|
|
|
Carmélia Alves Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa Para mim foi uma imensa satisfação conhecer pessoalmente a cantora Carmélia Alves, uma senhora de 80 anos com tanto vigor de dar inveja a muita gente nova que estar começando a carreira musical. Pessoa falante e cativante. A entrevista aconteceu no apartamento do jornalista – radialista Assis Ângelo no Centro de São Paulo. Uma hora de papo e conheci sua espetacular trajetória iniciada nos programas de calouros e consolidada nos de rádio da década de 40 e 50, épocas de ouro do rádio brasileiro. Nesse período o rádio era a TV de hoje em importância para iniciar e projetar a carreira musical de um artista. Ela fã incondicional da eterna Carmem Miranda e não se incomoda de declara que lhe imitava e conseguiu abrir portas para sua carreira musical ocupando o lugar vago da cantora nos programas de rádio importante na época. Carmem trilhava sua carreira internacional. Carmélia, depois do grande sucesso no Brasil seguiu o mesmo caminho cantando pelo mundo. Antes disso ganhou o título de Rainha do Baião pelo eterno Rei do Baião Luiz Gonzaga, depois de se apresentar em Recife – PE cantando os sucessos de Gonzagão. Formou no início da década de 90 o grupo Cantoras do Rádio com: Nora Nei, Rosita Gonzáles, Zezé Gonzaga, Elen de Lima e Violeta Cavalcante. Aconteceram novas formações mantendo-se o núcleo: Carmélia, Elen e Violeta gravaram 3 CDs. O Mais recente em 2003 pela CPC UMES – SP. Segue abaixo a entrevista exclusiva de Carmélia Alves para revista Ritmo Melodia. Um resumo da carreira e historias interessantes dessa eterna cantora do Rádio: 1-) Ritmo Melodia – Carmélia Alves, fale do seu primeiro contato com a música? Carmélia Alves – Nasci fazendo barulho em 14/02/1923, dizia meu pai. Sou carioca de pais e parentes nordestinos. Em 1940 comecei meu contato com a música cantando no programa de calouros do Ari Barroso (Por acaso e culpa do meu irmão que me escreveu sem que soubesse). Ganhei com a nota máxima. E admirava o trabalho da Carmem Miranda, não cheguei a conhecer pessoalmente meu ídolo; mesmo sendo amiga de sua irmã: Aurora. Eu cantava tudo da Carmem e fazia todos os tipos e performance que ela fazia no palco. Meu irmão me escrevia em todos os programas de calouros do Rio de Janeiro. Ganhei e acumulei muitos prêmios. Na Rádio Nacional, no programa de Barbosa Jr. (Grande humorista da época, amigo e parceiro musical de Carmem) participei do seu concurso de calouros e aconteceu um fato inusitado. Cantei uma música da Carmem e imitando-a perfeitamente (O auditório vibrou). Na hora da premiação, outra moça ganhou e o auditório não gostou. Ele acalmou as pessoas e me chamou ao palco e pergunto se já era profissional da voz. Eu falei que não, que cantava a cinco meses em alguns programas de calouros na Capital (Minha família morava no interior). Ele falou que não me deu o prêmio, mas a partir daquele dia eu seria contratada para cantar em seu Programa que se chamava: Picolino, três vezes por semana e atração principal nos domingos. Segue entrevista exclusiva para a www.ritmomelodia.mus.br em 01\12\2002: 2-) RM – Fale da sua experiência como cantora de Rádio? CA – Eu comecei como estrela, porque vim do interior para ser funcionaria pública assalariada. E ganhei muito mais fazendo algo que gostava: Cantar. Minha mãe e dois irmãos vieram morar comigo na Capital. E meu pai ficou em Arial – RJ por ser funcionário público. A Rádio Nacional era a segunda em importância, sendo a Mayrink Veiga a primeira. Todos os astros da música cantavam lá (Silvio Caldas, Carlos Gailhardo, Francisco Alves, Carmem e Aurora Miranda, Araci de Almeida, Ciro Monteiro, Nelson Gonçalves, Odete Amaral, dentre outros). Menos Orlando Silva que era da Nacional. O Casé tinha um programa dominical na Manicker Veigas e faltou uma cantora e ele falou com Barbosa Jr. para ceder uma das suas. Ele me indicou e abriu a maior oportunidade da minha carreira. Iria cantar por 15 minutos. Eu era jovem, magrinha e mal produzida como artista. Cantei quatro musicas da Carmem e com o regional da mesma (Laurindo de Almeida, Tuti, Luiz Americano e João da Baiana). Na segunda música a maioria dos profissionais da Rádio parou para me ouvir cantar. Quando terminei disseram que os Diretores (César Ladeira e Edimar Machado) queriam falar comigo. Dr. Machado perguntou minha idade e mandou chamar minha mãe. Ela não quis falar com eles. E meu irmão foi. Eles assinaram um contrato para ocupar o horário que era da Carmem (Há dois anos ausente). Eles procuravam uma cantora com o mesmo estilo e voz. Fiquei por quase dois anos no programa apresentado pelo César Ladeira. Para mim foi à glória substituir a cantora em que me espelhava. 3-) RM – Fale da sua experiência como cantora da Noite? CA – O Copacabana Palace estava procurando uma cantora e conheci o Assis Valente (Compositor da Carmem), Mario Lago e outros artistas da época que cuidavam de mim e me davam suporte artístico. Eu comecei a minha carreira no topo do estrelato e convivendo com a nata da música brasileira. Cantei em varias casas de shows no Rio de Janeiro. Hoje (2003) com 63 anos de carreira fico feliz e realizada por ter viajado pelo mundo cantando música brasileira em português. 4-) RM – Fale da sua parceria musical e amorosa com Jime Lest? CA – Em 1944 conheci o Jime, que era cantor paulistano. Ele cuidou da minha carreira por 54 anos e faleceu há quatro. Deixou de seguir a sua carreira para produzir a minha. Foi uma união perfeita e guardo hoje as boas lembranças e saudades eternas. . Mas com o falecimento do meu esposo nesse mesmo período, o baixo astral e a falta de entusiasmo tomaram conta de mim. Não queria mais cantar nem seguir a carreira. Queria morrer também. Passei um ano de reclusão e estressada. E os amigos me animando para retomar a carreira e voltar aos palcos 5-) RM – Quantos discos gravados? CA – Quando cantava no Copacabana Palace conheci o Benedito Lacerda (Grande compositor e um dos melhores flautistas brasileiros). Na Chacrinha do Abelardo Barbosa (Futuro Chacrinha da TV brasileira) em Niterói, aconteciam shows e eu divulgava as marchinhas de carnaval do Benedito. Com uma composição do Assis Valente e outra do Erondino Silva, o Benedito arrumou uma gravação para mim na RCA Victor. Em 1943 gravei o primeiro disco em 78 rpm. Fui pioneira na gravação independente, porque não era da gravadora e tive que pagar a matriz, mesmo a gravadora lançando co seu Selo. O regional era do Benedito e tinha as participações do Raul (Trombone) e do Zacarias (Clarinete) que não cobraram nada. A música do Assis tinha uma frase que virou um dito popular: “Quem dorme no ponto é Chorfer”. Eu tive muita facilidade na carreira até hoje por ter muitos amigos que me ajudaram. Em 1949 gravei pela Continental, com a música: Leva-me do Hervê Cordovil (Um grande amigo, maestro, pianista que foi muito importante para minha carreira) e foi à primeira da muitas musicas que gravei dele. Gravei a partir do titulo de Rainha do Baião mais de 50 discos. No exterior gravei com muitos músicos como produção independente e vendia a matriz para as gravadoras de lá. Na década de 90 gravei dois CDs pela CID com o grupo: As cantoras do Rádio (Eu, Nora Nei, Rosita Gonzáles, Zezé Gonzaga, Elen de Lima e Violeta Cavalcante). Na mesma década gravei um CD pelo um selo independente do Rio, com uma nova formação do grupo Cantoras do Rádio (Eu, Elen, Violeta e Ademilde Fonseca) com participações de Gil, Ney, Leila Pinheiros e Baby do Brasil. Em 2000 gravei: Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha pela CPC – UMES - SP. 6-) RM – Fale da sua parceria com Luiz Gonzaga e titulo de Rainha do Baião? CA – Em 1947 o baião é criado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Gonzaga era o Rei do Baião e o ritmo se popularizou na década de 50. Viajei para nordeste cantando o repertório do Gonzagão. Em recife descobri Sivuca que era de um regional local. Na última apresentação o público pedia todas musicas de Gonzaga e Sivuca sugeriu para eu cantar um pou-porri no improviso. Ele um gênio precoce e com uma musicalidade fora do comum dava o tom e eu seguia. O auditório gritava rainha, rainha do baião. Quando voltei para o Rio e para o programa do César de Alencar o mesmo me apresentou como Carmélia Alves a Rainha do Baião. Eu estranhei porque ele nunca me anunciou assim. Ele explicou que a notícia da repercussão dos shows em Recife e do titulo já tinha chegado ao Rio. Fui me apresentar no programa do Gonzaga e Humberto. No meio da programação ele disse: Você a partir de agora é a rainha do Baião. E a esposa dele (Dona Helena) entrou com um chapéu de couro. Ele falou você foi adotada pelo baião e como filha de nordestinos vai cantar comigo e divulgar a música nordestina. Enfiou o Chapéu na minha cabeça, desfazendo meu penteado e estou com essa coroa até hoje. 7-) RM – Fale do Projeto Cantoras do Rádio? CA - Eu, Nora Nei, Rosita Gonzáles, Zezé Gonzaga, Elen de Lima e Violeta Cavalcante era a formação original do grupo: Cantoras do Rádio. Gravamos dois CDs pela CID na década de 90. Mas com o falecimento da Rosita e o afastamento da Zezé por problemas pessoais na família. E recentemente (2003) a perda de Nora Nei que está na U.T.I em estado de coma (Cantora maravilhosa, criadora de uma grande estilo como Contralto seguido por outras estrelas da MPB). O terceiro CD acontece com uma nova formação: Eu, Elen, Violeta e a inclusão de Ademilde Fonseca; lançado por um selo independente do Rio tendo às participações especiais de: Ney Matogrosso, Gil, Leila Pinheiro e Baby do Brasil. E o meu grande amigo César do Acordeon me convidou para vim para São Paulo e indicou meu trabalho para o diretor artístico da CPC UMES – Marcus Vinicius que ficou empolgado em realizar um projeto solo cantando o repertório dos amigos Jackson do Pandeiro e Gordurinha, incluindo a Música Baião do Gonzagão, que me simboliza o titulo: A Rainha do Baião. Então o CD se chama: Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha, com participações especiais de: Luiz Vieira, Inêzita Barroso, Elymar Santos e César do Acordeon. Em 2003 sem Ademilde e com Carminha Mascarenhas. O Grupo Cantoras do Rádio gravou um CD pela CPC – UMES cantando o repertório que se eternizou nas vozes de dez mitos da musica popular brasileira: Nora Ney, Aurora Miranda, Carmem Miranda, Araci de Almeida, Dalva de Oliveira, Elizethe Cardoso, Linda Batista, Dolores Duran, Dircinha Batista e Izaurinha Garcia. Esse trabalho é importante para um regaste de maravilhosas cantoras que nosso país sem memória esquece, com a mania de renovação, que na maioria das vezes são lamentáveis. Fomos apelidadas carinhosamente nos shows como “Beatles” da Terceira idade 8-) RM – Como você vê os Programas de Rádio de hoje? CA – Os programas de TVs tiraram à popularidade e os patrocínios dos programas de rádio. Mas o rádio não vai morrer nunca. Continua sendo um veículo bom e barato. Algumas programações de rádio são efêmeras e quase um toca disco descartável. Mas ainda existem excelentes programações que tocam e valorizam a música popular brasileira de boa qualidade como o programa do jornalista Assis Ângelo: São Paulo Capital Nordeste - na rádio Capital AM - SP. 8-) RM – Carmélia, fale dos fatos tristes que aconteceram com suas amigas cantoras? CA – Hoje vários artistas experientes expõem suas dificuldades profissionais e financeiras na TV por terem perdido espaço profissional para uma garotada bonita, mas ainda inexperiente. E no passado muitas cantoras conviviam com seus demônios pessoais (Vícios, ostracismo e pobreza) de forma silenciosa até a morte. Alguns exemplos são: Dolores Duran, grande poetisa que enfarto dentro do seu quarto no apartamento humilde na rua Ipanema, Eu e meu esposo chegamos no local e tinham vários amigos como: Ari Barro. É lamentável presenciar no apartamento tamanha pobreza material de uma extraordinária artista que não usufruiu os benefícios do seu trabalho. A Maísa “Gata Mansa” que ao viajar para sua casa em Maricá – RJ dormiu ao volante e bateu o carro na parede da ponte Rio – Niterói e nesse dia ela tinha chamado o pai (Alcimides) para acompanhá-la. A diva Elis Regina foi outra grande cantora que morreu de forma lamentável por conta de seu vício. 9-) RM – Fale um pouco do seu relacionamento pessoal e profissional com Anastácia e Marines? CA – Muito boa. Vejo mais a Anastácia por morar em São Paulo e pouco Marines por morar no nordeste (Nos encontramos na década de 90; em um show que as cantoras do Rádio fez no teatro de Campina Grande – PB – Ela levou flores para mim). 10-) RM – Como você define a música nordestina e sua importância para música popular brasileira? CA – É uma música de raiz e nossa. O Gonzaga ficava irritado quando alguém falava para ele que foram os ingleses que trouxeram esse ritmo para o nordeste e não os nordestinos que fizeram os ingleses dançar nossa música. Hoje os jovens fazem misturas de outros ritmos com o Forró e desvirtuando o autentica música nordestina. 11-) RM – Fale do projeto do grupo Cantoras do Rádio para 2003? CA – Fizemos um registro dos melhores momentos do show Estão Voltando As Flores. E será lançado em CD pela Som Livre. E Uma cineasta de Curitiba Laurinha Alves nos contratou para fazer um filme partindo do show. As gravações começaram em março de 2003. Outro projeto pessoal que quero realizar é a gravação de 20 sucessos do Hervê Cordovil com várias participações especiais. Esse registro precisa ser feito por mim pela admiração que tenho por ele e por sua obra. Contatos: 21 – 2235 – 8406 |