Ritmo Melodia

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 Sonekka 

 

Rodrix e o Caiubi.

Junho - 2009


Um telefonema no meio da madrugada e veio na minha cabeça um flashback, uma cena: - Eu completamente embriagado em uma festa, convidando Zé Rodrix para visitar um suposto Clube de Compositores que queriam lhe prestar uma homenagem. 

Não era tão balela assim, o clube existia, era o Caiubi - Rua Caiubi 420 – Perdizes - SP. Um boteco extremamente simplório, frequentado por uma dúzia de dementes que insistiam em fazer canção em plena derrocada da indústria fonográfica. A minha intenção era de que figuras que já tinham uma história na música conhecessem o que a gente compunha e quem sabe se interessassem. Acontece que o tal Zé Rodrix foi e atentamente, prestava atenção em música por música.                    

Nem o mais teimoso bajulador estava conseguindo desviar a atenção dele naquela noite. Elogios a todos e a promessa: - Vocês vão enjoar de me ver aqui. Para nossa surpresa ele continuou a ir, semana a semana, e nos envolvendo com todas as histórias da música e nos jurando que o que a gente fazia na música tinha todo valor artístico. Logo, começou a compor música com alguns de nós. Logo, trouxe outras pessoas que passaram a serem nossos amigos. Era essa mola mestra de seus ensinamentos, "Em primeiro lugar a amizade, depois as canções e só depois o artista". A gente sabia muito bem o que ele queria dizer com isso. Que se a gente quisesse chegar a algum lugar com aquelas músicas, era preciso se manter unidos, produtivos e com o ego muito bem domado. Não demorou pra que ele negociasse lugares pra que a gente se apresentasse. Dirigia-nos, escolhia repertório, acertava a luz, equalizava o som, montava os grupos de "caiubistas" por afinidade. Lembro desse incansável no TUCA, em uma série de shows no Supremo, lembro até dele viajar 500 km conosco - ida e volta pra Botucatu-SP pra tocarmos pra quase ninguém. Lembro de ele ir a Santos-SP ensaiar com seis insanos, Os Tropeçalistas.

Logo ele que já tinha estado com Edu Lobo quando ganhou com Ponteio no Festival da TV Record de 1967, e desse festival gravou como integrante do Momento4 com quem gravou também. Ele que ganhou um festival em Juiz de Fora - MG com a música Casa no campo (Zé Rodrix/Tavito), essa música foi gravada e fez sucesso mundial na voz de Elis Regina. Ele que era do Som imaginário precedendo toda psicodélia e o progressivo dos anos 70, junto com Tavito, Fredera, Wagner Tiso, acompanharam Milton Nascimento e seguiram gravando. Ele que esteve em quase todas as faixas do lendário disco dos Secos & Molhados de 73. Que criou com Sá e Guarabyra o Rock Rural e com isso uma teia de sucessos. Ele que em carreira solo foi primeiro lugar nas paradas com Soy Latino Americano e seguiu por toda década desafiando os trilhos da indústria como sempre fez e antecipando a onda de artistas performáticos. Um Rodrix que antecipou até mesmo a década de 80 quando esteve com o Joelho de Porco e seu rock-punk-brega que escrachava uma indústria fonográfica lotada de ídolos de arame. Anos a fio, os compositores daquela Rua Caiubi ficaram itinerantes por vários lugares e lá ia o apresentar a todos. Era por um microfone na frente dele e ele explodia o carinho e a confiança que tinha em uma trupe de absolutos amadores. Amadores! Talvez essa seja a palavra mais correta embora no sentido avesso. Ele nos amava porque a gente amava fazer música. Foram anos vendo a empolgação em pessoa produzindo. Eram jingles, livros riquíssimos, dezenas de participações em CDs, DVDs, espetáculos, artigos, palestras. Parecia um mágico. Até hoje me pergunto que horas que ele usava pra escrever aqueles livros de 500 páginas intrincadíssimos, se ele estava sempre em algum lugar fazendo alguma coisa diferente. Ainda sobrava tempo para cozinhar as melhores receitas do Le Cordon Bleu's pros amigos importantes. E esses amigos importantes éramos nós da casinha azul da Caiubi, 420 e mais alguns que ele mesmo trouxe pra se juntar a gente. Éramos sua turma de amigos, mas sobre tudo a turma de discípulos. 

A turma final de um mestre que ensinou tudo de música, de performance, de direção, de literatura, o palestrante, o publicitário,  o cozinheiro, trilheiro, produtor que formou tantas e tantas turmas no decorrer da vida. A cada fase saía uma turma de profissionais que ditariam as tendências nos anos seguintes. Eu não sei se a turma dos seus últimos cinco anos de vida vai levar consigo uma centelha que seja da sua genialidade, mas sentimo-nos diplomados. A gente pode dizer "compomos em todos os estilos, com liberdade e somos éticos, nenhum malabarismo mercadológico faz os Caiubistas trocarem arte por dinheiro". 

Ele era categórico e disse mais de uma vez "Quero ser conhecido como o cara que revelou o Clube Caiubi". Não deu tempo, o telefonema no meio da madruga (22 de maior de 2009) a que me referi no inicio dessas lembranças era a notícia do falecimento do Zé Rodrix. E deixou um rombo no coração de todo mundo.

*Sonekka - Cantor, compositor, consultor de tecnologia/Informática e criador da rede social www.clubecaiubi.ning.com .

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