A modernidade etérea de Fernando Cavallieri

Por Léo Nogueira
Pra começar, preciso afirmar que Fernando Cavallieri é um de meus compositores favoritos e que sua discografia tem um peso na balança de meus sentimentos como poucas tiveram até hoje no decorrer de minhas quase cinco décadas de vida regadas ao amor à música. Isto posto, a informação seguinte, e mais importante que a anterior, é que a primavera de 2017 nos presenteia, depois de um triste hiato, com um disco novo de Fernando Cavallieri. Fosse o Brasil um país digno de seu povo e da cultura que aqui pulula, essa informação por si só seria capaz de gerar capas de revistas e matérias de página inteira nos melhores cadernos de cultura dos jornalões brasileiros.

E um detalhe que aumenta ainda mais a importância desse lançamento (se é que isso é possível) é que Cava, que sempre se assumiu como um outsider e nunca deixou a falta de grana impedir que lançasse seus discos e justamente por causa disso viu o resultado final de um ou outro ficar aquém de um padrão — digamos — radiofônico, desta vez, tendo a tecnologia a seu lado (que também atende por Marcus Torrada, baixista e produtor do disco), conseguiu nos presentear com um disco que, apesar de ter tido seu embrião gerado em sua própria casa, não deve nada, tecnicamente falando, a qualquer outro que tenha sido produzido em algum desses grandes estúdios que há por aí.

Sim, até porque hoje em dia ninguém precisa de grandes estúdios pra gravar grandes discos. Esse Modernidade Líquida é a prova viva disso. Juntando-se as qualidades do cantor-compositor-instrumentista à dos belos músicos que transitam por sua seara mais uma mão mágica regendo botões virtuais, está feita a alquimia que muitas vezes não se consegue com mais recursos e menos amor. Aliás, essa palavra já foi a bandeira de Cava. Seu disco anterior se chama justamente O Amor É a Medida de Todas as Coisas. Só que o tempo passou, o Brasil mudou, e acontecimentos políticos dos mais perniciosos a nosso povo tiveram lugar, e eis que o Cavinha Paz & Amor também mudou.

Quer dizer, nem tanto assim. Digamos que se adaptou aos tempos. Não à toa, num de seus sambas de outra safra ele já profetizava que “só vencerá o mal um Bem que for guerreiro, que não se apacifique diante da peste”. E é este Cava que, sin perder la ternura jamás, resolveu insuflar o guerreiro que jazia adormecido dentro do bom moço e se posicionar — de uma forma até perigosa — radicalmente contra tudo aquilo de que discorda. E, como todos sabemos, gestos políticos no discurso de um compositor não raro têm consequências em sua obra. Estão aí As Caravanas de Chico Buarque que não me deixam mentir.

E está aí também Modernidade Líquida, o novo trabalho de Fernando Cavallieri, que chega propositalmente setentista, com guitarras rock’n’roll distorcendo — por vezes até em sambas — e respingado de dosada ferocidade, sempre controlada pelo lirismo de sua poesia — e da de seus parceiros. E por falar em parceiros, não tive a pachorra de pesquisar disco por disco, mas acredito que este seja aquele em que Cava mais se valeu deles. E não digo isso em tom pejorativo, porque sei que ele bate um bolão tanto em letra quanto em música; imagino que esse arsenal de parceiros é antes um modo de dizer que não está só nessa batalha. E que venham os moinhos!

Urge acrescentar que sou um desses soldados, visto que Cava teve a rara generosidade de escolher pra fazer parte do disco duas de nossas parcerias. Portanto, caros leitores, sim, tenho o rabo preso. Contudo, embora vocês possam achar que escrevo movido por segundas intenções, a verdade nua e crua é que não. E como prova de que não minto, um dos textos mais pungentes que escrevi em minha vida brotou da audição de seu terceiro trabalho, Inefável, que, pra tristeza minha, não contou com nenhuma de nossas parcerias (leia aqui — o texto a que me refiro é o segundo do link). Portanto, leitores, creiam-me.

Uma coisa curiosa que aconteceu durante a audição é que fui tomado por um incontrolável desejo de ouvir seus discos anteriores, tão meus velhos conhecidos. Daí, invadiu-me uma dúvida atroz. Cava me havia dito que considera este novo trabalho seu melhor, e eu, em princípio, reouvindo os outros quatro, acabei não concordando. Este tem, sim, muitas pérolas, entre elas duas que são fruto da tardia, mas imbatível, parceria com Marcio Policastro; o problema é que canções não são ciência exata, mexem com sentimentos. E as mais antigas têm a vantagem de nos remeterem a certas situações, trazendo-nos recordações. Já as novas, recém-nascidas, precisam de um tempo pra construírem sua história.

E há outra desvantagem em relação a estas: a superficialidade de nosso tempo. Tempo este em que ouvir uma canção perdeu o encanto quase religioso que tinha há até poucos anos. Mas essa vai ser também outra batalha de Cava com este seu Modernidade Líquida (título dos mais felizes), pelo qual não fez concessões. Tanto que a maioria das faixas tem por volta de cinco minutos. Ouvindo-as consigo perceber o prazer quase orgástico que sentiam Cava, músicos e artistas convidados, como se quisessem eternizar o momento da gravação. Acho que conseguiram. Se este será seu melhor trabalho, só o tempo dirá. Minha sugestão é que comprem logo seus cinco discos e os ouçam na sequência numa preguiçosa tarde de domingo e tirem suas próprias conclusões.  Em meu caso particular, o que notei é que Cava, como os grandes escritores, não escreve sempre uma obra nova, mas capítulos novos de uma mesma e genial obra. Evoé!

O preço de cada CD é R$ 25,00.
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Fernando Cavallieri — Modernidade Líquida (2017 — independente)
1. Calendário
    (Fernando Cavallieri – Gilvandro Filho)
2. Sol a Sol
3. Lua de Saturno
4. Madrigal do Passaredo – participação de Ritinha Carvalho
5. Cápsula do Tempo
6. Silmara’s Song
7. Partícula
8. Consumidor de Luares – participação de Mariane Mattoso
    (Fernando Cavallieri – Sérgio Ricardo)
9. Gatinho Siamês
10. Homo Sapiens – participação de Marcio Policastro
11. Cidade Aberta
12. Fiz um Samba
    (Paulinho Parada – Fernando Cavallieri)
13. Modernidade Líquida

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