A sextilha e o blues
* Por Bráulio Tavares
Fevereiro - 20/2011
Algumas formas de poesia cantada têm evoluções diferentes, vêm de
origens completamente diversas, mas acabam convergindo para formas
parecidas. É o que ocorre com a estrofe básica da Cantoria de Viola (a
sextilha) e a estrofe básica do blues norte-americano, o blues
tradicional, acústico, chamado às vezes de “twelve-bar blues” (blues de
doze compassos).
A sextilha é ibérica. Pode haver alguma influência africana nela? Pode,
como pode haver em tudo que faz parte da cultura popular do Nordeste.
Mas em princípio a sextilha é sertaneja ou caririzeira, de uma região
onde a presença negra é minoritária. Mesmo com grandes cantadores negros
no passado (Fabião das Queimadas, Inácio da Catingueira, etc.), a
sextilha me parece o produto de uma poética branca.
O blues tradicional tem uma estrofe com duas semelhanças com a dos
cantadores: 1) é uma sextilha, ou seja, uma seqüência de seis versos
cantados; 2) é um derivado da quadra, da estrofe de quatro versos. A
sextilha dos cantadores derivou-se obviamente da quadrinha portuguesa,
daquela estrofe singela que já era cultivada antes de Cabral, rimando
ABCB: “Se eu não vejo luz acesa / na janela do meu bem / quer dizer que
está dormindo / sonhando não sei com quem”. É a estrofe básica de nossa
poesia. Os sertanejos da Serra do Teixeira a transformaram em sextilha
com rimas ABCBDB: “Se eu não vejo luz acesa / na janela do meu bem /
quer dizer que está dormindo, / sonhando não sei com quem, / ou que foi
me procurar / sem pensar em mais ninguém”.
Já a estrofe básica do blues de 12 compassos é também uma estrofe de
seis linhas, sendo que cada duas linhas são cantadas ao longo de quatro
compassos. Uma sextilha, portanto. Ocorre que, numa quantidade imensa de
canções de blues, os dois primeiros versos da letra sejam repetidos, ou
seja, versos mesmo só existem quatro! É uma quadra espichada para caber
numa melodia de sextilha. E isso ocorre com maior freqüência, pelo que
pude deduzir, nos blues mais antigos, que seriam uma fase de transição
entre a quadra e a sextilha. Eis um exemplo entre milhares, tirado de
“Kind-hearted Woman”, do grande Robert Johnson: “I got a kind-hearted
woman / do anything in this world for me. / I got a kind-hearted woman /
do anything in this world for me. / But these evil-hearted woman / man,
they will not let me be”. (“Eu tenho uma mulher de bom coração / que faz
qualquer coisa no mundo por mim (2x) / Mas essas mulheres de coração
ruim / não me deixam viver em paz”.
Isto abre uma interessante possibilidade de mão dupla: a de adaptar para
cantoria em sextilhas inúmeras letras, melodias e canções já prontas,
vindas do universo do blues. E, em contrapartida, de adaptar ao estilo
de blues qualquer material de sextilhas nordestinas. Além dos evidentes
parentescos sociais e históricos, o universo do blues e da cantoria tem
nas suas estrofes básicas dois vasos comunicantes pelos quais podem
passar oceanos de poesia.
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em 12/07/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
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