Bené Fonteles

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Bené Fonteles
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O artista plástico, cantor, compositor e poeta paraense Bené Fonteles tem um trabalho respeitado por muitas estrelas da MPB e intelectuais brasileiros.

Inicia-se como artista plástico e compositor no começo da década de 70 em Fortaleza (CE), onde também se torna jornalista e editor de arte. Em 1972, inicia trabalho de animação cultural, curadoria e montagem de mostras por quase todo o país. Decide como uma proposta de arte, nunca sair de seu país de origem e aprofundar seu conhecimento de um Brasil Universal. Morando em sete estados brasileiros situados estrategicamente em todas as regiões do país, toma conhecimento de sua realidade sócio-cultural, ecológica,e espiritual e faz da criatividade e generosidade de seu povo afro-indígena e caboclo, o motivo de feitura e inspiração de sua obra.

Entre 1983 e 1986 dirigiu o Museu de Arte da Universidade Federal de Mato Grosso (MT) onde desenvolve trabalho ligado a multimídia e ecologia. Sua atuação neste Estado onde passa quase toda a década de 80, resulta na criação da Associação Mato-grossense de Ecologia, do Movimento Artistas pela Natureza, do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e das campanhas em defesa do Pantanal e Pelo Respeito aos Direitos Indígenas. A sua atuação como coordenador do Movimento Artistas pela Natureza o faz viver desde 1991 em Brasília (DF) e atuar com várias ONGs e instituições oficiais, nacionais e internacionais para a realização de projetos de arte e educação ambiental em defesa dos mananciais hídricos.

Edita em 1983 o disco “BENDITO” com participação especial de Luiz Gonzaga, Tetê Espíndola, Belchior, Luli e Lucina e Egberto Gismonti, lançando-o com show no Centro Cultural de São Paulo. Em 1987 lança com recital no SESC-Pompéia e show no Auditório do MASP, o disco – “Silencioso” onde só existe a capa e cuja proposta é ouvir o silêncio. Em 1992, com show no vão – livre do MASP, lança o CD – “AÊ”, com a participação especial de Egberto Gismonti, Tetê Espíndola, Duofel e Ney Matogrosso.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Bené Fonteles para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 04\2005:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com a música. A sua cidade de origem e sua data de nascimento?

Bené Fonteles: Quando eu era ainda criança, a coleção de discos de meu pai. Ele tinha uma caixa mágica com músicas do mundo inteiro, do erudito ao popular com arranjos incríveis até do Guerra Peixe. Aquilo foi uma base fantástica na minha formação musical. Outra coisa foi ouvir o mestre Luiz Gonzaga que era o máximo da música no nordeste e no momento. Teve também os sambas canções que minhas irmãs ouviam: Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Miltinho e etc. E a presença muito inspiradora do meu professor de história na adolescência nos levando para ouvir na sua vitrola o melhor da MPB: Noel Rosa, Araci de Almeida. E sua paixão por Nelson Gonçalves que ouvi muito, e sei até hoje de cor. Nasci em Bragança – Pará em 21 de março de 1953 onde fiquei até os cinco anos e depois voltamos para o Ceará.

02) RM: Quais foram suas principais influências musicais? E quais as influências que permanecem presentes no seu trabalho?

Bené Fonteles: Não creio em influências, mas sim, em atos inspiradores que recebemos de outras pessoas sejam artistas ou não. E estas inspirações são fundamentais para alimentar a alma de qualquer ser. O que permaneceu e me emociona até hoje, foi à presença generosa de Luiz Gonzaga que não só me adotou como um dos seus muitos “filhos postiços”, mais também por que foi um artista profícuo, popular e o mais importante musicalmente junto a Caymmi em sua geração. Eram mar e sertão de talentos infinitos.

03) RM: Qual a sua formação musical? E quando inicio a sua atuação profissional?

Bené Fonteles: Nenhuma formação acadêmica. Não sei uma nota musical. Componho tudo intuitivamente. Não acho uma grande vantagem, mas músicos com que trabalhei, gravei e compus como Egberto Gismonti e Gilberto Gil, acham melhor que eu não saiba mesmo de música em pautas e teorias. Pois talvez, não iria compor segundo eles, com tanta liberdade e ousadias harmônicas e melódicas. Nunca comecei profissionalmente, pois sou um eterno amador em todos os sentidos.

04) RM: Qual a influência da vivência e criação poética na sua atuação e criação como músico?

Bené Fonteles: Deixar-se inspirar pelo mito – poética do Mundo e encantar-se pela vida e deixar também fluir a intuição que compor não é só do querer. Procurar o caminho transparente da transcendência é outro instrumento muito útil para a co-criação de mundos, já que somos parceiros de algo sem nome e impalpável que permeia todo Universo.

05) RM: Quantos discos lançados? Em que anos e títulos? Defina cada obra?

Bené Fonteles: O primeiro disco em vinil saiu em 1983 e se chamou “Bendito”. Este eu definiria como uma obra que experimentava sonoridades com uma música concebida com instrumentos de todos os continentes e uma poética cujo ponto de partida era Mato Grosso aonde vivia, e, deste Estado para uma universalidade que sempre ambicionei. Nele contei com a luxuosa participação do mestre Luiz Gonzaga, além de Egberto Gismonti, Tetê Espíndola, Luli e Lucina, Jorge Mello e Belchior que produziu o disco. O segundo em 1987 foi um disco “Silêncio” que saiu só a capa do vinil. Era uma proposta meio ousada de ouvir o silêncio, de dar muita importância à meditação e um tempo para escutar a si mesmo musicalmente e espiritualmente. O terceiro saiu em CD em 1991 e se chamou “Aê” – Amigos em tupi – guarani. Este é um disco para mim fundamental pelas ideias filosóficas de mestres do sufi e do zen, com o encontro entre o ocidente e o oriente numa mesma vertente que é fazer música querendo algo mais que simplesmente à arte da estética. Nisso me ajudaram músicos e cantores que amo muito como Egberto Gismonti, Duofel, Tetê Espindola, Ney Matogrosso, Cristina Santos, Edu Helou, Paulinho Oliveira, Leandro Braga, Nonato Luiz e outros que foram cúmplices de uma jornada musical rumo a querer o outro: o músico, o cantor e o ouvinte como metade de mim mesmo. Em 2003 lancei uma coletânea chamada: “Benditos” que reunia as faixas que achava mais expressivas destes discos. E com um encarte que contava como as músicas haviam sido feitas e como tinham acontecido as parcerias musicais e instrumentais.

06) RM: Comente sobre o seu show.

Bené Fonteles: Um exemplo: quando lancei a coletânea: “Benditos”, fiz três dias de shows no Teatro do Sesc Pompéia e convidei Egberto Gismonti e seus filhos Alexandre e Bianca que vi nascer e crescer e que agora são sensibilíssimos e competentes músicos. Vê-los no palco tocando com o pai a música genial dele, foi mais do que emocionante. Convidei também a maravilhosa Tetê Espíndola e juntos com Duofel, fizemos um dos momentos mais lindos de improviso e emoção no show. Os músicos que me acompanham há muito tempo, Rui Anastácio na viola e violão e Cláudio Vinícius na kalimba e viola, não fizeram também por menos como músicos e parceiros.

07) RM: Fale dos seus lançamentos literários.

Bené Fonteles: Lancei no começo da década de 90 “O livro do ser” pela editora Vozes, onde poemas e textos lançavam a ideia no país da “ecologia do ser” hoje já referendada por nomes como Leonardo Boff, Frei Betto e os transpessoais Roberto Crema e Pierre Weill. Em 2000 saiu o livro “Giluminoso, a pó. ética do ser” que fiz sobre Gilberto Gil com um ensaio, uma grande entrevista, 50 letras de Gil que fizeram nossa cabeça e um disco voz e violão que produzi dele encartado no livro. Em 2002 saiu o livro “Ney Matogrosso – ousar ser” para qual escrevi ensaio, longa entrevista com Ney, fotos maravilhosas de Luiz Fernando Borges da Fonseca que acompanhou Matogrosso durante duas décadas, fez muitas capas de seus discos. Esta edição ainda tinha um CD de Ney cantando Cartola que depois saiu comercialmente. Em 2003 lançamos o livro “Gil 60 anos – Todas as contas”, uma foto biografia textual para qual escrevi também um ensaio. O livro com 260 fotos do arquivo de Gil e de amigos fotógrafos, tem textos fundamentais escritos sobre Gil, sua discografia completa e um ensaio genial de Antonio Risério. Em 2004 lancei o livro “Ausência e presença em Gameleira do Assuruá” uma publicação de arte e cidadania com mais de 500 fotos que fiz de uma vila do agreste baiano. O ensaio que escrevi não é só poético mais também antropológico e etnológico. O livro tem a renda revertida para os projetos sócios culturais e ambientais desta vila.

08) RM: Como analisar a produção musical dos anos 60, 70 e 80 com o que está sendo feito a partir da década de 90?

Bené Fonteles: Como compositor que começou as primeiras tentativas musicais ainda na década de 60, embora não muito significativas nem na década de 70, sinto que a diferença básica é que a intuição, a espontaneidade sentimental e histórica daquelas três primeiras décadas, deu lugar a pouca ousadia e muita moda de som e produção. Agora se faz uma música com mais liberdade de expressão e com menos liberdade de criação por que o mercado impõe um comércio vil. O que não impede de grandes artistas continuarem compondo maravilhosamente bem, só que com muito pouco acesso a este mercado, que se tornou censor da produção da melhor qualidade. Assim os artistas se tornaram produtores alternativos e alguns perderam tempo com isso em vez de estar criando. Alguns conseguiram fazer as duas coisas muito bem, como Egberto Gismonti, ao buscarem novas formas de veicular suas aspirações, inspirações e ousadias estéticas. Isto até Tom Jobim sofreu há décadas, ele mesmo bancando a produção de obras magistrais como “Urubu” e “Matita Perê”. 

09) RM: Quais os prós e contras de fazer um trabalho na cena independente?

Bené Fonteles: Só tem pró. Você não é só dono do seu negócio na cena independente. Você é livre para amar sua arte e a dos outros.

10) RM: Por que da escolha de Brasília como seu habitat profissional?

Bené Fonteles: Aqui é o tubo de ensaio da utopia. Uma cidade cosmopolita como só São Paulo no país. Aqui o cerrado é tão amplo de paisagem e céu que parece um mar muito inspirador de belos por – de – sóis inesquecíveis. Estamos perto de águas limpas e prontas para o nado e o gosto. Aqui um poder paralelo é bem mais vasto do que o poder terreno da Praça dos Três Poderes. Aqui é a minha pátria. A minha pátria é a linguagem da natureza interior e exterior. Aqui a amplidão do cerrado está propondo momentos de solitude que deixam você consigo mesmo. Estes momentos não deixam você se enganar com as cidades do ego, as urbes feudais sempre te chamando mais para a ambição de ter do que de ser. É claro, que você pode viver em Sampa ou no Rio e transcender todos os excessos, mais aqui é mais fácil e confesso, é mais cômodo e mais bonito.

11) RM: Nos apresente as principais atividades culturais de Brasília?

Bené Fonteles: Tem espaços para a música relativamente bons. Mais o mais importante é a cena cultural e espiritual que a cidade oferece de sossego e paz para criar e se expressar, pois lugares não faltam. Não foi à toa que daqui saíram artistas expressivos da cena contemporânea que nem é preciso citar. E outros estão vindo para cá como João Donato, Rosa Passos. Aqui tem um clube e escola de choro ímpar no Brasil e uma Escola de Música muito eficiente que promove encontros anuais com gente de todo mundo. Muitos nomes anônimos de talento também como Célia Porto, Renato Matos, Cláudio Vinícius, Rênio Quintas, o grupo instrumental Alma Brasileira que é muito bom e outros, continuam aqui por teimosia e por adorarem a cidade. Para mim as atitudes individuais são mais importantes que as coletivas. Por isso, cito gente que fazem aqui as coisas acontecerem em eventos do Teatro Nacional ao Teatro Garagem do SESC, dos Teatros da Funarte ao Espaço Cultural da Caixa e outros lugares alternativos que são muitos e múltiplos em seus conceitos de abrigar determinadas tendências culturais do forró ao rock. Os artistas aqui fazem à arte acontecer mais do que as instituições culturais num lugar infelizmente onde a cultura é muito estatizada. A produção cultural em Brasília não pode ser dependente de uma indústria que sequer existe para fomentar a lei de incentivo a cultura do MinC. Aqui neste sentido é duro, e. temos que fazer tudo mesmo na marra e na coragem.

12) RM: Fale da sua atuação como produtor cultural?

Bené Fonteles: Faço desde a década de 70 e agora não tão intensamente como de uns anos pra cá. Quero mesmo é ser artista e que me produzam que não estou mais naquela idade aventureira do fazer. Agora confesso quero colher também os frutos de mais de três décadas de atuação em várias frentes culturais. Afinal tenho muitas profissões e funções nas artes plásticas e gráficas, na música, na literatura, na militância ecológica, na curadoria e montagem de mostras e na formação de educadores.

13) RM: Como você analisa a atuação cultural e musical dos seus contemporâneos?

Bené Fonteles: Está quase todo mundo pensando que está fazendo arte, mais estão fazendo mesmo é publicidade ou pornografia cultural. Para fazer arte é preciso de três atitudes fundamentais: integridade, harmonia e radiância. Poucos sabem o que realmente significa isso que nos inspirou um São Tomás de Aquino e que nos decifrou dele, humanos tão inspiradores como James Joyce e Joseph Campbell. Ambos literalmente nos explicitam estes três princípios fundadores em suas obras que ninguém pode deixar de ler e se aprofundar. Artista que não se informa não é digno de sua arte. É um autodidata descuidado. É preciso unir a pratica e o conhecimento para torná-los: sabedoria.

14) RM: Seus mais recente CD tem poética e estética (sonora e gráfica) que destoa do mercado musical tradicional. Fale de suas divergências e convergências com a prática do mercado fonográfico nos últimos anos.   

Bené Fonteles: Eu não tenho divergências com o mercado fonográfico por que jamais tive a pretensão de participar dele. Apesar de propostas desde quando fiz meu primeiro e único vinil. Duas coisas que prezo muito: a privacidade e a liberdade para fazer o que quero. E ser artista de mercado e mídia é um perigo para estas duas ambições.

15) RM: Quem são seus principais parceiros musicais?

Bené Fonteles: Duas pessoas que adorei trabalhar na minha vida musical: Egberto Gismonti por ele ser a própria música e pela dignidade com que ela a faz. Quando canto ou recito junto com ele, me sinto no paraíso e ele me faz sentir que não é o “Egberto Gismonti” – o mito – que está tocando. O outro é o parceiro de algumas canções e outros afazeres do musical ao ecológico, Gilberto Gil, porque não separa nada, matéria do espírito, música de comida, e etc. Ele desmistifica as coisas o tempo todo. Não é maniqueísta. É um irmão parceiro por quer busca a verdade como eu. Quando mostro minhas composições, ele pega no ar a música de primeira por que já tem ela em si. Adoro mostrar meus sambas para ele, não só por que ele gostar dos meus sambas, mais porque toca no violão e no coração, chora nas audições e entende minha alma como poucos. É um prazer danado fazer recitais com ele por ai, às vezes no palco, às vezes nas casas dele.  Respeito muito Gil no ministério da cultura, mais prefiro mesmo ele no mistério da arte. Sim, outro que adoro colocar letras nas músicas maravilhosas e sensíveis que compõe, é o grande violonista Nonato Luiz com quem gravei. Tenho a honra de colocar letra em meia dúzia de suas preciosas músicas, emocionantes canções que adoro cantar. Outra maravilha é cantar com a dupla Duofel que não só compõem muito bem como tocam além do virtuose.

16) RM: Fale dos projetos para 2005?

BF – Os planos para 2005 é fazer um disco com uma coletânea de recitais ao vivo que fiz em São Paulo em 2003, no SESC Pompéia. E que já citei um show que fiz em Goiânia ano passado e umas gravações com Nonato Luiz. O CD que terá uma faixa bônus com Zeca Assunção no baixo, Luli e Lucina na percussão e cordas e Gilberto Gil no violão e cantando comigo o “Samba da Alegria”. Um samba exaltação daqueles antigos como fazia a velha guarda das escolas. É um samba que precisamos cantar e dançar para nos entusiasmar o corpo e a alma nestes tempos escuros e confusos que o Mundo em transformação atravessa e anuncia outros paradigmas, e parece, que outros ambientes musicais mais harmoniosos. Sou um otimista incorrigível.

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Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.