalmente nasce de uma idéia ou de um momento vivido. Geralmente, escrevo a letra, já imaginando a melodia, e vou fazendo as adaptações necessárias em ambas. Depois, no processo final, a harmonia vai sendo trabalhada, e novos ajustes são feitos na letra e na melodia.

11-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

FD - Os prós são, obviamente, a total independência criativa e a liberdade. Os contras são relacionados às dificuldades para lidar com o mercado. A ausência de uma conexão com uma gravadora dificulta as etapas de divulgação e comercialização do trabalho artístico.

12-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

FD - Acho que há coisas boas e coisas ruins, como sempre houve. A diferença é que a cultura de massa atual privilegia os grupos e estilos mais comerciais, sem grandes preocupações artísticas. Dentre as grandes revelações das últimas décadas, eu cito: Marisa Monte, Jorge Vercilo, Lenine, Celso Viáfora, Paulinho Moska, Roberta Sá, Wander Lee, Maria Rita e Ana Carolina. Dentre eles, acho que apenas Jorge Vercilo regrediu em termos de repertório.

13-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

FD - Eu cito: Maria Bethânia, Chico Buarque, Elis Regina, Tom Jobim, Edu Lobo, Milton Nascimento, Zizi Possi, Selma Reis e Djavan, mas há vários outros exemplos.

14-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

FD - O que me deixa mais feliz é poder me fazer ouvir, através daquilo que componho. A música é a linguagem mais universal e mais apaixonante que existe. O que me deixa triste é saber que, para um dia me tornar conhecido nacionalmente, dependo de inúmeras variáveis e conexões, às quais nem sempre se pode ter acesso.

15-) RM – Nos apresente a cena musical paraibana e campinense?

FD - Acho que a cena musical campinense está um pouco estática, apesar de novos nomes estarem timidamente apontando, e de lançamentos periódicos de nomes já consagrados, como Kátia Virgínia, Emerson Uray e Moisés Freire. A falta de incentivo e as dificuldades com relação ao mercado são os grandes limites para os novos nomes, como Júnior Meneses, Gabriel Venâncio e Sandra Monteiro. Nomes como Renata Arruda e Chico César têm conseguido levar adiante a bandeira de nossa música.

16-) RM – Quais os músicos campinenses na atualidade que tem uma obra consistente, regular e inovadora com força para resistir a uma visibilidade nacional?

FD - Acredito na possibilidade do crescimento para uma visibilidade nacional de nomes como Júnior Meneses, Gabriel Venâncio, Emerson Uray, Kátia Virgínia, Gabmar Cavalcanti e Moisés Freire, além do baixista Beto Piller e do percussionista Luciano Salsa.

17-) RM – E em relação a Paraíba quando teremos em termo de visibilidade nacional um novo Zé Ramalho, Chico César, Jackson do Pandeiro, Flávio José, Bráulio Tavares e Elba Ramalho?

FD - Acho que os tempos são outros, as dificuldades atuais são maiores, a despeito da facilidade para gravar um CD. O contexto cultural e artístico do país é diferente, mais impenetrável. Os nomes que você citou conseguiram furar um bloqueio, mas, de certa forma, havia uma curiosidade muito grande com relação à música nordestina. Com a chegada do axé music e dos forrós eletrônicos, esta visibilidade se tornou maior, mas a qualidade caiu bastante. Então, novos nomes paraibanos, que façam música de excelente qualidade, estão tendo cada vez mais dificuldade para penetrar no mercado nacional.

18-) RM – Você acredita que sua música vai tocar nas rádios sem o jabá?

FD - Não acredito. E detesto até mesmo pensar na possibilidade de jabá. É algo que me enoja.

19-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

FD - Digo que vá adiante, se tiver persistência, talento, paciência, e adaptabilidade a uma realidade muitas vezes dura e massacrante. Tem de ser, antes de tudo, um forte.

20-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical ?

FD - Já passei por problemas clássicos de todos os músicos, como tocar sem retorno adequado, apresentar-me em bares barulhentos e com pessoas desinteressadas pela música ao vivo. Uma vez, durante um show no teatro, o som simplesmente parou, e ficamos conversando com a platéia, com cara de pastel. Felizmente, conseguiram consertar.

21-) RM – Quais os projetos futuros?

FD - Em agosto, estarei lançando meu novo CD, chamado "Outros Tons", exclusivamente com canções e poemas de minha autoria. Pela primeira vez, também canto parte das músicas, dividindo esta responsabilidade com a competentíssima Kátia Virgínia, Gabmar Cavalcanti, Luciano Salsa, Harlann Santos e Beto Piller também participam do disco, para meu orgulho e prazer. Como sempre tenho feito, pretendo distribuir o CD com: gravadoras, artistas e jornalistas. Quem sabe, um dia a semente germina...

22-) RM - Deixe seus contatos para contratarem o seu show e para seus fãs?

FD -  Meu contato é pelo e-mail é fabiogalvaodantas@gmail.com