Léo Nogueira

Léo Nogueira, cearense radicado em São Paulo, é poeta, compositor, escritor (lançou o romance “Filho da preta!” pela Editora Reformatório em 2014) e blogueiro (www.oxdopoema.blogspot.com ). Seu segundo romance está em fase de finalização, e também prepara com Adolar Marin um disco só de parcerias entre ambos.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Léo Nogueira  para a  , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 27.03.2017:

01) Ritmo Melodia : Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Léo Nogueira : Nasci em Senador Pompeu (CE), no primeiro dia do último mês do ano da graça (1.12) de 1971.

02) RM : Quais suas preferências musicais? Quais deixaram de ter importância?

Léo Nogueira : O que sou hoje é fruto de um caldeirão musical gigante. Criança, na casa de meus pais, ouvia de tabela as mais variadas preferências: uma tia que morava conosco era fanática por Roberto Carlos, um tio (que também se instalou ali por uns anos) ouvia Teixeirinha, meu pai não tirava Luiz Gonzaga da radiola e minha mãe suspirava por Paulo Sergio.

Na adolescência, curti muito rock (sobretudo o nacional), até descobrir o poço sem fundo que era a MPB (no qual me atirei e onde até hoje sigo em queda… mas livre). Antes disso, estudei italiano um tempo e ouvi muita música nesse idioma (meu preferido era Lucio Dalla); e, tempos depois, estudei espanhol e caí em novo poço sem fundo, visto que a riqueza musical dos países que falam a língua de Cervantes não deve nada à brasileira. Pra resumir, desse “poço” meus preferidos são os espanhóis Joaquín Sabina e Pedro Guerra, o argentino Charly García e o uruguaio Jorge Drexler. Também ouvi muito os bardos Dylan e Cohen e aquela banda da terra de Joyce, o U2. E não seria de todo justo se não acrescentasse que também tenho ouvido muito ao longo desses anos meus parceiros e outros compositores que fazem parte de meu círculo de amizades. Sobre a segunda pergunta: quem fixou residência em meu coração por algum tempo terá sempre seu espacinho lá.

03) RM : Qual sua formação acadêmica?

Léo Nogueira: Bacharelei em Letras, com licenciatura plena (português/espanhol), pela extinta Unibero. Contudo, prezo muito mais minhas experiências adquiridas do portão pra fora.

04) RM : Como e quando você começou sua atividade de letrista em parceria com compositores? Quais são os seus parceiros musicais?

Léo Nogueira : Em dezembro de 1993, assisti a um especial de Chico Buarque na Rede Bandeirantes. Em determinado momento, quando ele cantou juntamente com Daniela Mercury a canção “Ela Desatinou”, quem desatinou fui eu, que, influenciado por toda aquela magia, após o programa compus minhas primeiras duas canções. Ambas eram sofríveis, mas desataram uma sangria que não estancou até hoje. Naquela época, conheci Élio Camalle, que foi meu primeiro parceiro musical e o cara que me escancarou os portais da criação; depois vieram muitos outros. Em quantidade (e regularidade) entre os parceiros, destaco (em ordem alfabética, pra não ferir egos) Adolar Marin, Clarisse Grova, Gabriel de Almeida Prado, Kana, Marcio Policastro e Sonekka, mas há muitos outros; todos queridíssimos. Detalhe: acredito ser possível uma maior integração latino-americana; se não for pela política, que comece pelas artes. Faço meu trabalho de formiguinha, e tenho alguns parceiros do lado de lá de nossas fronteiras geográficas. Os latino-americanos devíamos ser todos incentivados ao bilinguismo desde a infância.

05) RM : Você escolhe sistematicamente quem será seu parceiro musical ou deixa acontecer espontaneamente?

Léo Nogueira : Quando termino uma letra, já tenho na mente mais ou menos pra quem a vou mandar, pois cada uma acaba ficando meio parecida com o estilo de fulano ou beltrano; mas prefiro letrar melodias. Nesse caso, o arrebatamento se dá (ou não) por minha exclusiva relação com a musa, e me deixo levar pelo modo como suas notas irão me enfeitiçar. Claro que parceria é também como sexo: empatia, química. Quando não há, não rola com frequência.

06) RM : No processo da parceria na criação da canção, você envia a letra/poema para o compositor para ele colocar a melodia? Você coloca letra em melodia que o compositor envia para você?

Léo Nogueira : Acho que já respondi a essa pergunta na anterior, mas acrescento que minha inspiração sempre é melódica, tanto que, quando faço a letra antes, costumo fazê-la cantarolando. E não raro essas melodias cantaroladas ficam até boas; quando isso acontece, costumo aproveitá-las.

07) RM : Você permite ao compositor alterar a sua letra?

Léo Nogueira : No passado, já fui mais ranzinza; hoje, considero que a qualidade da canção em seu resultado final é mais importante que o ego do autor. Contudo, como dizia Paulinho da Viola, só peço ao parceiro que “não me altere o samba tanto assim”.

08) RM : Cite as principais canções cuja autoria da letra é sua e quem já gravou.

Léo Nogueira : Pra um autor, uma canção é como um filho; portanto, fica difícil utilizar esse “principais” acima. Saindo pela tangente, posso citar algumas que me deram mais alegrias. São elas: “Bye Bye Japão”, parceria com Kana (e gravada por ela), que ganhou a Fampop (tradicional festival de Avaré-SP) nos idos de 1999; “Baião de Um”, parceria com Adolar Marin (e por ele gravada), que também obteve muitas premiações em festivais – e no disco “Atemporal”, de Adolar, contou com a participação do incrível Dominguinhos no acordeom; “O Mar em Mim”, parceria com Tavito gravada pela excelente cantora Drê, com arranjo de Swami Jr.; “Mano Cidadão”, parceria com Zeca Baleiro, que foi encomendada pela Rede Globo pra ser apresentada no especial de fim de ano de 2015, e foi interpretada pelo próprio Zeca juntamente com o duo Dois Africanos (e que entrou numa coletânea natalina da Som Livre); e “Dia de São Nunca”, parceria minha com Marcio Policastro gravada pelo próprio e também por Sander Mecca no EP deste (essa gravação – que também ganhou um ótimo clipe – contou com a participação de Zeca Baleiro); e… paro por aqui, senão não paro mais.

09) RM : Alguns compositores já declaram o fim da canção. Qual sua opinião sobre essa afirmação?

Léo Nogueira : A arte não acaba; quando muito, transforma-se. Portanto, não vislumbro o fim da canção; acredito apenas que ela possa virar algo diferente ao receber influência de outras expressões artísticas. Basta notar que, séculos atrás, a música clássica era a popular. Mas não creio que haja significativas mudanças nas próximas décadas.

10) RM : Hoje ainda existe espaço e ouvinte para a música com letra que se sustenta como um poema/poesia?

Léo Nogueira : Todo compositor é também um ouvinte de música, e atualmente vemos muita gente boa despontando no horizonte; isso significa que essas pessoas foram influenciadas por grandes compositores/letristas e, se elas foram, o mesmo obviamente deve ter acontecido com outros que acabaram optando por profissões distintas. Na maioria dos casos, a música é uma herança deixada de pai pra filho no seio familiar; o que limita o bom gosto é a artilharia pesada que a indústria musical lança contra os ouvidos de desavisados. Adquirir bom gosto musical é um processo lento, mas persistente. As pessoas ouvem o que toca nos meios de comunicação. E, infelizmente, enquanto o lucro vier desfilando na frente nesse enlouquecido bloco dos horrores, muitos tímpanos ainda serão vitimados. A notícia boa é que, com o advento da internet, essa mesma indústria que espalha o vírus do mau gosto tende a definhar, deixando a cada um ser dono de suas próprias escolhas.

11) RM : Na Rádio e na TV o autor da música quase não é informado. Quem canta passa a ser “o autor” da canção. Esse fato te incomoda?

Léo Nogueira : Com raras exceções, isso sempre aconteceu; portanto, ainda que me incomode não chega a me tirar o sono. Ao longo desses anos, já vi muitas pessoas emocionadas ouvindo algo saído de minha pena, e isso é suficientemente gratificante, mesmo em eu sabendo que elas desconhecem ser eu o autor. Há as profissões de linha de frente e as de bastidores, e tenho isso bem claro cá com meus botões. É como no cinema: o ator é celebridade e o roteirista é um anônimo, nem por isso param de surgir grandes roteiristas. O prazer de um trabalho feito com esmero vale por si só.

12) RM : Você tem músicas que tocaram e tocam em rádio, TV e em casas de show? O direito autoral é pago corretamente?

Léo Nogueira : Em rádio e TV, poucas; em casas de show, muitas. O direito autoral no Brasil é uma piada de mau gosto; existem, por exemplo, casas que pagam o ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), mas não lhe repassam as listas das canções executadas nos shows ali realizados. O que isso significa? Que esse dinheiro acaba indo pro bolso dos compositores que proporcionalmente mais são executados. Não há uma averiguação democrática e eficaz. E, em se tratando de internet, tanto pior. E, com a derrocada das vendas de discos, aqueles que trabalham com música tendem cada vez mais a ver sua profissão porcamente remunerada. Mas esse assunto é longo, eu poderia gastar laudas tratando dele.

13) RM : É possível sobreviver exclusivamente de direito autoral de suas músicas?

Léo Nogueira : É uma ironia, claro, mas costumo dizer que vivo de direitos autorais e trabalho em outras funções por lazer.

14) RM : Depois que você teve letras de canções que se tornaram conhecidas, aumentou a procura de compositores em busca de parceria?

Léo Nogueira : Posso dizer que aqui no subsolo da canção popular, onde meu trabalho é razoavelmente conhecido, sou regularmente convidado à parceria por uma boa quantidade de compositores. O que me entristece, entretanto, é que, nesses tempos de, digamos, bifurcação política, eu, que sempre me postei politicamente à esquerda, tenho notado uma evasão de parceiros entre aqueles que têm posicionamento contrário ao meu. Oxalá num futuro próximo um Ciro Gomes nos reaproxime (imaginem meu riso enquanto leem).

15) RM : O que o deixa mais feliz e mais triste na função de letrista?

Léo Nogueira : Duas coisas me deixam feliz: 1) o ato de compor, que envolve sempre um prazer orgástico; e 2) a emoção do público, nesse caso dirigida ao intérprete da canção, o que não diminui nem desmerece minha satisfação. O que me deixa triste é… Bom, pulemos essa pergunta? Tantas coisas me deixam triste, que só de me lembrar delas me entristeço… Fiquemos com as coisas boas.

16) RM : Quais as estratégias de planejamento da sua carreira profissional?

Léo Nogueira : Minha carreira profissional, assim como minha vida, é extremamente caótica. Contudo, posso dizer que convivo harmonicamente com o caos criativo, que não deixa de me inspirar.

17) RM : Quais as ações empreendedoras que você pratica para desenvolver a sua carreira?

Léo Nogueira : Venho de uma geração de artesãos musicais, sujeitos mais preocupados com a qualidade de sua obra e menos talentosos no quesito propaganda, ao contrário dessa galera da nova geração, que já tem uma veia empreendedora mais aguçada. Talvez por isso eu e os meus não tenhamos chegado tão longe quanto gostaríamos. Contudo, mal e porcamente aprendi a usar as redes sociais e as mídias digitais como mecanismos de divulgação.

18) RM : O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Léo Nogueira : A internet democratizou a canção e possibilitou um intercâmbio com ouvintes e artistas de qualquer ponto do globo. O lado negativo é que da mesma forma facilitou também pra artistas sem o menor talento, que, fosse em outra época, teriam se dedicado a outra profissão. Isso inflaciona o mercado, dificulta o trânsito entre o bom compositor e o/a intérprete à procura de boas canções e também faz o ouvinte preguiçoso achar que tudo o que se faz hoje é de baixa qualidade. Mas ainda acho que os prós são maiores que os contras.

19) RM : Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quais foram as revelações musicais nas duas últimas décadas, quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Léo Nogueira : A primeira questão já meio que respondi acima. Tem surgido muita gente boa, na contramão das tendências. Só pra ficar entre parceiros meus que estão estreando trabalhos discográficos, cito os excelentes Gabriel de Almeida Prado e Marcio Policastro, sem falar no primeiro EP solo do grande Sander Mecca (ex-Twister) e no também ótimo Augusto Teixeira, que deve lançar seu primeiro CD este ano. Mas há muitos mais. O espaço seria pouco. Sugiro aos interessados que visitem meu blogue (https://oxdopoema.blogspot.com.br ), lá trato de uma infinidade de outros grandes artistas entre os que nadam contra a corrente. Sobre a consistência da obra, não gosto muito de criticar o artista, que sempre é o elo mais fraco nessa cadeia alimentar. Um grande artista será sempre grande; às vezes seu sumiço se dá porque se aposentou, adoeceu ou simplesmente foi esquecido pela mídia, mas todos merecem nossos respeito e admiração.

20) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Zeca Baleiro?

Léo Nogueira : Considero Zeca uma espécie de padrinho musical. Devo muito a ele, uma vida pra pagar é pouca. Zeca é uma raridade entre os grandes, pois procura se cercar de pessoas que admira e em quem confia independentemente de fama. Só pra dar um exemplo: citei em resposta anterior uma parceria nossa: “Mano Cidadão”, feita por encomenda pra um especial da Rede Globo. Ele poderia ter composto uma canção sozinho ou mesmo ter convidado pra empreita um parceiro mais famoso, mas escolheu a mim pra entrar nessa jogada. É um exemplo pequeno, mas diz muito sobre o grande cara que ele é.

21) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Sonekka?

Léo Nogueira : Conheço Sonekka há muitos anos, desde antes do Clube Caiubi. Temos uma parceria certeira e prolífica que ainda não encontrou canal pra ser devidamente apreciada, principalmente porque ele grava poucos discos e tem muitos parceiros. Mas não o culpo, pois também sou dado ao mesmo hábito de, digamos, prevaricação musical. Além disso, temos outro ponto em comum: somos ambos defensores (e propagadores) do coletivo. Sonekka, por meio de seus conhecimentos profissionais aliados à generosidade, já fez muito por muita gente.

22) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Fernando Cavalieri?

Léo Nogueira : Cava (pros íntimos) é um amigo querido, e isso está acima da parceria, que, estranhamente, rendeu poucos frutos durante essas quase duas décadas de amizade. Mas as que vingaram são canções ímpares em nossas respectivas obras. Além disso, ele é um dos caras mais inteligentes que conheço. E talvez isso nele seja até um defeito, pois sua visão de mundo privilegiada é também, de certa forma, um empecilho pra que ele alcance momentos mais constantes de, digamos, uma felicidade burguesa e comezinha.

23) RM – Qual sua relação pessoal e profissional com Adolar Marin?

Léo Nogueira : Adolar, o Dodô, é um de meus amigos mais queridos e um parceiro por quem tenho uma incomensurável admiração. É também um cara com alto grau de genteboíce (by Tavito) e que tem uma espiritualidade que invejo. Sou suspeito pra falar dele, então resumo contando que temos um projeto de disco em parceria no qual boto a maior fé. E mais não digo porque algumas cláusulas desse contrato me impedem.

24) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Zé Rodrix?

Léo Nogueira : O foi de longe o maior intelectual com o qual tive o privilégio de conviver. Mesmo quando eu discordava dele (e não foram poucas as vezes), tinha que tirar o chapéu pra sua capacidade de argumentação. Na esgrima verbal, nunca vi alguém que o tivesse conseguido vencer. Desde sua chegada ao Clube Caiubi, grupo de compositores que ele apadrinhou e do qual eu faço parte, estive perto dele, aprendendo. Tenho duas parcerias com ele, mas infelizmente creio que a segunda talvez esteja perdida pra sempre, pois ele a compôs pouco tempo antes de nos deixar e sua família não encontrou registro dela. É uma das frustrações que levo…

25) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Tavito?

Léo Nogueira : Tavito é um queridão, outro cara com quem tenho poucas, mas ótimas, parcerias. Uma das maiores alegrias que a música me deu foi ter uma canção nossa gravada por ele. Passou um filminho em minha cabeça desde o tempo em que eu era um moleque que já o admirava até esse dia em que vi meu nome ao lado do dele num disco. Não é pouco! Mas Tavito, além do grande artista que é, é um baita ser humano. Acho mesmo que nele são duas coisas complementares.

26) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Marcio Policastro?

Léo Nogueira : Poli hoje deve ser o cara com quem tenho mais parcerias. Compomos meio com a facilidade de quem respira. Nove em cada dez vezes que nos encontramos sai música nova. E, modéstia às favas, a química é tão boa que as canções resultantes costumam ser igualmente boas. E olha que nosso grau de exigência é grande. Há tempos, abandonamos aquele papo de fazer musiquinha meia-boca. Mas preciso acrescentar que ele manda muito bem também quando compõe sozinho. É um de meus parceiros mais admiráveis: canta bem, toca bem, tem suingue, é um compositor de melodias belas e inusitadas e um letrista fodão, nervoso. Não conhece, leitor? Recomendo em generosas doses seu “Pequeno Estudo sobre o Karma”. E com o volume no talo.

27) RM : Qual sua relação pessoal e profissional com Kana?

Léo Nogueira : Ah… Kana é parceira de vida e de som. Quisera eu ter o poder de alçá-la ao patamar de seu merecimento. Se ela não tivesse todo o talento que tem, só sua história já valeria por tudo. Pense você numa japa que sai lá do outro lado do mundo e vem parar em nossas tupiniquins terras por amor à música brasileira, fica por aqui duas décadas estudando, pesquisando e transformando seus conhecimentos em canções lindas. Ainda escreve, arranja, toca vários instrumentos, canta divinamente – e com um timbre único – e tem uma presença de palco e uma naturalidade que vi em poucos. Pensou? Não tem duas, né? E, de quebra, me deu o privilégio de poetizar suas melodias e ser poetizado por seu leito. Como diria o velho Wilson das Neves, “ô, sorte”!

28) RM : Você acredita que sem o pagamento de jabá suas músicas tocarão nas rádios?

Léo Nogueira : Não gosto de falar sobre jabá porque desperta em mim sentimentos que procuro afastar. É algo não só perniciosamente prejudicial a um sem-número de grandes artistas e aos amantes da boa música, mas sobretudo a uma infinidade de brasileiros que não puderam depurar seu gosto musical por causa dele. Devia ser crime inafiançável. Nesse caso, sou favorável à pena de morte… Não, é brincadeira.

29) RM : O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Léo Nogueira : Não me sinto apto a aconselhar ninguém nesse quesito – ainda mais nos dias correntes. Componho por amor, por tesão e pra não enlouquecer. O resto é um caminhão de dúvidas e frustrações… descendo a Imigrantes na banguela.

30) RM : Quais os prós e contras de Festival de Música?

Léo Nogueira : Eu, se pudesse, transformaria todos os festivais em mostras nas quais uma variada gama de artistas pudesse levar aos públicos locais um punhado de canções e fosse paga por isso. Acho cruel, injusto e um tanto desonesto que dois ou três saiam de um festival montados na bufunfa e os demais voltem pra casa com uma mão na frente e a outra atrás depois de uma viagem desgastante… e pra mostrar uma única canção. Sem falar que grande parte deles (refiro-me aos festivais) caiu na armadilha de premiar as chamadas “músicas de festivais”, ou seja, aquelas canções cujas notas vão oswaldo-montenegramente aumentando até o infinito e que não servem pra mais nada a não ser… ganhar festivais. O que virou uma fórmula e escravizou muitos compositores de talento que, na falta de opção, resolveram viver desse filão.

31) RM : Hoje os Festivais de Música ainda têm a importância de revelar talentos?

Léo Nogueira : Não que eu, tu, ele, nós, vós e eles saibamos. Mas, pra ser justo, se eu fosse um compositor sem traquejo no babado festivaleiro, investiria. Vai que…

32) RM : Como você analisa a cobertura feita pela mídia da cena musical brasileira?

Léo Nogueira : Não analiso porque não creio na honestidade dela, assim me afastei desse universo há tempos e hoje garimpo minhas pepitas sem a muleta de peneiras alheias.

33) RM : Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura em outubro de 2016. Será que esse fato anima outros letristas a “sonharem” com prêmios na área de Literatura ou é um fato isolado?

Léo Nogueira : Fui um dos que ficaram felizes com esse prêmio dado a Dylan, mas não sou muito otimista quanto a alguma mudança significativa (pelo menos no médio prazo) na atenção dada a letras de música. Principalmente, em se tratando das feitas em português, pelas barreiras externa e interna – no caso desta, porque a falta de leitura do brasileiro médio por si só já prejudica sua plena capacidade de (ab)sorver com prazer a audição de canções que contenham um mínimo de refinamento em suas letras. Mas nós, os letristas, somos mulas teimosas. É de nossa natureza.

34) RM : Os músicos americanos são conhecidos como grandes cantores, melodistas e arranjadores. Qual a sua opinião sobre a qualidade deles como letrista?

Léo Nogueira : Respeito e aprecio alguns artistas de língua inglesa, mas todo mundo fala deles. Eu preferiria dissertar sobre artistas de língua espanhola, de língua italiana, de (por que não?) língua japonesa, de… Já os citei no início da entrevista, mas um cara, por exemplo, como o argentino Charly García, se fosse estadunidense em vez de argentino, provavelmente seria mundialmente reconhecido; assim como o (falecido) italiano Lucio Dalla merecia maior destaque; o espanhol Joaquín Sabina (um dos maiores letristas do planeta); o japonês Yosui Inoue… A globalização expandiu ainda mais a música em inglês e botou todas as demais num gueto: a prateleira da chamada world music. Cabe? Eu acho que não tem o menor cabimento.

35) RM : Nos apresente os livros que você já lançou.

Léo Nogueira : Fora uns poemas lançados em coletânea de qualidade duvidosa (meus poemas incluídos), tive dois contos publicados num livro que era um projeto coletivo dedicado a histórias que tratavam de andarilhos chamado “Doido, eu?” e um romance chamado “Filho da preta!” lançado há pouco mais de dois anos pela Editora Reformatório. Sobre este último, só posso dizer que tenho o maior orgulho dele, pois, apesar de não ter feito eco nenhum na grande mídia, tem sido recorrentemente elogiado por quem interessa: os leitores. Puxando a brasa pra minha sardinha, acho que acertei a mão nele. E só existe um jeito de você comprovar se estou ou não contando lorota…

36) RM : Qual sua opinião sobre a função positiva do crítico musical?

Léo Nogueira : Os bons críticos musicais quase todos já saíram (ou “foram saídos”) dos jornalões, porque foi do tempo em que eles tinham ali um mínimo de liberdade (saudades de Mauro Dias…). Hoje, quando vejo num jornal um crítico de vasto currículo escrever que o melhor disco do ano foi o de Fulana de Tal (não vou cair na esparrela de citar nomes), juro que fico constrangido por ele. Resumindo, os grandes críticos ainda existem, mas estão espalhados por blogues, e me cansa um pouco sair à procura deles. No mais, já estou grandinho pra confiar em meu próprio gosto. Mas… lembrei agora: ele não é exatamente um crítico, mas o cara que eu conheço que mais tem prestado relevantes (e poéticos) serviços dentro desse métier é o GRANDE Arnaldo Afonso, que emplacou em pleno Estadão seu já obrigatório “Sarau, Luau e o Escambau” (http://emais.estadao.com.br/blogs/sarau-luau-e-o-escambau). Altíssimo grau de recomendabilidade!

37) RM : Qual sua opinião sobre os livros ou sobre a análise do Luiz Tatit sobre a função da letra na música?

Léo Nogueira : Sou ignorante a respeito, pois não os li. Conheço apenas o Tatit compositor, que, aliás, admiro.

38) RM : Nietzsche comentou que a melodia (música) sem letra perturba a alma. O que você acha dessa afirmação?

Léo Nogueira : Apesar de ser letrista, reconheço que a letra é um acessório dentro do universo musical. Claro que, quando composta com excelência, faz uma canção atingir outro patamar, mas só pra quem a consegue entender (ou sentir). No mais, a primeira coisa que fisga um ouvinte é uma boa melodia, e estas podem tanto perturbar a alma quanto apaziguar, sensibilizar, deprimir, alegrar, surpreender, enlevar, enfim, fazer de gato e sapato a pobre da alma. A minha que o diga. Aliás, poderia dizer que uma alma nasce melodia e vai ganhando letra com os anos.

39) RM : No tempo da Ditadura Militar no Brasil as letras que tinham engajamento político fizeram sucesso. Qual a importância de letras que não tratem somente do tema Amor?

Léo Nogueira : Assim como a literatura, as canções chamadas engajadas têm sua função social e são uma espécie de fotografia de uma época. Contudo, com o tempo as que ficam são aquelas que possuem uma qualidade poético-musical que se sobrepõe ao simples panfletarismo (existirá tal palavra?). Eu, apesar de me considerar um pensador de esquerda, procuro reconhecer também a arte pela arte. Cada criador tem o direito de criar livremente, sem patrulhamento ideológico, e muitos deles são geniais nessa seara. Claro que, no caso dos compositores – pra não fugir da pergunta –, os que optam por não tratar de política em suas canções não deixam de, indiretamente, dela tratar.

40) RM : Qual sua opinião sobre “as letras pra acasalamento” que tocam no rádio (Funk, Sertanejo, Pagode, Forró, etc)?

Léo Nogueira : Passo. Pra acasalar, não preciso delas. E Wando não está mais entre nós.

41) RM : Renato Russo comentou que as letras que falam de amor sempre estarão na moda. Qual sua opinião a respeito dessa afirmação?

Léo Nogueira : Concordo. Aliás, amo Roberto Carlos e Vinicius de Moraes (não exatamente nessa ordem). Sem falar que significativa parcela de minhas letras trata (com amor) do tema.

42) RM : Você acha que as pessoas no geral estão mais para aceitar as letras que buscam o entretenimento ou a divagação lírica do que as que proporcionam reflexões humanas e sociais profundas?

Léo Nogueira – Existe todo tipo de música porque existe todo tipo de ouvinte. Lamento apenas que a maioria deles não tenha a possibilidade de ter acesso a estilos variados pra poder escolher com conhecimento de causa. Quem escolhe X ou Y muitas vezes o faz por desconhecer por completo a existência de Z.

43) Comentário livre.

Léo Nogueira : O Antonio Carlos me deu carta branca pra fazer uma autopergunta ou um comentário qualquer, assim, pra ser coerente com il mio cuore, queria deixar aqui registrado que faltou dizer que, dentro desse doido caldeirão que é a música brasuca atual, gostaria de destacar três cantautores que não citei ainda e que não foram ainda reverenciados à altura de seus calcanhares. São eles: Kleber Albuquerque, Rica(rdo) Soares e Vlado Lima. Há outros, claro, e muitos mais do que o ouvinte mediano possa supor.

44) RM : Quais os seus projetos futuros?

Léo Nogueira – Primeiramente… hoje, o projeto mais importante em nosso país é o coletivo: empossar um presidente legítimo. Depois, a gente pode voltar a viabilizar projetos pessoais. Por ora, pagar as contas já é uma baita realização.

45) RM : Quais os seus contatos com o público?

Léo Nogueira : O mais prazeroso é o contato corpo a corpo (ui!), mas os demais são… leonogueira1@gmail.com, o perfil feicibuquístico: https://www.facebook.com/leo.nogueira1 , o blogue http://oxdopoema.blogspot.com.br  e (11) 9.9963 – 6143 – tratar com Solange. No mais, “se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí (…). Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim eu entro; se houver motivo, é mais um samba que eu faço”… Entre outras bossas.

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