Clave de Clóvis

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Clave de Clóvis
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A banda Clave de Clóvis nasceu com todas as propostas do mundo. Sem se deixar prender pelas amarras dos “estilos musicais”, a banda procurou desde o começo simplesmente fazer o som que lhe agradava.

Flertando diretamente com outras formas de arte e estéticas que não só as musicais, a Clave de Clóvis acumula na bagagem apresentações inusitadas, shows com percussão em poltronas, sambas-enredos e poesia do absurdo em seu teatro para loucos. Em 2007 a banda lançou seu primeiro trabalho chamado de “suRbvesivo” onde gravou as músicas que vinha tocando em shows há alguns anos. Gravado de maneira independente, o CD obteve ótimas críticas na mídia especializada e mesmo sem uma grande distribuidora foi comercializado em lojas como Livraria Cultura e Saraiva Megastore. A banda ainda participou de grandes festivais de cultura alternativa, shows em centros culturais, casas noturnas e programas de rádio e TV na capital e no interior paulista. Agora a banda lança seu segundo disco chamado “Nelsonrodrigueando a tal da música popular brasileira”. “Nelsonrodrigueando” vem confirmar a liberdade musical e estética da Clave de Clóvis além de mostrar o alto nível de composição e execução apresentado pelos seus integrantes. Mais uma vez a banda dispara com toda força contra o que é chato, é datado e moribundo. E provocando o ouvinte da primeira a última canção. Segue abaixo entrevista exclusiva da Clave de Clóvis para a  em 16/04/2012:

1-) Ritmo Melodia – Qual a data de nascimento e a cidade natal dos membros da banda?

Rafael Siqueira (guitarra, teclado e voz) – 17/04/1975 – São Paulo

Toca coisas & presta atenção em outras. Vanguarda & também Dylan. Anti-trabalho declarado, preferindo atividades. No momento está preocupado com fotos & sempre carrega uma máscara de gás.Subversivo. Frase preferida: “O tempo é: foi”.

Daniel Nascimento (violão, guitarra e voz) – 03/09/1978 – São Paulo

Admirador Claviano, num golpe de estado (de espírito) adentrou a nave mãe. Sabe que “a música” não existe, por isso mesmo sempre corre atrás dela.

Flávio Caldas (bateria) – 11/05/1977 – São Paulo

Sempre batucando. Nos caminhos, de Djavan a Miles, de Led Zeppelin a Elis Regina, de Pixinguinha a Beatles. Feliz em dividir, arte é pra quem se esforça em entender e  respeitar. Rir, o melhor passatempo, óculos só para enxergar o óbvio.

Fábio Silas (contrabaixo) – 27/05/1976 – São Paulo

Cozinheiro, seu tempero especial mistura ritmos e pulsação. Prato principal: “Rock grave & Groove com muito feeling”. Apesar de uma aparente ferrugem é safo. Coleciona dados, HDs e sons de Zona Sul.

2-) RM – Como foi o primeiro contato com a música pelos membros da banda?

Rafael – Provavelmente quando eu ainda era um feto sem órgão sexual definido.

Daniel – Possivelmente no bambalalão

Silas – Foi há muito tempo em Gotham City

Flávio – Soube por fonte fidedigna que foi no elevador, descendo da sala de parto para o berçário.

3-) RM – Qual a formação musical e\ou acadêmica dentro ou fora música dos membros da banda?

Rafael – Sou formado em Patafísica com pós graduação em Psico-Geografia.

Daniel – De-formação.

Silas – Sou formado em Formatação de coisas.

Flávio – Viu só? Tenho que trabalhar com essa gente sem nível superior.

4-) RM – Quais suas influencias musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância dos membros da banda?

Rafael – Nenhuma banda, som, ruído ou catástrofe sonora jamais deixou ou deixará de ser uma influência pra mim.

Silas – Tudo pode ser uma influência.

Flávio – Realmente no caso da Clave de Clóvis tudo pode ser uma influência. Desde som de batedeiras, liquidificadores, ruídos diversos e sons cotidianos até a mais refinada música e literatura. E creio que nenhuma dessas coisas poderá deixar de ter importância porque ajudou a formar nossa opinião e modo de tocar.

5-) RM – Quando, como e onde  começou a banda? Explique a escolha do nome da banda?

Rafael – Tudo culpa do Aguilar, da banda Performática e do Fábrica do Som. Eu produzia música para filmes pornográficos gays e sentia que precisava de mais. Assistindo a uma reprise doFábrica do Som com o Aguilar comecei a compor inspirado naquilo e em outras coisas menos convencionais que eu já conhecia. A partir daí as pessoas foram chegando e saindo até que em 2008 após a gente ter lançado o “suRbvesivo” encontramos essa formação que está junta desde então. O nome veio de um amigo e ex-baterista Rogério Rothje. Acho que ele gostou pela sonoridade das palavras juntas. Pelo menos acho também que foi disso que nós gostamos.

Flávio – Eu não estava lá quando tudo isso aconteceu, e quero reiterar que eu não participava dos filmes.

6-) RM – Quantos CDs lançados? Qual ano de lançamento e perfil de cada CD?

Flávio – Temos dois CDs Lançados, o primeiro em 2007 intitulado “suRbversivo”, em que tínhamos constituído um repertório e selecionamos algumas músicas para apresentarmos formalmente a banda, o perfil era de um trabalho distinto com construções, estruturas e letras pouco convencionais. Em 2012 lançamos o segundo CD – “Nelsonrodrigueando a tal da Música Popular Brasileira”, o título que retiramos de uma das faixas nos remeteu a uma temática que não está diretamente ligada à literatura de Nelson Rodrigues, mas sim a um conceito em que tivemos o cuidado de traçar o paralelo entre a relação sobre a expressão particular do trabalho dele sobre o cotidiano e como essa visão peculiar é recebida e entendida pela sociedade, geralmente com preconceito e o rótulo de pornográfico, aonde na verdade era um trabalho que expunha a ferida daquilo que já existia na sociedade, e assim compreendemos nosso trabalho, em que situamos nas letras um cotidiano diferente da expectativa certinha, artificial e programada, o que pode invariavelmente tocar em algumas das feridas da sociedade.

7-) RM – Como você define o estilo musical da banda?

Flávio – Scrudio.

😎 RM – Como é seu processo de compor na banda?

Rafael – A música evapora da minha caneta.

Flávio – O Daniel creio que só compõe as Terças, Quintas e Feriados. Não sei por que disse isso, se ele me bater, a culpa será de vocês.

9-) RM – Quais são seus principais parceiros musicais da banda?

Rafael – São George Maciunas, Edgar Varese, Erik Satie.

10-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Rafael – Prós – Ser dono do seu meio de produção de forma coletiva. Como toda classe trabalhadora deveria ser.

Contra – A burrice generalizada da grande mídia que explora o jabá. E da pequena mídia que quer ser idêntica à grande. Não sei se essa crase está correta…

Flávio – E existe contra quando se faz o que gosta? Creio que não, as dificuldades passam, e a vontade de fazer música com os amigos faz com que os contras se tornem piadas e boas estórias, sem importar se somos independentes ou não.

11-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Rafael – A música feita no Brasil só evolui. A cabeça das pessoas também está evoluindo. A crítica musical ressurgida no final dos anos 80 e início da era Collor desapareceu praticamente dando espaço para que (como era no início) as pessoas criassem sua própria mídia musical. Hoje a internet possibilita uma maior troca de informações, textos e sons do mundo todo deixando mais e mais pessoas ligadas no que está acontecendo e não só algumas com mais possibilidades e menos critérios relacionados à integridade. O jabá que cresceu violentamente durante as últimas décadas teve também apoio dessas “mídias especializadas” que graças a nós está desaparecendo.

Flávio – Uma das grandes revelações musicais é que Paul McCartney continua sendo o top master do mundo da música e sua obra continua muito consistente.

12-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Rafael – Com certeza Paulinho Troiado e Adilson Odylon.

13-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosto, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Rafael – Depois de um Show em Ribeirão Pires a Hebe Camargo foi ao camarim e fez cafuné em mim a noite toda. Uma senhora muito reconfortante. Foi uma noite mágica para todos nós.

Flávio – Ah. Vá!

14-) RM – O que mais deixa feliz e triste na carreira musical os membros da banda?

Rafael – Faz 40 anos que não sei o que é felicidade e o que é tristeza.

Flávio – Já fico feliz em saber que o Rafael tem 40 anos, ele nunca tinha revelado isso a ninguém.

15-) RM – Nos apresente a cena musical de sua cidade?

Rafael – Isso é chato. Um monte de coisa boa e um monte de coisa ruim. Muita banda de rock virgem, funkeiro dos Jardins e uma banda de Samba/Rock a cada esquina.

Ao mesmo tempo em que a cidade ferve em coisas interessantíssimas como os grupos de RAP, o Samba da vela, o Sarau da Cooperifa… Ainda há poucos bons espaços e o trabalho cultural feito pelas secretarias de cultura são extremamente reacionários, debilitados e elitistas.

Flávio – Realmente é muito complexo descrever a cena musical em São , porque em cada canto da cidade acontece algo diferente, seja bom ou ruim.

16-) RM – Quais os músicos e bandas que você recomenda ouvir?

Rafael – Yoko Ono, Cida Moreira, Plano Próximo, Matuto Moderno, Zappa, Gong, em Branco e Preto, Zafrica Brasil, John Cage e Restart.

17-) RM – Você acredita que as músicas de sua banda vão tocar nas rádios sem o jabá?

Rafael – Já tocamos em algumas rádios sem precisar de jabá. Mas esses meios de comunicação que utilizam a concessão de rádio e TV de forma gratuita e mesmo assim exibem uma programação imbecil e atrelada a uma concepção de vida que não concordo eu não me importo em não tocar. Pra mim não estar na Transamérica é um prazer.

18-) RM – O que vocês dizem para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Rafael – Desista antes que dê certo e escolha bem as drogas.

Flávio – Jamais, mas jamais mesmo, use óculos com armação plástica e colorida se você quiser tocar numa banda de Rock de verdade.

19-) RM – Quais os projetos futuros?

Rafael – Terminar e lançar nosso segundo disco e destruir o Império.

Flávio – Terminar e lançar nosso segundo disco e restituir o Império. Era isso que eu tinha que dizer?

20-) RM – Quais os Contatos?

www.clavedeclovis.com / [email protected] / [email protected]  

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.