Edimundo Santos

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O cantor, compositor e violonista baiano Edimundo Santos, criado em São Paulo, depois morou por 16 anos em Portugal, e mora desde 2006 em Madrid -Espanha.

No Brasil, participou de vários festivais de música, em que ganhou diversos prêmios como compositor e intérprete. De 1984 a 1988 foi integrante do Coral do Estado de São Paulo. Em 1988 Formou-se em Canto pela Faculdade Paulista de Arte (FAP-ARTE). De 1991 a 1995 foi convidado pelo Casino Estoril-Portugal, a integrar o grupo de artistas internacionais que formavam o seu elenco. Durante quatro anos viria a atuar no famoso “Salão Preto e Prata”. Em 1994 foi selecionado para representar o Brasil, como compositor e intérprete, no Festival Internacional da Canção de Viña del Mar, no Chile. Em 1995 cantou no Festival do Cinema Norte-americano de Deauville, na França. Participou do evento comemorativo dos 50 anos da ONU, realizado no Teatro São Luís, em Lisboa, junto com Amália Rodrigues, Paulo de Carvalho e Rao Kyao. De 1997 a 2007, trabalhou em diversos países da Europa (França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Bélgica, Espanha e Portugal) nos stands brasileiros das Feiras Internacionais de Turismo, a convite da EMBRATUR. Em 1998 foi selecionado para representar o Brasil como músico residente, na Expo 98, no Dia do Brasil. O evento contou com as participações de Ney Matogrosso, Gabriel o Pensador, Skank e Fernanda Abreu entre outros. No Museu do Louvre, em Paris, participou de um evento musical durante a Copa do Mundo de Futebol. Em 1999 lançou seu primeiro disco independente, Mestiço (patrocinado pela Fundação luso-brasileira).

Em 2000 foi contemplado com o Prêmio de Cantor Brasileiro Revelação 2000, da Rádio FM de Leiria, Portugal e também foram contemplados o escritor Jorge Amado,  Aracy Balabanian, Maria João e Mário Laginha, Rui Veloso, Carlos Mendes, Eugênia de Mello. Em 2002 apresenta-se no Festival Dunya (uma janela para o mundo) Rotterdamm, Holanda. Em 2004 lançou seu segundo disco Coraçao.com. Arranjado e produzido pelo músico e compositor, Sérgio Sá. Em 2006 participou no Festival de Língua Portuguesa em Macau, China. Em 2007 participou do Festival de Inverno de Garanhuns-PE no Palco Pop. Ele participou de vários festivais de música: Dunya (Rotterdam), Deauville (França), Musidanças , Lisboa (Portugal), Festival de Músicas del Mundo, Murcia ( Espanha), Festival de música do mundo, Zamora (Espanha).

Em junho/2011 tocou no Bar de jazz, Le Zing e no hotel Palazzu O Domu, em Corsica, França. Em junho de 2012 tocou no Festival Tensamba, em Tenerife, Ilhas Canárias, Espanha. Nas edições anteriores atuaram artistas como Gal Costa, Maria Rita, Filó Machado, Seu Jorge, entre outros. De 2010 a 2012 apresenta-se com frequência na cúpula do Palace Hotel, Madrid, Espanha.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Edimundo Santos (que já usou artisticamente o nome de Pedro Moreno)para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.10.2012:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Edimundo Santos: Nasci em Itabuna, sul da Bahia, no dia 12 de dezembro de 1958. Porém, em 1963 meus pais migraram para Sete Barras, uma cidade do interior de São Paulo. No início dos anos 70 minha família instalou-se em São Paulo, cidade onde vivi até ser convidado, em 1991, pelo Casino Estoril, Portugal – país onde vivi por 16 anos – para fazer parte do quadro de artistas internacionais da casa.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Edimundo Santos: O rádio sempre me fascinou, era como um objeto sagrado na minha casa. Foi através dele que tive o meu primeiro contato com a música. Lembro-me de minha mãe dizer que todas as noites, ela vinha desligar e tirar o rádio que estava junto ao meu travesseiro. Durante o dia eu ia pelas ruas reproduzindo, na íntegra, os programas ouvidos. Era o locutor, o cantor, o ouvinte que ligava pedindo música e ainda reproduzia as propagandas. Tamanha era a influência e o meu amor pelo rádio. Coisa de loucos.

03) RM: Qual a sua formação musical e acadêmica fora música?

Edimundo Santos: O canto foi minha primeira expressão de interação com o mundo e a música era meu universo. Com 14 anos de idade comecei a estudar Violão através da revista “Vigu”, lembra? Ou seja, autodidata. Mais tarde tive um professor particular, e posteriormente ingressei no Conservatório Souza Lima para dar continuidade ao estudo do instrumento. Porém o canto sempre esteve na linha de frente das minhas opções artísticas. Tive aula com várias professoras de canto, entre elas: Margarita Schak e Mariuccia Lourenção, sendo que esta última fez parte da minha formação acadêmica na FapArt (Faculdade Paulista de Arte). Não tenho outra formação acadêmica fora da música.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

Edimundo Santos: Eu tive a felicidade de ouvir todo gênero de música, desde a sertaneja (Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Zilo e Zalo, Cascatinha e Inhana, etc), Orlando Silva, os cantores do chamado Iê-iê-iê, claro, o rei Roberto Carlos, passando pela nata da MPB, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elis Regina, a música nordestina de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Alceu Valença. The Beatles, Elvis Presley, Frank Sinatra, etc. Tudo isso somado à minha paixão pela música erudita de todas as épocas, tendo o barroco como predileta na figura de J.S Bach. Ao imigrar para Portugal, e agora, Espanha, onde vivo, eu tive contato com o fado, o flamenco e a música de influência Ceuta da Península Ibérica. Toda a música que me influenciou não deixa de ter importância na minha carreira artística. De certa maneira ela esta lá, inserida no molho do imenso caldeirão que é a minha formação musical.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Edimundo Santos: Minha carreira começou na capital paulista em 1984, quando ingressei no Coral do Estado de São Paulo. Imagine a minha felicidade em receber um salário como cantor de coral! Isso me levou à opção de fazer cursar Canto na Faculdade, a qual eu concluí em 1988. Porém em 1985 tive meu primeiro contato com os Festivais de Música, em Cambuquira, sul de Minas Gerais. A partir de então, não parei mais. Viria a participar nestes certames até 1990. Fiz parte da primeira formação do grupo paulista, Trovadores Urbanos. Em meados dos anos 80 desenvolvi um trabalho com o cantor/pianista Tato Fischer e posteriormente com o cantor Claudio Goldman, com quem viria a tocar no Cassino Estoril, Portugal.

06) RM: Quantos CDs lançados (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que se destacaram em cada CD?

Edimundo Santos: Lancei três álbuns, sendo dois em Portugal e um na Espanha, todos de produção independente. Em 1999 nasceu o CD – Mestiço arranjado pelos músicos, Gabriel Godoi, paulista, e pelo pianista franco-italiano, Enzo D´averza. Além dos arranjadores participaram os músicos, Boni Godoy (baixo), Paulo Rosa (bateria), Dalú (percussão), João Vaz (sax), Jair (guitarra portuguesa), Tahina (guitarra), Vocais: Ana Maria Brandao, Estela Lino e Ditutala David. Dalú, Tahina e Ditutala David, são africanos; João Vaz e Jair, portugueses, os demais são brasileiros. Um disco com um repertório bem eclético, bem brasileiro, com cores de África e pitadas lusas. As músicas que mais se destacaram foram: “Deixa a noite cair” (Edimundo Santos/Paulo Pinho); “A cidade e eu” (Pedro Moreno) e “Para onde vai” (Edimundo Santos/Paulo Pinho), esta última foi destaque na rtp África. O CD – “Coraçao.Com”, viria em 2004, tendo como arranjador e produtor musical, Sergio Sá. Um disco com pouca participação de músicos em que o Sergio tocou quase todos os instrumentos no sistema midi. Gravaram, os músicos, Gabriel Godoi (violão), Edu Miranda (bandolim), Paulo (percussão), Enzo D´averza (acordeon), Tunico Goulart (guitarra). Com o mesmo perfil do anterior, sem ares africanos; mais brasileiro. Música que mais se destacou foi: “Luz do ser” (Pedro Moreno).

E finalmente o CD – “Aposta Mútua”, gravado em Madrid – Espanha em 2011. Disco acústico tendo como base voz, violões e percussão. Com um repertório composto por letristas de várias regiões do Brasil, quase todos membros do Clube Caiubi (www.clubecaiubi.ning.com). Os músicos de base foram Adrián Alvarado (hispano-brasileiro) e eu, contando com a participação de vários músicos residentes em Madrid: Adrián Alvarado (violão), Sacri Delfino, argentino (violão e guitarra), Fernando Delarua (violão de 7), David Tavares (violão), Luis Guerra, Cuba, (piano), Bruno Lopes (baixo), Luiz dos Odé (harmônica), Carlos Mancuzo (percussão), Flavia N, Virginia Oliveira e Diego Schiuto (vocais), Edu Miranda, Lisboa,(Bandolim). Algumas canções deste disco foram apresentadas em vários Festivais de música e shows pela Espanha e Portugal bem antes de serem gravadas, como “Maite” (Pedro Moreno/Gerson Ney França); “Descartes” (Edimundo Santos/Gerson Ney França), “Samba do desassossego” (Pedro Moreno/Servio Veleiro); “Mútua” (Edimundo Santos/Gerson Ney França); “Doce de amora” (Pedro Moreno). Conta ainda com a participação especialíssima do genial Filó Machado na música que dá nome ao disco, “Mútua”, tocando violão e cantando. Aposta Mútua com seus sambas, bossas novas, pop/maracatu. Traz em algumas faixas um sabor ibérico deixado pelos guitarristas de flamenco, brasileiros.

07) RM: Como você define seu estilo musical?

Edimundo Santos: Sou uma cria da MPB, com influências da Bossa Nova, do Samba de Paulinho da Viola, Cartola, Adoniran, Noel Rosa, Dona Ivone Lara. Portanto meu estilo é aquele a que resolveram chamar de MPB (mpb, acredito ser toda a música feita no Brasil. Não existe uma música popular espanhola, nos parâmetros nossos, há a música da Espanha como um todo). Ouvi muito a música de Roberto Mendes, baiano do Recôncavo, Santo Amaro da Purificação. Gilberto Gil e Caetano Veloso beberam dessa fonte. Mais tarde me aproximei da música feita pelo Lenine e Chico César. Teve uma época, em Portugal, em que eu vivia imenso na obra destes dois compositores. Depois veio o contato com os cantautores portugueses, africanos e espanhóis. Toda esta informação vai se moldando na minha forma natural de compor, mas a defino, sem dúvidas, de MPB.

08) RM: Como você se define como cantor/intérprete?

Edimundo Santos: Como cantor e intérprete. Acredito que uma coisa está interligada à outra. A meu ver, interpretar, além de expor, trazer ao público a leitura pessoal da obra, é dar vida à composição. Um pianista é um intérprete, um violonista, etc. Acredito que há bons e maus cantores, da mesma forma que intérpretes.

09) RM: Quais os cantores e cantoras que você admira?

Edimundo Santos: São muitos. Na área do popular tenho profunda admiração por Ella Fitzgerald, Elis Regina, Mercedes Sosa, Tony Bennett, Frank Sinatra, Nelson Gonçalves, Nat King Cole, Milton Nascimento, Filó Machado, Ângela Maria, Leny Andrade, Cássia Eller, etc. Clássico: Maria Callas, Luciano Pavarotti, Caruso, Montserratt Caballe, Cecilia Bartoli, Placido Domingo, Yma Sumac, etc.

10) RM: Você compõe? Quem são seus parceiros musicais?

Edimundo Santos: Apesar de escrever letras de música, a composição é onde me sinto mais cômodo, e me defino como cantor/compositor. Como disse acima, tenho vários parceiros pelo Brasil, Portugal e Espanha. Roberto Justo foi meu primeiro parceiro, “Imagens”, canção gravada no CD – Mestiço, ganhou uma versão em Espanhola feita por mim. Gerson Ney França é com quem tenho mais parceria, pra lá de trinta, com ele assino a maior parte das faixas de Aposta Mútua. Paulo Pinho, parceiro nos discos Mestiço e Coraçao.com, Sergio Augusto, Moní Corrêa, Eduardo Santhana, o espanhol Luis Pastor. Depois vieram os Caiubistas: Sonneka, Léo Nogueira, Lucia Helena Corrêa, Sonya Prazeres, Sergio Veleiro, Lúcia Santos, Sonia Anja, Álvaro Cueva.

11) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Edimundo Santos: Sou da geração de cantor/compositor, cujo sonho era ser contratado por uma grande gravadora, vender muitos discos, fazer shows e estar na televisão… Enfim, “fazer sucesso”. Estive perto de concretizar este “sonho”, mas não aconteceu. Assim me tornei um cantor de produção independente. De verdade, hoje não penso muito no assunto. Sei das dificuldades de ser um músico independente num país estrangeiro, onde praticamente não existe incentivo estatal para quem é da minha condição, imigrante. Aqui se dá nomes aos bois, entramos em projetos culturais ou festivais de música do mundo, ou amantes da música brasileira (diga-se bossa nova) que vão aos nossos shows. Mas a internet leva nosso trabalho a qualquer parte do mundo.

12) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Edimundo Santos: No que se refere ao panorama da criação musical brasileiro sempre digo que há dois Brasis, o Brasil da mídia, com sua produção tendenciosa (com raríssimas exceções) e a produção do Brasil real onde estão inseridos os criadores independentes. Em 2007 participei do FIG (Festival de Inverno de Garanhuns, PE). Fiquei alucinado com o nível dos músicos de inúmeras bandas novas que atuaram no festival. Temos o Clube Caiubi de Compositores (www.clubecaiubi.ning.com), os Festivais de música por todo o país em que excelentes compositores, intérpretes e instrumentistas se revelam. Das revelações que entraram na grande mídia eu cito Lenine, Zeca Baleiro, Chico César. Criadores que inseriram algo de “novo”, de criativo, tanto na parte musical como poética, creio eu. Há outros, como Renato Braz, cujo trabalho eu conheci através do Zé Renato, Papo de Passarim, e recentemente o trabalho do músico Dani Black. Eu não saberia dizer ao certo quem regrediu. Porém cito Lenine como um exemplo, cujos primeiros trabalhos eram mais consistentes, para o meu gosto pessoal, considero o disco Olho de Peixe como um dos melhores registros discográficos dele e dos anos 90.

13) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Edimundo Santos: Aconteceu nos anos 90, de fazermos um show em uma festa para ingleses no Algarve, Portugal. Ficaram de nos pagar no dia seguinte e até hoje não vimos à cor do dinheiro. Para inglês ver (risos). Ainda em Portugal, fui contratado, com mais dois músicos (baixo e bateria) para tocar na cerimônia de um casamento. Foi concordado que depois da marcha nupcial, na entrada dos noivos, nós tocaríamos as canções que foram escolhidas por eles. Porém em nenhum momento ficou acertado que nós tocaríamos a marcha nupcial. Quando os noivos estavam entrando veio à produtora pedir para que então tocássemos a macha nupcial. O susto que levamos foi imenso, pois não sabíamos tocá-la. Daí eu não tive dúvidas, comecei a cantar a marcha, na maior cara de pau (risos). Outro fato engraçado passou-se em Berlim – Alemanha. Depois do show fui jantar. Apareceu-me uma alemã junto com uma brasileira que trabalhava na produção e me deu um papel com um número de telefone. Falou-me algo em alemão, cuja tradução me disse a brasileira, “se era verdade que os brasileiros eram bons de cama“. Eu disse à conterrânea para dizer-lhe que eu não sabia por nunca ter ido para a cama com um brasileiro (risos). Mas confirmo o fogo das brasileiras(risos).

14) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Edimundo Santos: O que me traz felicidade é ter a oportunidade de mostrar meu trabalho, de levar às pessoas a minha verdade. E de ter a reciprocidade do público, ser respeitado como artista. O fato de ter escolhido uma profissão que me proporciona viajar, conhecer pessoas de diversas culturas, de levar a nossa cultura e a alegria às pessoas. Como já ouvi inúmeras pessoas falarem que a minha música lhes fez tão felizes. Isto não tem preço. Agradeço a Deus todos os dias pelo meu Dom. Tristeza é ver a falta de respeito para com os músicos. E pseudos músicos que não respeitam a arte e as pessoas e que enganam a si mesmos.

15) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical na Europa?

Edimundo Santos: O europeu e o norte-americano gostam de dar nome aos bois. Aquilo que se vê no cinema hollywoodiano: o latino, em geral, é o bandido da fita! (risos). No caso de nós artistas, não se trata de ser bom ou mal da cena, é simplesmente o caso de pôr cada qual no seu quadrado, talvez seja esse o lado negativo da coisa. Por outro lado há interesse pelo diferente, sobretudo quando se fala de música brasileira, que se guarda respeito, apesar de muita produção ruim vinda do Brasil ter invadido o mercado europeu nos últimos anos.

16) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical na Espanha?

Edimundo Santos: Como já citei, há um respeito pela música brasileira, pelo menos por parte dos músicos e uma pequena parcela do público. Considero que este seja o lado positivo que abre espaço ao nosso trabalho pessoal. A RNE (Radio Nacional da Espanha) tem um programa voltado inteiramente para a música brasileira. Há um apresentador, Carlos Galilea, que é profundo conhecedor da nossa música, da mesma emissora, cujo programa (Cuando los elefantes sueñan con la música) toca, muito frequentemente, o melhor da música feita no Brasil. Outro lado positivo é a questão de direitos autorais, que funciona na perfeição. Basta notificar à sociedade de arrecadação sobre todos os shows que fazemos. Quanto as rádios, as próprias emissoras lhes notificam. O fato de ser imigrante já constitui uma barreira. Talvez este seja o principal obstáculo para quem quer desenvolver uma carreira aqui, guardadas as devidas exceções.

17) RM: Como o músico e a música brasileira é recebida no mercado Espanhol? Existe bairrismo e preconceito contra os músicos de outros países no mercado musical Espanhol?

Edimundo Santos: De verdade não existe um mercado de música do mundo (World music) na Espanha, com exceção à expressão anglo-saxônica. O primeiro obstáculo é o idioma, e já foi pior, no sentido que a nova geração já se encontra bem mais aberta para outras línguas. Por outro lado os espanhóis, como quase em toda a Europa, pararam na Bossa Nova. Obviamente que alguns compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Toquinho, Lenine, encontram eco no país. Quem de verdade conseguiu firmar uma carreira na terra de Cervantes foi o baiano Carlinhos Brown (aqui Carlitos Marron). Sem esquecer o rei Roberto Carlos, que acredito ser a maior referência da música brasileira na Espanha. Agora, em questão de prioridade, o artista da terra esta sempre na frente da fila. E acho isso natural, não classifico como bairrismo ou preconceito, na minha modesta opinião. De certa forma me sinto um artista privilegiado no sentido de não me faltar trabalho.

18) RM: Em sua opinião, em qual país europeu o músico e a música brasileira popular tem melhor receptividade?

Edimundo Santos: Eu colocaria Portugal na primeira linha, acredito que o fato de falarmos a mesma língua, mesmo com “sotaques distintos”, o que não se impõe como um obstáculo, pelo menos no país de Camões. Em seguida eu colocaria a França, um país que sempre deu abertura a outras músicas do mundo. A música brasileira sempre foi uma referência para os franceses, assim com a música de Cuba e ÁfricaChico Buarque, Baden Powell, Tom Jobim, Gilberto Gil, Jorge Benjor, Antonio Carlos & Jocafi, Vinicius de Moraes, são exemplos de compositores brasileiros com músicas em versão para o Francês. Em seguida, talvez Alemanha, Holanda, Itália.

19) RM: Qual a receptividade do Flameco em Madrid?

Edimundo Santos: O flamenco está para a Espanha como o samba para o Brasil, pelo menos para a visão estereotipada das outras nações. Porém, ao viver em Madrid fui me dando conta da existência de certo preconceito em relação ao flamenco por parte de muitos espanhóis, talvez pelo fato de ser uma música que vem do meio cigano. Apesar de haver o ensino do flamenco em conservatórios e escolas particulares, não existe um ensino acadêmico deste gênero musical. Paco de Lucia talvez seja o nome de maior expressão dentro do gênero. Ousou mesclar o seu flamenco com outras tendências musicais como o Jazz, a Bossa Nova, o Choro, etc.

20) RM: Na Europa você trabalha com a música popular brasileira e música lírica?

Edimundo Santos: Essencialmente com música popular. Sou considerado um cantautor, forma pela qual se designa por aqui um compositor que interpreta sua obra. Recentemente montei um show com o título: As canções que ouvi no rádio (las canciones que escuché en la radio), juntamente com dois violistas brasileiros com formação clássica e flamenca. No show, fazemos uma viagem pela música brasileira de todos os tempos, de distintos gêneros. O objetivo é trazer ao público espanhol outros estilos musicais feitos no Brasil. Também trabalho como professor de técnica vocal.

21) RM: Como a sua música é recebida no mercado musical Espanhol e Europeu?

Edimundo Santos: A música brasileira exerce certa magia no europeu pela sua constituição harmônica, segundo dizem os que dela gostam. Minha música, de certa forma, se encontra inserida neste contexto, por ser minha escola, minha forma de compor. Sou sempre bem recebido nos shows que faço pelo país, nos bares (salas, como se diz por aqui) e fora da Espanha. Já vivi momentos muito gratificantes, como foi um dos shows que fiz ano passado em Corsica, na França. A solo, num show acústico, em que me posicionei no meio das pessoas sentadas à minha volta. Não se ouvia o menor ruído, além do meu violão e voz. Uma hora e meia de show! Outro foi em junho deste ano (2012) no Festival Tensamba, em Tenerife, nas Ilhas Canárias, também a solo. Ambos os shows foram inesquecíveis.

22) RM: A Crise financeira na Espanha atingiu o mercado musical?

Edimundo Santos: Com certeza. O cachê caiu de forma vertiginosa, sem contar os prazos longos para pagar quando se trata de instituições governamentais. Por exemplo, recebi recentemente shows que fizemos no verão passado. Disco, praticamente não se vende, e quantidade de pessoas é cada vez menor nos shows em bares. A grande maioria das salas de shows não tem o cachê, o artista está dependente do público que paga uma entrada. Sem contar que a casa ainda leva uma porcentagem do total arrecadado, geralmente 20%. Ou seja, não há qualquer responsabilidade por parte do proprietário salvo a sonorização e a luz do espaço.

23) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Edimundo Santos: No Brasil, acredito que não, salvo os circuitos alternativos. Aqui é mais fácil, no sentido que o esquema do jabá (pagar para ter a música tocada) não está tão disseminado como no Brasil. Em Portugal tive varias músicas do disco Mestiço tocadas em rádios de grande projeção sem qualquer esquema de troca financeira.

24) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Edimundo Santos: Em primeiro lugar ter uma boa formação musical como base. Saber ler e escrever uma partitura. Desenvolver conhecimentos na área da informática, saber administrar a própria carreira. Já era o tempo em que o músico só fazia sua música e a executava. Hoje ele bate o “escanteio, corre para cabecear e se lança à área para segurar a bola”. E por último, ser fiel ao seu trabalho e ser forte para ultrapassar os inúmeros obstáculos que certamente surgirão.

25) RM: Quais os seus projetos futuros?

Edimundo Santos: De momento sigo divulgando meu último disco Aposta Mútua pela Espanha. Continuar compondo com meus parceiros e seguir abrindo caminhos pela Europa. Fazer com maior frequência a ponte entre Espanha e Brasil. Apresentar-me no Brasil é, para mim, como uma dádiva, uma alegria imensa.

26) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Edimundo Santos: [email protected] | www.pedromoreno.com.es | www.clubecaiubi.ning.com/profile/pedromoreno | www.myspace.com/pedromorenos

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.