Ritmo Melodia

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 Pedro Osmar

 

O músico está passando fome. Alguém sabe o motivo?

Março - 2009

Em conversa informal com a cantora e compositora Sandra Viana (SP), pude perceber com clareza que a situação do trabalhador de música em São Paulo não é nada fácil, e nem tão simples como ostenta (parece que estamos sempre contentes com a vida que levamos...). Assim como qualquer profissional, o trabalhador músico tem até que “rebolar” para poder sobreviver de sua arte, mesmo que isso lhe custe a sua saúde e a sua dignidade. Em São Paulo eu ando muito de trem e metrô, e acompanho bem de perto o trabalho de alguns profissionais músicos nos vagões. Músicos populares que tentam “arrecadar algum” para fazer a feira, são constantemente surpreendidos pelo “rapa” nos vagões e estações, tendo seus pandeiros e violões apreendidos. Sendo às vezes levados para algum lugar, para uma conversa com o gerente... mas e quem toca na noite? Quem exerce a sua função de “zelar pela alegria do mundo” como bem disse Caetano Veloso, como é que fica? Tem algum “rapa” a lhes tomar os instrumentos? Há o respeito à sua dignidade profissional nos bares e restaurantes da vida comercial do mundo capitalista?

Acontece que nem todos os músicos que tocam na noite vivem de música! Muitos deles tem seus empregos confiáveis e tocam madrugadas adentro pelo simples prazer de tocar, de encontrar os amigos e familiares, ou para arranjar um amor...mas no geral, o músico toca na noite para poder fazer a feira no dia seguinte em casa: pagar o aluguel, água/luz/telefone, o transporte (trem, metrô, ônibus), medicamentos (muitos adoecem pela insalubridade); é que muitos vem de longe para trabalhar a sua arte e os seus mistérios, em nome dessa “alegria dos outros” a que o baiano se refere, na viabilização das atividades de música ao vivo. Mas há uma pergunta que não quer calar, quando o assunto é o exercício da profissão de músico: o músico tem mesmo motivos para sorrir diante das condições de trabalho que a realidade lhes apresenta? Será ele a conhecida hiena das noites de carnaval, cerveja e mulher? Uma coisa é certa: há músicos e músicos! Profissionais que tocam na rua e passam o chapéu, contando com a solidariedade e a compreensão de quem passa (situação histórica onde muita gente se revelou para a condição profissional), e o músico que toca em orquestras e bandas pagas, ou pelo estado ou pela iniciativa privada, tendo garantido o seu mísero futuro profissional enjaulado pela politicagem, como presente.

Como bem diz uma canção de Milton Nascimento: “foi nos bailes da vida, com a alma repleta de chão, que muita gente pôs o pé na profissão”...sempre foi assim, e assim será...” Será que quem escuta uma música dessa sabe do que ele está falando? Nós que somos trabalhadores dessa área nos sentimos contemplados com essa música, mas os “bailes da vida” que passam pelas quermesses dos bairros populares, pelas noitadas dos clubes burgueses e de periferia, encerram em si uma condição de vida não muito simpática e alegre, revelando, por vezes, a bruta exploração do capital sobre o trabalhador escravizado, que mesmo tocando em vários locais noites a fio durante a semana, não consegue trazer para casa o dinheiro valorizado que a sua família precisa para viver melhor (a esperteza de alguns empresários é uma pedra no meio do caminho de muita gente).

E a convivência com as várias “ditaduras do gosto duvidoso” dos clientes é, enfim, o último degrau de uma escada que termina na mediocridade das platéias formadas geralmente por um fio condutor que tem seu alicerce na ignorância dos empresários que fabricam o projeto político da cultura para o país, o eterno projeto baseado no lucro das corporações. É assim que essa realidade nos quer: pobres de espírito e de dinheiro, humilhados por uma máquina que pretende nos submeter aos seus equívocos irracionais. E pensam que termina aí? Existe a burocracia e os burocratas de plantão, chamados de Ordem dos Músicos e de Sindicato dos Músicos, para defender a categoria que continua pobre e eles, os burocratas, sempre cada vez “mais ricos, obrigado”, com o dinheiro alheio. No final das contas, o autor, o cantor, o compositor, o músico, o maestro e toda a cadeia produtiva da música no país revela um profundo abismo de injustiça entre esses produtores, àqueles que fazem “a ponte” entre os artistas e os poderosos, os que pagam para ter a diversão garantida, e os trabalhadores dessa arte musical que tanto dinheiro vem dando a esses empresários do ramo de “diversões públicas”, para tão pouco resultado prático.

Se o músico está morrendo de fome ou não, se está pedindo esmola pelas ruas e pelos trens de São Paulo (correndo o risco até de perder até o seu instrumento de trabalho), eu não sei. Mas de uma coisa eu sei: algo está bem errado na estrutura viciada desse meio musical acomodado, elitizado, que faz com que essas relações de poder nunca modifiquem as relações trabalhistas e todos os seus ministérios, secretários, delegados e agentes e fiscais (as chamadas autoridades competentes), que não cumprem o seu papel de prover a categoria com melhores condições de vida, em leis que pretendem fazer a defesa do trabalhador; mas que esse mesmo trabalhador está sempre tendo que deixar a sua arte para depois, passando a ser funcionário público de qualquer repartição ou empresa privada, para que pelo menos a sua arte possa estar livre dessa mesquinhez e hipocrisia desenvolvida em mercados cada vez excludentes e grotescos, tão comum em sociedades onde “manda quem tem poder, e obedece quem tem juízo”. Mas, e o que isso tem a ver com arte?

Para quem não sabe: O dia do Músico é o dia 22 de novembro, e a sua padroeira é Santa Cecília! Mas quem, realmente, nos protege contra a maldição das utopias baratas, que muitas vezes nos transforma em profissionais acomodados e conformados diante de realidades tão desesperadoras? Se nós zelamos pela alegria do mundo, quem zelará pela nossa segurança profissional? A Ordem dos Músicos? O Sindicato dos Músicos? O Congresso nacional e o senado? Ou uma categoria unida a partir de ações coletivizadas que nos garantam melhores resultados nas lutas de afirmação de nossa cidadania musical? Do jeito que está, não dá para ficar. É preciso que o profissional músico conquiste a sua consciência política e parta para exercer a sua profissão em formatos mais livres e menos fechados em acordos e argumentos patronais. É preciso que a gente tenha cuidado com quem pensa e age assim, para que a escravidão do trabalhador inocente não se transforme numa certeza inquestionável.

É possível que a organização de alguns coletivos de músicos, cantores e compositores seja a solução para que seja aberto um diálogo com as entidades e instituições que poderão gerar trabalho para esses profissionais: é o caso da RSMB (rede solidária de música, coordenada pelo compositor Madan); do Clube Caiubi de compositores (coordenado pelo compositor Zé Rodrix), do Musiclube de São Paulo (coordenado por mim e que teve atuação a partir de 2005 na Casa das Rosas), da Cooperativa de Música de São Paulo (presidida pelo Carlos Zimber), do Fórum Permanente de Música e provavelmente alguns outros coletivos de trabalho com música espalhados pelo estado que tem tido a mesma postura e interesse de “integrar” os autores musicais com as mudanças nas leis e regras de um mercado produtivo. A idéia é que a partir da organização desses coletivos possamos elaborar projetos de “Circulação de Shows” a ser aprovados por empresas como o SESC, o SESI, a Caixa Cultural, o Metrô, a CPTM, o Itaú Cultural, o Centro Cultural São Paulo, o Centro Cultural Banco do Brasil, entre outros, além de prefeituras e suas secretarias de educação e cultura, criando assim um mercado de trabalho produtivo que consiga responder de forma civilizada a toda essa “crise” que nos afeta há décadas.

Porque não a circulação de shows coletivos por escolas públicas, CEUS, Casas de Cultura, Bibliotecas, Teatros de Bairros, Universidades? Unidades do SESC, do SESI, do SEBRAE, do metrô, do trem e demais espaços culturais que podem tranqüilamente aceitar o projeto desses artistas em suas buscas de abertura do mercado de trabalho mais produtivo e popular? Mas aí me vem mais uma pergunta que não quer calar: quando todas as partes responsabilizadas nesse projeto/processo irão se reunir com as entidades e instituições para discutir as soluções para essa viabilização? Eis questão. E a saída requer, provavelmente, também contar com a interferência de uma representação parlamentar (comissão composta de vários partidos) para que esse diálogo seja possível na defesa da abertura e democratização desse futuro mercado de trabalho para o músico. Menos que isso, é pouco. Vamos em frente!!!

*Pedro Osmar - Cantor, compositor, Produtor Cultural e artista multimídia paraibano. Idealizador do grupo musical e de estudo Jaguaribe Carne.

E-mail: pedroosmar@gmail.com / www.myspace.com/pedroosmar