Um puteiro a céu aberto
* Por Bráulio Tavares
Fevereiro - 01/2011
Circula na Internet um artigo de José Teles, publicado no “Jornal do
Commercio” de Recife, sobre as letras das músicas do assim-chamado forró
eletrônico. Algumas pessoas creditam o artigo (intitulado “Tem rapariga
aí?”) a Ariano Suassuna, mas Ariano é apenas citado nos parágrafos
iniciais. O autor é Teles, aliás campinense de nascimento, e grande
conhecedor de música (é o autor do livro “Do Frevo ao Manguebeat”, sobre
música pernambucana).
As letras do forró eletrônico têm explorado cada vez mais um único tema:
a safadeza. O artigo de Teles cita alguns títulos dessas músicas:
“Dinheiro na mão, calcinha no chão”, “Mulher roleira”, “Fiel à putaria”,
“Abre as pernas e dê uma sentadinha”, “Chefe do puteiro”... Desculpe
colocar essas coisas no jornal, caro leitor, mas, já que tocam em praça
pública para 20 mil pessoas...
O deputado cearense Ciro Gomes afirmou recentemente que “Fortaleza virou
um puteiro a céu aberto”. Se o fez por rivalidade política com a
administração local é irrelevante. Todo mundo sabe que algumas cidades
do litoral do Nordeste estão virando, a cada ano que passa, uma espécie
de zona do baixo meretrício ao ar livre, para o desfrute de turistas
alemães, espanhóis, etc., que vêm fazer o chamado “turismo sexual”. O
forró eletrônico é a trilha sonora desse processo.
Em seu artigo, diz José Teles: “Faço um paralelo com o turbo folk, um
subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava
esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do
tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com
música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se
como se vestem as vocalistas das bandas de 'forró', parafraseando Luiz
Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam
muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do
Centro de Estudos
alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime
Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o
primitivismo estético,. Pior, o glamur, a facilidade estética, pegou em
cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores
morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava
o governo”.
O forró sempre teve letras de duplo sentido. Examinem a obra de Luiz
Gonzaga, Antonio Barros, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Genival
Lacerda, Clemilda e João Gonçalves. É engraçado, é divertido, é
saudável. O forró é malicioso, porque a malícia faz parte da vida. O
forró fala de tudo, mas o forró eletrônico pratica apenas a “letra de
único sentido”. A sexualidade escrachada é martelada sem parar em nossos
ouvidos. É música feita por gente esperta para tirar dinheiro de gente
boba. Quando é depois, como podem os nordestinos se queixar de que não
são respeitados no Rio e em São Paulo, quando eles mesmos não se
respeitam, e estão transformando o seu forró numa safadeza banal, suas
cidades num puteiro a céu aberto?
*Bráulio Tavares
- Jornalista, escritor e compositor paraibano. Este texto foi editado
em
06/07/2008 na sua coluna diária no Jornal da Paraíba - Campina
Grande - PB (http://jornaldaparaiba.globo.com).
Contatos:
E-mail:
btavares13@terra.com.br
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http://mundofantasmo.blogspot.com
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