|
|
|
Edson Gomes Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa O cantor e compositor baiano Edson Gomes; lança em 2006 pela gravadora Atração seu primeiro CD e DVD ao vivo gravado em Salvador – BA. Esse CD e DVD contarão com os sucessos: Malandrinha, Samarina, Sistema do Vampiro, Perdido de Amor, Fala só de Amor e musicas inéditas, como Ana Maria. São mais de 34 anos de carreira musical, onde 23 anos levando a bandeira do reggae feito no Brasil. Teve seu primeiro disco lançado em 1987. Se não é o primeiro regueiro brasileiro, é o que nunca fugiu da cartilha do reggae raiz em duas décadas, onde lançou 7 discos cantando e compondo reggae de protesto social e político e que falam de amor. Ouvi pela primeira vez o som de Edson Gomes quando iniciei uma banda de reggae em 1997, onde tocava contrabaixo. Nesse período já escrevia minhas poesias e letras para musicas. Foi uma surpresa feliz ouvi aquela voz forte, afinada cantando letras conscientes sem metáforas nem eufemismo, mas indo direto ao ponto. Antes de Edson a minha referencia de reggae consciente era Paralamas do Sucesso, mas recentes bandas como as bandas Tribo de Jah, O Rappa, Cidade Negra e Skank. Mas Edson Gomes contempla em som, letras e linhas de baixos e arranjos de metais o que podermos chamar de reggae raiz de verdade. Em 1998 puder assistir no clube AABB em Campina Grande – PB o show de Edson Gomes e tirar a prova dos 9 que ele era o maior regueiro brasileiro. Ele entrou no palco imponente vestido com uma calça e camiseta camuflada, estilo militar, isso me chocou inicialmente por conta da lembrança da ditadura militar. Mas esse depois conhecendo a filosofia do trabalho dele, entendi que essas roupas; que ele usa ainda hoje em shows vem representá-lo como um guerreiro do terceiro mundo, ou seja, ele estar mais para guerrilheiro do que para um militar formal. No mês de Dezembro de 2005 tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e entrevista-lo em sua casa em Santo André - SP. Ele me recebeu despojado vestido como guerrilheiro de folga da batalha. Tomando seu licor e ouvindo reggae de bandas e cantores novos. Conversamos por mais de 2 horas sobre sua carreira, pude entende os motivos de suas criticas sociais, políticas e contra a cena do reggae comercial. Confira o áudio dessa entrevista no seu site www.edsongomes.com.br na página mídia. Em Março de 2006 tive a oportunidade de assistir em São Paulo o show dele. Fiquei impressionado com seu desempenho e da sua banda Cão de Raça que lhe acompanha. Parece um disco tocando tamanho é o entrosamento entre os músicos. Ele com um timbre mais grave que o do passado, mas forte como um vulcão em erupção. Cantando seus grandes sucessos e musicas inéditas. É lamentável que nos eventos ditos da cena do reggae em São Paulo ou em outras cidades do Brasil não inclua Edson Gomes na agenda. Um gênero musical conhecido por sua critica contra toda forma de opressão, contra os políticos corruptos, contra os preconceitos e as injustiças sociais deixem de fora um ícone do reggae nacional que sofre retaliações do poder estabelecido por conta das suas musicas que criticarem a injustiça e opressão. É deprimente ver a cena reggae que leva milhares de pessoas aos shows ser dominada por produtores famintos por dinheiros que não se importam com a história do reggae raiz. Que usam bandas iniciantes, imaturas na estrada que fazem concessões lamentáveis para não perderem a oportunidade de se apresentarem. É decepcionante ver que existe a mesma máfia do show biz na cena Rock, do Samba, do Pagode, do Forró, Sertanejo, do Axé Music, da MPB aparece na cena do reggae raiz. Falta unidade entre bandas e cantores que ainda acreditam na verdadeira cena do reggae raiz. Lembrando a música do Edson: Acorde, Levante e Lute. Que os verdadeiros regueiros brasileiros se unam. Segue abaixo entrevista exclusiva de Edson Gomes em 02\05\2006 para revista musical on-line www.ritmomelodia.mus.br : 1-) Ritmo Melodia – Você é de que cidade e comente seu primeiro contato com a música. Edson Gomes – Eu nasci dia 03 de Julho de 1955 na cidade de Cachoeira – BA. Fiz minha primeira apresentação como músico participando em 1972 de um Festival de Música Estudantil no Colégio Estadual de Cachoeira e fui primeiro lugar. A partir desse Festival não parei mais minhas atividades musicais. Nesse Festival eu não tinha ainda uma definição musical, era letrista e interprete. Depois aprendendo harmonia comecei a fazer minhas composições criando letras, melodias e harmonias (Acordes). Depois de participar de outros Festivais de Música Estudantil local. Em 1977 participei do Festival de Inverno de Cachoeira que já tinha um prestigio e profissionalismo maior que os Festivais Estudantis e teve a participação de artistas de outras cidades baiana que já tinham prestigio. E fui primeiro lugar também nesse Festival. Depois desse Festival fiz algumas tentativas profissionais que não tiveram sucesso no Rio de Janeiro e em São Paulo. Retornei para Cachoeira e em 1985 participei de um Festival de Música na cidade de Feira de Santana – BA, que era a segunda maior cidade do interior do nordeste. Fui premiado com o segundo lugar e melhor interprete. Em 1987 participei em Salvador – BA do Festival de Música – Troféu Caymmi e fui premiado como melhor interprete. Em 1985 tive a primeira experiência gravando em estúdio e 1987 com o Troféu Caymmi tive a segunda e em 1988 gravo meu primeiro disco com o título de Reggae Resistência. Esse é um breve resumo da minha iniciação musical e profissional. 2-) RM – Quais foram suas primeiras influencias musical nesse período de indefinição de qual estilo musical escolher para lançar um disco. EG – A minha primeira grande influencia musical foi Tim Maia, por conta da maneira de cantar eu era conhecido na minha cidade como Tim Maia de Cachoeira. Eu gostava de imitar Tim Maia e foi uma escola muito proveitosa no tocante o canto. Em 1983 enveredo pelo caminho do reggae e os ícones jamaicanos desse gênero passam a ser minhas influencias, tais como Bob Marley, Peter Those, Jimmy Cliff. 3-) RM – Quais os motivos que fez você escolher o reggae como música de trabalho. EG – No período de indefinição de um estilo a seguir, eu já tinha a vocação para compor e cantar música de protesto. Minhas letras já traziam criticas sociais e políticas. Em 1988 quando gravei o primeiro disco, que saiu em LP, CD e fita cassete. As minhas canções composta outros estilos passaram para o estilo reggae, a exemplo de Malandrinha, Na Sombra da Noite, Samarina, Hereditário, que eram no estilo soul, passaram para o reggae. Nesse primeiro disco a única música concebida em reggae foi Rastafay, o próprio título da canção denuncia o estilo. Em 1983 eu percebi que o reggae era o veiculo certo para levar minhas idéias e convicções. Como um elemento negro, eu tinha a opção do Samba, mas não achava esse gênero com tradição de luta pelos direitos dos oprimidos. Então busquei um gênero musical que casa-se com meu propósito de protestar contra todas as discriminações. 4-) RM – Fale da sua discografia. E quais as músicas de sucesso de cada disco. EG – Por conta dos Festivais de Música que participei, tive os primeiros registros fonográficos em coletâneas. Em 1988 tive o meu primeiro disco lançado com o título de Reggae Resistência. Nesse disco as musicas são sucessos até hoje e me projetou como o primeiro regueiros brasileiro: Malandrinhas, Samarina, Hereditário, Na Sombra da Noite, Rastafay, Sistema do Vampiro, Historia do Brasil, Cão de Raça. Em 1990 lancei o disco Recôncavo. Que fizeram sucessos: Fala Só de Amor, Lili, Guerreiro do Terceiro Mundo e Adultério. Em 1992 lancei o Campo de Batalha. Que fizeram sucessos: Campo de Batalha, Criminalidade, Dance Reggae. Em 1995 lancei Regaste Fatal. Que fizeram sucesso: Resgate Fatal, Calamidade Pública, Isaac, Ovelha Negra, Meretriz. Em 1997 lancei Apocalipse. Que fizeram sucesso: O País é o culpado, Camelô, Amor sem compromisso, Apocalipse, Fogo na Babilônia, Etiópia. Passei alguns anos sem gravar. Em 2000 lancei Acorde, Levante e Lute. Que fizeram sucesso: Acorde. Levante e Lute, Sangue Azul, Linda, Inquilino das prisões, Arca da Fuga e regravei Malandrinha com novos arranjos. Em 2006 lancei CD e DVD gravado ao Vivo com meus grandes sucessos e musicas inéditas. Inclusive uma música que ganhei em 1987 um Festival, que se chama Ana Maria. 5-) RM – Quais foram as músicas que atingiram grande sucesso na mídia. EG – Na mídia em Salvador, a capital baiana, quem fez muito sucesso foi Samarina. O sucesso no restante do Brasil foi Malandrinha. 6-) RM – Fale mais da opção por abordar temas sociais e políticos em suas letras. EG – Uma pessoa que tenha um mínimo de consciência, sendo descendente dos escravos. Nasci no Brasil mais me considero africano. Meus antepassados que viveram um sistema cruel de escravidão e sofro ao longo dos anos essas conseqüências históricas. Então eu senti que tinha que fazer algo contra as injustiças sofridas. Como enveredei pelo caminho da música, comecei a escrever pensando na discriminação que sofreram meus antepassados e que sofri, sofro e sofrem meus contemporâneos. Comecei a escreve sobre o social, a política e o que estar ao alcance da minha vista e que me desagrada. Em primeiro plano foi a luta exclusiva em favor da cor da pele, hoje não é mais porque a consciência não se limita a cor. E comecei a defender através de minhas letras as causas do povo oprimido em qualquer parte da terra, independente da cor da pele. 7-) RM – Como você vê a relação direta que as pessoas fazem do estilo musical do reggae com a maconha especificamente e as drogas em geral. EG – Penso que devido à situação que vivemos no sistema de muita pobreza, necessidade e muita opressão as drogas entram na vida de algumas pessoas como uma válvula de escape que oferecem um possível alivio, busca pela paz e relaxamento das tensões da realidade. Mas trazem no seu bojo muitas conseqüências negativas. Não acho positivo nada que nos torne cativo, já passamos por uma escravidão física e passamos por uma escravidão mental. E as drogas nos escravizam. Eu particularmente não gosto de nada que me cause dependência. Se eu canto uma música livre, eu tenho que ser livre. Não posso ser escrevo e cantar a liberdade. Tenho que ser livre para cantar a liberdade. As drogas trazem um relaxamento, mas causa dependência. E as pessoas começam a fazer de tudo para tê-la. Eu canto e faço reggae divorciado da maconha e de qualquer droga, mesmo a que uso. A bebida. O que eu tenho que passar para pessoas através de minha música não é meu lazer, mas a conscientização. 8-) RM – Fale do seu primeiro contato com o som dos ícones do reggae como: Bob Marley, Peter Those, Jimmy Cliff. EG – Primeiro ouvi o som de Jimmy Cliff, gostei muito, mas seu estilo não me influenciou. Em 1980 comecei a ouvir Peter Those e posteriormente um irmão mais novo que curtia o reggae e morava em Salvador – BA me trouxe um disco de Bob Marley. Comecei a gostar do trabalho dele. Eu nunca falei isso em entrevista, mas no inicio de minha carreira musical, minhas canções (Malandrinha, Samarina, Hereditário, Viu, Campo de Batalha, Árvore) faziam um sucesso enorme em Cachoeira, minha cidade natal. Mas não eram cantadas nos estilo reggae, depois conheci o reggae houve um casamento perfeito do estilo jamaicano com minhas musicas. Eu procurava um gênero musical que pudesse viajar com minhas idéias. Ouvindo Bob Marley percebi que o reggae seria meu veiculo ideal para levar minha mensagem. Em 1983 com o meu primeiro disco Reggae Resistência iniciou minha carreira na cena reggae. E o músico Nengo Vieira me convidou nesse período para fazer um show em Salvador já como um cantor e compositor de reggae. O trabalho dele não era reggae, mas ele viu em mim um protótipo do reggae na imagem, no som, nas letras. Passei a ficar na casa ele e ouvir Bob Marley o tempo todo. Passei minhas canções para o gênero reggae e a cada lançamento de um disco coloco canções que foram criadas em outros gêneros para o estilo reggae. Principalmente as canções com temas românticos. 9-) RM – Em sua opinião você é o primeiro regueiro brasileiro. EG – Não tenho influencia de reggae no Brasil. Porque se não fui o iniciador da cena reggae no país, passei a ser o cara que começou a persistir no gênero e outros vieram no rastro. E tiveram pessoas que participaram comigo no inicio para esse fortalecimento, como o Nengo Vieira, que era um bom músico. O baterista Jair, eles foram que me colocaram na cena reggae. 10-) RM – Em sua opinião quais as bandas e cantores que mantém o conceito reggae. EG – Eu vejo algumas bandas reggae com potencial, mas mantém certa timidez. Não sei se pelo fato de ser uma trilha perigosa por sofremos retaliações por colocarmos as cartas na mesa e estarmos metendo o bico contra o sistema organizado e dizendo não ao poder estabelecido. Isso causa conseqüência que às vezes são drásticas. É preciso que você tenha um potencial e uma retaguarda para lhe sustentar em pé. Eu gosto muito da Banda Dissidência de Santo Amaro – BA. Essa banda chega com força na cena real do reggae, mas vejo a maioria das bandas cantando o reggae como modismo, querendo agradar, usando o reggae para paquerar, se entreter em quanto der, depois cai no estilo pop. As bandas que se propõem em fazer um reggae verdadeiro continuam no gueto sem aparecer. A galera que estar evidencia está fazendo o jogo. Falam coisas sérias, mas timidamente. Não como eu coloquei a cara para bater. Eu sou o pato feio da cena reggae. Esse é meu caminho, meu legado, não tem como voltar a traz. A cena reggae que existe em São Paulo, principalmente, não é diferente da cena do Forró, do Sertanejo, do Axé music. Então muitas das bandas que necessitam aparecer estão atreladas a um produtor vampiro, esse cara é quem domina a cena e colocar em evidencia quem estar com ele. Ele faz produção com 14 a 20 bandas que não tem um nível profissional de uma banda boa. Esses músicos estão começando e com ansiedade de aparecer. Toda cena musical tem esses vampiros. Os músicos da cena reggae atual ainda são imaturos e desprovidos de experiências e consciência. Mas as coisas estão mudando aos poucos, eles estão vendo que são explorados por esses produtos que só se preocupam com o lado comercial do reggae. A Tribo de Jah está na estrada há muito tempo e tem consciência, ainda que por uma questão de sobrevivência participe dessa cena reggae comercial. Mas eles sabem o que estar rolando nos bastidores e por uma questão de necessidade participam. Mas sou um guerreiro e estou passando por cima dessas coisas. E não vejo com bons olhos essas produtores que estão dominando de forma arbitraria a cena reggae em São Paulo e em outras cidades. 11-) RM – Em sua opinião o que difere seu trabalho de outros regueiros no Brasil. EG – Minhas musicas tem um swing próprio, diferente nas musicas de regueiros brasileiros, jamaicanos e de outros países. O que conduz o swing e a linha do contrabaixo e a linha dos contrabaixos de minhas musicas é totalmente diferente dos outros regueiros. O meu reggae é diferente por isso. É diferente a minha maneira de pensar, de me conduzir e de casar a teoria com a prática. Sou totalmente prático. Na teoria tudo é fácil, mas a pratica é difícil. Sou aluno e professor de mim mesmo. Aquilo que almejo experimento primeiro. É preciso ter alguém por traz disso (Deus). 12-) RM – Fale a importância das linhas de contrabaixos e os arranjos dos metais na sua música. EG – É o contrabaixo é uma coisa interessante. Como no reggae com Nengo Vieira que era baixista. Eu já compunha minhas musicas e harmonizava livremente, quando essas canções foram transformadas em reggae. Então começou a dificuldade por quer minhas linhas melódicas não era retas. Tinha primeira, segunda e terceira parte. Para o contrabaixo ficava difícil de manter uma única linha. E junto com Nego Vieira criamos um estilo de linha de contrabaixo para minha música que a torna diferente de outras musicas de reggae. Em relação aos arranjos de metais, sou de uma região riquíssima no uso dos metais nos grupos de fanfarras e bandas filarmônicas que tocam seus dobrados nos coretos das praças nas cidades do interior nordestino. Eu cresci ouvindo essas bandas e me apaixonei. Diga-se de passagem, a maioria dos arranjos de metais das minhas musicas eu que solfejo os arranjos para os instrumentistas. 13-) RM – Fale como é o processo de composição de suas musicas. EG – Eu comecei como letrista, criando as melodias para letras. Um colega harmonizava minhas melodias. Mas eu não gostava das idéias dele porque ele tinha influencia das bandas da Jovem Guarda e Roberto Carlos, Erasmo Carlos. Eu necessitava urgente de harmonizar minhas letras corri para aprender violão e ao passo que aprendi dois acordes comecei harmoniza minhas musicas devido a minhas necessidades e em conseqüência disso não evoluir como instrumentista por essa pressa. Então meu processo de composição começa com a escolha do tema, depois procuro a harmonia, faço a divisão dos compassos, começo a melodia ou solfejar para ver se harmonia estar legal, depois começa a escrever a letra. O gênero reggae é música simples, como o Samba, Forró e gêneros populares, quem quiser sofisticar esses gêneros vai se complicar. 14-) RM – Por sua música tratar de temas sociais e polêmicos você já teve problema com políticos e com a polícia que são os mantedores da ordem social estabelecida. EG – Não escrevo só sobre o que acontece comigo. Mas existiram situações pessoas. No CD – Apocalipse; abordei na música Fogo na Babilônia, uma situação que ocorreu comigo. Em 1997 a policia civil forjou um mandato de busca e apreensão. Invadiram minha casa em busca de droga e me mobilizaram e reviraram a casa em busca de drogas. Outra situação que aconteceu foi quando eu e meu irmão Bráu fomos a uma imobiliária alugar um apartamento. Então quando sairmos com o cara da imobiliária. No caminho fomos parados pela polícia armados de metralhadoras e mandaram descer do carro alegando estarem procurando um carro roubado que parecia com o que estávamos. Eu não acredito nos políticos. Mesmo tendo um deslize de minha parte em ser seduzido por alguém e convencido a se candidatar a vereador na minha cidade. Felizmente não fui eleito. Então como os políticos são detentores do poder, dominam os meios de comunicações (Jornal, Rádio e TV), quem não estar com eles, sofrem retaliações, então me preparo para suportar tudo isso. É o preço que tenho que pagar por gostar da minha liberdade. 15-) RM – Comente sobre a cena reggae na Bahia e no Brasil em geral. EG – A cena reggae na Bahia e no Brasil em geral é a mesma vista em São Paulo. Os produtores que produzem essas cenas reggae trazem artistas que não tem nada haver com o reggae raiz, comprometido com a conscientização. Não só eu como outras bandas e pessoas que fazem um reggae comprometido estão fora, da tal cena reggae, que é puramente comercial. Mas tem muita gente disposta a desenvolver a verdadeira cartilha do reggae. O reggae é contra o sistema de opressão e a favor da vida livre com responsabilidade. A cena reggae que está em evidencia no Brasil é moda dos surfistas, dos mauricinhos. Se der certo legal, se não bola para frente. Eu discuto essa questão com a Tribo de Jah, Adão Negro e Nengo Vieira. Falta uma unidade e um mentor que direcione qual a cena a seguir, se rastafari ou não. Não me coloco como a ponta de lança de uma cena reggae raiz porque quero estar vivo para cantar. Então cada um está seguindo o próprio caminho, no salves quem puder. Todo movimento tem que ter um mentor espiritual, se não houver é babilônia. 16-) RM – Você cultua o rastarianismo como religião. EG – Eu não sou rastafari. Tenho a estética rastafari. Fujo da concepção rastafari por ser de natureza cristã, antes de conhecer o reggae, eu já era cristão. Minha formação religiosa é Jesus Cristo, ele é meu mentor e me dirigi. Não cultuo o rastafari por conta de o mentor religioso ser um homem como eu, passivo de falhas. Não colocarei mais em minha música o termo rastafari, fiz isso no início da carreira, mas me conscientizei. 17 -) RM – Fale de sua formação escolar e trabalhos que fez antes de ser musico. E o que você fazia antes de se tornar musico profissional. EG – Eu tenho consciência sobre os dramas sociais. Mas não um homem letrado. Sofrivelmente terminei o primeiro grau (Hoje, Ensino fundamental). E fui à luta, trabalhar, por ser de uma família pobre, tive logo cedo ajudar no sustento da família. Trabalhei como servente de pedreiro na construção civil. Em 1983 voltei ao banco escolar para terminar o segundo grau (Hoje, Ensino Médio). Depois aceitei o convite de Nengo Vieira para fazer o show em Salvador – BA e parei de vez. Passei a viver a vida pratica me tornei um cronista do cotidiano, falo nas minhas musicas do que vejo, sinto e percebo na vida cotidiana minhas e dos outros. Saí da construção civil, do serviço pesado. Meu último emprego foi como estivador carregando e descarregando caminhão no Porto de Salvador - BA. 18 -) RM – Existe semelhança da sua obra com a música jamaicana do passado e atual. EG – Eu não sou pesquisador do reggae jamaicano, apenas ouvi no início de carreira os ícones como Bob Marley, Peter Those, Jimmy Cliff, mas por não ter acesso material do reggae jamaicano na época, não me aprofundei no conhecimento do trabalho deles. Então meu trabalho não tem influencia direta da obra deles. Não sabia nada do que a letras dele diziam. Conheci depois de muito tempo em shows em Salvador o Jimmy Cliff, Gregori Isaac, Alfa Brondy. 19-) RM – Quem são os músicos que lhe acompanharam e acompanham hoje em show e estúdio. EG – A primeira banda que me acompanhou foi a Estúdio 5, do Nengo Vieira. Ele me dava força e me introduziu no reggae, depois que ele foi fazer o próprio trabalho autoral, a partir desse momento não tive mais uma banda com formação fixa. Só vejo os membros da banda dois dias antes do show, não temos uma convivência e uma relação íntima. Acontece de algum músico se identificar mais com o trabalho e se doar mais. Como exemplo, Nivaldo Siqueira (Sax tenor), Nascimento (Guitarra), Cunha (Sax alto). Na gravação em estúdio tem os músicos Osvaldo (Baixo), Toni (Guitarrista), Scooby (Tecladista), Cunha, Nivaldo. No CD – Ao Vivo gravado em Salvador - BA tocaram Ricardo (Bateria), Osvaldo (Baixo), Henrique (Órgão), Toni (Guitarra solo), Cinho (Trompete), Nascimento (Guitarra base), Neuma e Mônica (Vocais), Cunha (Sax alto), Marola (Trompete), Ney (Sax Tenor). Já gravou e tocou comigo o baixista Lazaro. Ele agora evangélico. O baterista Jair que hoje mora no Rio de Janeiro. 20-) RM – Hoje além dos arranjos dos metais que instrumentos mais você ajuda na criação dos arranjos. EG – Eu criei junto com Nengo Vieira a concepção das linhas de contrabaixo para as minhas musicas. Então os baixistas que vão entrando eu vou orientando, deixo a liberdade de criação, depois eles mostram o que criaram e vou dizendo o que fica ou não fica. 21 -) RM – Quais são os projetos para 2006 e comente se valeu ter escolhido o gênero reggae como música de carreira e sua visão sobre a consciência negra. EG – Em 2006 o projeto é divulgar o CD e DVD gravados ao vivo em Salvador. E só valeu apenas escolher o reggae. Não por ter me achado espiritualmente, porque já havia me achado, porque o importante para mim é o espiritual. No reggae me achei como um cidadão, que estar tendo uma passagem positiva na vida. Que rejeitou e rejeita muitas oportunidades que leva o homem a degradação. A cena reggae que a recompensa é a grana. Que a grana é tudo. O reggae me proporcionou resistir a essas coisas. Com o meu talento para cantar e compor poderia estar muito bem nas questões materiais. Porque para cantar e compor besterol não precisa de muito cérebro e como não tenho esse cérebro todo, eu seria uma maravilha compondo música banal. Eu seria um verdadeiro magnata (Como o Fauzi me chama). Minha luta é muito difícil porque tenho que rejeita muitas coisas. 22 -) RM – Fale de sua postura em relação à causa e a cultura negra e as injustiças sofridas. EG – Não faço parte de nenhuma cena reggae puramente comercial, de nenhum movimento negro, de nenhuma religião negra, minha religião é Deus através de Jesus Cristos. Sou contra ao branco incoerente, explorador, injusto e da mesma forma sou contra ao negro que agir da mesma forma. Acredito que como homem todos nós somos iguais. Não sou melhor que ninguém branco ou negro. Não defendo um governo negro porque se considero uma loucura o governo branco, com certeza o governo negro será uma loucura. Os homens são diferentes ou superiores pelos valores que agregaram, sejam intelectuais ou materiais. Mas tanto os que agregaram como os que não agregaram valores comentem erros, sejam brancos ou negros. Essa consciência você adquire em Deus não no rastafari. Sou um canceriano sensível e estou conectado com cérebro universal (Deus) percebo as minúcias e fico constrangido de estar vivendo nesse lugar, na Terra. Eu saio de casa muito pouco, porque sou muito observador e minhas canções dizem isso. Vejo a discriminação a distância. As pessoas com seus olhares preconceituosos e passam ao largo segurando suas bolsas. Tudo isso me constrange. Em lojas as moças do caixa ficam nervosas quando vêem dois negrões na fila, elas chamam logo o segurança para se tranqüilizar. Temos que provar a vida toda que não somo inimigo. Gosto muito dos lugares que vou por conta dos shows, mas só fico tranqüilo na minha cidade natal, porque as pessoas me conhecem, sabe que sou o cantor Edson Gomes. Até em Salvador – BA com maioria populacional negra existe preconceitos de branco e negro sobre os negros. Então a melhor coisa na vida é ser consciente, mesmo sofrendo por ter consciência dos nossos direitos e deveres. Contatos: caoderacanegro@uol.com.br \ leinadsantos@ig.com.br - Tel.(71) - 3329 - 4059 \ 3329 - 0175 |