Machado: “Um Homem
Célebre”
* Por Bráulio Tavares
Março - 01/2011
São muitos os artistas insatisfeitos com o próprio sucesso, e quase
todos por um mesmo motivo: queriam fazer sucesso, sim, mas com outra
coisa. Woody Allen perde meses inteiros filmando dramas familiares pelos
quais ninguém se interessa; todos só o querem fazendo comédias. Conan
Doyle fez tanto sucesso com os contos de Sherlock Holmes que acabou
matando-o, porque o detetive eclipsava seus romances históricos e de
ficção científica (até melhores, aliás, que os livros de Holmes). O
público e as libras esterlinas lhe impuseram a ressurreição.
Vejam o Pestana, deste conto de Machado. Era doido para compor música
clássica, mas só lhe saíam polcas, as quais, pela crueldade inocente da
vida real, faziam enorme sucesso. Pestana sentava-se à noite ao piano,
olhando a parede repleta de retratos a óleo dos grandes mestres, e
tentava emular-lhes a inspiração; debalde. Acontecia-lhe o que acontece
a todos nós: ficar duas ou três horas seguidas remoendo-se de ansiedade,
sujeito a um sem-número de falsos arranques que não dão em nada, para
afinal largar tudo em desespero, apagar a luz e ir dormir.
Pestana sofre com o fracasso, e sofre ainda mais com o sucesso, porque
suas polcas vendem-se que é uma beleza – sim, amigo, isto se passa no
tempo em que compravam-se partituras de uma canção, para reproduzi-la ao
piano, e o compositor recebia direitos autorais. Mais que vendidas, são
assobiadas na rua, termômetro infalível do sucesso popular. Pestana faz
de tudo para compor como Beethoven, Mozart ou Haydn, mas só lhe saem
polcas, cada qual mais popular. Uma vez compôs para a esposa um Noturno.
Quando o mostrou, sem dizer nada, ela perguntou-lhe se não era Chopin.
Era. Diz o autor: “Pestana achara-o em algum daqueles becos escuros da
memória, velha cidade de traições”.
Pestana se parece com aquele escritor best-seller a quem não basta
vender dez milhões de livros: quer entrar para uma Academia, quer ser
objeto de teses de doutorado. Quer, em suma, o reconhecimento do Andar
de Cima, esta mítica cobertura do nosso mundo cultural, onde a mobília é
bem mais rastaqüera do que a do andar térreo, mas dizem que a vista é
melhor. Não importa o sucesso do nosso mercadinho de secos-e-molhados ao
rés-do-chão, sempre queremos ter o direito de freqüentar o andar
superior da torre de marfim. Cobiçamos isso como eles, o de lá de cima,
cobiçam o tilintar da nossa caixa registradora.
O conto de Machado registra um momento crucial na nossa cultura: o
surgimento da Música Popular Brasileira. No seu tempo eram as polcas, as
valsas, maxixes, lundus e cateretês. Eram as músicas que o povo dançava
nas festas e assobiava nas ruas. Pestana é essa espécie eternamente
em-vias-de-extinção: o músico erudito, ou eruditamente formado. Ele
continua vivo e a ver com angústia o crescimento dessa hidra de mil
cabeças, a Música Popular, um samba-de-uma-nota-só, que ele contempla
com desdém e (quando tem sorte) cultiva com remorso.
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em 15/10/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
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