Ritmo Melodia

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 Maurício Nunes 

 

30 Anos sem Bob Marley

Junho  - 2011


Não sou consumidor de reggae e muito menos devoto do rastafari que aprova o uso sacramentado da maconha. Não por questões sociais até porque sou favorável à liberação desta, mas porque sou agnóstico e careta, portanto nem Jah e nem Marijuna fazem a minha cabeça, mas um certo seguidor de ambas, que expõe idéias claras sobre paz, o amor e acima de tudo a liberdade, merece todo o meu respeito. Falo de Bob Marley que há trinta anos nos deixava ainda moço para ir de encontro com Jah em toda sua fé.

Bob foi uma daquelas pessoas especiais que nos deixou uma vasta obra repleta de mensagens positivas e acima de tudo profecias de amor, liberdade e respeito, que infelizmente foram deturpadas, como quase tudo nos dias de hoje. Marley nunca compreendeu porque o homem insistia em amar suas coisas e usar as pessoas, sendo que Deus (Jah) havia feito o inverso e criado as coisas para se usar e as pessoas para se amar. Nascido na Jamaica, filho de pais pobres, predestinado despontou logo para a fama, junto com o estilo recém descoberto: o reggae. Praticamente um precursor do movimento musical, suas letras e atitudes expressavam claramente sua posição política, o que quase lhe custou a vida. Dois dias antes de um show gratuito organizado por ele pelo então primeiro-ministro jamaicano durante as eleições gerais, sofreu um atentado onde ele, sua esposa e seu empresário foram baleados. Bob se salvou e como nunca cruzava os braços frente às dificuldades, pregando que o maior homem do mundo morreu de braços abertos, continuou escrevendo e cantando sobre igualdade racial, liberdade, amor, paz e expondo como poucos, as injustiças que vivenciamos dia a dia e que a maioria prefere fingir que não vê. Sua carreira repercutiu mundo afora e seu megafone, agora gigante, divulgava sua música, arte e filosofia. Bob era rico em suas palavras, tanto no palco quanto em entrevistas, deixando um verdadeiro legado de frases geniais que poucos astros da música produziram. Uma delas em especial sempre me tocou fundo e talvez toque você, caro leitor. Dizia que às vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas. O tempo passa e descobrimos que grandes mesmo eram os sonhos, e as pessoas pequenas demais para torná-los reais!

O sonho dele ao menos foi realizado, porém o homem tão inteligente e de mente tão aberta, ao descobrir um câncer, recusou-se a tratar-se devido aos princípios rastafari que diziam que os médicos são homens que enganam os ingênuos com o falso poder da cura. Um pouco tarde, descobriu que os líderes religiosos, estes sim, talvez enganem mais os ingênuos e no desespero da causa, converteu-se ao cristianismo, que apóia este tipo de tratamento, porém já era tarde e a doença havia lhe tomado o corpo. Uma ironia do destino, onde a ignorância pôs fim à genialidade. Para o homem que pregava que não deveríamos viver para que nossa presença fosse notada, mas sim, para que a nossa falta fosse sentida, podemos dizer que sentimos e muito a sua, já que há 30 anos o reggae deixou de ser um canto de liberdade e de protesto político para virar trilha sonora boba de apologia a maconha. Pobre Marley!

Distorceram o que foi dito e vivido por ele. Se a saudade é um sentimento que quando não cabe no coração, escorre pelos olhos, posso afirmar que hoje, três décadas depois, muitos olhos ficam úmidos ao ler e reler toda as mensagens deixada por você, Leão de Judah. Só desejo que sua profecia se realize e um dia o povo levante, resista e lute pelos seus direitos!

*Maurício Nunes - Jornalista, escritor, multimídia, cantor da banda AeroSilva.

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