Márcio Policastro

O compositor e cantor paulistano Márcio Policastro conhecido na cena da MPB paulista, circula há alguns anos pelos palcos do circuito universitário, tendo composto com diversos parceiros, com destaque para Carlos Careqa e Zé Rodrix.

Entre 2007 e 2009, o artista fez parte do extinto grupo 4+1 (cujos demais eram Álvaro Cueva, Alexandre Cueva, Kana e Léo Nogueira), um dos muitos que se formaram dentro do Clube Caiubi de Compositores. Teve canções gravadas por artistas como Álvaro Cueva, Lucia Helena Corrêa, Max Gonzaga e Sonekka. Recentemente, sua canção “Dia de São Nunca” (parceria com Léo Nogueira) foi gravada por Sander Mecca, com a participação especialíssima de Zeca Baleiro.

Sua canção “Sol a Sol”, feita em parceria com Fernando Cavallieri, tem sido premiada em vários dos festivais dos quais participou. Policastro também dividiu o palco com diversos artistas de destaque no cenário brasuca, como Tavito e Zé Rodrix.

O recém-lançado “Pequeno Estudo sobre o Karma”, primeiro CD do artista, é uma cuidadosa seleção de suas composições que abrange suas várias fases. O trabalho apresenta letras que atravessam com delicadeza, humor e acidez o universo dos relacionamentos humanos e estão sempre acompanhadas de melodias inusitadas e harmonias audaciosas. O trabalho tempera o caldeirão dos ritmos brasileiros com generosas colheradas de rock, jazz e música latino-americana, tudo isso amarrado nas cordas de um violão carregado de suingue e energia. Rótulos como “urbana” ou “regional”, “reflexiva” ou “dançante”, se misturam e se confundem na paisagem sonora do compositor. Trata-se de uma obra cheia de deslizes premeditados, rampas inesperadas e placas de “Não entre, caso não queira se surpreender”.

 Segue abaixo entrevista exclusiva com Márcio Policastro para a  , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 15.05.2017:

01) Ritmo Melodia : Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Márcio Policastro : Nasci no dia 13.12.1970 em São Paulo. 13 de dezembro, dia do AI-5 e, mais recentemente, da PEC 55. O Gonzagão (Luiz Gonzaga) também nasceu no dia 13 de dezembro.

02) RM : Fale do seu primeiro contato com a música?

Márcio Policastro : Nasci num lar extremamente musical. Minha mãe tocava piano, meu pai e a minha avó materna, que vivia conosco, cantarolavam o dia inteiro. Ele, músicas nordestinas, ela modinhas da Ilha da Madeira. Toda sexta-feira, havia saraus em casa, com a turma dos meus irmãos mais velhos, que também tocavam.

03) RM : Qual sua formação musical e\ou acadêmica fora da área musical?

Márcio Policastro : Minha formação é basicamente intuitiva. Sou meio autodidata, mas sempre vivi rodeado de bons músicos, com quem aprendi bastante. E cursei Ciência Sociais na USP – Universidade de São Paulo.

04) RM : Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Márcio Policastro :  A primeira grande referencia foi Raul Seixas. Mas tarde o Clube da Esquina e as bandas dos anos 70, principalmente de rock progressivo. Depois veio o Djavan, Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina. Hoje em dia, minha maior influência é a música black americana: Soul, blues e jazz. Adoro música erudita também, principalmente Beethoven, Mahler, Rachmaninoff, mas seria muita pretensão dizer que minha música tem essa influência. Não consigo pensar em ninguém que tenha deixado de ter importância.

05) RM : Quando, como e onde você começou a sua carreira profissional?

Márcio Policastro : No final dos anos 90 tocando em bares e também nas faculdades da USP. Mais, tarde ao lado de dois parceiros, Almir Teixeira e Luís Sant’anna, iniciamos um projeto voltado para musica autoral, chamado “Achados e Perdidos”, bem semelhante ao Clube Caiubi de Compositores, que começou na mesma época, e ao qual e vim a aderir alguns anos depois.

06) RM : Fale do seu primeiro CD? E quais as músicas que entraram no gosto do seu público?

Márcio Policastro : Lancei meu primeiro CD no final de 2015, “Pequeno Estudo Sobre o Karma”.  É um trabalho que reúne elementos de rock e ritmos brasileiros, com letras predominantemente urbanas. As preferidas do meu público são “Dia de São Nunca”, composta em parceria com o Léo Nogueira. Essa música, alias, foi gravada recentemente pelo Sander Mecca, com participação especial do Zeca Baleiro. Outra música que o pessoal gosta bastante nos shows é “Amor de Emaranhar”, parceria com o Álvaro Cueva e Almir Teixeira.

Uma curiosidade é que são 12 músicas e cada música tem as características de um signo do zodíaco, a começar pela canção “Autoimagem”, que tem a ver com o signo de Áries.

07) RM : Como você define o seu estilo musical?

Márcio Policastro : Musicalmente, acho que sou bem versátil, embora me assuma como compositor de MPB, numa época em que muitos têm rejeitado esse rótulo. Mas gosto de transitar pelo blues, jazz; jazz vagabundo como diz um parceiro meu (risos), soul, e rock. Em relação às letras, mesmo quando não são minhas, porque só escolho aquelas com as quais me identifico, elas acabam refletindo um pouco do meu temperamento. Gostos de letras bem humoradas, ácidas, eu gosto de crônicas, mas tenho também um lado romântico.

08) RM : Você estudou técnica vocal?

Márcio Policastro : Sim, por dois curtos períodos, porém muito importantes.

09) RM : Qual a importância do estudo de técnica vocal e cuidado com a voz?

Márcio Policastro : Foi fundamental. Tem um amigo meu que fala que há 20 anos, quando eu o conheci, eu não cantava bem, não tocava bem, nem compunha bem, mas a semente já estava lá. Acho que resolvi um pouco a questão de não cantar bem com as aulas de canto.

10) RM : Quais as cantoras(es) que você admira?

Márcio Policastro : Nana Caymmi, Zizi Possi e Elis Regina. Lá fora, adoro a ChaKa Kan.

11) RM : Como é o seu processo de compor?

Márcio Policastro : Existem várias formas. Posso iniciar com uma ideia de letra, um mote, começo escrevendo a letra e depois, quando eu percebo o desenho da melodia e os possíveis caminhos, vou fazendo letra e melodia juntas. Gosto também de musicar (colocar melodia) letras e poemas. Muitas vezes pinta o tema musical e passo para os parceiros letristas. Em outras ocasiões, e acho isso bastante prazeroso, componho junto com os parceiros. Gosto muito de fazer reuniões para compor. Nós chamamos de compositória.

12) RM : Quais são seus principais parceiros de composição?

Márcio Policastro : Vou falar os mais frequentes, para não incorrer no risco de me esquecer de algum talentoso parceiro. O Léo Nogueira, o Álvaro Cueva e o Gabriel De Almeida Prado têm sido os parceiros mais frequentes.

13) RM : Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Márcio Policastro : Os prós são a liberdade. Eu como sagitariano prezo muito pela liberdade, de uma forma geral, e pela liberdade de expressão mais ainda. Posso falar sobre o que quiser nas minhas músicas, sem me importar com o que vão achar.  Os contras são óbvios: você tem que fazer tudo praticamente sozinho, não tem grana para pagar o jabá. No meu caso, ainda não consegui viver exclusivamente da música, etc.

14) RM : Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco?

Márcio Policastro : Estou atualmente trabalhando com a produtora Ba Rocco, e temos como estratégia principal a busca por nichos. Existe uma busca por trabalhos alternativos que tratem de temáticas diversas das propostas pelo mercado. Não é por acaso que estão proliferando cada vez mais espaços que se propõem à divulgação da música autoral.

15) RM : Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Márcio Policastro : Tenho feito vários shows, enviado meus CDs para rádios universitárias, me apresentado em locais que privilegiam a música autoral.

16) RM : O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Márcio Policastro : Ajuda no sentido de oferecer possibilidades para a divulgação do meu trabalho, seja nas plataformas digitais como Spotify e Deezer, até mesmo o You Tube, o Soundcloud, e o próprio Facebook. Não vejo no que possa atrapalhar. O problema da música brasileira é que ainda não existem blogs e críticos que sejam referencias nacionais para a música alternativa, autoral. Embora estejam despontando excelentes blogs. Eu indico dois: O X do Poema, do Léo Nogueira e o “Sarau, Lual e o Escambau”, do Arnaldo Afonso, que é um blog do Estadão.

17) RM : Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso a tecnologia  de gravação (home estúdio)?

Márcio Policastro : Isso reduz bastante o custo, mas também, em muitos casos a qualidade.

18) RM : No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar o disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Márcio Policastro : Procuro estar sempre fazendo shows e me apresentando nos espaços destinados à música autoral. Sempre posto músicas novas no soundcloud e divulgo na minha fanpage do Face.

19) RM : Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Márcio Policastro : O que falar do cenário musical brasileiro atual? “Quero tefuder”, ”Meu pau te ama” (risos). Precisa falar algo?

20) RM : Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Márcio Policastro : Sou muito fã do Zeca Baleiro. Além de considerá-lo genial, acho que tem uma capacidade muito grande de se reinventar, de criar projetos bacanas, como, por exemplo, o “Baile do Baleiro”, ou o trabalho que fez com a poesia da Hilda Hilst. Também é generoso com outros artistas, veja o resgate da obra do também genial Sérgio Sampaio. Também gosto muito do engajamento político do Chico Cesar.

21) RM : Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Márcio Policastro :  Foram muitas (risos). Lembro-me do dia em que decidi não tocar mais em Bar, quando o dono de um boteco no bairro de Pinheiros – SP, um sujeitinho arrogante pra caralho, arrancou a minha pasta de repertório da estante e disse: “Quero ver o que você vai tocar”. “É. Tá mais ou menos…”. Nesse dia, eu resolvi prestar um concurso (risos).

22) RM : O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Márcio Policastro : Essa pergunta me fez lembrar-se de uma coisa que o Zé Rodrix sempre dizia: “Primeiro vem à amizade, depois as canções, e, só depois, vem o artista”. Acho que é essa a ordem das coisas que me fazem feliz com a música. Nisso eu concordo com ele.O que me deixa triste é a dificuldade de divulgar o meu trabalho.

23) RM : Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Márcio Policastro : São Paulo tem vários teatros alternativos, como os Parlapatões e o Teatro da Rotina. Tem vários Saraus acontecendo, os quais posso destacar o Clube Caiubi, o Sarau do Mora Mundo, o Sarau da Maria e o Sopa de Letrinhas. Enfim, não falta espaço pra música autoral. O que falta muitas vezes é o público.

24) RM : Quais os músicos, bandas da cidade que você mora  você indica como uma boa opção?

Márcio Policastro : São muitos: Álvaro Cueva, Gabriel De Almeida Prado, Sonekka, Teju Franco. Têm também o Max Gonzaga, Fernando Cavallieri e Adolar Marin, que são do ABC, cidades vizinhas, mas são muito bons e eu não sou bairrista (risos).

25) RM : Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Márcio Policastro : Se não for rádio alternativa, sinceramente não. Esse negócio de moderna MPB que toca Simone e Emílio Santiago, com todo respeito, não engana ninguém.

26) RM : O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Márcio Policastro : Tenha paciência, aprenda a lidar com as dificuldades, mas, principalmente, faça algo que te deixe feliz, sem criar muitas expectativas. O prazer de fazer um trabalho que você mesmo curte, é uma das melhores coisas da vida.

27) RM : Qual a sua opinião sobre o espaço aberto pelo SESC, SESI, CEUs e Itaú Cultural para cena musical em São Paulo?

Márcio Policastro : No caso do SESC, SESI e Itaú Cultural, são verdadeiros oásis nesse deserto de oportunidades para os compositores independentes, inclusive porque são espaços que tem seu próprio público e pagam bons cachês. Por isso mesmo, são muito concorridos. O mais cruel é que no momento atual temos que disputar estes espaços inclusive com medalhões.

Em relação aos CEUs tenho poucas informações de como estão atualmente. Uma vez toquei num CEU que tinha um baita teatro, som de primeira, mas completamente vazio. Além do quê, não acho que faz parte das prioridades do atual prefeito investir em cultura, muito pelo contrario. Ele deve estar muito mais preocupado em seguir as 48 Leis do Manual de psicopatas, que é seu livro de cabaceira.

28) RM : O circuito de Bar nos Bairros Vila Madalena, Vila Mariana, Pinheiros, Perdizes e adjacência ainda é uma boa opção de trabalho para os músicos?

Márcio Policastro : Para mim, que trabalho com música autoral, não vejo nos bares uma grande perspectiva, a não ser que você leve seu próprio público. Se for para levar o próprio público, então prefiro trabalhar com parceiros, como o Garagem Vinil, o Brazileria, o espaço Mora Mundo, e a Fábrica de Caleidoscópios, do amigo Kleber Albuquerque, só para citar alguns. 

29) RM : Quais os seus projetos futuros?

Márcio Policastro : Pretendo gravar meu próximo CD – “Pequeno Estudo Sobre o Dharma” e tenho um projeto com o Álvaro Cueva, de gravarmos um DVD ou um CD com nossas parcerias.

30) RM : Quais seus contatos para show e para os fãs?

Márcio Policastro : O contato da Ba Rocco é (11) 9.9963-6143, o meu é (11) 97464-3500 | Marcio.policastro@gmail.com | Fanpage: www.facebook.com/Marcio-Policastro-805774499438788 | perfil: www.facebook.com/marcio.policastro

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