Entrevista: 04/04/2003

 

 Tribo de Jah

Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

ritmomelodia@hotmail.com  

A Tribo de Jah é sem duvida alguma mais expressiva banda de reggae raiz. Nos mais de 15 na estrada do reggae brasileiro é uma das representantes do país no exterior. Banda composta por cinco músicos maranhenses (Aquiles; Neto; Frazão; Zé Orlando e Zé Paulo) e o paulista Fauzi Beydoun. Que ao adquirir um equipamento de som para montar uma banda de reggae conheceu os cinco músicos deficientes visuais que faziam shows de baile e conhecia a voz do mesmo através dos programas reggae em rádios locais. Em 1986 surgia uma banda original com músicos excelentes e versáteis. Um cantor e compositor ímpar de voz vulcânica melodiosa que quebrou os tabus de que musicas longas e de cunho social não cairiam no gosto popular. Ele foi além fazendo canções épicas denunciando o trafico de influencia, descriminação contra os regueiros, caos social e canções românticas para dançar agarradinho porque também somos filhos de Jah.

Essa é um resumo da Tribo que canta para suas sinceridades para as outras tribos que vivem nos guetos dessa imensa nação ambicionando apenas o respeito e pode gozar o direito pleno de serem cidadãos. São 9 CDs que vão do reggae raiz pedrada ao pop consciente. Mas todos tecendo a evolução musical e continuidade da espiritualidade que fazem a Tribo de Jah se diferenciar de outras excelentes bandas de reggae brasileiras.  No Palco a banda levanta o astral do Iapoque ao Chuí. Músicos escolados nos bailes da vida. Neto um Guitarrista solo manhoso e seus trejeitos de roubar cena. Zé Orlando com sua multi – percussão de mão e um vocal agradável e energia no palco de levantar defunto. Frazão com seus dedos mágicos fazendo as teclas falarem seja nas levadas de órgão ou arpejos de pianos esbanjando independência de mãos. E a segurança da cozinha rítmica fica nas mãos de Aquiles (Baixo) e Zé Paulo (Batera) e o maestro Fauzi pulsando manhosamente as cordas da sua guitarra em êxtase de emoção. Essa é a Tribo de Jah em ação pelo Brasil e pelo mundo. Segue entrevista exclusiva de Fauzi a revista musical on-line Ritmo Melodia - www.ritmomelodia.mus.br em 04\04\2003:

1-) Ritmo Melodia - Fauzi, fale do início da Banda Tribo de Jah?

Fauzi Beydoun - Todos os integrantes da Tribo, menos eu, nasceram no Maranhão (capital e interior). Eu nasci em Assis, interior de São Paulo e depois de muitas andanças me radiquei no Maranhão. Quando conheci os meninos da banda. Eles já tocavam em banda de bailes e tinham se conhecido na Escola de Cegos do Maranhão. Eu era radialista e fazia programas de reggae em Am e Fm diariamente. Mas fazia shows também como músico “free lancer”.  Daí foi que senti  necessidade de ter uma banda genuinamente de reggae, com músicos e identidade própria. Foi assim que, procurando um equipamento completo de uma banda para montar um grupo, me deparei com os meninos que então tocavam numa banda de baile chamada: “Reflexo”. Comprei o equipamento e como eles iriam ficar desempregados devido a essa Aquisição. Convidei-os para fazerem parte do grupo explicando exatamente qual era o meu propósito. Alguns deles me reconheceram pela voz, e disseram que eram ouvintes do meu programa no rádio. A partir daí, em 1986, começou a Tribo de Jah.  

2-) RM - Quantos CDs lançados? Qual o perfil de cada um dos CDs?

FB - A Tribo lançou até agora 9 Cds. É difícil falar do perfil de cada um porque, no geral, eu considero que eles sejam complementares. Tirando os Cds “ao vivo” e o “Tributo a Bob Marley” que foram trabalhos atípicos, os demais seguem certa linha de evolução natural (musical e pessoal), embora a qualidade técnica (ou qualidade fonográfica) nem sempre reflita isso. O primeiro foi feito em condições precárias, num estúdio de 12 canais. O conteúdo deste trabalho, porém é bastante expressivo, porque era ainda uma matéria bruta a ser lapidada, porém revelou-se uma referência para os fãs até hoje. A partir daí eu acho que foi havendo uma gradativa maturidade musical e também no nível das idéias. Por ser o ultimo trabalho autoral da Tribo lançado em Cd, eu particularmente gosto muito do “Além do Véu de Maya”. Há neste trabalho uma postura mais nítida a nível espiritual que sempre foi à linha mestra da Tribo, só que nesse Cd acho mais elaborada, mais definida também. 

3-) RM - Quais as músicas mais populares?

 FB - As canções mais populares da Tribo são certamente: Babilônia em Chamas, Morena Raiz, Reggae na Estrada, Não Basta Ser Rasta, Regueiros Guerreiros, Chama, etc.

 4-) RM - Fale da homenagem a Bob Marley? Qual a receptividade do público? 

FB - Em relação ao “Tributo a Bob Marley”, esse foi certamente o trabalho mais difícil ou o maior desafio da carreira da Tribo. Fazer versões das canções de um mito mundial, muito admirado no Brasil também, com suas letras e mensagens já bem conhecidas do grande público do reggae foi certamente um grande risco, mas eu acho que no geral a Tribo se saiu muito bem, conseguindo fazer versões fiéis e até literais, tentando não desvirtuar em nada a mensagem original e preservando até algumas imagens poéticas preciosas de Marley. O retorno ao nível dos fãs da Tribo foi muito positivo e esse foi também um dos Cds mais vendidos do grupo. A conclusão  que ficou é que é realmente mais difícil fazer versões do que composições próprias. 

5-) RM - Fale do novo lançamento? 

FB - A Tribo entrou em estúdio para preparar seu novo trabalho inédito que deve ser lançado em junho. Nesse caso serão só musicas próprias e sem versões, procurando uma volta total as raízes. No momento a gente ainda continua em turnê de lançamento dos  DVD e do Cd “15 Anos”, que também é um material importante no currículo da banda, já que foi lançado para celebrar os15 anos de carreira do grupo. Em relação ao novo trabalho, não há ainda um nome definido para o álbum, mas a expectativa é que seja o melhor trabalho da banda de todos os tempos. Ao menos o astral do grupo está muito elevado e a galera está sentindo um grande prazer e também uma grande responsa na elaboração desse novo projeto. É só esperar pra ver e ouvir. 

6-) RM - Fale da cultura do Reggae e das Radiolas em São Luiz - Maranhão? 

FB - O fenômeno do reggae em São Luis é realmente algo incrível, de difícil explicação. O que eu acho mais curioso é que esse fenômeno aconteceu no Maranhão seguindo o mesmo roteiro acontecido na Jamaica, mas isso com uns trinta anos de diferença. A história dos “sound-systems”, como são conhecidos, na Jamaica e “radiolas” no Maranhão seguiram o mesmo processo, tanto aqui quanto lá, e mesmo trinta anos depois, o mais incrível é que a coisa no Maranhão aconteceu espontaneamente sem que ninguém nunca imaginasse que algo semelhante teria acontecido numa pequena ilha do mar do Caribe. Na Jamaica, década de 50, o reggae nem existia e os donos dos “sound-systems” iam até os Estados Unidos pra trazer musicas exclusivas para suas equipes de som mecânico, geralmente perolas do rythim and blues, e invariavelmente riscavam os rótulos dos discos pra ninguém saber de quem se tratava (principalmente os concorrentes). No Maranhão isso também acontecia só que com fitas cassetes, e os djs e donos de radiolas faziam de tudo para ocultar os nomes e procedências e suas músicas também para enganar a concorrência, no caso, as outras radiolas. De qualquer maneira, foram as radiolas as grandes responsáveis pela difusão do ritmo no Estado, uma vez que as rádios realmente não tocavam reggae em suas programações. O primeiro programa que apresentei em São Luis junto com Ademar Danilo foi pioneiro nas estações FMS da Ilha.  

7-) RM - Como você vê o mercado musical para as bandas de Reggae brasileiro dentro e fora do País? 

FB - Creio que o mercado do reggae no Brasil está em franco crescimento e tende a se consolidar ainda mais, abrindo perspectivas para muitas bandas de talento se firmarem no mercado também com boa projeção. Temos visto boas bandas de reggae inclusive no Japão, no Chile e na Argentina. Por que não no Brasil onde os músicos são geralmente respeitados por sua versatilidade.  Em relação a possível repercussão internacional para essas bandas, aí já é algo difícil de projetar. Porém acho que algumas bandas nacionais poderão alcançar prestigio lá fora, como a própria Tribo tem conseguido. Já se poderia listar ao menos umas 20 bandas nacionais de grande qualidade e a tendência é que o numero aumente rapidamente.  Em breve teremos então esse grande mercado nacional do reggae, revelando grandes surpresas.

 8-) RM - Quais foram e são as referências dos membros da banda? 

FB - As referências para a Tribo de uma forma geral foram muito diversas porque no Maranhão todo mês tinha uma ou várias musicas novas emplacando nas rádios e radiolas por todo  o lado e com isso, a cada hora, estávamos com os ouvidos voltados para as novidades que iam aparecendo. Alguns nomes indiscutivelmente se destacaram para nós, como Gregory Isaacs, The Gladiators, etc. Em alguns momentos a gente se ligava num som que surgia no salão de reggae e ficava amarradão. Pra mim, isso aconteceu com nomes como Jimmy London, Ken Fyfe, Owen Gray, Joe Higgs, etc. No meu caso também, antes de chegar ao Maranhão já ouvia muito Bob Marley e Jimmy Cliff, então num primeiro momento eles tiveram também lá sua influência. 

9-) RM - Como você se define como vocalista, compositor, musico? 

FB - Não tenho me preocupado muito em fazer essa auto-avaliação. Acho que é mais fácil pra algum de fora tira alguma conclusão. No geral, me preocupo muito com as idéias, em manter certa coerência nas palavras tendo em vista aquilo que você tem como uma convicção própria.  Nesse caso, não dá pra se trair, de uma forma ou de outra você tem sempre que tentar passar uma verdade ainda que para outros ela possa não ser. O fato primordial pra mim, que me levou pra música, foi achar uma maneira de canalizar o sentimento. Acho que o bom da musica é o sentimento visceral que ela pode transmitir e pra isso o sentimento tem que vir da alma tem que ser algo sincero, ao menos pra gente tem que ser verdadeiro.  Há também o desafio de se manter atual, de inovar sem perder a raiz. Às vezes você tenta mostrar certa cultural musical e flertar com ritmos diferentes e acaba sendo mal compreendido. No geral, para qualquer artista, musico ou compositor, além dos ideais que devem sempre ser cultivados, é  fundamental a originalidade. 

10-) RM - Quais os fatos curiosos sobre a cultura Reggae de São Luiz que você gostaria de registrar?

FB - O que é mais fantástico em São Luis certamente são os salões de reggae. Uma cultura do gueto que aflorou com uma linguagem às vezes rude e às vezes extremamente sensual.  A maneira como se dança, se veste, se comporta, como se elege um reggae e o transforma numa “pedra” ou “pedrada” (um reggae irresistível), tudo isso é um mistério meio sem explicação. A magia das festas nos povoados e sítios do interior, debaixo de mangueiras e barracões precários de barro e madeira, a rivalidade dos clubes de reggae e das radiolas, tudo isso é um filme que ainda está bem vivo na minha cabeça. Acredito que o maior acervo de reggae raiz do mundo hoje se encontre no Maranhão, graças à persistência dos djs, donos de clubes de reggae e de radiolas que iam buscar discos na Jamaica, Inglaterra ou aonde tivesse, isso por anos a fio. 

11-) RM - Como você vê aceitação do Som da Tribo de Jah hoje, dentro e fora do Brasil?  

FB - A Tribo conseguiu se impor, graças  a Jah, como uma referência do reggae nacional. É muito curioso você viajar pelo país afora e ver como públicos e culturas totalmente diferentes acabam abraçando e curtindo o trabalho da Tribo. É também o lado mais gratificante da historia pra gente. De Roraima, Manaus, Belém, até o sul do país, a Tribo conseguiu a proeza de agradar a gregos e troianos, ou seja, a gaúchos e baianos, paulistas e pernambucanos, e por ai afora.  A gente percebe também um interesse cada vez maior do publico e dos produtores no exterior, com a quantidade cada vez maior de convites pra tocar em países os mais diversos: Peru, Japão, Estados Unidos, Portugal, etc.

12-) RM - Quais as principais diferenças do som da Tribo em relação às outras bandas de Reggae brasileiro? 

FB - Eu creio que o grande trunfo da Tribo é ser uma banda que tem uma quantidade bem maior de referências do que a maioria das bandas. Isso nem sempre é um fator primordial no trabalho, mas dá uma bagagem e uma autenticidade maiores. Não quero dizer que a Tribo seja melhor que essa ou aquela banda porque acho que em termos de musica não cabe comparações.  Nem somos também a única banda que tem mais referencias musicai em termos de reggae.  Algumas bandas que estão surgindo são muito novas e acho que a garotada tem pesquisado e fazem um som altamente elaborado. Poderia citar nomes, mas talvez não venha ao caso. Particularmente, sou fã  incondicional de certos trabalhos novos que estão surgindo aqui mesmo no Brasil e acho que são altamente promissores. A Tribo é apenas mais uma banda a somar nesse contexto.

13 -) RM - Quais os Projetos da Tribo de Jah em 2003? 

FB - Depois de concluir o próximo Cd, se Jah permitir, a Tribo deve concluir mais uma temporada pelo norte e nordeste que culmina com um grande festival de reggae internacional no Maranhão e, depois, deve ir para o exterior nos meses de julho e agosto atendendo a certos convites para shows em vários países do hemisfério norte. Ainda este ano, ainda se jah consentir, devemos gravar um outro material que terá uma parte gravada nos Estados Unidos com alguns convidados de lá. No mais, muita estrada, muito amor no coração, muito fé em Jah.

Contatos: 11 – 4413 – 0736 \  www.tribodejah.com.br