Ritmo Melodia

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 Pedro Osmar

 

O Trabalho cultural pelo Socialismo.

Fevereiro - 2009

                        Para todos os militantes culturais. 

Ninguém se engane: nossa luta militante pela vida, diária e cotidiana, toda ela, em qualquer instancia e expressão pessoal e coletiva, em seu “tempo e espaço de abismos”, é criada e construída em valores e bases democráticas, “contra o analfabetismo”, contra o crime que é o analfabetismo político, criado e mantido pelas forças reacionárias  para nos atrasar e confundir, esteja ele em forma “de não saber ler e escrever” em palavras, de “não saber ler e escrever” a realidade em atos e atitudes de justiça e cidadania, ou (incrivelmente), como parte de um plano dessas forças anti-democráticas que insistem em manter as populações pobres e miserabilizadas “sem entender” o que significa estar e ser escravo da miséria que é fabricada nos seus gabinetes na calada da noite.  

O que a arte, a cultura, a educação e a cidadania podem fazer para conter esse abuso de poder?

O papel da sociedade esclarecida, da intelectualidade politizada, das forças ativas, livres e desimpedidas é investir todo o seu potencial militante, crítico e criativo contra esse analfabetismo de fabricação caseira, perigoso e desumano; contra esse atraso, essa catástrofe de origem secular, base na qual se sustenta a fragilidade e a cruel miséria que mantém homens e mulheres, idosos e crianças num beco sem saída injusto e desumano, atados ao tronco da ignorância, que afronta e agride injustamente todos os direitos e deveres da nossa cidadania. É contra esta porca situação que nos levantamos, que voltamos nossos olhares, movimentos e conhecimentos (força e potencia), científicos ou não, para combater a miséria que nos morde e desmoraliza, que nos oprime, nos tritura e nos torna meros objetos de uso.

O que as forças progressistas podem fazer para continuar a sua missão de libertar o futuro dessa ignorância?

É a favor disto que se volta a nossa ação guerrilheira de cultura, nosso Trabalho Cultural pelo Socialismo, nossa ação educativa braçal que olha para frente na intenção de construir um novo futuro ideológico fundamental, uma nova certeza ideológica coletiva. A base dessa atuação é o combate ao analfabetismo político de todo dia, em ações solidárias e fraternas de educação e cultura nos bairros, por uma questão de agilizar projetos e processos de melhoria de condições de vida na cidade de João Pessoa, estado da Paraíba, Brasil (canta a tua aldeia, e serás universal...).

Que fique claro: nós temos, sim, compromisso em mudar todo esse contexto de miserabilidade educativa e cultural, “queiramos ou não” lutar em nome de uma dignidade popular/democrático-revolucionária, sejamos quem for, como feirante, artista, motorista, vendedor de coco na praia, varredor de rua, músico, poeta, professor, advogado, padre, pastor, pai de santo, mãe de santo, dono de bar, carroceiro, jornalista, ator ou político de qualquer partido. Que nossas bandeiras de luta humanista continuem sendo nossos faróis dentro da noite que nos arrepia! Os bairros mais pobres ou mais ricos de nossa cidade terão que se compor nessa luta contra o analfabetismo político, a bem de uma campanha educativa popular que precisamos criar, assumir e ter como trilho para que a arte que produzimos não seja colocada em nossa vida como mero entretenimento capitalista, base de lucro pessoal/empresarial de poucos calhordas. Nós queremos uma “Educação e Cultura” de qualidade como resultado de nossa luta cotidiana pela vida (e isso não tem nada a ver com essa religiosidade comercial que os evangélicos comerciantes (orientados pelo perigoso reacionarismo norte-americano) realizam, atrasando tanto a vida democrática das populações brasileiras que precisam lutar por suas libertações.   

Daí que sugiro uma reflexão bem simples e que possa nos dar “chão” e sustentação para um novo entendimento de realidade, quando formos pensar,  por exemplo, as novas “Políticas Públicas de Cultura” nos próximos anos, a partir dos princípios de uma cultura cidadã, cultura guerrilheira, cultura educativa, cultura de bem com a vida, alicerçada em valores humanistas municipais, estaduais, regionais e nacionais (e por que não continentais?), dialogando com profissionais de outras áreas organizados em suas instituições, entidades e grupos de trabalho, a saber: as organizações, pessoas, grupos de trabalho, entidades e instituições culturais do bem comum, investindo para que a arte e os artistas possam dialogar e desenvolver projetos e processos com as áreas de saúde, serviço social, meio ambiente, turismo, ecologia, meios de comunicação (rádio, TV, jornais), produção de alimentos, capacitação profissional etc, para que novos avanços e entendimentos sejam viabilizados. Porque não a Funjope e a Sub-Secretaria de Cultura aproximando seu trabalho da ação cultural e educativa das outras secretarias e setores, a partir de um planejamento e de um relacionamento político de cultura em comum, menos técnico e mais humanista? (participação teatral, musical, poética, em campanhas de saúde, meio ambiente, turismo interno, ecologia, sustentabilidade, reciclagem, educação etc).

É preciso um planejamento sério para aproximar o trabalho de cada área dessa com a cultura, base na qual poderemos desenvolver projetos que garantam uma sustentabilidade política alternativa para nossas cidades e estados, mas principalmente para os bairros onde moramos (dotar os bairros de mecanismos de defesa contra o analfabetismo, sempre!). Porque são nesses bairros e comunidades (que amamos e namoramos e produzimos e reproduzimos nossos valores de democracia, olhando para o futuro mais solidário e fraterno), que haveremos de continuar construindo a base de nossa democracia popular. Precisamos nos preparar para um tempo que seja mais democrático e revolucionário em sua ação educativa, mas um tempo realista, fora das concepções alienadas difundidas nos meios populares de que “não adianta mais lutar” porque os governos vão fazer tudo sozinho, deixando as coisas “sob o controle de um tipo de poder burguês” que nunca tem na arte, na educação, na cultura e na cidadania a sua base produtiva de pensar o futuro-hoje, e sempre. O combate ao analfabetismo político é uma questão de segurança nacional, pois continua sendo uma epidemia que gera atraso, idiotice, burrice e alienação, elementos essenciais de garantia da renovação desse analfabetismo a cada dia.   

Precisamos de bairros falantes, bairros pensantes! Bairros agitados educativa e culturalmente, tendo à frente organizações estudantis, operárias, de funcionários públicos e até religiosas (que trabalhem para o bem, compreendendo religiosidade como a ligação do povo com ele mesmo em suas experiências de lutar para que a melhoria das condições de vida para todas as populações seja politicamente real e mais conseqüente). São elos que precisam ser reatados! Elos que precisam ser retomados, repensados em nossos próprios bairros. Nossas organizações comunitárias precisam ser rediscutidas e colocadas sob uma ótica mais humanista, de avaliação crítica mais aprofundada, sem o atraso dos manipuladores e dos cabos eleitorais permanentes, mantidos como funcionários particulares de eternos candidatos. PRECISAMOS BUSCAR SAÍDAS DENTRO DA DEMOCRACIA! Mas precisamos ter claro que as democracias de hoje são as democracias dos ricos, limitadas, burras, caquéticas, que só vêem a si mesmos, interessadas em atender apenas aos seus próprios privilégios. E isto é um crime contra a humanidade!

O passado como fonte de verdades educativas (é de lá que vem a motivação e a capacidade de se criar projetos e processos como o Método Paulo Freire em Pernambuco (dentro do MCP), a CEPLAR (campanha de alfabetização popular, na Paraíba), e o programa “De pé no chão também se aprende a ler” da prefeitura de Djalma Maranhão no Rio Grande do Norte dos anos 60, me emociona, pela força de sua riqueza afetiva, solidária, fraterna e libertária (os partidos socialistas tinham núcleos de base nos bairros e sabiam muito bem trabalhar educação e cultura em seus planos de governo e de futuro), sendo necessário nos apegarmos à suas luzes e estímulos para poder avançar a nossa luta. Hoje discutimos a “Cidade” como a “Universidade”, a cidade como a nossa sala de aula coletiva, onde ensinamos e aprendemos em tudo, e por todos, para o bem comum, para nos construirmos como cidadãos e famílias politizadas (coisa que a religiosidade alienada tem atrapalhado muito em nome de um deus capitalista). Mas todo tempo é tempo para nos levantarmos em nossos bairros, e se quisermos poderemos levantar nossas bandeiras de luta de forma bem simples para que as pessoas entendam como é possível reagir positivamente, produtivamente, em suas comunidades. De forma bem simples, as propostas a seguir tem a intenção apenas de abrir um diálogo com as novas gerações, para que saibam como era a vida cultural dos bairros a partir dos anos 70/80 na cidade de João Pessoa:  

1.  Pela Volta dos Cinemas de Bairros (um dia, em algum lugar do passado, um só empresário comprou e fechou todos os cinemas das comunidades, localizando-os no centro da cidade e em shoppings, para atender a ganância das elites facínoras).

2.  Pela Volta das Bibliotecas Comunitárias (a inércia governamental fechou todas elas). Há uma necessidade de reabri-las em vários e diversos formatos condizentes com a realidade atual: dentro de ônibus circulantes, em paradas de ônibus, em praças, em sindicatos, associações de moradores, centros da juventude, feiras livres, mas com atividades diversificadas de apoio ao livro (contadores de história, peças de autores clássicos montadas didaticamente, oficinas literárias, concursos e festivais de poesia).

3.  Pela Ocupação Cultural das Praças (o plano da administração municipal de Ricardo Coutinho via Funjope é um bom começo, mas tem que ir bem mais além, estar aberto para dialogar com as populações em seus grupos de trabalho comunitário). A necessidade exige!

4.  Pela Formação Permanente de Agentes Culturais (assim como na área de saúde, educação, serviço social etc), é preciso que a cultura possa ser bem cuidada também pelos seus agentes de cultura, preparados para perguntar e responder sobre as condições culturais de suas comunidades. Entender e repassar esse entendimento!

5.  Pela Volta dos Carnavais Comunitários, o chamado “Carnaval Tradição” (dialogar educativamente com as agremiações, afim de orientá-las para um futuro de independência). Que cada agremiação possa ter a sua sede própria e sua agenda de atividades e campanha de finanças o ano inteiro, para que elas não precisem mais mendigar pelo mísero apoio das autoridades. Será que as agremiações podem chegar a esse nível de organização? Será que alguma instituição oficial pode ajudá-las a chegar a esse nível de organização?

6.  Pela criação de Casas Populares de Cultura (ainda uma idéia que precisa ser estudada com mais seriedade, criticidade e amor pelo poder público). Ou então, que se ocupem culturalmente os espaços municipais e estaduais existentes nas comunidades, a exemplo das escolas nos finais de semana, dos centros da juventude, centros sociais urbanos etc. O diálogo com os artistas, produtores de cultura e suas entidades é fundamental para se construir essa via nova nos bairros.

7.  Pela criação dos Quilombos de Cultura (incentivo às organizações culturais de todas as cores que pensem de forma direta e indireta o panorama cultural e educativo de seus bairros).

8.  Pela criação de Ateliês Coletivos de Artes Visuais (a cidade dialogando através das cores, dos gestos, dos movimentos e das vanguardas artísticas e educativas).

9.  Pela formação de Novos Cineclubes Escolares, Comunitários e Sindicais (ver o exemplo e a referência do atual Cineclube José Dumont do CEFET-João Pessoa).

10.  Pela Volta dos Festivais de Música e Poesia das Escolas Públicas (espaço fundamental de criatividade, desenvoltura e encontros de arte articulado pelos grêmios e diretorias escolares de visão mais abrangente).

11.Por um Movimento Estudantil Politizado e Cultural e não apenas partidário e caquético (nunca esqueçam do CPC da UNE dos anos 60 e das atuações culturais de entidades como a UMES-SP nos anos 90).

12.Por uma Mostra do Teatro Comunitário do SESC que possa acontecer nos bairros, a partir dos seus espaços alternativos (que essa mostra possa se ampliar e funcionar como um curso popular de formação teatral, unindo grupos de teatro, dança e circo em seus anseios de profissionalização).

13.Que o Cine-Volante continue seu trabalho de “formação de cinema” nos bairros (uma das atuações de “continuidade” mais marcantes da Funjope nas comunidades, atuando em escolas e entidades, salões paroquiais e praças, na divulgação do cinema paraibano, nordestino e brasileiro).

14.Que cada Comunidade tenha sua própria Rádio, sua própria TV, seu próprio Jornal (projeto político de extrema urgência e necessidade, de questionamento da dependência aos meios de comunicação comerciais). Que se proliferem as “Oficinas de Preparação” de mão de obra qualificada nos bairros.

15.Que o “CIRCO VIVO” da cultura possa ligar o elo dos bairros com sua educatividade e independência, diante dos grandes desafios de combater o analfabetismo político em praças, feiras e escolas. O Circo é a grande escola de todos os artistas populares!

16. Que as instituições da cultura oficial paraibanas (Funjope e Sub-Secretaria) se entendam pela maturidade filosófica e política e passem a dialogar entre si e com outras instituições: SESC, SESI, SENAC, SEBRAE etc para trazer novos benefícios educativos para as populações (isto é sagrado) e para combater o analfabetismo político devastador (isto é politicamente correto).

17. Que, enfim, a UFPB assuma de vez o seu papel de agente transformador e ajude e facilite e viabilize para que todos se posicionem corretamente nesse processo de combate ao analfabetismo castrador de direitos, deveres e cidadania. Certamente, os artistas tem que estar preparados para viver esse novo tempo na realidade cultural do estado da Paraíba: tempo de busca do novo, tempo de afirmação da luta pela democracia popular, tempo de entender que o atraso do analfabetismo tem que se extirpado pelos tratores da inteligência, por bem ou por mal. Esta será a grande conquista de todos nós por uma sociedade justa, livre, fraterna e igualitária. Vamos em frente.

Não esquecer: A Loucura Criativa deve estar sempre à serviço da educação das populações!

*Pedro Osmar - Cantor, compositor, Produtor Cultural e artista multimídia paraibano. Idealizador do grupo musical e de estudo Jaguaribe Carne.

E-mail: pedroosmar@gmail.com / www.myspace.com/pedroosmar