Puritanismo ou depravação
* Por Bráulio Tavares
Fevereiro - 02/2011
Tenho feito muitas críticas às letras escrachadas dos falsos forrós que
tocam por aí, o que tem me merecido respostas no tom de: “Que moralismo
é esse? O tempo da ditadura acabou”. Essa resposta coloca uma questão
interessante, porque, como se sabe, os anos da ditadura militar não
tiveram apenas Censura política, mas também uma rígida censura de
costumes. Nudez, palavrão, gandaia, referências a sexo, tudo isso era
perseguido, proibido, cortado. É um milagre que um jornal como “O
Pasquim”, para citar apenas um exemplo, tenha conseguido publicar tudo
que publicou. E que autores como Henry Miller tenham sido traduzidos e
editados no Brasil durante esse período.
O que há é que com o fim da ditadura houve um “liberou geral” na
imprensa, nas artes, na TV, na música. Foi uma melhora? Sem dúvida. Mas
a melhora está ficando tão histérica que está acarretando uma piora na
direção oposta. E isto se deve ao fato, repetidamente afirmado nesta
coluna, de que saímos da Ditadura Militar para a Ditadura do Mercado,
que em alguns aspectos é mais confortável de viver do que a outra, mas a
longo prazo é igualmente prejudicial. Na ditadura militar, tudo era
proibido. Na Ditadura do Mercado, tudo é mercadoria, tudo pode ser
comprado com dinheiro, porque este é o valor que as pessoas mais prezam.
Na ditadura militar, as mulheres eram proibidas de mostrar o corpo. Na
ditadura do mercado, as mulheres mostram o corpo, não porque se
liberaram do moralismo, mas porque são encorajadas a se oferecer como
mercadoria.
O Discurso Puritano interessava à ditadura militar, comandada por
generais tradicionalistas e conservadores. Defendiam uma moralidade
ascética, reprimida e repressora, inspirada na religião. Já o Discurso
Depravado interessa à ditadura do mercado. Sua estratégia é ditada por
empresários cujo objetivo é o acúmulo rápido de dinheiro, pregando o
consumo em alta escala e o cultivo de um estilo de vida hedonista,
voltado para o desfrute de todos os prazeres oferecidos aos que são
ricos e jovens.
Esta segunda ditadura, que a cada ano manda mais na indústria cultural
brasileira, precisa ser tão questionada e combatida quanto a anterior.
As duas são o extremo oposto uma da outra, mas as duas têm o mesmo
efeito nocivo: amputar a totalidade da experiência humana, sabotar a
liberdade, pegar populações de jovens e prepará-las cuidadosamente para
obedecer aos seus comandos como um rato de laboratório. Há trinta anos,
a ditadura militar oferecia segurança e exigia repressão sexual. Hoje em
dia, a ditadura do mercado oferece desfrute sexual ilimitado e está
impondo um jogo cuja regra é: “Tudo tem preço. Quanto é o seu?” Quanto é
que você cobra para fazer algo que você é contra? Quanto cobra pelo seu
filho, pela sua filha, pela sua mãe? Quanto é a aposta que eu vou lhe
fazer uma proposta irrecusável? Quanto é a aposta que meu dinheiro vale
mais, para você, do que você mesmo?
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em 18/07/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
Contatos:
E-mail:
btavares13@terra.com.br
/
http://mundofantasmo.blogspot.com
|