A monocultura sexual
* Por Bráulio Tavares
Fevereiro - 02/2011
As letras do forró eletrônico não me escandalizam. Posso fazer (e já
fiz) poemas que deixariam essa rapaziada com o rosto enrubescido. São
uns amadores. A crítica que faço à música deles, portanto, não é uma
crítica moralista de quem se escandaliza com versos de safadeza. Pelo
contrário! O verso e o romance de safadeza são uma nobre arte. Olhem
aqui na minha estante, e verão de Henry Miller a Aretino, do Marquês de
Sade a Carlos Zéfiro, e de Bocage aos romances em versos que Ariano
Suassuna, em seu estudo dos ciclos do cordel, classifica como “folhetos
de safadeza e putaria”.
Essas coisas fazem parte da cultura, companheiros. Sempre fizeram e
sempre o farão. O problema da pornografia é quando ela passa a ser usada
sistematicamente, como uma monocultura arrasadora. A pornografia pode
virar algo como a cana-de-açúcar ou a soja, que precisam viabilizar
lucros cada vez mais rápidos, mesmo que o preço seja a destruição de
todas as outras culturas em volta. A pornografia tem seu lugar e sua
função. Ela se transforma num problema quando vira uma indústria tão
lucrativa que extingue tudo que há em redor.
Uma coisa é o forró malicioso, feito por um cara que teve uma boa idéia,
uma idéia que admite uma dupla leitura com sentido erótico, e faz uma
música com ela. Uma música que, no CD, vem ladeada por outra que fala em
sertão, outra de sátira política, outra de amor, outra de descrição da
vida urbana, e assim por diante. É o que vemos nos discos dos grandes
forrozeiros. Escutem o Trio Nordestino, Elino Julião, Maciel Melo,
Biliu de Campina, Flávio José. Todos fazem, no meio de um repertório
variado, que cobre todas as facetas da vida humana, músicas cujo tema é
o sexo, a sedução, o corpo feminino, o xamego entre homem e mulher. É
uma das coisas boas da vida, porque não falar dela – com humor, com
graça, com uma piscada de olho para as meninas? Todo mundo gosta.
O que sou contra é esse samba-de-uma-nota só mórbido, doentio: safadeza,
safadeza, safadeza... Também seria contra um movimento musical que
falasse unicamente de futebol, futebol, futebol. Ou uma escola literária
que quisesse impor como único tema a filosofia, filosofia, filosofia. Ou
um cinema que se limitasse a repisar histórias sobre o sertão, sertão,
sertão. Tudo demais é veneno. Nada tenho contra a pornografia como
gênero, mas sou contra a pornografia (ou qualquer outra coisa) como tema
único, repisado de forma incessante. Sou contra a canção pornografia
como monocultura, repetição obsessiva, com o único objetivo de esgotar o
mais depressa possível um mercado cheio de gente ingênua. Depois de
exaurido esse mercado, os espertalhões (que não são do ramo, não são do
forró) passarão adiante. Irão fazer música evangélica ou jingles de
campanhas políticas. E deixarão atrás de si uma geração de jovens
abobalhados, incapazes de entender uma música se ela não falar da única
coisa que eles aprenderam a ouvir.
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em
09/07/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
Contatos:
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btavares13@terra.com.br
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http://mundofantasmo.blogspot.com
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