Dinho Nascimento

dinho nascimento
Dinho Nascimento
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O cantor, compositor e percussionista Dinho Nascimento é mais uma pérola negra que habita o mundo musical. Com uma sensibilidade em todos os tons sem desafinar na proposta musical consciente e com responsabilidade sócio – cultural mostra com sua obra ampla no universo dos ritmos, mesmo com uma produção de 2 CDs se preparando para o terceiro que a qualidade poder superar em alguns aspectos a quantidade.

Dinho uniu o som percussivo aos timbres eletrônicos e faz de seu berimbau sua guitarra elétrica literalmente usando recursos inventivos. Seu som uniu a alma sonora das etnias que deram origem ao mundo. Faz um trabalho musical expressivo que não se limita ao balanço contagiante dos tambores, mas esses fazem um pano de fundo que abriga toda criatividade sonora desse baiano que traz o suing nas veias que mostrar a 30 anos na paulicéia adotada como sua casa.

Seu trabalho social utilizando a música e cultura negra como fio condutor mostra toda expressividade e consciência cultural de um artista que vai onde o povo estar levando o som e expressão cultural absorvida da própria cultura popular (Samba, Afoxé, Reggae, Capoeira…). Agradece através de sua arte a sua maior fonte de inspiração que mora nas ruas do Brasil. Segue abaixo uma entrevista exclusiva de Dinho Nascimento para revista musical online Ritmo Melodia – em 01\10\2003:

1-) RitmoMelodia – Fale do seu primeiro contato com a música? Sua origem?

Dinho Nascimento – Nasci em Salvador -BA em 15/03/1951. Meu primeiro contato com a música foi nas ruas e festas do largo.

2-) RM – Fale de sua formação musical? Quais instrumentos que Toca?

DN – Estudei piano com uma professora particular e depois cursei o Seminário Livre de Música da Universidade Federal da Bahia. Considero-me percussionista, mas também toco violão (que costumo utilizar para compor).

3-) RM – Quando iniciou sua carreira musical? E chegou a São Paulo?

DN – Em 1972, eu mais três colegas; formamos um grupo chamado Arembepe iniciando nossas carreiras profissionais. Depois de algumas apresentações em Salvador, fomos para Fortaleza (Ficamos por 2 meses) e depois viemos para o Rio de Janeiro (Ficamos quase 2 anos). No final de 1973 chegamos a São Paulo e resido até hoje (2003).

4-) RM – Quantos discos lançados? Qual ano? Fale do perfil de cada um?

DN – O Arembepe lançou 2 compact-disc (Com duas faixas de cada lado). Eu sozinho, lancei 2 CDS. Berimbau Blues (1996) – recebeu o Prêmio Sharp de Música (1997) – categoria Regional (Revelação). O destaque do CD é a faixa de mesmo nome cuja melodia do blues é obtida com um copo deslizando na corda do berimbau. Tainá e Toque de Mestre também são muito apreciadas (pela cadência e mistério que criam). A única faixa que não é de minha autoria chama-se Banana Boat (ou Day´O) e é um sucesso de Harry Belafonte da década de 50 (é um calípso, uma cantiga de trabalho e a interpreto no ritmo da capoeira – nos shows, nesta música os capoeiristas presentes não perdem a oportunidade de jogarem uma capoeira).

Gongolô é meu 2 CD lançado em 2000. Gongolô é palavra da língua quimbundo dos Bantos de Angola (África) também usada para designar o emaranhado de pipas (ou arraias) no ar. Como proposta musical, significa a mistura de várias sonoridades e ritmos étnicos; “Cavalaria num Galope” mostra o desafio entre o berimbum, o berimbau-de-metal (guimbarde), a flauta e o derbak; “Índia Ginga”, um diálogo entre o sitar e o berimbau; “Kalimba Toca” é uma viagem pelo Atlântico e complementa a contagiante homenagem ao bloco-afro Malê Debalê; “Querosene Blues” descreve o lugar onde moro em São Paulo; e, faço originais releituras de “Trem das Onze” (Adoniran Barbosa) e “Berimbau” (Baden Powell e Vinícius de Moraes).

5-) RM – Fale do compositor Dinho Nascimento?

DN- Gosto de misturar tendências ou etnias rítmicas e melódicas. Gosto de reciclar, dar uma nova roupagem a composições já conhecidas. Gosto de inovar, buscar novos timbres. Minhas letras falam da natureza, das minhas lembranças, das lendas populares e também do quotidiano.

6-) RM – Fale do seu perfil como percussionista?

DN- Fui o primeiro percussionista a eletrificar o berimbau. Usei um copo como se fosse um slide de um bluesman. Criei o berimbum – uma cabaça gigante e corda de contrabaixo (um som super-grave). O berimbau é como se fosse minha guitarra – utilizo-o para acompanhar-me enquanto canto. Também gosto de tocas congas, timbales, xequerês, kalimba, conduítes, chaves, bambus…

7-) RM – Quais foram e são suas referencias musicais?

DN – Em Salvador (que é uma cidade-porto) chegava muita música do caribe (rumba, salsa, merengue, reggae…) sempre gostei de blues (B.B.King, Ray Charles, Nat King Cole…) e claro, músicas brasileiras (Luís Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dorival Caymmi, Baden Powell, Gilberto Gil …) e músicas do folclore (capoeira, samba-de-roda, puxada-de-rede, chulas, ladainhas religiosas, ritmos do candomblé …)

😎 RM – Fale dos Projetos Sócio- Cultural -Musical que realizar em São Paulo?

DN – Assim como minha formação e expressão artística aconteceram “na Rua”, minha atividade sócio-cultural também é de Rua. Não existe propriamente um projeto, uma proposta elaborada e organizada. É assim, muito espontânea. Gosto de encontrar e conversar com as pessoas da minha comunidade. Agora, as crianças e os jovens me preocupam – gosto de oferecer-lhes a oportunidade de tocar um berimbau, um pandeiro, de reunir-las na pracinha pra jogar capoeira. No final, acabei ensinando-as a construir seus berimbaus e esta experiência foi (e sempre é) muito gratificante. Isto não impede que eu participe de outras organizações. No bairro onde moro existe uma ONG chamada “Movimento Jovem Consciente”. Eu os ajudo na coordenação das Oficinas de Rua que costumam acontecer no último domingo de cada mês.

9-) RM – Fale do seu contato com os mestres de capoeira?

DN – Sempre gostei de brincar capoeira (assim como de jogar futebol). Em Salvador era comum se ver rodas-de-capoeira e assim vi os mestres: Pastinha e Caiçara. Pessoalmente conheci mestre Waldemar da Liberdade, um grande artesão e tocador de berimbaus que meu tio fez questão de me levar pra conhecer-lo. Era vizinho do mestre Bira Acordeon e, de vez em quando, ia até sua academia levado por mestre Gaguinho que era seu aluno. Também era vizinho do mestre Môa do Catendê, aluno do mestre Bobó.Em São Paulo fui discípulo do mestre Almir das Areias (Na Academia Capitães de Areia) e trabalhei com os mestres: Gato-Preto, Kenura, Alcides do CEACA…

Com o lançamento do CD Berimbau Blues; passei a ser convidado para batizados e eventos de capoeira com mais freqüência. E passei a ser chamado para ministrar oficinas de ritmos e instrumentos. Em 2000, dirigi uma orquestra de berimbaus para o Espetáculo Étnico da XIX Reunião do Conselho do Mercado Comum do Mercosul realizado em Florianópolis – SC. Em 2002, realizei oficina e show na Mostra Internacional de Percussão “Ritmos da Terra” , em Campinas – SP.Recentemente(2003) fui convidado por mestre Batata para participar do I Meeting Internacional de Capoeira de Faro (Portugal).

10-) RM – Fale do seu engajamento com a divulgação da cultura musical negra?

DN – Sou afro-descendente e prezo minha origem. Divulgando meu trabalho já divulgo algum aspecto da cultura musical negra. Já acompanhei vários músicos legítimos representantes da cultura negra como: Clementina de Jesus, Zé Keti, Batatinha, Pena Branca e Xavantinho, João Bá, Vidal França, Luís Vagner…

Em 2001 brinquei o carnaval no Bloco Afro Malê Debalê. E agora, no próximo dia 26 de julho 2003, estarei me apresentando na Escola de Samba Tom Maior, em Pinheiros.

11-) RM – Fale do seu Selo Independente? Quem já gravou pelo Selo?

DN- Chama-se Genteboa Produções Artísticas e Culturais. Não é apenas uma gravadora. É também uma produtora de shows e eventos, uma editora de livros e músicas e uma agência de artistas. Por enquanto só temos os CDS Berimbau Blues e Gongolô produzidos por Genteboa. No entanto temos um catálogo de artistas que agenciamos: Batuquerô, Trinca, Paulinho Puttini, Waldir da Fonseca, Old Friends Jazz, Pé no Terreiro, Boizinho de Cofô e Plínio Mestre.

12-) RM – Fale de suas experiências musicais no Exterior? Quais os paises que tocou?

DN- Não tenho grande experiência no Exterior – sou um músico que praticamente aconteceu no Brasil. Fui para Os Estados Unidos em 1994 acompanhando Pena Branca e Xavantinho (nos apresentamos em Boston, New Jersey e New York). Recentemente (abril de 2003) fui para Portugal (me apresentei em Lisboa e Faro).Já o CD Berimbau Blues tem mais estrada – foi fabricado e vendido na Espanha, Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Bélgica, Austrália …

13-) RM – Fale dos projetos para 2004?

DN – Já comecei a pensar no meu próximo CD e algumas músicas já estão sendo mostradas no show que está muito diferente: meus filhos Aluá, Gabriel e João estão deixando o trabalho mais percussivo, um DJ também tem fortalecido este aspecto (ora meu trabalho parece mais eletrônico, ora mais primitivo). Ronaldo Rayol continua acompanhando na guitarra/violão elétrico e Anísio Mello Júnior, no contrabaixo (a bateria de Neto Botelho ficou sem espaço temporariamente). Os vocais amadureceram muito. As novas composições se encaixaram perfeitamente. O trabalho está mais conciso e fluente. A proposta é tocar, cantar, dançar com simplicidade e prazer – sentido o respirar, tem mais a ver.

Contato: 11 – 3226 – 8406 \ 3726 – 5550 www.dinhonascimento.com.br

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.