Kleber Albuquerque

O cantor, compositor e violonista paulista Kleber Albuquerque nascido em uma família operária de Santo André – SP, foi embalado por rádios populares, canções sertanejas, rocks progressivos, trilhas de novelas e hinos evangélicos. Aos onze anos de idade ganhou de seu pai um Violão e, de forma autodidata, aprendeu os primeiros acordes.

Formou bandas de rock na adolescência e foi assim que começou a compor, tomando gosto por misturar melodias aos versos que criava, versos esses muito influenciados pelas leituras de Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e Gabriel Garcia Marques e pelas audições do Legião Urbana, Raul Seixas e Queen. Com uma dessas bandas, chamada “O Palhaço”, entrou em estúdio pela primeira vez, gravando algumas faixas em um LP, lançado pelo extinto selo Camerati, do Belchior.

Em seguida, com um punhado de canções no caderno, começou a participar de Festivais de Música pelo país. Em um deles, sua música foi notada pelo compositor paulista J.C. Costa Netto, dono do selo Dabliú, que o convidou para gravar seu primeiro disco. Este disco primeiro disco chama-se “17.777.700” e foi lançado em 1997. Logo depois vieram outros, igualmente com nomes estranhos: “Para A Inveja Dos Tristes” (2000), “O Centro Está Em Todas As Partes” (2003), “Desvio” (2007) e “Só O Amor Constrói”. Isto sem contar os projetos especiais e discos artesanais. Atualmente lança “10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo”, sua nova coleção de canções brasileiras.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Kleber Albuquerque para a  , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 01.07.2017:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Kleber Albuquerque : Nasci no dia 07/03/1960 em Santo André – SP, o A do ABC.

02) RM : Fale do seu primeiro contato com a música?

Kleber Albuquerque : Nasci em uma família bastante musical e cresci ouvindo canções sertanejas, hinos evangélicos, sucessos populares dos anos 70, que eram as músicas que meus pais, tios e avós ouviam em casa. Um dos meus tios tocava violão e tinha uma coleção imensa de LPs de duplas caipiras como Milionário e Zé Rico, Tibagi e Miltinho, Mococa e Moraci, etc. Fascinava-me especialmente aquelas canções que contavam causos e histórias. Ouvia coisas como “O Milagre de um Ladrão”, “Ipê Florido”; que contava a história de um cara que passa a vida preso, vendo um ipê crescer, por causa de um crime de amor e “O Céu Chorou Por Mim”, que falava da chuva no dia em que a mulher amada casou com outro cara. Eram canções exageradas, de sentimentos fortes. Havia uma dupla chamada Léo Canhoto e Robertinho que cantava algumas músicas meio engraçadas, de bang-bang. Havia também um disco de Raul Seixas com aquelas canções lindas: “Gita” e “Medo da Chuva”. Eu passava o dia ouvindo aqueles discos e brincava de inventar melodias cantando em falso inglês.

03) RM : Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Kleber Albuquerque : Sou autodidata em música e a maioria das coisas que faço. Estudei, mas não conclui um curso de Letras na Fundação Santo André – SP e também estudei um pouco de música na ULM – Universidade Livre de Música de São Paulo e na Fundação das Artes de São Caetano do Sul – SP.

04) RM : Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Kleber Albuquerque : Sinto que a música popular brasileira dos anos 70, em especial, a música mais popular, aquela dos programas de TV, Rádios AM e das duplas caipiras, teve uma influência crescente em mim ao longo do tempo. Foram as primeiras coisas que ouvi. Ao conhecer outros sons, a MPB mais refinada de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque. Ao ouvir pela primeira vez Elomar, ao tomar contato com as invenções musicais de Itamar Assumpção, grupo Rumo, Premê, essa turma toda da Lira Paulistana, essa primeira influência se dissipou um pouco, mas, com o tempo, vejo que ainda marca muito a minha forma própria de compor.

05) RM : Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Kleber Albuquerque : Comecei formando bandas de rock na adolescência. Tocávamos aonde deixavam: escolas, bares, praças. Um tempo depois, participei de um Festival de música no interior de São Paulo e nesse Festival recebi um convite do compositor José Costa Netto e do empresário Paulo Amorim para gravar meu primeiro disco pelo selo Dabliú.

06) RM : Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Kleber Albuquerque : Lancei seis discos autorais, além de alguns CDs artesanais e participações em projetos coletivos e coletâneas. Meu primeiro disco foi lançado em 1997 e chama-se “17,777.700”, que é o número de minha carteira de identidade. Deste CD duas canções se destacaram: “Estilhaço” e “Barriga de Fora”, que tiveram grande execução nas rádios. Depois vieram outros sempre como nomes esquisitos: “Para A Inveja Dos Tristes”, que lancei em 2000; “O Centro Está Em Todas As Partes” (2003), um disco bastante acústico e experimental, que talvez seja o que mais gosto. Desse disco há canções em que toco até hoje nos shows. Uma delas chama-se “Os Presentes”, que foi gravada depois pela cantora amazonense Eliana Printes e que fez grande sucesso. Outra canção de que gosto muito desse disco é “Parede Meia”, que também teve uma versão registrada pela Ceumar. Neste disco gravei também “Xi, de Pirituba a Santo André”, parceria minha com o compositor Rafael Altério. Esta canção participou do Festival da Música Brasileira promovido pela Rede Globo e também ficou bastante conhecida. Em 2007 lancei “Desvio” e em 2009, “Só O Amor Constrói”, um disco que gravei acompanhado pela Mini Orquestra de Polka Punk. Esses dois trabalhos têm uma pegada um pouco mais roqueira, revisitando um pouco o som das bandas que eu tinha na adolescência. Meu disco mais recente foi lançado em 2013 e chama-se “10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar de Eu Te Amo”. De lá pra cá, além de trabalhos para teatro, produzi e dirigi um documentário musical chamado “Olhai os Lírios”.

07) RM : Como você define o seu estilo musical?

Kleber Albuquerque : Sou um cancionista, um fazedor de canções. Gosto de misturar música e poesia. Quanto a gêneros, componho muito reggae, rock e samba, mas tenho uma predileção especial por formas antigas, como valsas, boleros, baladas e modinhas.

08) RM : Você estudou técnica vocal?

Kleber Albuquerque : Durante um tempo estudei canto na Fundação das Artes de São Caetano do Sul e, depois, mais um pequeno período da Universidade Livre de Música, em São Paulo. Mas foram períodos curtos e não me formei em nada. Acho que aprendi mesmo a cantar imitando Caetano Veloso e Luiz Melodia, fazendo aqueles maneirismos, aqueles balangandãs com a voz. Tento me policiar, mas até hoje dou umas “caetaneadas” na voz de vez em quando.

09) RM : Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Kleber Albuquerque : Acredito que seja grande. Há ótimos cantores que exercitam suas técnicas constantemente e que jamais saem de casa sem echarpe, mas, pessoalmente, não tomo nenhum cuidado com a voz, a não ser evitar gritar. Sinto que cantar é como falar. E o falar, desde que com moderação, não costuma atrapalhar em nada meu consumo de álcool ou fumo.

10) RM : Quais as cantoras(es) que você admira?

Kleber Albuquerque : Há muitos. Há grandes cantores e cantoras que precisam ser mais conhecidos do grande púbico: Ceumar, Eliana Printes, Marco Sartori, Daniela Alcarpe, Elaine Guimarães. E há aqueles que marcaram minha formação musical: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Renato Brás, Xangai.

11) RM : Como é o seu processo de compor?

Kleber Albuquerque : Tenho alguns métodos, que variam no caso de ser uma parceria ou uma canção feita sozinho. O mais fácil para mim é construir melodias. Em composições que faço com parceiros letristas, o mais comum é bater o olho no texto e já ouvir uma melodia, que a seguir vou desenvolvendo. Quando a parceria é inversa, isto é, quando recebo uma melodia para “letrar”, o processo é muito mais trabalhoso: coloco a melodia em “loop” para ouvir no computador e fico dias tentando desenterrar as palavras a partir dos sons, quase como em uma espécie de tentativa de tradução de uma língua desconhecida.

Quando componho sozinho, normalmente surge na cabeça algum fiapo de melodia ou verso e aí fico burilando até chegar na canção. E também gosto de compor por encomenda, para teatro ou mesmo para pessoas que querem ter uma canção para si ou para presentear alguém. Tenho até um projeto de “canções sob encomenda”. Nesses casos faço pesquisas e tudo mais para poder compor. Em todos os casos, no entanto, o processo é sempre muito intuitivo e tenho na maioria das vezes a sensação de que a canção, ao ficar pronta, já existia por si, como se fosse descoberta ao invés de inventada. Talvez as canções existam independentemente do compositor. Ou talvez seja o caso de procurar um bom advogado.

12) RM : Quais são seus principais parceiros de composição? 

Kleber Albuquerque : Recentemente, tenho como parceiro mais constante o poeta e produtor Flávvio Alves. Tenho também parcerias com Zeca Baleiro, Chico César, Dante Ozzetti, Ceumar, Thamires Thannous e muitos outros amigos compositores. Gosto mais de compor sozinho, então minhas parcerias são muito mais feitas por razões afetuosas do que propriamente musicais.

13) RM : Quem já gravou as suas músicas?

Kleber Albuquerque : Tive a alegria de ter canções gravadas por muita gente boa: Zeca Baleiro, Vanusa, Renato Brás, Fábio Jr., Eliana Printes, Dani Alcarpe, Ceumar, Márcia Castro, Vanusa, Thamires Thannous e mais uma turma de ótimos intérpretes.

14) RM : Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Kleber Albuquerque : Ser independente geralmente significa que você tem que se virar para resolver todos os aspectos necessários para o desenvolvimento da sua carreira artística, ou seja, além do lance artístico propriamente dito: cantar, compor, ensaiar, se apresentar, é necessário correr atrás dos shows, da divulgação, ter uma visão empresarial e tudo mais. O ruim disto é que também tira o foco principal do artista, que é fazer arte.

15) RM : Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Kleber Albuquerque : Não tenho muita estratégia, não. Para ser sincero, a minha carreira é só o tempo que venho contando desde que a música e a poesia viraram meu ganha-pão. Elas me alimentam há vinte anos. De tempos em tempos um punhado delas se transforma em disco, que se transforma em viagens, shows e convites para projetos. Acho que minha estratégia é só essa: faço músicas e as sigo.

16) RM : Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Kleber Albuquerque : Tenho muitas ideias, e elas me movem a cada período. Ultimamente, tenho me animado, por exemplo, a criar um espaço para show no quintal de casa. O “quintal do Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios” para abrigar meus projetos e de outros amigos. Tenho uma parceria com a produtora Sete Sóis e juntos desenvolvemos os projetos que invento.

17) RM : O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Kleber Albuquerque : A internet facilita em muito a divulgação. Nos tempos de minhas bandas de punk rock fazíamos filipetas e fanzines e íamos distribuir nos bares. Hoje esta comunicação está bem avançada, com internet, celulares e tal, você consegue passar informação farta e rápida para todo mundo. Só que tem informação demais, pois hoje todo mundo se vende o tempo todo. Há uma fome generalizada por cliques. E a internet é como o vidro de uma luneta sendo usado como espelho. As pessoas usam para se ver a si mesmas.

18) RM : Quais as vantagens e desvantagens do acesso a tecnologia de gravação (home estúdio)?

Kleber Albuquerque : Hoje, com uma ideia na cabeça, uma laptop e um microfone na mão, além de algum conhecimento técnico de gravação adquirido em fóruns de internet, você consegue ótimos resultados sonoros com custo zero ou infinitamente inferior ao que gastaria há algum tempo em um estúdio. Ou seja, se você for criativo, não há limites para o seu som. De negativo nisso vejo apenas que se cria em alguns a ilusão de que a tecnologia substitui a arte, a técnica e o ouvido. Também não sei se é vantagem ou desvantagem, mas toda tecnologia marca a música de seu tempo. Podemos citar como exemplo desde a invenção do piano até a daqueles tontons eletrônicos irritantes dos anos 80, que pipocavam nas viradas de bateria de todas as canções pop. Hoje as músicas gravadas tendem a certo exagero de efeitos e compressões, o que me incomoda um pouco, como também me incomoda a excessiva exatidão rítmica das canções de hoje. As edições e plugins facilitaram muito. Ficou fácil ser perfeito.

19) RM : No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Kleber Albuquerque : Do ponto de vista prático, tento observar o momento das coisas. Vejo que atualmente há uma indefinição muito grande de como vai se configurar o mercado da música. As gravadoras praticamente acabaram. O que por um lado é bom, pois era um sistema extremamente excludente, mas também não surgiu nada para se colocar no lugar. Tirando o funk e o sertanejo, que possuem um mercado próprio, ainda que decrescente. E os artistas que conseguem estabelecer uma relação próxima com os grandes meios de comunicação; que, aliás, sempre estiveram por trás das grandes gravadoras, e que também é cada vez mais decrescente. A música, especialmente a mais inventiva, está se tornando cada vez mais um fenômeno de nicho. Junte a isso uma depressão econômica e um golpe político que, ao assaltar o poder, vai com seus dentes na jugular da cultura, destruindo o pouco de fomento do Estado que já havia para isso, é de se imaginar que haja uma cada vez maior “independentização” da música.  Nesse sentido, acho até que possuo uma relativa vantagem, pois já sou um artista “independente” há um tempão, ou seja, sou bem escolado em crise. Então vejo um monte de gente inventando coisas que eu já fiz: shows em lugares alternativos, CDs artesanais, a utilização das possibilidades da internet, todo esse trabalho de guerrilha cultural. Mas penso que no final das contas, o que pode fazer mesmo a diferença é à força da obra musical que a gente cria.

20) RM : Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Kleber Albuquerque : Do ponto de vista da criação, há sempre um mundo de gente legal fazendo música bacana. Do ponto de vista de mercado, e também da, digamos assim, música mais “popular”, da música de consumo mais massificado, acho que está péssima. E não só porque os artistas pioraram, mas porque os ouvidos se embruteceram. Talvez haja certo saudosismo da minha parte, mas mesmo as músicas mais popularescas de trinta ou quarenta anos atrás tinham letras e melodias mais interessantes do que hoje em dia. Talvez seja também porque não acompanho muito as coisas que estão acontecendo no mainstream. Não gosto muito de ouvir música atualmente, então eu acabo escutando mais o som de amigos e coisas que chegam a mim de forma meio aleatória.

21) RM : Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Kleber Albuquerque : Pelo que já vi, o cara que para mim é um exemplo de qualidade, caráter, generosidade e profissionalismo é o Zeca Baleiro. Em minha opinião, o grande compositor brasileiro de nossos tempos.

22) RM : Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Kleber Albuquerque : Já cantei sem microfone, sem cachê e sem público. Já caí do palco (algumas vezes), já agradeci ao prefeito da cidade errada, mas acho que a mais estranha foi eu ter sido esquecido pela produção em uma das primeiras vezes em que me apresentei no Festival de Inverno de Paranapiacaba – SP. O show tinha terminado e eu já estava dentro do ônibus, mas deram falta de alguém e eu, bobão, me propus a ajudar a encontrá-lo. Nisso a pessoa chegou e quando voltei já não havia ônibus nenhum. Acabei ficando perdido naquela vila inglesa maluca e participei de algumas festas estranhas com gente bem esquisita. Até hoje não sei como voltei pra casa. Lembro só de ter tomado um doce e de ter entrado em um trem todo colorido.

23) RM : O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Kleber Albuquerque : Me sinto muito grato por viver de música. Não é uma carreira fácil, é cheia de instabilidade, mas acho mais divertido do que a maioria das profissões. Alegra-me quando as pessoas são tocadas pelo que faço, mas não faço por ninguém, componho porque é importante para mim. É um processo interno para me entender e para eu entender as coisas do mundo. Então me sinto muito no lucro para perceber as eventuais tristezas.

24) RM : Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Kleber Albuquerque : Moro em São Paulo, uma espécie de lugar nenhum onde todos se encontram. Há muita coisa rolando na cidade. Uma das coisas legais da cena musical daqui são os saraus, slams e os shows em espaços ultra alternativos, nos quais dá pra conhecer trabalhos autorais super bacanas. Como exemplo, cito as “Giras de Compositores”, que são encontros musicais que fazemos aqui no quintal do Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios, no bairro da Mooca.

25) RM : Quais os músicos, bandas da cidade que você mora, que você indica como uma boa opção?

Kleber Albuquerque : Tem um monte de gente boa. Pode anotar: Marcos Vilane, Adolar Marin, Trio Sinhá Flor, Sonekka, Renato Brás, Daniel Groove, Carlos Careqa, Daniella Alcarpe, Elaine Guimarães, Teju Franco, Gabriel de Almeida Prado, Freud a Deriva, Thiago e os Quase Quinze, Daniel Medina, Thamires Thannous, Thiago K. , Flávvio Alves, Bruno Batista e mais um monte de gente.

26) RM : Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Kleber Albuquerque : Elas costumam tocar nos lugares em que não se cobra. Há rádios incríveis – educativas, universitárias, piratas, de internet – que fazem um contraponto à massificação sonora hegemônica. E este trabalho de guerrilha cultural merece ser louvado. Surpreendo-me positivamente ao saber que minhas canções fazem parte da programação de muitas dessas rádios. Se elas estiverem esperando uma graninha minha, estão fritas. Mas o jabá é um problema antigo, deletério e complexo, que tem a ver com a própria questão do poder da comunicação estar nas mãos de muito poucas pessoas.

27) RM : O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Kleber Albuquerque : Costumo não dizer muita coisa. Acho que se a pessoa consegue ficar longe da música, então talvez seja melhor ficar. A carreira musical não é a coisa mais estável e segura do mundo. Mas percebo que para um tipo muito particular de ser humano, não ser artista não é opção. Não é que você escolha trilhar uma carreira, você tem uma paixão. E aí a razão obscurece, não adianta dizer nada. Gosto desses.

28) RM : Quais os prós e contras do Festival de Música?

Kleber Albuquerque : Prós: encontrar e conhecer músicos e músicas legais de todo o Brasil. Há uma imensidão de gente talentosa por aí.  Contra: a tendência de se compor “música de festival”, ou seja, cair num certo populismo musical. Também tenho certo incômodo com o fato de que sua canção está sendo julgada, muitas vezes por pessoas sem tanta capacidade de julgamento assim (risos).

29) RM : Na sua opinião, hoje os Festivais de Música ainda é relevante para revelar novos talentos?

Kleber Albuquerque : Acredito que sim. Com a reconfiguração do mercado da música causado especialmente pelas mudanças tecnológicas, o velho sistema de gravadoras, que, aliás, era bem ruim, praticamente ruiu. Neste sentido, formatos como o dos Festivais acabam tendo uma importância estratégica para o fomento de novos artistas e para a formação de público. Pena que com essa crise e todo o desmonte da cultura resultante dela esse circuito de festivais, que há alguns poucos anos estava bastante pujante, me parece estar diminuindo.

30) RM : Como você analisa a cobertura feita pela mídia da cena musical brasileira?

Kleber Albuquerque : A grande mídia, de modo geral, me parece mais preocupada em incentivar a imbecilidade geral da nação e, com pouquíssimas exceções que só confirmam a regra, não está a altura da riqueza e da diversidade cultural do nosso país. Resta a guerrilha cultural dos blogs, sites, algumas rádios, revistas e mídias contra hegemônicos.

31) RM : Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI e Itaú Cultural para cena musical em São Paulo?

Kleber Albuquerque : Estas instituições são espaços de excelência para a cena musical em São Paulo. São extremamente importantes, mas estão longe de serem suficientes para abarcar a produção musical que está sendo feita.

32) RM : O circuito de Bar nos Bairros Vila Madalena, Vila Mariana, Pinheiros, Perdizes e adjacência ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Kleber Albuquerque : Não saberia dizer ao certo, pois costumo me apresentar mais em teatros e outros espaços musicais.  Tenho alguns amigos que conhecem mais esse circuito. Novamente, não tenho uma visão muito otimista das coisas. As pessoas andam meio surdas.

33) RM : Quais os seus projetos futuros?

Kleber Albuquerque : Estou finalizando o disco de um projeto recente, chamado “Contraveneno”, que criei em parceria com o cantor Rubi. É um show de canções quase caipiras, boas para se cantar a duas vozes. Gravamos “ao vivo no estúdio” em janeiro e o disco deve sair ainda no primeiro semestre de 2017. Ainda para este ano pretendo lançar um novo disco de inéditas. O nome, ainda provisório, será “Psicoaudiocardiograma” e com canções que falam do coração, esse músculo involuntário tão presente na música brasileira, e cuja ideia foi inspirada por três pontes de safena que acabei ganhando recentemente.

34) RM : Quais seus contatos para show e para os fãs?

Kleber Albuquerque : www.kleberalbuquerque.com.br | www.facebook.com.br/kleberalbuquerque | (11) 7825-1073 | (11) 987578787 (Sete Sóis Produções Artísticas).

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