Tribo de Jah

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A história da Tribo de Jah iniciou-se na Escola de Cegos do Maranhão, onde quatro músicos cegos (Aquiles, Joãozinho, Nento Enes, Frazão) e um quinto com visão parcial (Zé Orlando), viviam em regime de internato e lá desenvolveram o gosto pela música, improvisando instrumentos e descobrindo timbres e acordes. Já como músicos profissionais passaram a realizar shows nos bailes populares da capital (São Luís) e outras cidades do interior do Estado com um repertório de covers de seresta, e lambada. O Tecladista Frazão e o vocalista/percussionista Zé Orlando não fazem mais parte da banda. Entraram para a banda o vocalista/guitarrista Pedro Beydoun e o Tecladista Bives.

Foi neste momento que surgiu o radialista paulista Fauzi Beydoun, filho de italianos com libaneses, que já havia morado quatro anos na Costa do Marfim – África, grande aficionado pela cultura reggae a qual era efervescente em São Luís nos anos 80, e que se tornou um fenômeno quase inexplicável nas terras brasileiras do Maranhão, invadindo inicialmente os guetos para depois tomar toda cidade, o interior do Estado e até os estados vizinhos.

O reggae viria marcar profundamente a já tão forte e original cultura maranhense, contestado por uma minoria de intelectuais conservadores e abraçado pela grande massa, que através desse estilo originaria o título de “JAMAICA BRASILEIRA” à capital do Maranhão. Centenas de clubes de reggae com suas “radiolas” (potentes equipamentos de som que se encarregavam de divulgar o ritmo quando ainda não era tocado nas rádios) e depois diversos programas de rádios que finalmente viriam aderir o mesmo em busca de audiência justificariam largamente o título conquistado. Foi neste cenário que a Tribo de Jah deu a partida para difundir o seu reggae roots, com suas mensagens de amor e paz, políticas sociais e divinas, as quais afastaram das grandes gravadoras, as rádios não tocavam, a TV tampouco informava e os jornais faziam vistas grossas. De forma independente a Tribo de Jah foi fazendo shows e divulgando seus discos, hoje conta com uma gravadora e uma distribuição a nível nacional.

São 30 anos de carreira se apresentando nos principais palcos do reggae nacional e mundial: REGGAE SUNSPLASH FESTIVAL – JAMAICA 1995; Buenos Aires – Argentina, Caiena – Guiana Francesa, França, Itália e nos quatro cantos do Brasil consolidou a banda com uma das referências do reggae dentro e fora do Brasil.

Segue abaixo entrevista exclusiva com a Tribo de Jah para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa  em 07.11.2016: 

01) Ritmo Melodia: Qual a data de nascimento e a cidade natal dos músicos banda Tribo de Jah? 

Fauzi Beydoun: Aquiles Rabelo Filho (Baixista) nasceu em 04/08/1962 em Turiaçú – Maranhão. Fauzi nasceu em 04/09/1958 em Assis – São Paulo. João Rodrigues – Joãozinho (Baterista) nasceu em 22/05/1961 em Bequimão – Maranhão. Alexsandro Costas Enes – Netto Enes (Guitarrista solo) nasceu em 19/01/1963 em São Luís – Maranhão. Pedro Beydoun nasceu em 12/12/1991 em São Luís – Maranhão. Bives (tecladista) em 26/06/1979 em São Luís – Maranhão.

02) RM: Como foi o primeiro contato com a música dos membros da banda?

Fauzi Beydoun: O primeiro contato com a música dos integrantes da banda foi na Escola de Cegos do Maranhão. Começaram com os instrumentos que tinham na escola, um piano faltando algumas teclas, um violão que não tinha todas as cordas e o baterista batia em uma escrivaninha. No meu caso, comecei como ouvinte nos tempos da Jovem Guarda até aprender a tocar Violão já com mais de 20 anos.

03) RM: Qual a formação musical e acadêmica fora música dos membros da banda?

Fauzi Beydoun: Nenhum dos integrantes da banda tem formação musical ou acadêmica. Todos começaram tocando nos bailes de São Luíse em cidades do interior do Maranhão. Eu cursei Ciências Sociais na USP, mas foi só até o terceiro período.

04) RM: Quais as influências musicais no passado e no presente dos membros da banda? Quais deixaram de ter importância?

Fauzi Beydoun: Como músicos de baile no Maranhão, os integrantes da banda tocavam e ouviam de tudo que era tradicional nas festas musicais do Estado: desde baladas, dance, merengue, músicas de carnaval, e especialmente o reggae que era obrigatório nos bailes locais. Como se ouve muito reggae no Maranhão, as influências mesmo dentro do gênero jamaicano sempre foram muito diversas, começando por Gregory Isaacs, The Gladiators, Culture, dentre muitos outros que só se tornaram conhecidos no Maranhão.

Antes de conhecer o reggae eu já ouvia Deep Purple, Led Zeppelin, Santana, Janis Joplin, Hendrix, Eric Clapton e toda essa geração do rock, pop, jazz-rock, country, o blues especialmente. Até me tornar um fã do reggae e um colecionador do gênero. Muitos dos clássicos jamaicanos deixaram de ter importância por não produzirem mais as canções de raiz como no passado ou por perderem sua identidade.

05) RM: Quando, como e onde  vocês começaram a banda Tribo de Jah?

Fauzi Beydoun: Ainda no ano de 1985 fui procurar um ex-sargento da Polícia Militar que estava vendendo o equipamento de seu “conjunto de baile”. Lembro-me que o seu endereço era na Rua da Cerâmica, no bairro do João Paulo, em São Luís – MA. Vi que havia alguns músicos ensaiando e percebi que eles perderiam o emprego e pedi para trocar umas palavras com eles. Não sabia que eram deficientes visuais.  Desde logo, o Tecladista, Frazão, me reconheceu pela vozdizendo que era fã do programa que apresentava na Radio Mirante, o Radio Reggae e pediu que mandasse um alô para ele no programa. Reparei melhor e me lembrei de tê-los visto tocando ao ar livre, na Praia da Ponta d’Areia, mandando uma sequência de reggae. Fiquei de longe observando. Aí, de pronto, fiz uma proposta pra eles: entreguei a eles o “conjunto de baile” e disse que a gente começaria ensaiando para ver se um dia conseguia gravar um disco, um sonho difícil naquele período. Enquanto isso eles poderiam administrar o Conjunto e continuar tocando nos bailes. Foi assim que tudo começou.

06) RM: Quantos discos lançados e quais os anos de lançamento (quais os músicos que participaram das gravações)? Qual o perfil musical de cada álbum? E quais as músicas que você acha que caíram no gosto do seu público?

Fauzi Beydoun: Acho que já lançamos 16 ou 17 CDs e dois DVDs.

Discografia:

Regueiros Guerreiros – 1992 (LP)

Roots Reggae – 1995

Ruínas da Babilônia – 1996

Reggae’n Blues (solo de FauziBeydoun) – 1997

Reggae na Estrada – 1998

2000 Anos Ao Vivo – 1999

Além do Véu de Maya – 2000

Essencial – 2001

A Bob Marley – 2001

Ao Vivo 15 Anos – 2002

Guerreiros da Tribo – 2003

In Version – 2004

The Babylon Inside – 2006

Love to the World, Peace to the People – 2007

Refazendo – 2008

DVD Live in Amazon – 2009

Pedra de Salão – 2014

Confissões de Um Velho Regueiro – 2016

No geral, a banda se mantem fiel ao estilo de reggae “roots”, ou seja, de raiz, fazendo algumas concessões que não tirem a identidade da banda. Às vezes a banda se utiliza do estilo de reggae mais falado, a exemplo dos ‘toasters’ jamaicanos como U. Roy ou Dennis Alcapone que foram precursores desse estilo que não deixava de manter a linha “roots”. Semelhante ao reggae jamaicano, eventualmente a banda pode imprimir uma pegada mais blues, mais soul, ou mais caribenha (puxando pra soca), mas sem descaracterizar o estilo “roots”. A banda sempre procurou incorporar também ritmos regionais como o bumba-meu-boi do Maranhão, referências da musica nordestina, etc.

No geral, todos os álbuns preservam a essa identidade “roots” da banda com canções que transitam por entre as mais diversas temáticas, tratando de questões sociais, politicas, ecológicas, espirituais, fazendo alguma crônica do dia a dia ou abordando temas com algum grau de romantismo. E muito antes  de se falar abertamente do aquecimento global e suas consequências nefastas, a banda já tratava dessa questão em suas canções desde os anos de 1994 e 1995, em canções como Fogo e Água, Globalização, entre outras. Às vezes éramos tachados de lunáticos ou apocalípticos, mas hoje esses assuntos estão na ordem do dia.

Algumas das canções da banda se tornaram clássicos obrigatórios nos shows, como: Babilônia em Chamas, Regueiros Guerreiros, Morena Raiz, Uma Onda Que Passou.

07) RM: Fale da homenagem a Bob Marley? Qual a receptividade do público?

Fauzi Beydoun: Em relação ao “Tributo a Bob Marley”, esse foi certamente o trabalho mais difícil ou o maior desafio da carreira da Tribo de Jah. Fazer versões das canções de um mito mundial, muito admirado no Brasil também, com suas letras e mensagens já bem conhecidas do grande público do reggae foi certamente um grande risco, mas eu acho que no geral a Tribo se saiu muito bem, conseguindo fazer versões fiéis e até literais, tentando não desvirtuar em nada a mensagem original e preservando até algumas imagens poéticas preciosas de Bob Marley. O retorno ao nível dos fãs da Tribo foi muito positivo e esse foi também um dos CDs mais vendidos do grupo. A conclusão que ficou é que é realmente mais difícil fazer versões do que composições próprias.

08) RM: Como vocês definem o estilo da banda dentro da cena reggae?

Fauzi Beydoun: A Tribo de Jah conseguiu imprimir uma marca única para o seu trabalho pelo próprio histórico da banda.O fato de ter se originado no Maranhão propiciou ao grupo um lastro enorme de valores atrelados à própria cultura e história do reggae local e isso sempre virou material para as suas canções. No geral, a Tribo de Jah é uma banda de roots reggae sempre aberta a novos elementos que possa assimilar e digerir sem perder a sua característica original ou o seu conceito próprio do que seja a música reggae.

09) RM: Quais as principais diferenças do som da Tribo de Jah em relação às outras bandas de Reggae brasileiro?

Fauzi Beydoun: Eu creio que o grande trunfo da Tribo de Jah é ser uma banda que tem uma quantidade bem maior de referências do que a maioria das bandas. Isso nem sempre é um fator primordial no trabalho, mas dá uma bagagem e uma autenticidade maiores. Não quero dizer que a Tribo de Jah seja melhor que essa ou aquela banda porque acho que em termos de música não cabe comparações.  Nem somos também a única banda que tem mais referências musicai em termos de reggae.  Algumas bandas que estão surgindo são muito novas e acho que a garotada tem pesquisado e fazem um som altamente elaborado. Poderia citar nomes, mas talvez não venha ao caso. Sou fã incondicional de certos trabalhos novos que estão surgindo aqui mesmo no Brasil e acho que são altamente promissores. A Tribo de Jah é apenas mais uma banda a somar nesse contexto.

10) RM:  Como foi participar em 1995 do festival de reggae “Sunsplash Festival”, Ocho Rios, na Jamaica? Qual ano e como foi a experiência de participar?

Fauzi Beydoun: A banda Tribo de Jah participou da edição do Reggae Sunsplash de 1995, foi o batismo internacional da banda. Nessa época a banda não estava ainda muito rodada no Brasil e foi um desafio sem precedentes e conseguimos nos sair bem dessa experiência, haja vista a repercussão ao show da banda.

11) RM: Fauzi, como você se define como cantor/intérprete e compositor?

Fauzi Beydoun: Para me definir como cantor, eu costumo usar uma brincadeira dizendo que na verdade, eu sou um grande artista, porque eu engano tão bem, que isso, por si só, já é uma grande arte.  Não me considero um cantor, apenas sou um intérprete de minhas próprias músicas. Não sou super afinado que nasceu com o dom de cantar. Tenho tentado aprimorar a minha técnica vocal que já nasceu toda errada, mas o fato consolador para mim é que os fãs realmente gostam muito da minha voz a ponto de dizer que eu canto muito, mas, claro, eu não acredito nisso.

12) RM: Fauzi, você estudou ou estudar técnica vocal?

Fauzi Beydoun: Nunca estudei técnica vocal.

13) RM: Fauzi, qual a importância do estudo da técnica vocal para o cantor?

Fauzi Beydoun: O estudo da técnica vocal pode ser muito útil para os cantores ou iniciantes desde que queiram de fato aprendê-las.

14) RM: Fauzi, quais os cantores e cantoras que você admira?

Fauzi Beydoun: Gostava muito da Janis Joplin por causa do seu feeling blues. Dentre as cantoras  jamaicanas acho que a Marcia Griffiths tem uma voz belíssima. Em geral, admiro quem canta com sentimento. Já parei para ouvir CorineBayle Ray, Alberta Hunter, etc. Gostava da voz da Gal Costa, curto algumas músicas da Marisa Monte e por aí vai… Para falar de cantores teria uma lista interminável, desde os papas do blues como Howlin Wolf, Muddy Waters, Fred King, era fã do David Coverdale do DeepPurple,  do Robert Plant do Zeppelin, Bob Dylan (mesmo desafinado de vez em quando), curti muito Milton Nascimento nos seus primórdios. Mas na área do reggae sempre gostei muito do Albert Griffiths do Gladiators, Joe Higgs,  dentre muitos outros.

15) RM: Fauzi, como é o seu processo de compor suas canções?

Fauzi Beydoun: Hoje em dia tenho um processo mais sistemático de compor: gosto de definir antes a melodia e a harmonia para depois ir encaixando e lapidando a letra. Mas às vezes acontece de tudo: posso pegar uma letra e criar a melodia, às vezes começo pelo final para depois chegar aoinício, ou faço primeiro um refrão para depois chegar no corpo da música e da letra… Mas a inspiração, no geral, vem da fonte Divina.

16) RM: Fauzi, qual a sua autoavaliação nos seus 30 anos de carreira musical?

Fauzi Beydoun: Não me preocupo em fazer essa autoavaliação. Acho que é mais fácil para algum de fora tira alguma conclusão. No geral, me preocupo muito com as ideias, em manter certa coerência nas palavras tendo em vista aquilo que você tem como uma convicção própria. Nesse caso, não dá para se trair, de uma forma ou de outra você tem sempre que tentar passar uma verdade ainda que para outros ela possa não ser. O fato primordial para mim, que me levou para música, foi achar uma maneira de canalizar o sentimento. Acho que o bom da música é o sentimento visceral que ela pode transmitir e para isso o sentimento tem que vir da alma tem que ser algo sincero, ao menos pra gente tem que ser verdadeiro.  Há também o desafio de se manter atual, de inovar sem perder a raiz. Às vezes você tenta mostrar certa cultural musical e flertar com ritmos diferentes e acaba sendo mal compreendido. No geral, para qualquer artista, músico ou compositor, além dos ideais que devem sempre ser cultivados, é  fundamental a originalidade.

17) RM: Quais as ações empreendedoras que vocês sempre praticaram para desenvolvimento da carreira musical?

Fauzi Beydoun: Como não existem mais as gravadoras de antigamente que, em geral, investiam na carreira de algum artista, hoje a gente tem que se virar para autogerir a carreira. Você acaba tendo que contar com profissionais específicos para empreenderem ações de marketing e divulgação. Isso, de fato, não é o forte da Tribo de Jah. Acho que você compor as canções e produzir os seus próprios discos e já é um trabalho e tanto. Mas a gente acaba tendo que fazer muito mais, mesmo não gostando.

18) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento da carreira musical?

Fauzi Beydoun: Como um complemento para a pergunta anterior, a internet se tornou a grande ferramenta para divulgar o seu trabalho quando não se tem acesso à grande mídia.

19) RM: Como você analisa o cenário reggae brasileiro? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Fauzi Beydoun: A cena reggae nacional evoluiu muito. Hoje se pode falar em um mercado reggae ou cultura reggae no Brasil, embora haja uma diversidade muito grande para cada região; dadas as dimensões do país. Muita coisa acontece no norte, no nordeste ou no sul sem que não haja um conhecimento recíproco do que esteja acontecendo. Não gostaria de citar nomes, mas muitos novos talentos surgiram. Porém, não há um conhecimento mais aprofundado do público reggae em geral, que acaba desconhecendo grande artistas que mereceriam certamente um reconhecimento maior. Temos visto boas bandas de reggae, inclusive, no Japão, no Chile e na Argentina. Por que não no Brasil onde os músicos são geralmente respeitados por sua versatilidade.  Em relação à possível repercussão internacional para essas bandas, aí já é algo difícil de projetar. Porém acho que algumas bandas nacionais poderão alcançar prestigio lá fora, como a própria Tribo de Jah conseguiu. Já se poderia listar ao menos umas 20 bandas nacionais de grande qualidade e a tendência é que o número aumente rapidamente.

20) RM: Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso a tecnologia  de gravação (Home Studio)?

Fauzi Beydoun: A vantagem do acesso às novas tecnologias de gravação é que se democratizou o processo de gravação e qualquer um pode gravar o seu disco mesmo em casa. Lembro-me que quando gravamos nosso primeiro Long Play no início da década de 90 só havia um estúdio em São Luís apto para gravar e mesmo assim ainda era impossível gravar uma bateria acústica nesse estúdio. Tinha-se que vir ao Rio de Janeiro ou São Paulo para gravar. O lado negativo disso é que se grava qualquer coisa e o lixo musical também aumentou muito.

21) RM: No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje gravar um disco não é mais o grande obstáculo. Mas, a concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que vocês fazem efetivamente para se diferenciar dentro do seu nicho musical?

Fauzi Beydoun: O que a gente faz hoje em dia é apenas nos mantermos fiéis ao nosso propósito de fazer uma música orgânica com mensagens edificantes, sem concessões a modismos ou imediatismos midiáticos.

22) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na carreira musical?

Fauzi Beydoun: É obvio que em 30 anos de estrada já tenha acontecido de tudo. Teria que escrever um livro pra contar. Na viagem à Jamaica, o nosso Tecladista na época, o Frazão, acabou esquecendo o telefone no hotel a 80 quilômetros do aeroporto e não teve como embarcar. Acabou ficando na Jamaica aos cuidados da embaixada brasileira e ficou irado no aeroporto quando o colocaram em uma cadeira de rodas. É terrível para um deficiente visual que obviamente sabe andar (basta ter um guia que o acompanhe) ser confundido com um deficiente físico, porque realmente não era o seu caso. Apesar dos muitos palavrões (em português, é claro), não adiantou nada. Depois dessa experiência ele acabou aprendendo inglês rapidamente.

 23) RM: O que deixam vocês mais felizes e mais tristes na carreira musical?

Fauzi Beydoun: No meu caso, em termos de carreira musical, o que me incomoda é você estar num país onde o colonialismo cultural ainda é muito latente. Em tese, tudo o que vem de fora é melhor. Claro que não são todos, mas muita gente paga o maior pau para alguns artistas da mídia global sem se dar conta que alguns artistas brasileiros podem ser tão bons ou até melhores que os de fora. Mas a força da mídia nesses casos é avassaladora. O que nos deixa mais felizes é ver que, de fato, alguns fãs se sentem extremamente recompensados pelo trabalho da banda, como algo que realmente os fortalece no espírito e acalenta suas almas.

24) RM: Quais foram os pontos positivos e negativos na trajetória de 30 anos da Tribo de Jah?

Fauzi Beydoun: Estar vivos e ativos depois de 30 anos, por si só, já é uma grande realização. Isso dispensa qualquer avaliação negativa em relação à nossa trajetória. O que foi feito, está feito… Cada fato há seu tempo. Não dá para se arrepender disso ou daquilo. Claro que muitas coisas poderiam não ter ocorrido, mas isso faz parte do aprendizado.

25) RM: Como você vê aceitação do Som da Tribo de Jah, dentro e fora do Brasil? 

Fauzi Beydoun: A Tribo de Jah conseguiu se impor, graças a Jah, como uma referência do reggae nacional. É muito curioso você viajar pelo país afora e vê como públicos e culturas totalmente diferentes acabam abraçando e curtindo o trabalho da Tribo de Jah. É também o lado mais gratificante da história para gente. De Roraima, Manaus, Belém, até o sul do país, a Tribo de Jah conseguiu a proeza de agradar a gregos e troianos, ou seja, a gaúchos e baianos, paulistas e pernambucanos, e por ai afora.  A gente percebe também um interesse cada vez maior do público e dos produtores no exterior, com a quantidade cada vez maior de convites para tocar em países os mais diversos: Peru, Japão, Estados Unidos, Portugal, etc.

26) RM: Quais as atitudes individuais que permitem manter uma banda por longos anos de carreira?

Fauzi Beydoun: Em termos de atitudes individuais, só mesmo a tolerância e a preservação do objetivo maior (que é justamente manter o grupo unido) é que pode proporcionar alguma longevidade a qualquer projeto conjunto.

27) RM: Quais os motivos levaram o vocalista e percussionista Zé Orlando sair da Tribo de Jah?

Fauzi Beydoun: Zé Orlando saiu para seguir carreira solo, mas isso só ele mesmo poderia dizer.

28) RM: Relate a importância da Tribo de Jah no início da carreira ter feito show por cidades do interior do nordeste?

Fauzi Beydoun: A banda Tribo de Jah foi pioneiras por se apresentar nas mais diferentes regiões do Brasil em um momento em que o reggae ainda era desconhecido da grande maioria das pessoas. No nordeste especialmente a banda ficou conhecida sem que as pessoas soubessem exatamente que era uma banda especializada em reggae. Até a banda toca em cidades do sertão nordestino em diferentes Estados e também em cidades isoladas da Amazônia aonde só se vai de barco, sempre levando a bandeira do reggae. Tem cidades que até hoje nunca viu nenhuma outra banda de reggae, a não ser a Tribo. A banda teve também um papel importante no início da carreira no sentido de introduzir a temática reggae no país. Expressões como roots, Babilônia, Jah, Jamaica Brasileira, sistema babilônio, nunca antes haviam sido utilizadas no Brasil e a Tribo de Jahsoube traduzir isso para a linguagem do dia-a-dia dos brasileiros.

29) RM: Fale da cultura do Reggae e das Radiolas em São Luís – Maranhão?

Fauzi Beydoun: O fenômeno do reggae em São Luís é realmente algo incrível, de difícil explicação. O que eu acho mais curioso é que esse fenômeno aconteceu no Maranhão seguindo o mesmo roteiro acontecido na Jamaica, mas com uns trinta anos de diferença. A história dos “sound-systems”, como são conhecidos, na Jamaica e “radiolas” no Maranhão seguiram o mesmo processo, tanto aqui quanto lá, e mesmo trinta anos depois, o mais incrível é que a coisa no Maranhão aconteceu espontaneamente sem que ninguém nunca imaginasse que algo semelhante teria acontecido numa pequena ilha do mar do Caribe. Na Jamaica, década de 50, o reggae nem existia e os donos dos “sound-systems” iam até os Estados Unidos para trazer músicas exclusivas para suas equipes de som mecânico, geralmente perolas do rythim and blues, e invariavelmente riscavam os rótulos dos discos para ninguém saber de quem se tratava (principalmente os concorrentes). No Maranhão isso também acontecia só que com fitas cassetes, e os DJs e donos de Radiolas faziam de tudo para ocultar os nomes, procedências e suas músicas para enganar a concorrência, no caso, as outras Radiolas. De qualquer maneira, foram as Radiolas as grandes responsáveis pela difusão do ritmo no Estado, uma vez que as rádios realmente não tocavam reggae em suas programações. O primeiro programa que apresentei em São Luís junto com Ademar Danilo foi pioneiro nas estações FMS da Ilha.

30) RM: Quais os fatos curiosos sobre a cultura Reggae de São Luís que você gostaria de registrar?

Fauzi Beydoun: O que é mais fantástico em São Luís certamente são os Salões de reggae. Uma cultura do gueto que aflorou com uma linguagem às vezes rude e às vezes extremamente sensual.  A maneira como se dança, se veste, se comporta, como se elege um reggae e o transforma em uma “pedra” ou “pedrada” (um reggae irresistível), tudo isso é um mistério meio sem explicação. A magia das festas nos povoados e sítios do interior, debaixo de mangueiras e barracões precários de barro e madeira, a rivalidade dos clubes de reggae e das Radiolas, tudo isso é um filme que ainda está bem vivo na minha cabeça. Acredito que o maior acervo de reggae raiz do mundo hoje se encontre no Maranhão, graças à persistência dos DJs, donos de clubes de reggae e de Radiolas que iam buscar discos na Jamaica, Inglaterra ou aonde tivesse, isso por anos a fio.

31) RM: São Luís é conhecida como a Jamaica Brasileira, quais os prós e contras de manter uma banda de reggae na cidade dividindo o mercado com a cultura das Radiolas?

Fauzi Beydoun – A Tribo de Jah não se mantem em São Luís. Na verdade, só eu moro aqui e a banda atualmente reside em São Paulo. No inicio da carreira era difícil competir com as radiolas, mas hoje a banda faz no máximo dois ou três shows por ano na capital maranhense.

32) RM – Em São Luís, os locais de show no formato de banda e de Radiolas são distintos? Em São Luís, qual a relação pessoal e profissional das bandas com os donos de Radiolas são distintos?

Fauzi Beydoun: As Radiolas tocam normalmente nos clubes do reggae, onde, não rolam os shows. Existem casas de shows, no entanto, que conseguem fazer uma boa combinação entre os DJs de Radiola e atrações de música ao vivo com banda, mas são poucas.A relação dos músicos com os donos de Radiolas é muito distante porque são mercados de atuação totalmente diferentes.

33) RM: Em São Luís, o público que frequenta o show de banda e de Radiolas são distintos?

Fauzi Beydoun: O público dos shows e dos eventos com radiolas são distintos, mas nada impede que um venha a frequentar o outro espaço e vice-versa.

34) RM: A crítica aos magnatas citados na letra de Magnatas e Regueiros são os donos de Radiolas?

Fauzi Beydoun: A crítica aos “magnatas do reggae” se referia ao uma realidade de 25 anos atrás.Os clubes ofereciam instalações precárias e o tratamento dado ao público realmente não era bom. A realidade hoje é bem diferente, inclusive, em relação à violência policial que no passado era realmente brutal em relação aos regueiros que eram tidos, em sua maioria, como marginais. Mas a música se referia aos donos de clubes da época.

35) RM: Vocês acham que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Fauzi Beydoun: Algumas de nossas músicas tocaram nas rádios no tempo em que tínhamos gravadora. Era a gravadora que fazia as músicas tocarem, agora não posso assegurar que fosse por conta de “jabá”, embora essa fosse a prática mais usual da época.

36) RM: O que vocês dizem para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fauzi Beydoun: Para seguir a carreira musical como qualquer outra, o que conta é o talento que se tem ou não, a persistência, perseverança, etc.

37) RM: Como vocês analisam a relação que se faz do reggae com o uso da maconha? Como vocês analisam a relação que se faz do reggae com a religião Rastafari? Algum de vocês é adepto a religião Rastafari?

Fauzi Beydoun: Há uma associaçãodo reggae com a maconha, mas isso não pode ser tido como uma regra. É obvio que tem muita gente que gosta de reggae e não fuma. O uso da maconha se aplica também aos adeptos do rastafarianismo que tem o uso da erva como um ritual, mas nem todo artista de reggae é rastafari. Nós, por exemplo, não somos rastas, mas sim cristãos.

38) RM: Os adeptos a religião Rastafari afirmam que só eles fazem o reggae verdadeiro. Como vocês analisam essa afirmação?

Fauzi Beydoun: É uma opinião e não tem fundamento. Não é pelo fato de ser rastafari ou não que o músico vai fazer um bom reggae. Quanto à Tribo de Jah, não somos rastafaris, mas acredito que estamos fazendo reggae melhor do que nunca, por tudo que eu conheço do reggae, afinal, 30 anos de aprendizado servem pra alguma coisa. Essa afirmação; se é verídica, cai no caso dos extremismos em que só o que se acredita tem valor. Isso vale pros radicais que não aceitam qualquer outra realidade, a não ser aquela na qual acreditam. Você pode ter a crença que for, mas se ela implica em que outros sejam inferiores a você, então há alguma coisa errada na sua crença. Toda fé que valha tem que partir do princípio que somos todos iguais, e devemos nos amar e respeitar uns aos outros, assim como pregou o verdadeiro messias.

39) RM: Quais os seus contatos para show e para os fãs?

Fauzi Beydoun –Com o empresárioFernando Banas(11) 99914 – 1975 |(11) 2991 – 5084 | [email protected]

Marketing – Fabio Pirula(11) 94750 – 7484 |(11) 2203 – 5545 |(11) 99205 – 1155 (whatsapp) |[email protected]

Imprensa – Cíntia Aureliano (11) 96902 – 1789 |(11) 2203 – 5545 |[email protected]

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Tribo de Jah - cateogry

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Criada e editada desde 2001 pelo jornalista, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa. A revista divulga a música (popular, regional, instrumental e erudita) e os músicos brasileiros. Sejam bem-vindos!