Machado: “Cantiga de
Esponsais”
* Por Bráulio Tavares
Março - 02/2011
Entre os artistas insatisfeitos na obra de Machado, o mais citado é o
compositor Pestana do conto “Um Homem Célebre”. O mais obscuro (e talvez
o mais melancólico) é o Mestre Romão deste conto. Pestana queria ser
compositor clássico, mas só sabia compor polcas de sucesso; Mestre Romão
nem esse consolo tem. O que tem é uma ânsia desmedida de expressão, mas
tudo que consegue fazer é reger as obras alheias, entendê-las, e
encantar-se com sua beleza. A Providência o privou da sorte de ter obras
próprias.
Diagnostica Machado: “Parece que há duas sortes de vocação, as que têm
língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas
representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a
ausência de um modo de comunicação com os homens”. Todas as inspirações
melódicas do Mestre Romão morriam metaforicamente no que Augusto
denominou “o molambo da língua paralítica”, ou seja, a incapacidade de
transformar em signos os sentimentos difusos que experimentamos na alma.
Por que motivo Machado preocupava-se tanto com os compositores? Como
nunca li uma biografia dele, não sei se teve educação musical, ou se era
ouvinte habitual dos clássicos. Fosse-o ou não, o fato é que numerosas
vezes recorreu a músicos para falar de artistas que tentam se expressar
e não conseguem. No caso de Mestre Romão, o sentimento existe, a
inspiração existe, a técnica existe... O que não existe é a liberdade
íntima de criar, a ousadia despreocupada, o “E daí?” triunfal e
libertador de quem consegue sobrepor à auto-crítica a auto-expressão.
Um músico erudito (excelente instrumentista) me disse uma vez invejar
algumas melodias que eu tinha composto, porque ele próprio jamais
quebrara essa barreira. Observei que ele, com a bagagem que tinha,
poderia compor coisa muito melhor, e escutei: “Ah, quem me dera... É
tudo muito difícil.” Para alguns temperamentos, mais técnica significa
mais dificuldades, e não mais soluções. “Quem lê muito escreve pouco”,
já disse um mestre, e isto corrobora a idéia de que para criar é preciso
aprender, e depois esquecer que se aprendeu.
Pobre do Mestre Romão! Quando casou, começou a compor um “canto
esponsalício”, gênero que só pelo nome já intimida. Em vez de dedicar
uma polca à esposa, que amava sinceramente, quis compor alguma coisa à
altura do amor que sentia, o que é sempre uma ameaça à criatividade.
“Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as
paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a
inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma
porta; nada”. A esposa morre e o canto não fica pronto. Morre Mestre
Romão, ao fim da história – e as notas que lhe faltavam ele as ouve
cantaroladas pela moça da casa vizinha, recém-casada e em pleno enlevo
amoroso. Era a Música Popular Brasileira que brotava dos quintais, por
cima dos muros, subúrbios afora, e só Machado e meia-dúzia de escritores
a ouviam.
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em 19/10/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
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