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Zé Geraldo Por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa
Ao chegar fui recebido pela simpática e atenciosa produtora Márcia Gonçalves que fez a ponte necessária para meu contato com o Zé Geraldo. Ele chegou minutos depois. Eu não tinha conhecimento da obra de Zé Geraldo de audição, li sempre sobre o trabalho dele e conheci a sua gravação mais popular: Cidadão (Lúcio Barbosa) pela voz de outro Zé, o Ramalho, que escuto desde criança. Pesquisei as fontes que pudessem me dar condições de entrevistá-lo a contento. Viajei literalmente no site oficial do cantor, que é muito organizado e criativo. Mas minha entrevista seria pautada não para os fãs fiéis de longas datas de Zé Geraldo, mas sim para pessoas interessadas em conhecer um músico comprometido com a arte dos sons, das palavras e das melodias, algo que está sendo esquecido por muitos aventureiros musicais. O Zé Geraldo chegou e depois de um cumprimento formal e sem delongas entrei na arena com o Gladiador dos versos. A cada pergunta uma resposta breve e sincera. Sem me olhar nos olhos, mesmo estando um de frente um para o outro, ele despojado nas vestes e nas palavras sem um discurso elaborado, mas com uma tranqüilidade impávida e desconfiança natural do homem do mato e respondendo como quem fala para os próprios ouvidos debaixo de um Carvalho Mineiro sem a preocupação se quem ouvia gostava ou concordava, mas convicto dos seus pensamentos. A voz grave, pausada e as palavras daquele homem silencioso ficaram gravadas na minha mente e alma. Homem que ao passar dos cinqüenta anos, com sua experiência de vida e profissional não se surpreende nem se assusta com nada e não acredita em verdade absoluta nem em caminhos fáceis. A entrevista foi breve e privilégio foi grande. No meio da entrevista a desconfiança inicial dava lugar a um breve ensaio de intimidade. Ele perguntou sobre a minha cidade de origem (Campina Grande - PB), comentou que gostaria fazer um show e conhecer essa cidade do interior da Paraíba, popular pela festa junina. Eu perguntei do novo Projeto Musical que será o Lançamento do novo CD: TÔ ZERADO em 2002. Eu queria saber como não estando na mídia nacional consegue levar uma multidão aos seus shows quebrando o mito que música de boa qualidade não é prestigiada pelo povo. Porque Zé Geraldo canta para esse povo que pega quatro ou mais conduções e que constrói o país sem poder nele entrar. Na despedida mais calorosa e contida de Zé Geraldo, sabendo que cumpriu mais uma rotina do ofício e do entrevistador satisfeito com o dever cumprido pela arte e a certeza que só existe dois tipos de música no mundo: A música boa e a música ruim. Deixo meu agradecimento a Zé Geraldo por ter me recebido e a Márcia por ter facilitado esse encontro. Segue abaixo entrevista exclusiva de ZÉ GERALDO em 01\07\2001 para a revista musical www.ritmomelodia.mus.br: 1-) RM - Zé Geraldo, os seus vinte e dois anos de carreira oficial são marcados por uma coerência inabalável a cada trabalho lançado sem se moldar as "Novas Tendências do Mercado". Quais as dificuldades que você enfrenta para manter essa fidelidade ao seu público? Zé Geraldo - Foram às circunstâncias da estrada com passagem por diversas gravadoras, mais as dificuldades que tive no início de carreira para me posicionar no meio artístico. Eu não era roqueiro, não era do mato, nem era MPB. A gravadora que iniciei me vendia como cantor de vanguarda. Eu dizia que não era, que era um cantor popular. Eu fiquei nesse conflito até a década de oitenta, quando as portas começaram a se fecharem e eu caí na estrada, porque sabia que dava para desenvolver meu trabalho longe dos grandes esquemas. Mas isso me custou muito caro. Mas o pior eu já passei, atravessei um grande deserto, mas sempre trabalhando, sempre lutando. E hoje eu olho para trás e fico feliz de ter chegado aqui inteiro como cheguei. Com meus versos com toda sua integridade, não abri mão de uma vírgula das minhas convicções. Isso me custou caro. Mas hoje minhas duas filhas me olham com orgulho, sabem os caminhos que passei. Olho para o meu passado e vejo que tenho motivo para ficar feliz e confiante no que eu vou caminhar ainda. Mas serve para outras pessoas terem a informação e a certeza que dá para construir uma carreira longe dos holofotes da mídia. Pode custar caro, há muito sofrimento, mas a vida do artista é assim mesmo. Eu felizmente consegui chegar aqui inteiro, com minha música e feliz. 2-) RM - Zé Geraldo, os seus shows são marcados por grande público. A média de idade desse público é na maioria a cima dos trinta anos ou há a presença de muitos adolescentes que se aproximam do seu trabalho?
ZG - Pelo contrário, nos meus shows
há a presença de muitos jovens que, no início, eram trazidos pelos pais ou
que hoje acompanham meu trabalho. Hoje a grande maioria do público é dessa
galera que curtem outros estilos, mas que valorizam o som autêntico. ZG - No passado eu ficava sem entender, ficava angustiado. Não conhecia o esquema das gravadoras que pagam a esses programas para ver divulgarem seus lançamentos e popularizarem o produto. E é aquela coisa, quem tem dinheiro pode e manda mesmo. Hoje acho normal, a televisão vive em função de servir os interesses das gravadoras. Mas isso passa e o que fica mesmo é aquilo que tem qualidade. Eu faço dois ou três programas de televisão por ano e não é em televisão de destaque e continuo lotando meus shows. 4-) RM - Você vem de uma safra de cantores e compositores que despontaram no final dos anos sessenta, batizada de a NOVA MPB do Nordeste e de Minas. Na década passada você pode citar alguns nomes que se destacaram e marcaram com seu trabalho?
ZG - A MPB teve muitos destaques nos
últimos dez anos. Mas a maior perda foi a do Renato Russo e do CAZUZA. Eles
foram pura originalidade e destaques maiores que apareceram. Foram muito
importantes para nossa música. Apareceram grandes cantoras como Adriana
Calcanhoto, Marisa Monte e a cantora e compositora Cássia Eller. Apareceram
também o Zeca Baleiro, Chico César e muitos outros. O Brasil tem muitos
talentos, mas o Renato e o Cazuza foram os poetas modernos da música
brasileira. Marcaram com suas obras e foram uma grande perda para a música
brasileira. ZG - Os novos artistas não devem desistir com os obstáculos de fazer música autêntica e regional. A vida de músico não é fácil. Eu, quando iniciei minha carreira, cantava em campo de futebol, feira e em frente de igreja. Levava meus músicos no meu carro e saia pelo mundo divulgando meu trabalho e hoje tenho que buscar os espaços para não perder o que já consegui. A verdade é que os cantores que tem um trabalho sério e criativo vão chegar ao que almejam, basta ter talento. 6-) RM - Zé Geraldo, qual a semelhança da sua música com a de cantores como Belchior, Zé Ramalho, Tríade de Cantadores Xangai, Elomar e Vital Farias?
ZG - O que me aproxima desses
cantores e cantadores é o mato. Viemos do interior, eu de Minas e eles do
Nordeste. Isso aproxima nosso trabalho, mas como tenho um pé no Rock e outro
na música regional, faz-se meu trabalho tomar outro rumo. Eu sempre tive
essas duas influências musicais. E outro ponto que faz nossos trabalhos
ficarem semelhantes é o fato de as nossas músicas falarem do povo para o
povo. ZG - Sem dúvida a música mais popular é "Cidadão", pelo fato de outros cantores terem gravado e pela mensagem que traz. "Senhorita" é outra muito popular, mas com o tempo outras músicas vão ficando na cabeça das pessoas e se tornando populares. O projeto novo é o CD "Tô Zerado", que terá músicas inéditas minhas e de parceiros. Esse CD é uma ironia bem humorada pelo fato de está começando de "novo". As pessoas questionam porque não apareço na TV, então resolvi fazer um CD que tivesse a marca de está começando o início de carreira. Vou fazer alguns programas de TV, divulgar mais na mídia, mas o mais importante é que o trabalho traz a mesma fidelidade. Contatos: www.zegeraldo.com.br |