Babilak Bah

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“Depois dos pratos & facas e caixas de fósforos dos sambistas, das queixadas de burro incorporadas à percussão por Airton Moreira, das panelas cheias de pedras e naipe de garrafas de Hermeto Pascoal (que usou: porcos e galinhas), dos tubos de PVC do Uakti (discípulo do inventor Walter Smetak), das descargas de automóvel de Rogério Duprat, das enceradeiras de Tom Zé, do chaveiro de Orlan Divo, mais um instrumento cotidiano incorpora-se à música deste país polifônico: as enxadas de Babilak Bah”.  Por Tárik de Souza.

O percussionista, compositor e poeta paraibano Babilak Bah criou o “Enxadário: orquestra de enxadas”, através de experimentações sonoras explorando os timbres, desta ferramenta, que ele manipula como instrumento musical. Ele é um criador compulsivo e dono do que se pode chamar de “teimosia artística”. Bahse autodenomina mais um “propositor” e “um artista do ruído” do que um compositor. E o que norteia o seu fazer artístico nestes 20 anos de carreira é a persistência de construir um trabalho autoral, singular, com identidade própria. Seu talento vai sendo nacionalmente reconhecido com a sua participação na coletânea Rumos Itaú Cultural /2005, na Caravana Pixinguinha do Ministério da Cultura, nos festivais como Conexão Vivo de MúsicaFeira da Música Independente Internacional de Brasília e na apresentação no Melhores do Prata da Casa do Sesc – SP.

Atualmente, aprofunda a pesquisa da “timbralidade” das enxadas e sua poética experimental, desenvolvendo o “Enxadigma”. Uma fusão de tambores, sopros, enxadas e novos instrumentos. Associando sua percussão contemporânea com ritmos da cultura popular e a música eletrônica. Ele tem uma exuberante performance no palco e sua verve poética é destacada por composições apresentadas através do seu “canto falado”.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Babilak Bah para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 05.09.2009:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Babilak Bah: Nasci no dia 01 de janeiro de 1964, em João Pessoa – PB. Registrado como Gilson César da Silva.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Babilak Bah: Meu contato inicial com a música foi dentro de casa ouvindo minha mãe cantar seus versos. Depois foi na rua ouvindo emboladores de coco e os repentistas nas feiras do nordeste. E depois nos primeiros discos de vinil e compacto long-play que ouvia na casa de um vizinho na cidade Bayuex – PB. Em seguida vieram as bandas de baile no período da adolescência. E as descobertas do mundo e outros universos sonoros e comportamentais. Nesta época entrei em contato com o rock, o universo regional, os concertos da orquestra sinfônica da Paraíba, os músicos da cena underground como Lula Cortês, Kátia de França, Pedro Osmar e outros. E o universo experimental de Hermeto Pascoal e do grupo de estudos Jaguaribe Carne liderado pelos irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró. E uma maior aproximação da cultura popular e as estéticas musicais africanas. Deste ecossistema sônico, poli – rítmico e experiências distintas fabriquei minha subjetividade artística musical.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

Babilak Bah: Sou de formação autodidata, sempre vivi e vivo uma crise com o sistema institucional de educação. Então, por este motivo sempre busquei de forma dramática a informação de um jeito independente, pragmática, insistente, numa teimosia sem fim. Costumo dizer que sou fruto direto da experiência pratica da vida, construí meu saber no percurso da existência.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Babilak Bah: Sou um indivíduo formado da experiência direta da vida, sou o resultado dos meus ancestrais. E creio que trago em mim todas as experiências da vida alojadas no meu DNA biológico e social. E não sou um sujeito de uma cultura autóctone, não me fiz por mim mesmo, me fiz dialogando com outros atores do universo. E na teia da vida costumo receber influências das pessoas anônimas, bem como de personalidades consagradas. Tenho como estética a existência e tudo nesta vida me influência e serve de alimento para minha criação e reflexão do mundo. E nesta corrente de influência e confluência. Bebi em muitas águas e devorei palavras e homens, degustei sons, portanto procurei dar sentidos a tudo que me serviu de alimento, então, para mim foram importantes pessoas como: Pedro Osmar, as bandas de baile da Paraíba, Pink Floyd, Quinteto Violado, Banda de Pífano de Caruaru, Ylê Aiê. As influências que deixaram de ter sentido para mim foram projetos musicais fechados que defende uma ideia de música pura tipo Quinteto Armorial (foi um importante grupo de música instrumental formado por Ariano Suassuna e Antonio Nóbrega em Recife – PE em 1970 e acabou em 1980. A proposta era criar uma música de câmara erudita com raízes populares).

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Babilak Bah: A gente nunca sabe quando começa uma vida artística porque são muitas confluências que nos levam a desenvolver o tal oficio. Há neste percurso uma aura de mistério, de encantamento, neste lugar do universo da arte. E a gente vai fazendo como se fosse uma brincadeira e a coisa vai ficando séria e este fazer vai tomando conta da gente e proporções alarmantes. Quanto menos a gente percebe já estamos envolvidos cabeça, tronco e espírito no universo do fazer artístico. E dai tomamos a decisão e chegamos também a algumas conclusões: que não vivemos sem este fazer. Então, entramos em outra dimensão do fazer artístico de realmente viver desta coisa que até então era uma brincadeira e um encantamento. E dai partimos para o estudo sério de querer realmente aprender nossa profissão e viver dela. Neste lugar o bicho pega porque começamos a ter noção da função política, social e histórica do papel da arte na sociedade e suas implicações. Foi assim, que aconteceu comigo. Creio que deve ser com muita gente do mundo arte. Não fui planejado pra ser um artista, as circunstâncias da vida me levaram a este ofício.

06) RM: Quantos CDs lançados (músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que caíram no gosto do seu público?

Babilak Bah: No momento eu só produzi um CD – “Enxadário: Orquestra de Enxadas”. Este foi um trabalho de pesquisa que desenvolvi há dez anos numa série de oficinas na cidade Belo Horizonte – MG. Em um primeiro momento em forma de oficinas e em um segundo momento, eu tive a necessidade de documentar esta pesquisa em um disco. Então convidei alguns músicos para participarem desse projeto e da produção do disco. Que contou com o apoio de várias instituições e também vários músicos e arranjadores como: Andersen Viana, Helder Araújo, Rogério Vieira, a cantora mezo-soprano Rita Medeiros. E me juntei a uma dezena de músicos da cena independente de Belo Horizonte, e alguns no inicio de carreira. A música que se destacou foi “Vou me Raoni” surgiu a partir de um poema do Luiz Turiba com o qual criei um diálogo acrescentando alguns versos numa sonoridade meio baião. Em 2002 realizei outro trabalho intitulado de “Trem Tan Tan” resultado das minhas oficinas junto a portadores de transtornos mental.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Babilak Bah: Acho complicado me rotular. Faço arte musical. E tenho vontade de desenvolver vários tipos de trabalhos, ainda não realizei a metade dos desejos que trago comigo. Sou um sujeito em processo, consequentemente minha arte reflete minha vida e visão de mundo. Sou um emaranhado de coisas e linguagens que estão colados na inquietude e pulsando para serem expressas e ditas ao mundo da linguagem.

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Babilak Bah: Primeiramente, não me considero um compositor em seu sentido clássico. Coloco-me no mundo como um propositor. Um sujeito inquieto que gosta de viver em grupo e partilhar o sensível. Posso dizer, talvez, que eu seja um anarquista. Gosto de criar com as pessoas e eu considero esta palavra carregada de muita autoridade. Vejo neste conceito algo ultrapassado e arcaico. Sou um criador de ruídos, de idéias, perambulo por conceitos e aceito várias formas e estratégias de criar e de interferências na minha criação. Acho necessário re-significar as coisas para que possamos mudar o mundo e seus conceitos e preconceitos. Faço minha arte de maneira diversificada: colando, imitando, em conjunto, solitário, isto depende da exigência da criação.

09) RM: Quais são seus principais parceiros musicais?

Babilak Bah: Tenho nas pessoas que tocam comigo meus grandes parceiros, meus grandes aliados no desenvolvimento meu trabalho. Entre eles destaco: Jornny Herno, Leonardo Brasilino, o pianista Gilberto Mauro, Carlos Ernest Dias, Waldo Lima do Vale. E todas aquelas pessoas que um dia se aventuram a fazer uma vivencia percussiva: oficina experimental lúdica de sons e movimentos.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Babilak Bah: Sempre tive nos independentes e na cultura marginal minha grande inspiração para fazer o meu trabalho. Creio que fazer arte sempre foi uma tarefa complicada e difícil. É necessário muito amor pelo que se faz e um desapego pelas coisas. E uma crença cega e uma atitude diante do mundo de forma objetiva e contundente para ultrapassarmos os limites de uma vida profissional. Fugir das ilusões que o mundo da “arte fácil” pode oferecer, portanto, quem trabalha com responsabilidade com seu trabalho no universo da invenção e da criação vai encontrar muitas dificuldades para mostrar seu trabalho. O importante é está constantemente fazendo sua onda minar os empecilhos e os imbecis que encontramos pelo caminho.

11) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Babilak Bah: Eu não sou um especialista ou estudioso da cena musical brasileira, mas o que percebo é que vivemos uma fase de fim dos ícones e o surgimento dos ícones plurais. Tenho visto uma produção diversificada e ampla no sentido estético. E hoje temos várias possibilidades de mercado, várias formas de desenvolver um trabalho artístico no país e no mundo. Entretanto, as coisas não estão fáceis porque impera outra possibilidade de controle social e hegemonia cultural no país que são as corporações culturais (movimentos sociais e culturais) que estão cada vez mais se organizando em nichos e seguimentos. Percebo que o importante é a articulação, saber os processos de uma produção, disponibilizar e distribuir nosso trabalho. Em relação ao surgimento de novos nomes. Surgiram nas ultimas décadas, músicos com belos trabalhos, mas muitos ainda comprometidos com o mercado. Sendo assim, não promoveram rupturas com as gerações anteriores, deram seqüência ao mundo do consumo e não promoveram uma escuta radical. Hoje meu grande interesse se dar pelo movimento da música eletrônica, não a eletrônica de pista. Mas a realizado pelo movimento da música eletroacústica.

12) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Babilak Bah: Trago na minha experiência artística exemplo de grandes nomes como: Dominguinhos, Sivuca, Pedro Osmar, Zé Ramalho, Tom Zé, Zé da Flauta, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Milton Nascimento, Naná Vasconcelos, Airton Moreira, Flora Purim, Chico César, e muitos outros.

13) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Babilak Bah: Um artista que exercer seu trabalho para um público tosco. Isto será uma realidade comum na carreira. E creio que uma vida artística se faz de maneira bastante tumultuada e com experiência diversifica e ampla. Principalmente no Brasil e na vida de um artista autodidata. Eu vivi muitas experiências desagradáveis na minha careira musical, mas, por incrível que pareça aprendi muito com elas. Uma vez fui contratado para trabalhar numa companhia de dança em Buenos Ayres – Argentina e quando cheguei lá não era nada daquilo que havia sido combinado. Então, me vi sem dinheiro e fora da minha realidade corriqueira, mas foi bastante rica esta experiência na minha formação pessoal e profissional.

14) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Babilak Bah: Feliz é a possibilidade de estarmos juntos e articulando tramas e sonhando uma utopia que outro mundo é possível. E estar no universo da música é encantador e desafiante em vários sentidos. O que me entristece é a corrente paradoxal dentro do relacionamento dos profissionais da música, ela reúne multidões e separam os músicos, isto é assustador.

15) RM: Nos apresente a cena musical paraibana e mineira? E quais os motivos lhe fez escolher Belo Horizonte pra desenvolver seu trabalho? 

Babilak Bah: Faz muito tempo que sai de João Pessoa – PB e não conheço a cena musical atual. Mas estive em lá (Jampa) recentemente e vi um movimento de músicos jovens bastante afinados com as novas mídias e o universo da internet. Uma cena musical se organizando, buscando novos caminhos e abrindo possibilidades para ampliar a sua atuação de trabalho. Entre eles destaco o Burro Morto, o cantor Toninho Borbo, Chico Corrêa, Kennedy Costa, Tribos Ethos, as cantoras Eleonora Falcone, Mira Maya, Diana Miranda, Regina Brown. E ainda podemos acrescentar a personalidades jurássicas como os irmãos Pedro Osmar e Paulo Ró (Jaguaribe Carne), Adeildo Vieira, o grande artista EscurinhoSandoval Fagundes, Milton Dornellas, Gláucia Lima, Beto Brito, Marxuvipano, Unidade Móvel, Néctar do Groove, Léo Almeida, Arautos Profanos, Jackson Envenenado, Júnior Cordeiro e a grande revelação dos últimos tempos o grupo Cabruêra e muitos que agora me fogem a memória.

Já em Belo Horizonte – MG é uma cena em que estou inserido e vivencio as dificuldades do dia a dia. Percebo uma cena musical diversificada e desconhecida por boa parte do Brasil. Há em BH grandes nome surgindo no cenário musical brasileiro. E destaco uma nova geração de músicos e compositores que além da qualidade técnica têm também uma postura política bastante positiva diante das dificuldades da organização social da musica. Eles, buscando participar, ampliar as discussões. E rever e discutir o papel do poder público, por intermédio de um fórum amplo de debate estabelecendo uma maior profissionalização, ampliação e melhor distribuição dos recursos públicos em prol de uma política pública para música. E aí posso destacar: Vitor Santana, Makeli Ka, Pablo de Castro, Kristoff Silva, Gilberto Mauro, Mauricio Ribeiro, Pedro Morais, Julia Ribas, Juliana Perdigão, Renegado, Antonio Loureiro. E os grupos Black Sonora, Tambolêlê,e nomes já estabelecidos como Mauricio Tizumba, Marina Machado, Flavio Henrique e a rapaziada do choro, do samba e por ai vai.

O que me fez me mudar para Belo Horizonte foi mais minha inquietude de mudar de vida e circular pelo mundo. Antes de chegar a Minas Gerais estive noRecife, Maranhão, Brasília, Santa Catarina e Bueno Aires. Minha organização em BH não foi um encontro fácil, no entanto foi amor à primeira vista, amores que agente não explica, só vive… Intensamente.

16) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Babilak Bah: O jabá é caso de polícia e essencialmente político. É no campo do jabá que habita todo problema da música brasileira. Sendo necessária uma ação do governo para intervir drasticamente para que o gosto e a escuta seja democratizada em todos seus aspectos e sem manipulação. Enquanto não toco nas rádios disponibilizo meu trabalho pela internet. Que hoje é um grande veiculo de divulgação e ampliação de mercado.

17) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Babilak Bah: É necessário estudar. Ter o domínio da técnica, da história da arte, gostar de internet, dominar estas ferramentas; Ter interesse pelas novas mídias. Está ciente das transformações do mercado fonográfico. Estar associado a uma cooperativa de músicos. E desenvolver o aspecto político, conhecer das políticas públicas e rezar para Santa Cecília todos os dias.

18) RM: Fale de sua atuação com arte-educação?

Babilak Bah: Desenvolver trabalhos sociais é gratificante. Primeiro, porque eu sou fruto desta ação e é importante passar o que aprendi e desenvolvi no campo da arte e do saber para outras pessoas. No meu envolvimento com o movimento social eu destaco minha aproximação, nos últimos tempos, com Luta Antimanicomial. Em que desenvolvo um trabalho de música com pessoas que tem transtorno mental. E há 8 anos coordeno o grupo Trem Tan Tan. Tendo produzido um CD homônimo; um trabalho enriquecedor e desafiante na aproximação entre arte e loucura

19) RM: Quais os projetos futuros?

Babilak Bah: Planejo produzir um CD intitulado: “Biografia de Homens Inquietos”. Um trabalho pautado na palavra como eixo central da minha musicalidade. E lançar um livro de poemas; “Corpoletrado”. E me dedicar em um projeto musical criando interação com a imagem e novas tecnologias. Procurar difundir cada vez mais minha pesquisa da linguagem das enxadas pelo país. E produzir um documentário para ser lançado no meu aniversário dos 50 anos em 2014.

20) RM: Deixe seus contatos?

Babilak Bah:  www.babilakbah.com.br / www.myspace.com/babilakbah  / www.youtube.com/babilakbah  / [email protected]

| (31) 99913 – 9650 

Link do documentário sobre o Babilak Bah: http://www.youtube.com/watch?v=BbdsPRUzNwM&hd=1

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.