Entrevista: 01/07/2002

 

Gilberto Gil

Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa

ritmomelodia@hotmail.com  

O cantor e compositor baiano Gilberto Gil é um escolhido pelas musas da arte e em 26/06/2002 completa sessenta anos se mostrando um intelectual afinadíssimo para uns e verborrágico, prolixo para outros, mas quem tiver um bom senso artístico musical concordará que o mesmo agrega em sua imagem pessoal e a sua musicalidade nata todos os elementos musicais de dentro e fora do Brasil. O primeiro autor a intitula sua obra como: Música Popular feita no Brasil, dando liberdade a sua expressividade musical para transitar livre por todos os gêneros e comportamento musical. Colocando sua alma musical em plenitude com a música de terreiro, tribal e pop. Nos anos sessenta virou guru místico e musical do movimento Tropicalista que absorvia influencias musical e atmosfera estética, política e cultural do mundo trazendo as novas informações para o Brasil.  Chocando um Brasil nacionalista colonial dependente que cultuava a cultura estrangeira dizendo gostar só da Bossa Nova. Gil empunhou a Guitarra elétrica e a cultura pop e largou o violão da Bossa Nova cristalina por acreditar que a humanidade e juventude entravam em outro signo e estavam absorvendo novos símbolos e significados da inquietação. O mesmo foi responsável pela aproximação de músicos estrangeiros com a música e publico brasileiro. Como compositor sua obra é vasta e importante para o registro da pluralidade do cancioneiro brasileiro. O mesmo tem composições singelas, regionais, pop, rebuscadas, simples, profundas e alegres que mostrando a sua diversidade musical e sua espontaneidade em compor em diversos gêneros musicais.  

Um interprete que usa e abusa de recursos melódicos primitivos harmoniosos, canta com a naturalidade da fala e se expressa intensamente de corpo e alma no palco.  Gilberto Gil ao longo dos mais de trinta anos de carreira se mostrou um marqueteiro criativo da própria obra e dos movimentos culturais e musicais que mobilizou. Tornou-se político, mas abandonou a tempo essa área complexa sem compartilhar com as falcatruas corriqueiras dos gabinetes e assembléias legislativas. Sua genialidade é proporcional a sua humildade ao transitar entre os fãs e a imprensa. É lamentável não vê ainda sua obra artística extraordinária não receber o devido mérito. Um canceriano que cantou a maternidade, o amor e a família de forma singela e profunda sem ser piegas.  É admirado em todos os quesitos musicais por músicos e fãs. Suas composições merecem notas máximas em letras, melodias e harmonias.  Artista que colocou sua obra e imagem acima do bem e do mal sem arrogância. Nos últimos anos realizou com felicidade antigos sonhos musicais e realizações pessoais que foram reproduzidos nos CDs: Viva São João; Milton & Gil; Kaya N’ Gan Daya. Momentos que Gil compartilha emoções com amigos, ídolos e obras que influenciaram. A mais recente novidade envolvendo o ícone Gilberto Gil é apresentação do filme: Viva São João que o mesmo participou intercalando suas apresentações na época de divulgação do CD homônimo. Segue abaixo a entrevista exclusiva para a www.ritmomelodia.mus.br de Gilberto Gil cedida no dia do lançamento do Filme: Viva São João em junho de 2002 em São Paulo:  

1-) Ritmo Melodia - Gil, Fale da influencia da musica nordestina no seu trabalho?  

Gilberto Gil – Em principio na infância no sertão da Bahia com sua paisagem física, social e cultural que o universo dos signos nordestinos. Cresci sob o som da sanfona, da viola e comecei a tocar acordeom aos dez anos de idade. A música nordestina fazia parte do meu habitat em forma de osmose. Estou sempre ligado a terra e água do sertão.

2-) RM- Fale do seu CD Viva São João dedicado a música nordestina?

GG - Como falei, eu tenho um envolvimento direto com a música nordestina. E Luiz Gonzaga foi meu primeiro ídolo e mestre. A primeira impressão de encantamento absoluta com a canção popular veio através da música dele. Eu sei as canções do Gonzaga melhor do que as minhas. E canto com mais naturalidade pelo fato de terem as impressões deixadas pela voz dele, pelo modo dele cantar. É uma coisa de DNA cultural e fazer esse disco foi um brincar de ciranda, recordar minha memória afetiva do tempo de menino. O CD tem essa coisa de recuperação do meu coração infantil e adolescente. Fazer esse CD com canções do Gonzaga foi umas das coisas mais gratas que tive.            

3-) RM –Fale do movimento Tropicalista?

GG – Naquela época, era a busca por deslocamento natural da própria historia de alguns da minha geração e da sua comunidade, de sua nação e do planeta. A gente vivenciava em conjunto as experiências estéticas, políticas, místicas e etc, que o mundo passava naquele momento. Os deslocamentos do sistema cultural internacional que vinha sendo feita naquele momento. O Tropicalismo foi uma maneira de dizer que estávamos participando e vivendo as transformações do mundo dentro do próprio país. O Brasil tinha no tropicalismo o correspondente no processo de pós-modernização que se estalava no mundo inteiro. Negávamos valores tradicionais e indicava possibilidades de mudança de rumo no campo da canção, do cinema, do teatro, da poesia, da literatura, da dimensão filosofal considerado a filosofia dos modernos autores. O Tropicalismo era a fronteira do moderno e pós-moderno. Com o fim do velho socialismo, se esgotava a experiência clássica do primeiro estante existencialismo, da época satriano. As filosofias pós-marxistas começavam a ter seu lugar. O Tropicalismo estava presente a essas transformações de uma forma muito rápida e de forma condensada através das canções populares e de um discurso conciso. Com uma poesia de slongs e foi muito interessante dando a medida da inserção do Brasil nesse contexto da transição da modernidade para pós-modernidade. Foi um movimento que se colocou nessa fronteira e se tornando um movimento histórico. O Pós-tropicalismo mostra que o que aconteceu foi oportuno, fazia parte daquele momento histórico sem está equivocados.

4-) RM –Fale do CD em Parceria com Milton Nascimento?  

GG – Eu e o Milton não tínhamos parcerias musicais. E realizar um CD em parceria com o Milton foi extraordinário. Eu tenho no Milton uma das minhas referenciais de excepcional, excelência, grandeza, beleza única. Ele é um operador da própria estética da sua musica popular envolvido com a poesia. Ele além de um parceiro brilhante, o Milton é meu ídolo. E fazer o CD com ele teve o sabor de quem compartilha no modo de operar de forma contemporânea e na emoção de tê-lo como um homem que me produz encantamento. Fizemos canções novas, escolhemos canções antigas e reverenciamos mestres e obras que consagraram esses mestres. Cantamos Dorival, Ari Barroso, Beatles. E foi lindo.

5-) RM - Fale do novo CD Kaya N' Gan Day em homenagem a Bob Marley?

GG – Esse eu queria muito fazer essa homenagem. Bob Marley é meu ídolo e mestre mais recente. De uma área muito importante que é a área periférica da diáspora negra do caribe e do campo da língua inglesa que é atraente para nós pela distância de sermos latinos.  Ele é o elo da cultura local, no caso a ilha da Jamaica com sua tipicidade e a recuperação da densidade religiosa através do rastafarianismo que é uma espécie de neojudiaismo. A obra do Marley tem aspectos muito curiosos dentro da estética, política, religião. Eu queria prestar um depoimento intenso emocionado e nada melhor que cantando suas canções, mesmo não tendo o conhecido pessoalmente. Depois da morte do mesmo tive um contato com a família, com a viúva e os filhos. Infelizmente não pude conhecê-lo. 

6-) RM – Gil, você vai da música de terreiro a pop com habilidade inigualável. Nunca houve interesse por parte da gravadora em fazer um trabalho para o mercado internacional?

GG – Houve tentativas no decorrer da minha carreira, se pensou nisso. A gravadora, estruturas de produção que me cercam e eu mesmo. Mas a gente se confronta com problemas sérios nesse campo, um deles é a língua portuguesa. A língua Inglesa foi um facilitador para o Marley não é o caso nosso.  A língua portuguesa dificulta esse acesso, enquanto a língua Inglesa é a língua do Império, do predomínio, do comercio e das relações internacionais. Então cantar em Inglês é um facilitador.  Mesmo que você cante em inglês, por não ser uma música originalmente inglesa é complicado.

7-) RM - Fale um pouco sobre o Filme: Viva São João e de sua participação?

GG – Eu estava fazendo shows pelo nordeste em 2000 no período de divulgação do CD com músicas nordestinas, recebi o convite do Andrucha Waddington e no ano seguinte começamos a gravar. Eu intercalava as apresentações de shows as gravações. Não deu para filmar tudo que queríamos pelo corre, corre. Alguns artistas que participam do elenco do filme foram indicação minha como: Marinês, Chiquinha Gonzaga, Dominguinhos, Alexandre Pires, Margarethe Menezes. Os mesmo participam falando ou cantando. A receptividade do publico com o filme está sendo muito boa. O São João tem um significado muito forte e o povo nordestino se identificam com as imagens e com os relatos. O Filme retrata a festa na Cidade e principalmente no Campo. O São João é uma festa rural e ao mesmo tempo urbana. Uma festa terna e com nível de erótização mais espalhado e não centrado no prazer carnal diferente do Carnal nesse aspecto. Tem os aspectos religiosos, místico e infantil. O filme busca trazer a identificação dos que moram nos grandes centros, mas que tem sua origem no campo, vão poder se reconhecer na narrativa dos personagens, que na grande maioria são anônimos e pessoas humildes do local. Eu fazia os shows das Festas de São João e no dia seguinte estava entrevistando essas pessoas.

8-) RM - Em sua opinião não é preocupante os estereótipos reforçados no Filme sobre o povo nordestino?

GG – Acho que o filme deve trazer estereótipos de todas as épocas retratadas e o São João é uma festa que retrata varias épocas. O São João tem uma vigência em plenitude de pelo menos cinqüenta anos como força cultural. É uma festa aglutinadora que representa uma cultura ampla de um povo e de uma região inteira do Brasil. Por isso eu acho natural trazer esses estereótipos e acredito ser uma das virtudes do filme. O filme começa em uma grande festa no Rio de Janeiro, com todos os elementos cosmopolitismo pós-moderno com todo uso das tecnologias semelhante as grandes festas juninas que ocorrem em: Caruaru, Garanhuns, Campina Grande, Amargosa. Filme joga com o lado mais rústico da Festa Campesina e as tradições mais cosmopolitas das festas nas grandes urbes nordestinas e das grandes capitais.

09-) RM – Gil, eu senti a falta de artistas como Anastácia no elenco e de registro da importância de forrozeiros como: Pedro Sertanejo. Fale um pouco sobre essa lacuna?

GG – Um filme tem lacunas inevitáveis, não conseguimos conversar e trazer todo mundo para o filme. É uma lacuna mesmo, em fim. Mas ao mesmo tempo foi importante contar com os exemplares que estão. Não temos a biblioteca inteira, mas temos alguns exemplares (risos). Anastácia é uma grande autora e Pedro Sertanejo é um pioneiro que trouxe a festa nordestina para São Paulo sofreu com a discriminação e um homem extraordinariamente importante.  O filme é muito interessante e feito com muito carinho, apesar das possíveis falhas, mas tem muitas virtudes. Alguns exemplares da cultura nordestina estão presentes.

10-) RM – Você acredita que é dado o merecido reconhecimento a sua obra musical?

GG – Eu não sei se devo pertencer a uma galeria de grandes mestres; caso seja justo que eu pertença, virá com o tempo. Se for em vida ou após minha morte, não tem a menor importância.

11-) RM - Gil, no decorrer de sua trajetória profissional você teve incidentes com a policia por uso de droga. Como você vê propagação na mídia de casos de artistas envolvidos em casos de policia?

GG - Não tenho uma avaliação sobre a possível diferença de comportamento da policia em relação a casos de artistas envolvidos com drogas ou crimes cíveis. O delegado que me prendeu em uma ocasião de uso de drogas, tinha um excesso de zelo com o trabalho dele e não necessariamente alguma perseguição particular comigo. Ele perseguia a garotada que fuma maconha em Florianópolis-SC em 1977, uma ilha muito visada pelo delegado e que marcava duro em cima da moçada e como eu estava junto como os mesmo que eram amigos e fãs, fui preso. Depois da prisão eu e o delegado saímos de cena e entraram a advogados, enfermeiros, a justiça, juiz, medicina, repórter, a mídia em geral. Recentemente o Belo, é o alvo, mas com elementos diferentes, nesse caso ele não se enquadra no de usuário, mas na possibilidade de envolvimento com trafico e não tenho nenhuma opinião formada condenatória ou não.        

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