Carmen Queiroz

Carmen Queiroz 1
  •  
  • 9
  •  
  •  
  •  
    9
    Shares

 

A Cantora paranaense Carmen Queiroz encanta os ouvidos mais exigentes em primeira audição. Com uma voz que lembra as cantoras de rádio faz as melodias balançarem nossa alma. Ouvi-la traz alegria e calma.

Seu bom gosto na escolha do repertório para o seu terceiro disco: “Leite Preto”CPC UMES 2000. A cultura negra e brasileira ganha mais um motivo de orgulho de confirmar que temos a melhor música popular do mundo e suas melhores interpretes. O CD com músicas de compositores de primeiríssima linha como: Chico Buarque, Paulo César Pinheiros, Nelson Sargento, Dona Ivone Lara, dentre outros. Com arranjos maravilhosos, sofisticado e criativo de Edmilson Capelupi, que não se perde no clichê dos CDs de samba, mas alça voos mesclando sonoridades de raiz com uns arranjos livres em uma sinfonia em que todos os instrumentos ocupam seu lugar no espaço sonoro na medida certa. Os metais dão o tom melódico abraçado pelo suingue, percussão e cordas em plenitude harmônica. Mostrando que a música popular brasileira quando vestida com arranjos bem elaborados não perde a essência de sua raiz e ganha em qualidade e sensibilidade.

Você pode escuta Carmen Queiroz aliviando o calor com uma cerveja gelada no calçadão, em casa ou no teatro com a mesma energia e clima. A cantora não trilhou o caminho fácil do samba quadrado nem da música pop de fácil digestão, mas nos presenteou com músicas de qualidade, abertas que encanta todos nossos sentidos sem se perde no labirinto hermético que distancia a boa MPB do publico popular. O trabalho de Carmen mostra que é possível ter um trabalho de qualidade sem fronteiras sociais.

Segue entrevista exclusiva com Carmen Queiroz para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 01.08.2003:

01) RM: Fale do seu primeiro contato com a música. Quais as suas Influências musicais?

Carmen Queiroz: Nasci em Cornélio Procópio, no norte do Paraná, sai com pouco mais de 3 anos de idade para a mineira Santa Rita do Sapucaí, no Vale do Silício, de onde mudei para Porangaba, cidade paulista localizada entre Tatuí e Botucatu. Porangaba é a minha referência. O primeiro contato com a música surgiu de forma natural. Em minha casa todos gostam de música e sempre ouviam muita música no rádio, reuniões musicais com amigos, festas. A música sempre esteve presente. As influências vieram num crescendo. Cresci ouvindo minhas irmãs cantarem Ângela Maria, Orlando Silva, Nelson Gonçalves e outros tantos que fizeram sucesso na mesma época. E depois curti a Jovem Guarda, música americana. Mas, ficaram mesmo os sambas-canção, as músicas brasileiras românticas, de letras bem elaboradas.

02) RM: Fale do seu início na carreira musical e das primeiras apresentações.

Carmen Queiroz: A noite sorocabana foi a primeira a me ouvir cantar profissionalmente. Depois, vir para São Paulo em 1982 foi uma conseqüência.  Era preciso procurar espaços maiores, conviver com um meio musical mais de perto.

03) RM: Quantos discos lançados?

Carmen Queiroz: Meu primeiro trabalho fonográfico foi “Flor da Paz”, em 1989, época em que eu iniciava minha participação no grupo musical regional chamado “Bando Flor do Mato”. Este disco mostra, assim, uma influência do estilo do grupo e o meu próprio que já começava a se delinear. Depois vieram algumas participações como à registrada no CD – “Antologia Musical Brasileira – Marchinhas de Carnaval”, em 1996, onde gravei as músicas “Eu dei” de Ary Barroso“Evocação nº 1”de Nelson Ferreira. Finalmente, o CD – “Leite Preto”, em 2000. Um disco em que traço definitivamente meu caminho musical: sambas bem compostos, melodias feitas para ouvidos mais exigentes, sem deixar de ser popular.

04) RM: Fale dos projetos musicais que você participou e/ou participa?

Carmen Queiroz:  Ao longo da carreira foram diversos. Tudo se iniciou com o projeto do “Bar Bom Motivo”, em que a tônica era contar e cantar a história da MPB, dando-se destaque a um grande compositor, meu repertório se expandiu muito com isso. Depois se sucederam outros: “UMES Cantarena”; um projeto musical dos estudantes secundaristas que visava apresentar ao público jovem os novos cantores e compositores em destaque. “Serenata na UMES” ,  o anfitrião, o cantor e compositor Gereba, dividia o palco com um convidado para mostrar o que de melhor se produzia na música popular brasileira. “Samba em Sampa” no Teatro Clown Plaza – onde os bambas do samba apresentavam artistas poucos conhecidos, fui à convidada de Dona Ivone Lara.

05) RM: Como você define o CD – “Leite preto”?

Carmen Queiroz: Será lançado em 2003 um novo disco. O estilo segue aquele mostrado em “Leite Preto”: canções, sambas cadenciados e sem deixar de registrar uma peça do regional, pois faço questão de não deixar para trás nenhuma das raízes que me influenciaram.

06) RM: Fale sobre as participações de outros músicos nos seus discos.

Carmen Queiroz:  Em “Flor da Paz”. Destacaria a participação maravilhosa de Oswaldinho do Acordeon, cuja sensibilidade musical deu uma alma toda especial à canção “Flor da Paz”. Em “Leite Preto” o destaque fica por conta dos arranjos de Edmilson Capelupi, um dos nossos grandes violões 7 cordas. Acredito que ele tenha somado muito com sua dedicação musical e conseguimos um casamento perfeito. Tanto é assim que hoje ele prepara os arranjos do novo CD.

07) RM: Quais as vitórias e dificuldades na carreira musical?

Carmen Queiroz:  As vitórias, grandes ou pequenas, foram sempre importantes. Tudo se soma. Mas foi muito especial dividir o palco com Martinho da Vila no Teatro Municipal de São Paulo, em 2001,  por ocasião das comemorações do dia Nacional da Consciência Negra; com Beth Carvalho, no Canecão, no Rio de Janeiro em 1999 como sua convidada no show. As notícias da veiculação de meu CD nas rádios do interior também considero uma vitória. É muito bom. Quanto às dificuldades, elas existem quase que dia a dia, tanto para mim quanto para todos os artistas que na mesma situação enfrentam a falta de apoio da grande mídia, tirando-nos oportunidade de mostrarmos nosso trabalho a um público maior; a dificuldade na distribuição e venda do CD e por aí vai…

08) RM: Como você analisa o mercado fonográfico hoje?

Carmen Queiroz: Já tivemos tempos piores. A música descartável que procuram nos enfiar goela abaixo hoje já podemos combater com as produções das  pequenas gravadoras como UMES, LUA DISCOS  e outro selos independentes, que primam por preservar a boa música popular brasileira, divulgando trabalhos com muita qualidade.

09) RM: Quais são os seus mestres musicais?

Carmen Queiroz: Ouvi muito Dalva de Oliveira, Clara Nunes, Elizeth Cardoso, Elis Regina, com todas certamente aprendi muito.

10) RM: Você já foi rotulada como um cantora que só interpreta samba?

Carmen Queiroz: Isto não ocorre só comigo, acho que todos os cantores negros passam por essa experiência. É que uma parte considerável do público menos informado faz essa leitura, vêem o negro apenas como sambista. Por outro lado, este preconceito atinge também o cantor branco que canta samba, como se ele não pudesse fazê-lo ou nele não se encaixasse. São imagens que aos poucos vão sendo mudadas; fazem parte de um contexto cultural arraigado neste país que ensinou aos brasileiros que samba (enquanto considerado como arte menor) era coisa de negros, nele refletindo-se, ainda, o mesmo preconceito.

11) RM: Como você analisa o panorama musical de São Paulo? Há espaço para desenvolver uma carreira com êxito? Quais os principais obstáculos na profissão de músico?

Carmen Queiroz: O panorama musical que de certa forma já analisei durante esta entrevista se molda perfeitamente a São Paulo. Na verdade São Paulo é um dos núcleos principais, juntamente com o Rio de Janeiro, onde tudo acontece e acaba sendo modelo para todo país. Talvez o Rio de Janeiro tenha sua própria história, mas não é de todo diferente.

12) RM: Quais os projetos para 2003?

Carmen Queiroz: O novo CD certamente. E já não é mais um projeto, meu novo trabalho esta sendo feito, é uma realidade. Trago novamente canções inéditas de grandes compositores, como “Depois da Despedida” (Délcio Carvalho e D. Ivone Lara),“Espere um pouco” (Luiz Carlos da Vila e Roque Ferreira), releituras de músicas que faz muito a minha cabeça como “Sem companhia” (Ivor Lancelotti e Paulo César Pinheiro), “Novo Amor” (Chico Buarque), dentre outras.

Contatos: (11) 3243 – 3784 | www.carmenqueiroz.mus.br


  •  
  • 9
  •  
  •  
  •  
    9
    Shares
Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.