Cabruêra

Tive a satisfação de conhecer os fundadores da Cabruêra nas suas várias metamorfoses musicais quando eu cursava Comunicação Social – UEPB – Campina Grande. Arthur, Orlando, Fredi eram os “três mosqueteiros musicais” sempre envolvidos com projetos de banda de MPB, Rock e Reggae.

Os ouvintes mais pessimistas imaginavam que aqueles jovens universitários estavam apenas tirando um som para relaxar os neurônios de uns e para perturbar os de outros. Viviam como protótipos universitários das belas causas justas ou perdidas. Mas quaisquer que fosse o gênero musical faziam com profundidade e entrega total. Chegando a causar frustração ao público fiel quando a banda parava ou mudava para outro estilo. Fenômeno natural de jovens em busca da química e a batida perfeita.

A Cabruêra no início 1998 aparentemente era mais uma tentativa de projeto de banda mais crescendo em musicalidade e quantidade de público. E os jovens músicos se dedicaram a profissionalização, ou seja, os ideais tomaram corpo de um projeto de vida. A Cabruêra ganhou o mundo e seguiu a direção do próprio nariz fazendo os incrédulos mudarem de opinião e verem que o projeto agora era de gente grande. Arthur Pessoa líder incondicional dos projetos foi abrindo os caminhos. A Cabruêra é o bom exemplo de como a Paraíba mesmo tendo o Forró autêntico como cartão postal, tem várias bandas jovens fazendo um som com a célula regional com influencias do pop, do jazz, rock, reggae e com a fusão de todos os gêneros nada fora do comum mais pouco popularizado.

O manguebeat com Chico Sciense e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Mestre Ambrósio, Cascabulho, Jorge Cabeleira e outras bandas menos populares reveladas no Abril Pro Rock em Recife – PE foi a primeira luz a guiar os caminhos de novas bandas na Paraíba e no nordeste. O som da Cabruêra não tem a pretensão de ser os primeiros, mas sim discípulo fiel das novas informações musicais que o Nordeste apresentava nos anos 90 para o Brasil e para o Mundo. A Cabruêra não perdeu o trem da história e participou de vários eventos dentro e fora do Brasil sendo bem recebido e aplaudido por jovens que não encantavam com o Pagode, Sertanejo e Funk dos anos 90.

A Cabruêra entrou na maior idade profissional e musical em uma permanentemente metamorfose musical sem perder o DNA regional. O Show é envolvente e público é convidado a formar uma grande roda para dançar, tendo o Arthur como mestre de cerimônia. A Sonoridade atual com Bateria, Baixo, Guitarra, Instrumento de Sopro todos passeando em linha melódica deixa um ambiente sensorial flutuante aos ouvidos acostumados com acordes marcantes. Arthur incorpora um cantador/repentista em transe espiritual transpirando a sua crença musical do rock, reggae ao regional. O melhor discípulo de Tom Zé.

Segue abaixo entrevista exclusiva com  Arthur Pessoa  para a  , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 25.06.2017: 

01) Ritmo Melodia : Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal e dos atuais membros da Cabruêra?

Arthur Pessoa : Nasci no dia 25 de junho de 1976 em Campina Grande – Paraíba. Pablo Ramires (baterista) e Edy Gonzaga (Baixista) também nasceram em Campina Grande e o Leonardo Marinho (guitarrista) nasceu em Natal – RN.

02) RM : Fale do seu primeiro contato com a música e dos atuais membros da Cabruêra?

Arthur Pessoa : Meu primeiro contato com a música foi através do meu pai que tocava percussão e tinha um violão em casa. Depois meu irmão mais velho fez uma viagem e trouxe para mim um pequeno Teclado em que comecei a estudar mais seriamente. Eu devia ter uns 12 anos de idade.

03) RM : Qual a sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical e dos atuais membros da Cabruêra?

Arthur Pessoa : Eu cursei Ciências Sociais na Universidade Federal da Paraíba em Campina Grande – PB, com área de concentração em Antropologia, mas não cheguei a concluir o curso. Minha formação musical foi autodidata, fui me interessando pelos instrumentos, praticando e aprendendo a tocar sozinho ou com o auxílio de amigos que tocavam também.

04) RM : Quais as influências musicais no passado e no presente dos membros da Cabruêra. Quais deixaram de ter importância?

Arthur Pessoa : Acredito que todas as informações que recebemos ou buscamos durante a vida acabam influenciando de alguma forma no nosso trabalho. Eu sou o filho mais novo e tenho três irmãos mais velhos, então basicamente eles ouviam rock em casa enquanto que o meu pai estava sempre ligado na MPB. Assim fui sendo influenciado por esse ambiente e mais tarde na Universidade tive contato com outros artistas e discos através das pessoas mais próximas da minha geração. Nasci e cresci em Campina Grande participando das festas juninas de São João e de certa forma todo aquele universo da cultura popular sempre me chamou a atenção. Já na Universidade, através do contato com a antropologia e a pesquisa, passei a me aprofundar mais nesse universo, buscando conhecer a grandeza da obra de artistas como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

05) RM :  Quando, como e onde  começou a Cabruêra? Quem eram os músicos da primeira formação? Quais os motivos da saída dos músicos da primeira formação? E Qual formação atual? Quais os motivos levaram a colocar o nome da banda de Cabruêra?

Arthur Pessoa : Cabruêra significa o coletivo de cabras e também é usado no nordeste para um coletivo de pessoas, já que existe essa analogia entre o homem e a cabra. Estávamos procurando um nome que tivesse esse sentido de coletivo e quando ouvi a música “O Fole Roncou” do Luiz Gonzaga que fala “… O fole roncou no alto da serra, cabruêra da minha terra…”, achei que seria um nome com uma identidade nordestina forte e que tinha a ver com esse universo do cancioneiro popular em que estávamos mergulhando.

O grupo surgiu no final de 1998 no campus II da UFPB. Vários integrantes estudavam lá e mantinham projetos Musicais paralelos. Eu (Vocal, Violão esferográfico, percussão e acordeom) e Orlando Freitas (Baixo) que cursava Ciências Sociais; Fredi Guimarães (Violão, Viola, Percussão e vocais) que cursava matemática, em determinado momento passamos a tocar juntos. Não existe um porquê de o grupo ter surgido, tudo foi espontâneo. Nós fomos ensaiando, fazendo um som, quando vimos já tinha uma galera enorme tocando, aí começou a aparecer um público para assistir os ensaios, e quando vimos já estávamos fazendo shows por todos os lugares em Campina Grande – PB.

Tocamos no Maior São do Mundo em Campina Grande em 1999, daí fomos convidados a tocar no Festival Abril Pro Rock 2000 em Recife – PE, de lá fomos convidados: a fazer uma turnê pela Europa, passando pela Inglaterra, Alemanha, Bélgica e Portugal. Quando voltamos fizemos o Balaio Brasil do Sesc – SP por 18 cidades do estado de São Paulo. Depois ganhamos o Kikito em Gramado – RS pela trilha sonora do Filme A Canga. Nossa história passa por vários festivais, entre eles: Fenart – JP, Festival de Inverno – Campina Grande, Rec Beat-Recife, Festival de Inverno de Garanhuns – Garanhuns, Centro em Cena – JP, MADA – Natal, Abril Pro Rock – Recife, Julho em Salvador – Salvador, Balaio Brasil – SP, Sons da Terra-Berlim, Sfink´s Festival – Bélgica, Raízes de Atlântico – Ilha da Madeira – Portugal, entre outros.

Os músicos da primeira formação foram: eu, Ely, Emy Porto, Fredi Guimarães, Orlando Freitas e Zé Guilherme. Os motivos da saída dos primeiros integrantes foram vários, alguns por iniciativa própria de fazerem uma outra opção profissional e outros por conflitos de interesses pessoais ou musicais dentro da própria banda.  Mas claro que não posso aqui dizer que cada um saiu por esse ou por aquele motivo. Essa resposta só eles mesmos podem dar. A formação atual é Arthur Pessoa, Pablo Ramires, Edy Gonzaga e Leo Marinho.

06) RM :  Quantos CDs lançados, quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD?

Arthur Pessoa : São cinco discos lançados: Cabruêra (2000); “O Samba da Minha Terra” (2004); “Sons da Paraíba” (2005); “Visagem” (2010) e “Nordeste Oculto” (2012). Cada álbum corresponde a uma época específica da banda com suas particularidades e nuances, mas acredito que uma linha que perpassa todos eles é a nossa ligação com o cancioneiro popular da Paraíba e todo o universo do domínio público com suas canções e brincadeiras da cultura popular.

07) RM :  Como você define o estilo musical da Cabruêra?

Arthur Pessoa : Bebemos em várias fontes e temos várias influências. Então, não defino… Deixo isso para o público ou para os críticos.

08) RM : Quais as semelhanças e diferenças da Cabruêra das banda do movimento manguebeat (Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, etc)?

Arthur Pessoa : A semelhança é que todos esses artistas lançaram um olhar sobre a própria cultura, valorizando os ritmos locais, mas ao mesmo tempo se abrindo para as diversas influencias de estilos sejam do Brasil ou de outras culturas. A diferença é que somos da Paraíba, então apesar de ser tudo Nordeste temos uma ligação com uma produção cultural local e nossas referências muitas vezes parte desse universo da cultura paraibana.

09) RM :  Arthur, você estudou técnica vocal?

Arthur Pessoa : No início da Cabruêra tínhamos um professor de canto que sempre dava aulas e passava exercícios pra gente, mas nunca fiz um curso ou algo parecido.

10) RM :  Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Arthur Pessoa : É muito importante, pois é o instrumento mais humano que existe. É preciso cuidado na preparação para gravar e também na resistência da voz pra suportar muitos shows em sequencia como acontece nas turnês.

11) RM :  Quais as cantoras(es) e bandas que os músicos da Cabruêra admiram?

Arthur Pessoa : Eu posso falar de alguns artistas e bandas que eu admiro: Tom Zé, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês, Jacinto Silva, Milton Nascimento, Lenine, Pedro Osmar, Bráulio Tavares, Curumim, Wado, Siba, Bnegão, Pink Floyd, The Doors, Led Zepelin, James Browm, FelaKuti, Ebo Taylor, Nomo, Budos Band, Battles, Antibalas e muitos outros. São tantos artistas e bandas que admiro, é impossível listar aqui.

12) RM :  Arthur, como é o seu processo de compor as músicas para a Cabruêra?

Arthur Pessoa : Não tem nenhum ritual específico não. Meu processo de composição é livre e atemporal. Não tenho uma metodologia ou técnica específica para compor. Às vezes pode surgir a letra e vou construir a melodia e harmonia ou também pode acontecer o inverso. Eu raramente paro e digo: “hoje vou compor”. As músicas surgem-nos mais diferentes momentos ou lugares. Posso estar caminhando na rua ou mesmo dentro de um avião e surgir alguma ideia, algum trecho de letra, um filme que eu vi ou alguma situação que ocorreu. É sempre uma derivação de alguma célula musical, poesia ou trecho de melodia que surge a partir dela vou construindo o restante.

13) RM : Quais são seus principais parceiros de composição?

Arthur Pessoa : Todos os integrantes da banda sempre fazem parte desse processo de derivação a partir de uma ideia inicial que pode ter sido trazido por mim ou por outro integrante.

14) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Bráulio Tavares?

Arthur Pessoa : Um grande amigo, uma pessoa que admiro a sua obra: literária e musical. Considero um dos padrinhos da Cabruêra, pois foi uma das primeiras pessoas que citamos no nosso primeiro release. Ele também foi aluno do meu pai quando estudou na Universidade em Campina Grande e sempre esteve acompanhando o nosso trabalho de perto, indo aos shows no Rio de Janeiro ou na Paraíba. Também fazemos uma citação a um dos seus poemas numa música do disco visagem (Sina de Violeiro) e também quando morávamos no Rio de Janeiro ele fez várias participações especiais nos nossos shows.

15) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Silvério Pessoa?

Arthur Pessoa : Um grande artista e um amigo que navega no mesmo ambiente de influências musicais que as nossas. Nos encontramos algumas vezes pela estrada e em Festivais. Admiro o trabalho dele, especialmente sua relação com a obra de Jackson do Pandeiro e Jacinto Silvo.

16) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Chico César?

Arthur Pessoa : Trabalhamos juntos quando ele foi secretário de Cultura da Paraíba e também fez uma participação especial no nosso disco “Nordeste Oculto”. Um grande artista com uma bonita obra musical e forte sotaque paraibano em tudo que faz.

17) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Criolo?

Arthur Pessoa : Conheci o Criolo pessoalmente quando produzi o show dele aqui em João Pessoa na reinauguração do Espaço Cultural. Mas, ele já havia ido ao nosso show em São Paulo no Studio SP. Considero um dos artistas mais criativos desta nova safra da música brasileira.

18) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com os músicos do movimento manguebeat?

Arthur Pessoa : Conheço muita gente de muitas bandas. Tocamos duas vezes no Abril pro Rock. Nossa primeira turnê pela Europa foi produzida por Paulo André que foi o produtor do Chico Science e também é o criador e produtor do Abril Pro Rock. Através da Nova Consciência em Campina Grande- PB, produzi muitos shows de artistas pernambucanos no evento, como também através da minha presença na Coordenação de Música da Fundação Espaço Cultural em João Pessoa- PB em fizemos alguns shows de artista que fazem parte desse movimento.

19) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Toninho Borbo?

Arthur Pessoa : Um grande amigo da época da Universidade e que sempre esteve acompanhando de perto o trabalho da Cabruêra, assim como eu sempre acompanhei e acompanho de perto o trabalho dele. Um grande artista e compositor que também sempre se autoproduziu e vem ao longo dos anos ganhando o respeito do público e da crítica por onde passa através dos discos que gravou e lançou. Ano passado estivemos juntos em Santiago de Compostela na Espanha durante a WOMEX, feira de música que já venho participando há uns seis anos seguidos divulgando coletâneas com artistas paraibanos através da FUNESC. Hoje Toninho está à frente do Cine São José em Campina Grande desenvolvendo um importante trabalho naquele aparelho cultural que também faz parte da Fundação Espaço Cultural da Paraíba.

20) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Tom Zé?

Arthur Pessoa –Uma das grandes referências na minha formação musical. Estivemos juntos a primeira vez durante a MIDEM em Cannes quando ele foi o mestre de cerimônias na apresentação das bandas brasileiras. Depois nos reencontramos algumas vezes no Rio de Janeiro e aqui pela Paraíba. Certa vez a revista Rolling Stone pediu pra ele fazer a lista de cinco discos especiais para ele, e, para minha surpresa e alegria ele citou o nosso segundo disco “O Samba da Minha Terra”. Foi um feedback muito importante já que considero ele uma das maiores influências na minha formação musical. Houve um momento também aqui em João Pessoa que tocamos juntos no Festival Nacional de Arte e fizemos uma participação no show dele e depois ele fez uma participação no nosso show. Considero uma das mentes mais criativas da música brasileira.

21) RM : Arthur, qual a sua relação pessoal e profissional com Pedro Osmar?

Arthur Pessoa : Uma referência no trabalho da Cabruêra através de toda obra construída por ele junto ao movimento Jaguaribe Carne e a própria banda com ele e com seu irmão Paulo Ró. Também fomos amigos de trabalho quando ele ficou a frente do núcleo de pesquisa musical da FUNESC e desenvolvemos alguns projetos juntos. Além disso, logo no primeiro disco fazemos uma homenagem com a canção “Nada para o Pedro”. Considero um guerrilheiro da cultura paraibana, brasileira e mundial. Um artista inquieto, talentoso e bastante comprometido com as questões de cunho social e político usando a arte como instrumento de transformação e luta. O lado experimental de sua obra também é uma grande referencia para o nosso trabalho.

22) RM : Quais as estratégias de planejamento da Cabruêra dentro e fora do palco?

Arthur Pessoa : Seguimos o ritmo da maré. Fomos produzindo e gravando os discos, fazendo as turnês, construindo público e as coisas foram acontecendo naturalmente. Também destaco o fato de estarmos sempre produzindo projetos, seja por conta própria ou através dos editais de lei de incentivo a cultura. Nosso planejamento é sempre gravar um disco após o outro e cair na estrada levando nosso som onde for possível e viável.

23) RM : Quais as ações empreendedoras que a Cabruêra pratica para desenvolver a carreira musical?

Arthur Pessoa : Fizemos muitos projetos em editais de incentivo como Petrobras, Itaú Cultural, Caixa Cultural, Funart, Minc, BNB entre outros. Então foi através desses canais de patrocínio que gravamos a maioria dos nossos discos e continuamos sempre em busca de formas alternativas de financiamento para viabilizar os nossos projetos.

24) RM : O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira musical?

Arthur Pessoa : O lado positivo é que se pode colocar a baixo custo a sua música numa plataforma virtual que é mundial. Então, isso foi fundamental para desenvolvermos nossa carreira internacional. Assim como a relação com selos e gravadoras ou festivais no exterior. Não vejo como possa prejudicar uma carreira musical, ao contrário acho que se bem utilizada pode ser um meio muito eficaz de distribuir música nas mais diversas plataformas disponíveis e muitas vezes de forma gratuita. 

25) RM : Quais as vantagens e desvantagens do acesso à tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Arthur Pessoa : A vantagem é que você não precisa mais de uma grande gravadora pra bancar um disco ou de um grande estúdio para gravar. Muitos bons discos são feitos em home estúdios e através do acesso as ferramentas digitais se consegue resultados muito positivos. A desvantagem é que depois de gravar é preciso também escoar essa produção e nem todos os artistas sabem como utilizar os canais virtuais de forma produtiva.

26) RM : No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Arthur Pessoa : Não temos uma estratégia específica para isso, apenas gravamos os discos e depois vamos pra estrada mostrar o trabalho através principalmente dos festivais no Brasil e no exterior. Em quase 20 anos de carreira construímos uma rede de contatos e é através dessa rede que divulgamos o nosso trabalho. Também temos um produtor na Europa que já trabalha com a Cabruêra há 16 anos e é o responsável pela nossa carreira internacional. 

27) RM : Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical como banda independente?

Arthur Pessoa : A vantagem é que temos um maior controle sobre o nosso trabalho, desde a escolha das músicas até a capa do disco. Mas essa independência também tem um preço, pois temos que criar todas as condições para distribuir nossa música de forma independente e usando as ferramentas que estão disponíveis atualmente, principalmente através da internet.

28) RM : Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu? 

Arthur Pessoa –O Brasil tem uma produção musical riquíssima e constante em todas as épocas e regiões. Atualmente destaco o trabalho do Criolo, Emicida, Aláfia, Céu, Curumim, Bnegão e outros que tem desenvolvido suas carreiras de forma independente mais com muita competência.

29) RM : Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Arthur Pessoa : São muitos. Tom zé é um deles. Lenine também. Destaco também Siba, Curumim e Criolo.

30) RM : Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para o show, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Arthur Pessoa : Em 20 anos muita água rolou. Tocar e não receber aconteceu algumas vezes, todavia essas situações foram mais frequentes no início da carreira.  Falta de condição técnica ainda é uma lacuna principalmente nas iniciativas independentes, mas participar de grandes Festivais com estrutura impecável compensa quaisquer outras roubadas que passamos.

31) RM : O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Arthur Pessoa : O que me deixa mais feliz é poder dar continuidade a nossa história através dos discos e dos shows, encontrando e reencontrando pessoas e lugares do Brasil e do mundo e aprendendo sempre com cada experiência vivida. Não digo que me deixa triste, mas não fico tão feliz vendo alguns artistas que tem um ótimo trabalho, mas muitas vezes não conseguem espaço para circular.

30) RM : Você acredita que sem o pagamento de jabá suas músicas tocarão nas rádios?

Arthur Pessoa : Sim, pois em muitas rádios elas já tocam mesmo sem precisarmos pagar o jabá, especialmente nas rádios públicas. Mas o “jabá” ainda é presente não só nas rádios, mas também nos canais de Televisão e não vejo que isso vá mudar num curto espaço de tempo, infelizmente.

32) RM : O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Arthur Pessoa : Acreditar na sua música. Ensaiar sempre. Construir um público fiel e trabalhar para levar sua música a um maior número de pessoas e lugares possíveis. Gravar discos e achar formas de distribuir esse trabalho seja físico ou virtual. Construir uma rede de contatos profissionais e valorizar as relações afetivas que são construídas durante a estrada, respeitando sempre os outros profissionais e agindo de forma ética e responsável por onde passar.

33) RM : Quais os prós e contras de se apresentar na Europa?

Arthur Pessoa : No trabalho da Cabruêra nunca vi contras, só prós. Já levamos nossa música a 16 países e sempre muito positiva todas as experiências vividas no exterior, seja na Europa (onde fomos mais), nos EUA, África ou mesmo aqui na América Latina em países como Argentina e Colômbia.

34) RM : Existe algum tipo de preconceito contra músicos estrangeiros que se apresentam na Europa?

Arthur Pessoa : Nunca percebi isso. Ao contrário, existe muito interesse pela música brasileira, principalmente a música que não é apenas o Samba e a Bossa Nova; estilos mais conhecidos lá fora e que sempre foram os carros chefes da música brasileira no exterior. No nosso caso sempre fomos bem recebidos e convidados a voltar outras vezes.

35) RM : Quais as diferenças do mercado musical da Europa para o brasileiro?

Arthur Pessoa : Para o tipo de som que fazemos existe muito mais espaço na Europa do que no Brasil. Eles estão mais abertos a conhecer novos trabalhos, com diferentes estilos e formas de se fazer música. Além disso, o nível profissional e de equipamentos na Europa, dependendo do Festival, também chama a atenção. O nível de produção é mais profissional e acredito que eles muitas vezes respeitam mais os artistas. Mas isso também acontece em muitos festivais no Brasil que tem bons profissionais e equipamentos, então não dar para generalizar. Mas a quantidade de Festivais interessados no tipo de música que fazemos é maior no exterior.

36) RM : Quais as dicas para um músico brasileiro ter um bom desenvolvimento de carreira na Europa?

Arthur Pessoa : Em primeiro lugar é preciso chegar lá e fazer um bom trabalho para abrir espaço e voltar outras vezes. Ter um selo que lance o disco e faça promoção por lá também é uma grande diferencial. Todos os discos da Cabruêra foram lançados fora e isso foi fundamental para o desenvolvimento da nossa carreira internacional.

37) RM : Quais os países que a Cabruêra já se apresentou?

Arthur Pessoa : França, Portugal, Inglaterra, Alemanha, EUA, Holanda, Bélgica, Dinamarca, Itália, Suíça, República Tcheca, Moçambique, África do Sul, Colômbia e Argentina.

38) RM : O que é preciso para ter uma harmonia pessoal, profissional dentro de uma banda?

Arthur Pessoa : Respeito mútuo, admiração e consideração pelo outro. Ser amigo verdadeiro uns dos outros e trabalhar em união para construir o trabalho com parceria e cumplicidade.

39) RM : Arthur, quais os aprendizados você teve nesses anos de Cabruêra?

Arthur Pessoa : Em primeiro lugar agradecer sempre a Deus pela oportunidade de fazer música e levar alegria pra vida de tantas pessoas pelo mundo todo. Foram muitas vivências pelo Brasil e pelo mundo e todas elas trazem um aprendizado, sejam as boas ou não tão boas experiências. É procurar sempre aprender em todas as situações, tirando o que a de melhor dessas vivências. O contato com outras culturas diferentes da nossa acredito que sempre nos enriquece do ponto de vista humano mesmo. Aprender a respeitar as diferenças, a ser mais paciente e tolerante nas situações mais adversas.  A ter mais compreensão com os outros e com nós mesmos. Acredito que estamos todos aqui nesse plano para aprender e os erros fazem parte da nossa caminhada. Importante é aprender com ele e procurar não os repetir.

40) RM : Arthur, quais erros a serem evitados?

Arthur Pessoa : Se soubéssemos não erraríamos. Mas quando se erra é procurar aprender com aquela experiência para não cometer de novo.

41) RM : Arthur, no palco você criou “uma personagem” ao longo dos anos?

Arthur Pessoa : Não criei não. Apenas subo no palco e faço aquilo que venho aprendendo a fazer durante esses anos todos que é tocar e cantar nossa música, alegrar as mentes e corações daqueles que vão para o nosso show.

42) RM : O clima do show da Cabruêra sempre foi dançante. Como vocês avaliam a união da música urbana (rock, reggae) com as cantigas regionais (Ciranda, Forró, Frevo, etc) como essência da sonoridade da Cabruêra?

Arthur Pessoa : Sempre foi natural por serem essas todas as nossas influências. E por acreditar que o nosso público seja heterogêneo. Então, esses diálogos entre estilos ou ritmos sempre foi uma coisa positiva na nossa trajetória e essas misturas todas enriquecem a música brasileira.

43) RM : No passado a Cabruêra tinha um instrumento de harmonia fazendo a base rítmica (Violão ou Guitarra). Atualmente não tem um músico fazendo essa função de base Harmônica. Quais os prós e contras dessa nova formação: Bateria, Baixo, Guitarra-solo e instrumento de sopro?

Arthur Pessoa : Faz parte dessa dinâmica natural em que o som vem se desenvolvendo. Nunca foi uma opção racional tirar ou colocar qualquer instrumento. As mudanças foram acontecendo e fomos trabalhando a partir dos formatos que fomos experimentando. Às vezes sai um músico e entra outro e esse já traz uma forma diferente de tocar o instrumento. Também muitas vezes trazemos um instrumento para a gravação do disco e depois optamos por levar para o palco também, e foi assim no caso dos metais por exemplo.

44) RM : As letras autorais da Cabruêra tem muita imagem e se assemelham a um mantra por conta repetição e fácil assimilação na primeira audição. O conteúdo das letras traz palavras do senso comum e do imaginário popular. Quais os motivos para manterem-se com uma estética do passado, semelhante à cantiga de roda?

Arthur Pessoa : O universo da cultura popular e das canções de domínio público sempre foi uma forte referência no nosso trabalho. Então essa estética muitas vezes de letras mais minimalistas, quase haicai, é uma constante na nossa trajetória. Mas não descarto a possibilidade de nos próximos discos termos letras mais extensas ou tratando de outros assuntos que não apenas desse universo da cultura popular.

45) RM : Quais influências da estética da obra do Tom Zé no trabalho da Cabruêra?

Arthur Pessoa : Tem uma grande influência. Tom Zé sempre foi uma grande referência para mim como músico por conta do seu lado experimental, por exemplo, de tirar sons de objetos e coisas que não são instrumentos convencionais.

46) RM : Arthur, em 2017 a Cabruêra faz 18 anos, qual a sua autoanalise da trajetória? O que você mudaria na trajetória e o que faria exatamente igual?

Arthur Pessoa –Não mudaria nada. Tudo que fizemos faz parte de um aprendizado e procuramos sempre aprender com tantas experiências vividas nesses 18 anos. Foi um vento que passou por Campina Grande e nos levou pro mundo. E seguimos firmes nesse movimento de criar nossas músicas, gravar nossos álbuns e participar dos Festivais, trilhas sonoras ou quaisquer outras oportunidades que vem surgindo para nós. O que temos que fazer sempre é agradecer a oportunidade de ter saúde pra criar e levar nossa música estrada a fora.

47) RM : Arthur, você já pensou em gravar alguma música do paraibano\campinense João Gonçalves, o Rei do Duplo Sentido. Autor dos sucessos: “Severina Xique-Xique”; “Pescaria em Boqueirão”; “Mariá”; “Por Causa da Pipita”; “Locadora de mulher” e “Empregada Doméstica”? 

Arthur Pessoa :  Sim. É um dos maiores expoentes do Forró Arrasta-Pé, Xote e Baião e pouco conhecido pela nova geração. Não descarto a possibilidade de fazer alguma versão de uma de suas músicas.

48) RM : Quais os seus projetos futuros?

Arthur Pessoa : Gravar o nosso sexto álbum em 2017 e continuar a levando nosso show aos lugares onde somos convidados no Brasil ou no exterior.

49) RM : Quais seus contatos para show e para os fãs?

Arthur Pessoa – www.cabruera.com.br | cabrueramusic@gmail.com | www.facebook.com/arthurcabruerawww.facebook.com/cabrueramusic  |

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