Clara Becker

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A cantora Clara Becker não se cansa de responde essa pergunta: “sendo filha de dois atores: Cacilda Becker e Walmor Chagas; importantes do Teatro Brasileiro, por que você não seguiu o caminho de seus pais?”, ela responder que é uma questão de dom. Um Dom ou uma pré-disposição para um caminho da música. Segundo ela, um Dom a gente não escolhe.

Aos três anos, ganhou uma coleção de disquinhos coloridos que acompanhavam um livrinho com estorinhas infantis: “Dona Baratinha”, “A Cigarra e a Formiga”, “O Soldadinho de Chumbo”, etc. Ela sabia todas as estórias e suas respectivas músicas de cor. E costumava dançar e cantarolar as músicas que meus pais ouviam em casa. Várias crianças passaram por essa mesma experiência. Mas as pessoas que viam crescer comentavam que ela era muito musical e afinada. Mesmo a música parecendo cedo como fato definitivo em sua vida, ela demorou um tempo para aceitá-la esse destino e por o pé na profissão.

Aos oitos anos de idade começou a ter aulas de piano e teoria musical. Mas não tinha uma disciplina para estudar e não demorou muito para as aulas serem interrompidas. Aprendeu o suficiente para uma apresentação no Colégio Americano – Porto Alegre – RS, tocando uma pequena peça para piano a quatro mãos. Só aos 18 anos retomou o “namoro de criança” como a música. Foi ter aulas de canto, mais tarde violão e de teoria musical. Aos 24, pisou pela primeira vez em um palco para cantar. Era tímida e não sabia se queria ser cantora profissionalmente, pois para quem começa uma vida artística tem mais espinhos que flores no caminho do reconhecimento.

Lançou seu segundo CD – Dois Maior de Grande – em 2006 homenageando dois ícones da MPB, Luiz Gonzaga e seu filho Luiz Gonzaga Junior, Gonzaguinha. Unir em um CD duas obras singulares de duas personalidades artísticas fortes, por si só é uma grande ousadia. E Clara mostrou o bom gosto na escolha do repertório para CD. Ela colocar sua voz cristalina, um canto de sereia, com interpretações que fogem dos registros originais dos dois artistas sem violar o DNA das suas obras. Os arranjos de luxo e criatividade de Benjamim Taubkim, Lula Alencar, Leandro Braga mostram que existe a tal nova roupagem e concepção musical e estética de obras quase intocáveis. Clara que navegando na contramão do mercado mercenário lança seu segundo CD com uma homenagem a dois artistas que merecem a justa lembrança pelo valor de suas obras e personalidades artísticas. Principalmente Gonzaguinha que morreu através de um acidente automobilístico no auge da carreira. Um CD que nasce grande pela intenção artística e não decepciona pela atuação perfeita da cantora no quesito timbre de voz, técnica e interpretação e para fechar com Chave de Ouro a homenagem com a participação do herdeiro dos homenageados, Daniel Gonzaga, que com seu timbre de voz não deixa dúvida que tem DNA do pai Gonzaguinha.

Segue abaixo a entrevista exclusiva com Clara Becker para a www.ritmomelodia.mus.br, entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.11.2006:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua cidade de origem e a sua data de nascimento?

Clara Becker: Nasci no dia 30 de janeiro, Porto Alegre – RS. Com quinze dias me trouxeram para São Paulo, onde vivi minha infância. Adolescente, fui morar no Rio de Janeiro e lá fiquei até 1994, quando voltei a morar em São Paulo. Hoje, minha vida é dividida entre as duas cidades.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Clara Becker: Desde muito pequena a música esteve presente em casa. Ouvia-se de tudo. Tango, música clássica, Frank Sinatra, Paulinho da Viola e por aí vai.

03) RM: Quais as suas influências musicais. E quais permaneceram e quais as atuais?

Clara Becker: Tanto as músicas que ouvi, como as peças de teatro, as exposições, os filmes, se tornam, de alguma forma influências que carregamos pela vida e conseqüentemente naquilo que produzimos. A finalidade da arte é a de enriquecer e formar o ser humano.

04)  RM:  Fale de sua formação musical.

Clara Becker: Tive aulas de canto com Pedro Paulo Castro Neves durante anos, no Rio de Janeiro. Depois comecei a ter aulas de percepção e teoria musical no Cigam, também no Rio de Janeiro.  Hoje, continuo estudando harmonia e violão com o músico Paulo Costa, aqui em São Paulo.

05) RM: Qual a sua formação acadêmica?

Clara Becker: Parti para fazer o curso de Veterinária, mas tranquei. Na época, meu pai havia construído o Teatro Ziembinski, no Rio de Janeiro, e me vi envolvida com a administração e nas produções do teatro. Inclusive, criei o projeto musical: “Seis e Meia no Zimba”, que coordenei, fazendo a programação dos shows. Toda sexta-feira era um artista diferente.

06) RM: Quando, como e onde você iniciou a sua carreira artística?

Clara Becker: Foi nesse período do Ziembinski. O teatro falou mais alto e comecei a fazer parte do elenco permanente. Trabalhei em várias montagens, mas, sempre cantando. As trilhas das peças eram feitas ao vivo e eu cantei em muitas delas. Tive a oportunidade de trabalhar com o musicólogo e professor José Maria Neves, no espetáculo “Prezado Amigo”. Espetáculo muito lindo baseado no livro “A Lição do Amigo”, sobre a correspondência de Mário de Andrade com Carlos Drummond de Andrade. Cantei ao lado de José Maria Rocha, pianista, grande músico, que acompanhou muito tempo a Maria Bethânia. Cantei a trilha sonora composta por Lobão, Ivo Meirelles e Bernardo Vilhena para o espetáculo “Os Reis do Ferro-velho”. Foi uma época muito importante para minha formação. Foi o início de tudo.

07) RM: Quais foram as primeiras dificuldades que você enfrentou no inicio da carreira musical?

Clara Becker: As dificuldades são muitas, em qualquer carreira. Sou artista independente, por opção. Criei meu selo, o Vila Pirutinga Cultura, para produzir meu primeiro CD – “Pétalas”. Isso me proporcionou uma liberdade total na escolha de repertório, arranjadores, músicos, estúdio, concepção. Busco fazer um trabalho de qualidade, gravar bons compositores, como Sueli Costa, Fátima Guedes, Chico Buarque; alguns compositores de minha geração como Simone GuimarãesFred Martins, Alexandre Lemos e os demais que estão no “Pétalas”. É gente que está acima dos modismos e imposições da mídia e indústria fonográfica. Isso dá um grande prazer! Como me disse Hermeto Pascoal: “música é para encher a alma e não os bolsos”. Nós, artistas independentes, hoje, somos responsáveis por uma grande produção musical, mas, esbarramos em uma muralha. A dificuldade está em tocar nas rádios comerciais, o que freia o acesso do público em conhecer os artistas independentes e seu repertório. É difícil fazer a música chegar a um público maior. Outra dificuldade é a grave situação da falta de educação. Os ouvidos estão poluídos, tanto das pessoas que tem dinheiro, como das que não tem. O nível geral de percepção é muito baixo. As pessoas não conseguem entrar em contato com elas mesmas e procuram somente a distração banal.  Dá-me a impressão de que estamos voltando à época tribal, onde o ritmo é o essencial. A melodia, a elaboração, o bom gosto ficaram para trás. A música que agrada hoje é a que permite embalar o churrasco, permite pular e gritar e ajuda a fazer a catarse coletiva das pessoas que vivem aflitas, que não conseguem parar. É a música da distração, não da concentração, da elevação.

08) RM: Como é iniciar uma carreira artística tendo pais (Cacilda Becker e Walmor Chagas) já famosos como atores?

Clara Becker: Foi um empecilho no início. A cobrança é enorme. A responsabilidade também. Até você começar a se firmar pelo seu próprio trabalho, leva um tempo. As pessoas querem você: pronta! Esquecem que os pais famosos também foram crescendo na profissão e exigem de você uma experiência como se você iniciasse sua carreira partindo já do ponto onde os pais estão.

09) RM: Quantos CDs lançados, quais os títulos e ano de lançamento e quais as músicas de destaque de cada CD?

Clara Becker: O primeiro, foi o CD – “Pétalas, lançado em 2003, pelo meu selo Vila Pirutinga Cultura. O segundo está no forno e se chama “Dois Maior de Grande”, homenagem a Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Reuni pai e filho neste CD e convidei o compositor e cantor Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha, para dividir a última faixa do CD: Da Vida. Fiquei muito feliz por ele aceitar o convite e do clima que rolou no estúdio, muita alegria e emoção. É difícil destacar alguma música, mas a música Lola de Chico Buarque, que gravei no CD – “Pétalas”, foi lançada na Europa, no álbum “Divas do Brasil” e no Japão. A música Novamente de Fred Martins e Alexandre Lemos fez parte da trilha sonora da novela “Esperança” (Rede Globo). Violão Amigo, da dupla carioca Bide e Marçal, também foi para o Japão. Em 2005, o CD integral foi lançado na China.

10) RM: Comente as características de cada um dos CDs?

Clara Becker: O “Pétalas” é um CD que fala do amor e suas vertentes. O segundo, que será lançado em breve (10\2006), é focado nas composições de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Selecionei 12 músicas, que me tocam profundamente. O CD é calcado mais no Brasil, sendo o Gonzagão e o Gonzaguinha, compositores que cantaram a sua terra e a sua gente.

11) RM: Comente qual receptividade da crítica especializada e do público para o CD – “Pétalas”.

Clara Becker: A receptividade foi excelente! O “Pétalas” recebeu os maiores elogios da crítica e do público em geral. Recebo, ainda hoje, mensagens de pessoas que compraram o CD e que entram em contato comigo para elogiar. Isso me deixa extremamente feliz.

12) Quais os prós e contras de lançar CDs independentes?

Clara Becker: A vantagem maior é a liberdade. A dificuldade é fazer chegar o trabalho a um número maior de pessoas.

13) RM: Como você vê o mercado fonográfico brasileiro?

Clara Becker: Difícil, tanto aqui no Brasil, como no resto do mundo. A queda nas vendas de CD, devido à facilidade de baixar músicas pela internet, sem pagar, sendo a Internet um território livre e sem uma legislação própria, dificulta para todos.

14) RM: Seus ídolos continuam os mesmos?

Clara Becker: Não tenho ídolos. Há artistas com os quais me identifico e com determinados trabalhos que admiro.

15) RM: Defina o seu trabalho musical?

Clara Becker: Defino como um trabalho sincero, verdadeiro.

16) RM: Defina-se como cantora.

Clara Becker: Sou uma artista que não está ligada aos modismos. Gosto de cantar o que me toca.

17) RM: Quais os seus principais parceiros musicais?

Clara Becker: Para os dois CDs, convidei o Benjamim Taubkin e o Leandro Braga para criarem os arranjos. Identifico-me musicalmente, com ambos. São meus principais parceiros.

18) RM: Comente sobre os músicos que fazem parte de sua banda e sobre seu show.

Clara Becker: É fundamental ter uma turma boa tocando com você. Tanto nas gravações como nos shows. Fico muito honrada de ser acompanhada por Caíto Marcondes, Leandro Braga, Edmilson Capelupi, Camilo Carrara, Dino Barioni, Pedro Macedo, Ari Colares, e todos os que tocaram nos dois CDs, extremamente talentosos e sensíveis.

19) RM: Na sua carreira musical o que mais te aborrece e o que te dar prazer?

Clara Becker: O prazer é sempre maior que os aborrecimentos. Cantar é minha grande felicidade!

20) Quais os projetos futuros?

Clara Becker: É o lançamento de meu segundo CD Dois Maior de Grande. Um projeto que comecei a elaborar em 2004 e que finalmente vai chegar às lojas no próximo mês(10\2006). Neste CD também assino a direção artística e sairá pelo Vila Pirutinga Cultura, com distribuição da Tratore. É um momento de grande expectativa e alegria.

Contatos: (11) 5549 – 1540 | [email protected] | www.clarabecker.com.br


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.