Carmélia Alves

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Para mim foi uma imensa satisfação conhecer pessoalmente a cantora Carmélia Alves, uma senhora de 80 anos com tanto vigor de dar inveja a muita gente nova que estar começando a carreira musical.

Uma pessoa falante e cativante. A entrevista aconteceu no apartamento do jornalista – radialista Assis Ângelo no centro de São Paulo. Uma hora de papo e conheci a sua espetacular trajetória iniciada nos programas de calouros e consolidada nos de rádio da década de 40 e 50, épocas de ouro do Rádio Brasileiro. Nesse período o Rádio era a TV de hoje em importância para iniciar e projetar a carreira musical de um artista. Ela fã incondicional da eterna Carmen Miranda e não se incomoda de declara que imitá-la abrir portas para a sua carreira musical ocupando o lugar vago da Carmen nos programas de rádio importante na época. Carmen trilhava a sua carreira internacional. Carmélia, depois do grande sucesso no Brasil seguiu o mesmo caminho da Carmen cantando pelo mundo. Antes disso ganhou o título de Rainha do Baião pelo eterno Rei do Baião Luiz Gonzaga, depois de se apresentar em Recife – PE cantando os sucessos de Luiz Gonzaga.

Formou no início da década de 90 o grupo Cantoras do Rádio com: Nora Nei, Rosita Gonzáles, Zezé Gonzaga, Elen de Lima e Violeta Cavalcante. Aconteceram novas formações mantendo-se o núcleo: Carmélia, Elen e Violeta gravaram três CDs. O Mais recente em 2003 pela CPC UMES – SP.

Segue abaixo a entrevista exclusiva com Carmélia Alves para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistada por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 16.12.2002: 

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com a música.

Carmélia Alves: Nasci fazendo barulho, dizia meu pai, no dia 14.02.1923 no Rio de Janeiro. Sou carioca de pais e parentes nordestinos.

Em 1940 comecei o meu contato com a música cantando no programa de calouros do Ari Barroso; por acaso e culpa do meu irmão que me escreveu sem que soubesse. Ganhei com a nota máxima. E admirava o trabalho da Carmen Miranda, não cheguei a conhecer pessoalmente a minha ídola; mesmo sendo amiga de sua irmã: Aurora. Eu cantava tudo do repertório da Carmen e fazia a performance que ela fazia no palco. Meu irmão me escrevia em todos os programas de calouros do Rio de Janeiro. Ganhei e acumulei muitos prêmios. Na Rádio Nacional, no programa de Barbosa Jr. (Grande humorista da época, amigo e parceiro musical de Carmen) participei do seu concurso de calouros e aconteceu um fato inusitado. Cantei uma música da Carmen e imitando-a perfeitamente e o auditório vibrou. Na hora da premiação, outra moça ganhou e o auditório não gostou. Barbosa Jr. acalmou as pessoas e me chamou ao palco e pergunto se já era profissional da voz. Eu falei que não, que cantava a cinco meses em alguns programas de calouros na Capital (minha família morava no interior). Barbosa Jr.  falou que não me deu o prêmio, mas a partir daquele dia eu seria contratada para cantar em seu Programa que se chamava: Picolino, três vezes por semana e atração principal nos domingos.

02) RM: Fale da sua experiência como cantora de Rádio?

Carmélia Alves: Eu comecei como Estrela, porque vim do interior para ser funcionaria pública assalariada. E ganhei muito mais fazendo algo que gostava: Cantar. Minha mãe e dois irmãos vieram morar comigo na Capital. E meu pai ficou em Arial – RJ por ser funcionário público. A Rádio Nacional era a segunda em importância, sendo a Mayrinck Veiga a primeira.  Já que todos os astros da música cantavam nela: Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Carmen Miranda, Aurora Miranda, Araci de Almeida, Ciro Monteiro, Nelson Gonçalves, Odete Amaral, dentre outros. Menos Orlando Silva que era da Rádio Nacional. O Casé tinha um programa dominical na Mayrinck Veiga e faltou uma cantora e ele falou com Barbosa Jr. para ceder uma das suas cantoras. Ele me indicou e abriu a maior oportunidade da minha carreira musical. Iria cantar por 15 minutos. Eu era jovem, magrinha e mal produzida como artista. Cantei quatro músicas do repertório da Carmen Miranda e com o seu regional Choro: Laurindo de Almeida, Tuti, Luiz Americano e João da Baiana. Na segunda música a maioria dos profissionais da Rádio parou para me ouvir cantar. Quando terminei disseram que os diretores César Ladeira e Edimar Machado, queriam falar comigo. Dr. Machado perguntou a minha idade e mandou chamar minha mãe. Ela não quis falar com eles. E meu irmão foi. Eles assinaram um contrato para ocupar o horário que era da Carmen Miranda, que já estava há dois anos ausente. Eles procuravam uma cantora com o mesmo estilo e voz. Fiquei por quase dois anos no programa apresentado pelo César Ladeira. Para mim foi à glória substituir a cantora em que eu me espelhava.

03) RM: Fale da sua experiência como cantora da Noite.

Carmélia Alves: O Copacabana Palace estava procurando uma cantora e como eu conhecia o Assis Valente (compositor de algumas músicas da Carmen Miranda), Mario Lago e outros artistas da época que cuidavam de mim e me davam suporte artístico. Eu comecei a minha carreira musical no topo do estrelato e convivendo com a nata da música brasileira. Cantei em várias casas de shows no Rio de Janeiro. Hoje (2003) com 63 anos de carreira fico feliz e realizada por ter viajado pelo mundo cantando música brasileira em português.

04) RM: Fale da sua parceria musical e amorosa com Jime Lest.

Carmélia Alves: Em 1944 conheci o Jime Lest, que era um cantor paulistano. Ele cuidou da minha carreira por 54 anos e faleceu há quatro (1999). Deixou de seguir a sua carreira musical para produzir a minha. Foi uma união perfeita e guardo hoje as boas lembranças e saudades eternas. Mas com o falecimento do meu esposo nesse mesmo período, o baixo astral e a falta de entusiasmo tomaram conta de mim. Não queria mais cantar nem seguir a carreira. Queria morrer também. Passei um ano de reclusão e estressada. E os amigos me animando para retomar a carreira musical e voltar aos palcos.

05) RM: Quantos discos gravados?

Carmélia Alves: Quando cantava no Copacabana Palace conheci o Benedito Lacerda (um grande compositor e um dos melhores flautistas brasileiros), em Niterói na Chacrinha  do Abelardo Barbosa em Niterói (o futuro apresentador Chacrinha da TV brasileira), na Chacrinha aconteciam shows e eu divulgava as marchinhas de carnaval do Benedito. Com uma composição do Assis Valente e outra do Erondino Silva, o Benedito arrumou uma gravação para mim na RCA Victor. Em 1943 gravei o primeiro disco em 78 rpm. Fui pioneira na gravação independente, porque não era da gravadora e tive que pagar a matriz, mesmo a gravadora lançando com o seu Selo. O regional era do Benedito e tinha as participações do Raul (Trombone) e do Zacarias (Clarinete) que não cobraram nada. A música do Assis tinha uma frase que virou um dito popular: “Quem dorme no ponto é Chorfer”. Eu tive muita facilidade na carreira até hoje por ter muitos amigos que me ajudaram. Em 1949 gravei pela Continental, com a música: “Leva-me” do Hervê Cordovil (um grande amigo, maestro, pianista que foi muito importante para minha carreira) e foi à primeira da muitas músicas que gravei dele. Gravei a partir do titulo de Rainha do Baião mais de 50 discos. No exterior gravei com muitos músicos como produção independente e vendia a matriz para as gravadoras de lá. Na década de 90 gravei dois CDs pela CID com o grupo: As cantoras do Rádio (Eu, Nora Nei, Rosita Gonzáles, Zezé Gonzaga, Elen de Lima e Violeta Cavalcante). Na mesma década gravei um CD pelo um selo independente do Rio de Janeiro, com uma nova formação do grupo Cantoras do Rádio (Eu, Elen, Violeta e Ademilde Fonseca) com participações de Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Leila Pinheiros e Baby do Brasil. Em 2000 gravei: Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha pela CPC – UMES – SP.

06) RM: Qual a sua relação pessoal e profissional com Luiz Gonzaga e do titulo de Rainha do Baião?

Carmélia Alves: Em 1947 o baião é criado por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Luiz Gonzaga era o Rei do Baião e o ritmo se popularizou na década de 50. Viajei para nordeste cantando o repertório do Luiz Gonzaga. Em Recife-PE descobri Sivuca que era de um regional local. Na última apresentação o público pedia todas musicas de Luiz Gonzaga e Sivuca sugeriu para eu cantar um pou-porri no improviso. Ele um gênio precoce e com uma musicalidade fora do comum dava o tom e eu seguia. O auditório gritava rainha, rainha do baião. Quando voltei para o Rio de Janeiro e para o programa do César de Alencar o mesmo me apresentou como Carmélia Alves a Rainha do Baião. Eu estranhei porque ele nunca me anunciou assim. Ele explicou que a notícia da repercussão dos shows em Recife e do titulo já tinha chegado ao Rio de Janeiro. Fui me apresentar no programa do Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. No meio da programação ele disse: Você a partir de agora é a Rainha do Baião. E a esposa do Gonzaga, Dona Helena entrou com um chapéu de couro. Ele falou você foi adotada pelo baião e como filha de nordestinos vai cantar comigo e divulgar a música nordestina. Enfiou o Chapéu na minha cabeça, desfazendo meu penteado e estou com essa coroa até hoje.

07) RM: Fale do Projeto Cantoras do Rádio?

Carmélia Alves: Eu, Nora Nei, Rosita Gonzáles, Zezé Gonzaga, Elen de Lima e Violeta Cavalcante era a formação original do grupo Cantoras do Rádio. Gravamos dois CDs pela CID na década de 90. Mas com o falecimento da Rosita e o afastamento da Zezé por problemas pessoais na família. E recentemente em 2003 a perda de Nora Nei que está na U.T.I  em estado de coma; uma cantora maravilhosa, criadora de uma grande estilo como contralto seguido por outras estrelas da MPB. O terceiro CD aconteceu com uma nova formação: Eu, Elen, Violeta e a inclusão de Ademilde Fonseca; lançado por um selo independente do Rio de Janeiro tendo às participações especiais de Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Leila Pinheiro e Baby do Brasil. E o meu grande amigo César do Acordeon me convidou para vim para São Paulo e indicou meu trabalho para o diretor artístico da CPC UMES – Marcus Vinicius que ficou empolgado em realizar um projeto solo cantando o repertório dos amigos Jackson do Pandeiro e do Gordurinha, incluindo a música “Baião” de Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira, que me simboliza o titulo: A Rainha do Baião. Então o CD se chama: Carmélia Alves Abraça Jackson do Pandeiro e Gordurinha, com participações especiais de: Luiz Vieira, Inêzita Barroso, Elymar Santos e César do Acordeon. Em 2003 sem Ademilde e com Carminha Mascarenhas. O Grupo Cantoras do Rádio gravou um CD pela CPC – UMES cantando o repertório que se eternizou nas vozes de dez mitos da música popular brasileira: Nora Ney, Aurora Miranda, Carmem Miranda, Araci de Almeida, Dalva de Oliveira, Elizethe Cardoso, Linda Batista, Dolores Duran, Dircinha Batista e Izaurinha Garcia. Esse trabalho é importante para um regaste de maravilhosas cantoras que nosso país sem memória esquece, com a mania de renovação, que na maioria das vezes são lamentáveis.  Fomos apelidadas carinhosamente nos shows como “Beatles” da Terceira idade.

08) RM: Como você vê os Programas de Rádio de hoje?

Carmélia Alves: Os programas de TVs tiraram à popularidade e os patrocínios dos programas de Rádio. Mas o Rádio não vai morrer nunca. Continua sendo um veículo bom e barato. Algumas programações de Rádio são efêmeras e outras toca disco descartável. Mas ainda existem excelentes programações que tocam e valorizam a música popular brasileira de boa qualidade como o programa do jornalista Assis Ângelo: São Paulo Capital Nordeste – na rádio Capital AM – SP.

08) RM: Fale dos fatos tristes que aconteceram com suas amigas cantoras?

Carmélia Alves: Hoje vários artistas experientes expõem as suas dificuldades profissionais e financeiras na TV por terem perdido espaço profissional para uma garotada bonita, mas ainda inexperiente. E no passado muitas cantoras conviviam com seus demônios pessoais (Vícios, ostracismo e pobreza) de forma silenciosa até a morte. Alguns exemplos são: Dolores Duran, grande poetisa que enfarto dentro do seu quarto no apartamento humilde na rua Ipanema. Eu e meu esposo chegamos no local e tinham vários amigos como: Ari Barro. É lamentável presenciar no apartamento tamanha pobreza material de uma extraordinária artista que não usufruiu os benefícios do seu trabalho. A Maísa “Gata Mansa” que ao viajar para sua casa em Maricá – RJ dormiu ao volante e bateu o carro na parede da ponte Rio – Niterói e nesse dia ela tinha chamado o pai (Alcimides) para acompanhá-la. A diva Elis Regina foi outra grande cantora que morreu de forma lamentável por conta do seu vício.

09) RM: Fale um pouco do seu relacionamento pessoal e profissional com Anastácia e Marines? 

Carmélia Alves: É Muito boa. Vejo mais a Anastácia por morar em São Paulo e pouco Marinês por morar no nordeste em Campina Grande – Paraíba. Nos encontramos na década de 90; em um show que as Cantoras do Rádio fez no teatro de Campina Grande. Ela levou flores para mim.

10) RM: Como você define a música nordestina e sua importância para música popular brasileira?

Carmélia Alves: É uma música de raiz e nossa. O Luiz Gonzaga ficava irritado quando alguém falava para ele que foram os ingleses que trouxeram esse ritmo para o nordeste e não os nordestinos que fizeram os ingleses dançar nossa música. Hoje os jovens fazem misturas de outros ritmos com o Forró e desvirtuando o autêntica música nordestina.

11) RM: Fale do projeto do grupo Cantoras do Rádio para 2003.

Carmélia Alves: Fizemos um registro dos melhores momentos do show “Estão Voltando As Flores”. E será lançado em CD pela Som Livre. E uma cineasta de Curitiba Laurinha Alves nos contratou para fazer um filme partindo do show. As gravações começaram em março de 2003. Outro projeto pessoal que quero realizar é a gravação de 20 sucessos do Hervê Cordovil com várias participações especiais. Esse registro precisa ser feito por mim pela admiração que tenho por ele e por sua obra.

Carmélia Alves: Faleceu em 3 de novembro de 2012 aos 89 anos. A Rainha do Baião, condecorada com este título por Luiz Gonzaga, sofria com um câncer. O corpo da cantora foi velado no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá e o enterro no cemitério Pechincha – Rio de Janeiro.


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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.