Os convidados VIP
* Por Bráulio Tavares
Fevereiro - 27/2011
Numa entrevista recente, o impiedoso roqueiro Lobão meteu o chanfalho em
certos personagens da vida artística da Zona Sul carioca: “São uns
pentelhos, vivem aporrinhando, pedindo convite, invadem meu camarim,
tomam meu uísque, e saem dizendo que o show foi uma porcaria”. Só faltou
dar o nome, o RG e o número do celular. Mas quem não conhece essas
folclóricas figuras? Quem nunca viu as moscas de coquetel, os caçadores
das bocas-livres, os importunadores que não deixam em paz o pobre
escritório do artista, pressionando empresários e secretárias, exigindo
fazer-se convidar por pessoas que nunca os viram mais gordos e não fazem
a menor questão de sua presença no Setor A da platéia?
Uma gíria do show-business, posta em circulação (dizem) pelos seguranças
de portaria, diz que VIP significa “Viados Impossibilitados de Pagar”. É
uma grande distância do “Very Important People” do original, designação
que se diluiu a tal ponto que virou um mero adjetivo, ansiosamente posto
em circulação por pessoas sequiosas de status. É camarim VIP, tratamento
VIP, sala VIP, mesa VIP, assentos VIP, um nunca acabar. São os
monossilábicos títulos de nobreza da cultura pop, pequenos pedaços de
som que embalam os sonhos de gente comum, fazendo com que se sintam bem
ao espelho e saiam bem na foto.
O “convite de show” é uma das muitas coisas que com o passar do tempo
acabaram tendo sua função original virada pelo avesso. O termo “convite”
pressupõe que os responsáveis pelo espetáculo convidam pessoas cuja
presença, por motivos pessoais ou profissionais, é importante. O
problema é que no caro e disputado showbiz de hoje em dia, ninguém
espera ser convidado: telefona, ou procura pessoalmente a produção, e
pede um “convite”, que nessas circunstâncias deixa de ser convite e vira
eufemismo para “entrada gratuita”. Já vi gente de equipe de produção
queixar-se: “Não sei o que é mais chato, se é viver sendo acossado por
gente desconhecida que quer entrar de graça, ou se é enviar convites
para gente famosa que nunca aparece”.
A mídia é a nobreza em nossos tempos de república eletrônica. Roberto
Carlos é o Rei, Madonna é a Rainha, e assim por diante. E todo sujeito
que pelo espaço de uma noite consegue, pelos contatos que tem, ser
convidado VIP de alguma coisa, tem direito a essa noite passageira e
cinderela, em que sua abóbora ataviada de estrelas e seus ratinhos de
libré são recebidos com salamaleques num desses lugares inatingíveis que
acalentam nossos sonhos de classe média: um Teatro Municipal, uma Ilha
de Caras, um camarote especial. “Chegaram os VIPs!” grita uma
recepcionista; o mundo entra em polvorosa para recebê-los, perguntar do
que precisam, desejar que estejam se divertindo. Claro que estão se
divertindo. Nasceram para isto, vivem somente para isto, e enquanto a
banda tocar e o relógio da Ilha Fiscal não der as doze badaladas,
viverão como se nada mais existisse, e a festa não tivesse hora para
terminar.
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em 06/10/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
Contatos:
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