Cordel e arranha-céu
* Por Bráulio Tavares
Fevereiro - 26/2011
Há cerca de 30 anos fiz parte da comissão de seleção de temas do
Congresso Nacional de Violeiros, em Campina Grande. Criávamos os motes a
serem glosados de improviso pelos poetas. Para se ter certeza de que os
cantadores não estavam cantando versos decorados, todos os assuntos e
motes eram criados pela comissão e mantidos sob segredo até o momento do
sorteio, com a dupla já no palco. Tenho a tentação de dizer que esses
motes eram guardados a sete chaves, mas seria faltar com a verdade.
Depois de criados, datilografados e fechados, de um em um, em pequenos
envelopes brancos, opacos, eles iam todos para um envelope de papel
pardo que ficava embaixo do meu braço durante os três dias que durava o
Congresso. Da minha mão só saía para a mão de Gilson Souto Maior,
apresentador oficial do evento naquela época. Feito o sorteio, o
envelope maior voltava às minhas mãos. Quando eu dormia, ele ficava
embaixo do meu travesseiro.
Um mote que causou uma certa polêmica foi; “Se não fosse o valor do
nordestino / em São Paulo não tinha arranha-céu”. Não pelo conteúdo, mas
porque os violeiros criticaram a dificuldade da rima. Diziam: “Tem
poucas rimas: chapéu, tabaréu, escarcéu...” Eu replicava: “Que nada!
Veja só: cordel, papel, coronel, Babel...” E eles diziam: “Mas isso não
rima com céu. Porque um se escreve com U, e o outro com L. Não rima”.
Para mim este é um exemplo típico do rigor da poética dos cantadores,
algo que as pessoas de fora não entendem muito bem. Na poesia de livro,
na poesia moderna, as noções de rima são muito mais flexíveis, mais
liberais. Aceita-se com naturalidade a rima toante, aquela em que os
sons são apenas vagamente parecidos. Já a poética dos cantadores exige
uma correspondência total de sons – a tal ponto que não aceita rimar
“céu” com “cordel”, simplesmente porque os dois se escrevem de maneira
diferente.
Neste ponto eu discordo dos cantadores (inclusive escrevi, e canto há
anos, várias glosas ao mote em questão). Na minha regra, a rima se
dirige ao ouvido. Se os sons são iguais, pouco importa como as palavras
são escritas, se com U ou com L. Os próprios violeiros aceitam que a
palavra “passo” rima com a palavra “espaço”, mesmo que as duas sejam
escritas de forma diferente.
Para mim, esse preciosismo no impasse entre “arranha-céu” e “cordel”
decorre de um momento histórico em que começou a predominar, no universo
da Cantoria de Viola, uma geração de cantadores alfabetizados,
instruídos, diferenciados dos cantadores do século 19, em que a maioria
dos praticantes da Grande Arte tinha escolaridade precária (embora
também houvesse, é claro, um núcleo de violeiros letrados e cultos). A
distinção entre “ÉU” e “EL” é sintoma da vitória do Rescrito sobre o
Oral, típica dos seguidores de Romano do Teixeira, dos cantadores
letrados que querem se afastar do universo de Inácio da Catingueira, o
ex-escravo que era só talento e pouca instrução.
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em 17/07/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
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