Edu A.

edu a
Edu A.
Avalie esta Entrevista

Foi um período de poucos anos, mas que mudou a vida de muita gente. Gente que veio de muitos lugares, convergindo para o Rio de Janeiro, num momento em que o Rock-BR começava a produzir seus primeiros sucessos e lançar seus primeiros discos. Uma legião de fãs se reunia em torno do Circo Voador, do Canecão, do Morro da Urca, da Mamute,  e ouvia a Rádio Fluminense FM, a “Maldita”.

Entre esses roqueiros, de todos os estilos e com todas as influências, muitos vinham do Nordeste e traziam nos dedos e na voz um jeito meio repentista de fazer rock ou um estilo maracatuzeiro de fazer MPB.

Mônica Blumer é uma carioca dessa época, que virou roqueira por identificação e nordestina por assimilação. Tornou-se uma das figuras mais queridas num grupo heterogêneo de amigos que incluía, entre muitos outros, músicos como Ivan Santos, Lenine, Alex Madureira, Tadeu Mathias, Fuba, Lula Queiroga, Pedro Osmar, Jarbas Mariz, Firmino, escritores como eu próprio e Julio Ludemir , gráficos como Romero Cavalcanti  e fotógrafos como Hélio Viana, Gustavo Moura e Roberto Guedes.

Os anos passaram, esses amigos se espalharam pelo mundo, mas a arte que continuaram a produzir tornou-se cada vez mais visível e mais reconhecida no Brasil e fora dele.

O encontro de Mônica com Edu A., da banda Filhos de Platão, fez renascer a alegria daquele tempo. O CD – Dias de Blumer é o resultado deste encontro e dos numerosos reencontros que ele produziu, num mutirão de pessoas criativas compondo, escrevendo, tocando, cantando, criando este CD que documenta uma história de amor entre duas pessoas e uma história de amizade entre dezenas.

São canções que celebram o amor, a sedução, a conquista, o desfrutar de uma vida a dois cujo espírito se reflete em imagens recorrentes nas músicas: o sol, o vento, o mar, o ar livre, o céu e as estrelas, como em “Junto com você” e na “Toada  do Mar”, última faixa do disco, e uma espécie de síntese de suas intenções. A dor de cotovelo brincalhona ao som de um forró em “Corno é assim mesmo”.  O jeito de lidar com o lado imprevisível e inseguro das relações e dos sentimentos, em “Mosaico”, “Ananda” e “Sinais”, enquanto canções como“Imenso” e “Anestesia” tentam examinar o modo como brotam as emoções e como se envolvem as pessoas.

Em meio a tudo isto vem a irreverência amorosa e o realismo de “Mulher Imperfeita”, e o recado de afeto em “Os meninos”, canção que é o melhor retrato das coisas boas que aquela onda de amizade deixou em todos nós.

Depois do texto irretocável de Bráulio Tavares (escritor, jornalista, músico, parceiro de Lenine, Jorge Vercillo e Ana Carolina), o qual já tiver o prazer de entrevistá-lo, segue a entrevista exclusiva de Edu A. para a  em 01 de Maio de 2013:

1-) Ritmo Melodia – Quando e onde você nasceu?

Edu A– Eu nasci em 01 de dezembro de 1962 no Rio de Janeiro – RJ.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

Edu A– Eu creio que foi dentro da barriga de minha mãe, quando meu pai colocava os fones de ouvido dele para eu escutar sem nem mesmo ter nascido. Meu pai dizia que eu dormia com a cabeça no colo dele, com três, quatro anos de idade, enquanto ele escutava os discos e eu dormindo balançava os pés acompanhando a música.

3-) RM – Qual a sua formação musical?

Edu A– Estudei por cinco anos na Escola de Musica Antonio Adolfo, no Rio de Janeiro. Tive como professores os guitarristas Juan Pablo Martin e Vitor di Francia. E consegui por em prática toda a intuição que já tinha latente, aprendendo na prática e a teoria sobre  a música, harmonias, etc.

4-) RM – Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Edu A– O meu primeiro compacto em vinil foi dos Beatles. Deles guardo muita lembrança boa nos primeiros anos, que lá em casa meu pai variasse de “fases” musicais, escutando ora música clássica (da qual Vivaldi e Mozart são meus favoritos – mesmo que ele não curtisse muito esse último), jazz (Art Blakey e Oscar Peterson viviam tocando lá em casa), Bossa Nova e os grandes cantores como Frank Sinatra e Tony Bennet. Mas, os Beatles me chamavam mais a atenção. Depois eu acho que a MPB começou a me mostrar coisas lindas, e até quando ouvia Beatles no suingue dos arranjos do Sérgio Mendes, eu curtia demais aquilo.

Quem realmente primeiro me chamou mais a atenção com uma voz de “arrepiar” foi o Milton Nascimento. Toda aquela primeira fase dele, até Sentinela é uma das coisas  mais lindas da MPB,  em termos de vocais e arranjos na MPB.

O que me chamava muito a atenção também, eram os arranjos feitos pelo Edu Lobo e logo em seguida a Tropicália e posteriormente o movimento mineiro (com Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta,  e Cia. Ltda.)  foram o que mais me chamava a atenção na adolescência toda (isso quando não estava escutando osRolling Stones , Deep Purple, Led Zepellin e Yes).

Hoje quem me influência em demasia, também, são os músicos de Pernambuco/ParaíbaLenine, Lula Queiroga, as letras futuristas lindas de Bráulio Tavares, o pouco trabalho que conheço de Paulo Ró é maravilhoso, Ivan Santos é outro que toca bastante lá em casa, Pedro OsmarAlex Madureira e Tadeu Mathias são bastante ouvidos.

Nenhuma música ou gênero musical deixou de ter a sua importância para mim ao longo dos anos. Todas me ajudaram enriquecer um pouco mais meu limitado conhecimento. E de alguma forma cada qual respondeu de um jeito dentro de mim e creio que dentro da música que eu faço hoje em dia.

5-) RM – Quando, como e onde  você começou a sua carreira profissional?

Edu A– Eu sou um músico tardio. Só comecei a ter aulas com mais de 40 anos, por um incentivo indireto de minha filha. Poucos anos depois já estava gravando músicas que compus e participando de alguns show no Mistura FinaBar do Tome  similares.

6-) RM – Fale do seu primeiro CD, em que ano foi lançado (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as musicas que entraram no gosto do seu público?

Edu A– CD – O Outro Lado da Noite passou dois anos para ser gravado e foi lançado em 2010.  Nele eu tive a honra de fazer duas lindas parcerias, uma com o Arnaldo Brandão (que participa cantando nessa faixa) e a outra com o grande Ferreira Gullar.  Nesse trabalho tenho ainda as participações da Camila Dias, do próprio Arnaldo, do Ary Dias (da Cor do Som), do meu ex-professor Juan Pablo Martin e outros músicos mais.

7-) RM – Fale do novo CD – Dias de Blumer? Quanto tempo levou para ser gravado?

Edu A– Entre entrar no estúdio para gravarmos a primeira faixa (Sinais) e entrar no estúdio para finalizarmos tudo, exatos um ano e meio. Daí mais aquele tempo “chato” das Microservices da vida, sempre atrasando o prazo que eles próprios nos dão quando quer que você feche com eles.

😎 RM – Qual é o conceito desse novo trabalho ?

Edu A– Quando eu decidi que ia prestar uma homenagem a Mônica Blumer, minha futura esposa. Eu queria fazer uma ode ao amor e a amizade dela pelo grupo de pessoas (Lenine, Lula Queiroga, Ivan Santos, Bráulio Tavares, Pedro Osmar, Tadeu Mathias, Alex Madureira, entre outros) que mais a influenciou na vida nos anos 80. Pessoas estas as quais junto a ela tinham uma história muito bonita para ser vista e apreciada. Com Alex, ela viveu como marido e mulher por 10 anos. E foi a dentista dos demais.

Queria prestar uma homenagem a todas essas pessoas, homenagear a elas e aquela parte mais importante da vida de Mônica, que foi quando amadureceu e firmou-se sua forma de ser, seu caráter e a “mulher e pessoa” linda que hoje está do meu lado.   Outro dia comentei em outra entrevista, que a história da amizade da maioria deles, parece coisa que a gente só vê em filmes, citei até o “Franco Atirador” e “O Último Ano dos Restos de Nossas Vidas”, ou seja, achamos  que aquilo não existe, que é coisa de cinema… Mas, existe sim! E eu quis registrar e prestar esse “tributo” de alguma forma.

Para isso, logo no início da produção, me dei conta exatamente que teria que reunir a maior parte possível daquele grupo e colocá-los no CD, pois aquilo não teria o mesmo resultado, jamais, sem que todos ou a maioria pudessem participar. Lembro-me das respostas positivas e espontâneas das pessoas, todas dizendo que participariam, nem que fosse “batendo palmas”, Foi muito legal e queria até colocar algumas frases daquelas no encarte do CD, mas não tínhamos espaço para isso.

9-) RM – Houve uma parceria entre você e Mônica para a criação do trabalho?

Edu A– Eu poderia simplificar falando toda a motivação e apoio que ela me transmitiu durante aquele tempo,  mas não é só por aí:  Mesmo sem saber no início o que eu estava fazendo, Mônica Blumer foi  minha musa, diariamente  inspiradora.

Vi o quanto ela tem uma paixão, um orgulho e uma admiração tão grande e intenso por aquele grupo, que não dá para descrever em palavras (ainda que eu tenha tentado fazer isso quando escrevi “Os Meninos”). É engraçado ouvi-la dizer que “ama Alex Madureira” (que por um acaso foi seu companheiro por quase 10 anos naquela época), que “ama Ivan Santos“, que “amaLenine“, que “ama B Tavares” (como ela se refere a Bráulio Tavares).  O amor dela por essas pessoas é a admiração dela por eles todos, pelo carinho com que ela foi acolhida naquele grupo, é o orgulho de tê-los visto abraçando o ideal do que eles mais amavam na vida e terem conseguido, da forma de cada um, fazer acontecer.

Impregnado por aquilo tudo, por aquele monte de ideias, de relatos, de comentários de época, daquela fase mais “underground” que todos eles tiveram naquele início. O mais interessante é que  cada dia que passava, no decorrer da produção,  eu fazia uma música nova, uma melodia nova,  tendo meio que um monte de coisas  pulsando para “descrever” em forma de música, tudo pelo o que  ela me transmitia dia após dia.  Foi engraçado porque chegou uma hora que eu tive que parar de sentar com meu violão, porque eu já tinha coisa demais para um disco. E fazer um duplo significaria o dobro de orçamento. O que era impossível naquele momento. Ali naquele espaço de tempo em que o disco foi produzido eu acho que produzi algo a mais (além das que entraram no disco) em torno de umas 15 a 20 músicas novas que acabaram não entrando no CD.

Mônica foi parceira o tempo todo. Ela meio que às vezes fazia um contraponto para algumas coisas que eu achava, opiniões ou ideias, principalmente nas letras que eu escrevi sozinho para o CD. Não tenho muita paciência para escrever letras não.  Apesar de gostar de escrever, minhas deficiências são enormes para escrever com a qualidade e o conteúdo de parceiros do nível de um Ivan Santos, Pedro Osmar ou Bráulio Tavares. Sinto-me meio que “de castigo”. Gosto de compor a melodia muito mais, de dedilhar o violão, de vir uma idéia e ter o desafio de fazer nascer algo dali, de estar no meio da rua e cantarolar algo que idealizei na hora e pegar o meu gravadorzinho (hoje em dia digital, bem diferente de quando tinha meus 15 ou 16 anos de idade que era um walkman com fita cassete) gravar e depois trabalhar em cima daquilo.

10-) RM – Como  “Baque Solto” inspira  “Dias de Blumer”?

Edu A– Conversando com as pessoas daquela época, é fato que me pareceu que uma ou outra pessoa que gravara o disco Baque Solto, tenha sentido um gosto meio amargo, por ter, talvez criado muitas expectativas no início dos anos 80, e de alguma forma, para essas poucas pessoas o disco não “decolou”.

Ainda que eu nunca venha a me considerar no nível de muitos daqueles artistas que ali estiveram, eu vejo um equívoco em relação a isso de certa forma bastante grande: Baque Solto é um trabalho inspirador sim! Inspirador em sua essência, em seu conteúdo.

Ali já existia uma musicalidade toda ímpar, já tínhamos o balanço rítmico de Lenine. E um esboço de tudo o que ele se tornaria hoje como grande artista, seus “primeiros acordes percussivos” naquela batida única que é a marca registrada de seu violão já estavam ali.  Atestamos os primeiros rascunhos da poesia visceralmente crua e maravilhosa das letras de Lula Queiroga. E nos deparamos com o início da metamorfose (fusion) musical do Maracatu para o rock que eles já faziam desde aquela época, bem anterior, diga-se de passagem, ao Chico Science.

É alucinante escutar o “Mote do Navio” na voz de Lenine. E depois quando escutamos a segunda versão no CD – O Dia Que Faremos Contato a emoção permanece atual, ou seja, demonstra indícios da atemporalidade daquele trabalho, ou “Mapa do Tesouro” que dá os primeiros indícios do que seria a partir dali as parcerias entre Lula e Lenine, ou outra parceria entre eles que foi “Trem Fantasma” que creio que, junto ao que eu escrevi em minha música “Os Meninos” conta e retrata boa parte daquela história deles.

Então Baque Solto é de uma importância única sim, porque representa o começo, a concretização daquilo tudo, dos sonhos daqueles meninos que vieram do nordeste para o Rio de Janeiro(Sul Maravilha) ha mais de trinta anos e que se viveu nesses trinta anos de carreira de cada um deles e dos demais que ali estavam fazendo parte daquilo.

Essa linguagem deles já era ali a semente do que eles fazem hoje, mantendo mesmo até hoje uma essência nordestina fora do comum. Eu disse outro dia que a música deles é algo mais assim como uma música, do Nordeste, não para o Nordeste, e sim para o Mundo.  Aquilo que antes deles, Elba Ramalho, Alceu Valença e Zé Ramalho foram plantando naqueles nos anos 70 e 80. E que esse pessoal que estavam envolvidos com o Baque Solto soube consolidar de uma forma toda especial, toda deles nos dias atuais.

Lógico que “dias de blumer” tem uma linguagem diferente. O fato de Baque Solto ser inspirador, não necessariamente significa que eu faria algo com o mesmo estilo. Algumas vezes, porque aí estão todos os meus próprios anos de gostos próprios, de diferentes influências musicais (inclusive daquela música do Nordeste dos anos 70/80 também, que eu já adorava), bebendo em diversas fontes ao mesmo tempo.

A inspiração daquele trabalho e da história de todos até chegarem a concretizar aquele trabalho foi tão grande que eu sabia que aquelas pessoas precisavam estar no meio disso tudo, mesmo que resultasse na coisa mais heterogênea possível. Sim, pois um trabalho feito de maneira geral com “tantas mãos” não poderia se tornar uma coisa homogênea num todo. Eu sempre soube disso e queria que fosse assim mesmo.

11-) RM – Por que reunir tantos convidados?

Edu A– Há um núcleo central em “dias de blumer”. Está ali, um grupo que é o mesmo e esteve sempre ali. Eu, Fabio Girão (virtuoso baixista que tocou em Baque Solto). Ele veio tocar uma única música de “dias de blumer”. E acabou curtindo tanto o projeto, o grupo, que tocou em todas as dez músicas, fazendo um lindo trabalho. O Nito Lima e o André Bariontrabalharam comigo na produção musical, com a maior parte das ideias dos arranjos e tal.

Só fomos convidando a galera para vir tocar conosco. Cada faixa um ou mais amigos que se chegavam vinham “pra levar um som”. Mesmo que, devido a vários fatores de ordem física, estando um aqui ou outro acolá, na outra parte do planeta, aquela “magia” de Baque Solto se não estivesse presente da mesma forma, graças as facilidades do Mundo Virtual, conseguimos fazer um álbum cujo resultado sonoro e visual, trouxe de certa forma certo ar de nostalgia em muitas pessoas que estiveram ali. Então acredito que houve algo de mágico nesse trabalho também, e no processo em que ele foi executado.

É interessantíssimo podermos ouvir Lenine cantando novamente, trinta anos depois, uma música de Pedro Osmar. E tendo novamente um coro de vozes de amigos por detrás da “parceria deles”. Ou de ter uma parceria minha, atual marido  de Mônica com o companheiro dela naquela época (o grande músico Alex Madureira). E ter outra música minha em parceria do maravilhoso músico João Cavalcanti, que já estava ali em Baque Solto, com algo em torno de quatro ou cinco anos de idade, acompanhando o pai no coro de vozes. E poder contar com as belas vozes de Katia Moraes (que também fez parte do coro de Baque Solto) e a Elisa Addor (cria da Lapa carioca) ou a participação querida do Ruy Faria, entre muitas outras participações queridas.

Como o trabalho abrangeu pessoas muito amigas, mas de distâncias muito longas entre elas eu “abri as portas” também para muitos outros artistas mais que vieram “juntar forças” e estavam adorando a ideia e o conceito do trabalho. E a oportunidade dessas pessoas de alguma forma interagir entre elas “foi massa” (como diria meu amigo Alex Madureira). O trabalho tinha que ser assim mesmo!  Não dava pra ser diferente.

Emocionava ver, por exemplo, o entusiasmo de um cara como o Mingo Araújo, que já tocou com “meio Mundo” da MPB (Egberto Gismonti, Geraldo Azevedo, Gonzaguinha, Wagner Tiso, Edu Lobo e outros), que tocou lá fora com o Paul Simon, vir e chegar pra mim e perguntar se não tinha mais música para ele tocar conosco, e disser que achava o trabalho num todo lindo, é tudo de muito bom pra se escutar de uma pessoa com a bagagem dele.

Foi emocionante o carinho e o trabalho lindo que o Ivan Santos fez na nossa parceria, tanto ao escrever a letra quanto na interpretação da mesma.

E poder proporcionar alguns re-encontros nesse trabalho, eu acho que ali está o outro lado da essência dele… Só pra exemplificar, poder ter o próprio Mingo tocando numa música de Alex Madureira, eles que foram parceiros tocando juntos no Flor de Cactus, ou posteriormente com o Xangai. Poder proporcionar alguns re-encontros desse tipo não teve preço que pagasse.

Convidar e trazer essas pessoas “de fora”, convidar e trazer o pessoal que havia tocado em Baque Solto. Se não fosse desse jeito não teria sentido em fazer o que planejei fazer.

12-) RM – E a parte visual do trabalho do encarte do CD?

Edu A– Poder contar com um artista como Romero Cavalcanti (que fez a capa de Baque Solto) ou as fotos do Hélio Viana e do Gustavo Moura (todos os dois paraibanos e também participantes de Baque Solto) foi uma honra pra mim. Romero, por exemplo, abraçou o trabalho de uma forma tão carinhosa, pela proposta do trabalho em si, foi comovente. Sabia que ali naquele momento ele queria enveredar para outras expressões das artes plásticas querendo sair um pouco da figura de ilustrador, mas quando ele viu as coisas acontecendo como aconteceram, foi sensacional tê-lo do nosso lado.

O mesmo eu posso falar do Hélio e do Gustavo, e posteriormente do Delano D´Avila, um ex-publicitário bastante conhecido no mercado, que abraçou a pintura a óleo de uma forma intensa  pra vida dele,  e nos presenteou  também uma bela imagem pra fazer parte do encarte.

Eu quis buscar um trabalho o qual não existisse somente o sentido da escuta, mas aguçasse também o sentido visual. Que as pessoas pudessem curtir a arte visual do encarte e da capa, associando-os ao trabalho musical (não por acaso em alguns locais do Brasil o disco está sendo referido pelas pessoas como o “disco da maçã azul”).

Eu acho que essa formula de querer misturar os sentidos visuais e da audição acabou indiretamente gerando um terceiro ingrediente ao trabalho que foi uma coisa meio de aguçar a percepção das pessoas em si. Isso tudo foi muito instigante.

13-) RM – Agora falando um pouco menos sobre o CD  e um pouco mais sobre Edu A. O que Edu A. ouve de música em casa?

Edu A– Há coisas pontuais que não sai do meu som de casa (ouço muita coisa de vinil e cassete também, além de cd´s e dvd´s de shows e tal).  Os “dinossauros” estão sempre presentes (Chico Buarque, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Caetano Veloso e Milton Nascimento). Adoro resgatar o som dos meus vinis do Milton desde sei lá quando.

Mas atualmente e já a muito e muito e muito tempo, compartilho com esses mencionados acima, o MTV do Lenine (é sensacional aquilo tudo), o CD – Olho de Peixe dele com o Marcos Suzano, O CD – Dia que Faremos Contato (é outra coisa monstruosamente linda), o CD – Grampeado do Ivan santos toca muito também por lá, e o último do Lula Queiroga (Todo Dia é o Fim do Mundo), também é maravilhoso.

Muitas fitas cassetes do Geraldinho Azevedo, do Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Egberto Gismonti e o contrapondo a isso tudo, muito Rolling Stones, Tom Petty, Peter Gabriel, Neil Young e outros mais lá de fora…

14-) RM – No encarte, vi que a banda Filhos de Platão se resume a você. Por que você faz questão de carregar o nome da banda mesmo não tendo mais os antigos companheiros?

Edu A– Sou um musico tardio. Outro dia vi num programa de TV o Romulo Frões (de Sampa) dizendo que não é um instrumentista virtuoso porque se considera um músico tardio, já que só aprendeu a tocar um instrumento com 25 anos de idade. Eu teria medo de perguntar para ele de que forma eu me encaixaria nisso, se eu comecei a tocar com “40 e muitos”. Apesar de já ter melodias criadas por mim desde a adolescência, quando eu pegava meu walkman com fita cassete e  “armazenava”as idéias , as quais  possuo até hoje, e a cada trabalho novo eu busco pelo menos “trabalhar” 1 ou 2 melodias daquelas antigas para fazer parte do repertório do novo trabalho. E mesmo assim  eu só consegui concretizar esse sonho todo muito tardiamente.

Sou extremamente feliz de ter acontecido assim. Fosse aos 40 ou aos 60. Poder ter dois CDs gravados num curto espaço de tempo. E já formatando um terceiro para iniciar produção dentro em breve. E contando em ambos os CDs com todas as participações queridíssimas que acreditaram e endossaram ambos os trabalhos. No primeiro CD, a parceria e participação de Arnaldo Brandão em uma música, além de Ferreira Gullar deixar eu musicar um poema seu, já me deixou plenamente realizado. E ainda vem muito mais pela frente, com certeza!

Ao mesmo tempo, respondendo a sua pergunta, em ambos os trabalhos o Filhos de Platão era eu em um todo. Não queria, por ser um músico tardio, que se fizesse nenhuma referencia aoEduardo. E algumas pessoas próximas achassem que eu tinha ficado doido, excêntrico, maluco, sei lá. Daí que produzindo um trabalho em nome de um grupo, achava que tudo fluiria mais “desmistificado” sem idéias pré-concebidas, rótulos  ou preconceitos que são coisas inerentes a nossa vontade, mas tão presentes na natureza humana.

15-) RM – E por que Filhos de Platão?

Edu A– Acaba que no fim das contas, por toda a nossa carga comportamental, somos de uma forma ou de outra, Filhos de Platão. Daí que todos que ali estiveram comigo naqueles trabalhos, em algum momento também foram (e são no dia a dia deles) Filhos de Platão.

Quando escolhi um nome “de um grupo” como meu “alter ego”, achei entre algumas hipóteses que eu queria. É engraçado o fato de que a música era a única forma de arte o qual Platãorespeitava, pois dizia ser “capaz de transformar o coração humano”. Acho que isso foi o que mais achei engraçado para dar um nome ao meu próprio “alter ego”. Nunca houve qualquer pretensão de fazer uma coisa “cabeça” o qual o nome escolhido poderia nos remeter, aquela coisa que disse ali em cima de termos sempre que ter idéias pré-concebidas e tal.

16-) RM – Alguma música do trabalho te emociona mais que outra ?

Edu A– Todas têm um significado especial, cada qual ao seu jeito. Todas têm o envolvimento querido de pessoas queridas e representou uma enorme carga emocional pra mim. Não tem nenhuma assim que eu ache mais ou menos que A ou B. Cada qual do seu jeito emociona muito. Ouvir Os Meninos ou Imenso ou Toada do Mar ou Mosaico, eu ouço 500 vezes e a sensação que tenho é que ouço pela primeira vez.

17-) RM – Como foi a produção de Toada do Mar? Por que não são os mesmos arranjadores das outras músicas?

Edu A– Inicialmente a melodia dessa música já estava pronta desde meus 16 anos de idade. E eu havia deixado uns meses antes, ela com o Bráulio Tavares para ele escrever a letra. Só que por vários motivos de correrias do dia a dia o Bráulio não conseguiu. E eu então busquei uma ajuda com Pedro Osmar, que foi maravilhoso, me ajudando a completar o que eu já havia rascunhado antes,  e  acabou ficando na música.

Mesmo aos 16 anos de idade, em termos de arranjo, eu já sabia exatamente como eu a queria, inclusive em relação ao coro de vozes, desde aquela época. E fiz exatamente assim.

Quando Lenine teve uma brecha na agenda dele (ele tava excursionando com o Show do “Chão” por tudo quanto era lugar), eu já estava mixando as demais músicas e foi uma correria danada de todos para gravar essa música.  Só que para piorar, o Nito e o André estavam agarrados naquela altura com outros projetos e foi quando, conversando com o Paulinho Morais, do Be Happy, veio a luz de convidar e eu dividir a idéia dos arranjos com o Carlos “Martau”, e conversamos  a respeito. Foi maravilhoso porque ele conseguiu em apenas uma tarde fazer um trabalho de cordas lindo, exatamente como eu pedi a ele, inclusive algumas “frases” de viola que eu idealizei na minha adolescência para essa música. E o que achei mais bacana é que manteve a sonoridade de cordas da segunda parte do CD que não foi arranjada por ele.

Foi tudo uma correria tão grande entre gravar a base, ainda com uma letra provisória, pois Pedro ainda não havia enviado a parte dele, receber posteriormente essa parte que faltava do querido Pedro Osmar, a gravação de Lenine (numa madrugada no estúdio dele, o “Casa 9” com o Bruno Giorgi a frente da gravação da voz do pai)  e mais a gravação linda do fretless doFábio Girão e o coro de vozes (esses dois últimos num  mesmo dia) e, no fim,  a batera do Paulinho Morais, isso tudo  levou menos de cinco dias pra  acontecer (e eu já enlouquecido,  no meio da mixagem das demais faixas).

Hoje escutando a música, aquela “tranquilidade” toda que ela nos transmite, não se tem a menor idéia de que foi tudo muito alucinante pra ela acontecer. Mas, no fim das contas acho que valeu a pena cada segundo daqueles que foram usados pra ela acontecer. Acho que Lenine me pareceu extremamente confortável com a música e feliz por estar cantando Pedro Osmarnovamente.

18-) RM – Quais são seus planos para a divulgação do álbum?

Edu A– Já tocamos no final de 2012 no Cordão do Bola Preta,  quando do lançamento do trabalho, e formatando um show maior de lançamento para dentro em breve no Rio de Janeiro, e aonde houver interesse.

A verdade é que eu optei em fazer inicialmente um trabalho de divulgação do CD mostrando-o de toda forma possível, para que as pessoas conheçam o trabalho e ao escutar ou lerem sobre ele, desperte o interesse e a curiosidade de conhecê-lo.  Optei fazer isso em todo esse primeiro semestre de 2013. É meu planejamento.  Sei que soa diferente do que acontece nesse meio, em que você lança um trabalho e sai para tocá-lo no dia seguinte. Se eu fizesse isso estaria sendo, só mais um trabalho, em meio a centenas. E ia passar despercebido com certeza, afinal poucas pessoas escutaram ainda a respeito de mim, dos Filhos de Platão ou sobre o trabalho num todo.

Mas, acho bacana essa oportunidade de antes divulgar para as pessoas conhecerem melhor a forma como ele foi feito, seu conceito e significado. Saber que ele tem como ponto de partida e de chegada, o amor de muitos por uma pessoa  e principalmente a amizade de um grupo. Que possui essa essência porque ele existiu e existe de concreto e não apenas na tela de um filme qualquer.

19-) RM – Como você define seu estilo musical?

Edu A– Se pudesse definir de verdade, acho que o chamaria de “eclético” mesmo. Bebi em várias fontes ao longo de anos e anos. Não dá para chamar de outra coisa.

20-) RM – Como é seu processo de compor?

Edu A– Pôr, pergunta difícil essa. Pode ser de várias formas, desde ir pras pedras do Arpoador e ficar de madrugada trabalhando numa ou mais músicas, ou ir pra mureta da Urca e fazer o mesmo. Posso estar trabalhando em frente ao microcomputador e surgir alguma ideia. Enfim, não há uma regra. A todo o momento pode ser o momento.  A coisa vem assim em forma de uma ideia, eu pego o violão e vou desenvolvendo e vendo sua viabilidade.

21-) RM – Quais são seus principais parceiros musicais?

Edu A– Não tenho um parceiro fixo. Entre o primeiro e segundo disco, tive o prazer e a honra de trabalhar com nomes queridos como Arnaldo Brandão, Ferreira Gullar, João Cavalcanti, Ivan Santos, Julio Ludemir, Pedro Osmar e Alex Madureira. Foi massa tê-los ao meu lado. Espero que a vida proporcione novas oportunidades de trabalhar com esses nomes novamente, pois adorei a oportunidade de tê-los como parceiros.  Almejo em um trabalho futuro poder trabalhar com outros nomes que sempre admirei como o Marcelo Diniz e o Roberto Bozzetti (ambos já trabalharam com o Fred MartinsPaulinho Lêmos e outros), Lula QueirogaPaulo Ró e, quem sabe um dia, com Lenine.

22-) RM – Você estudou técnica vocal?

Edu A– Muito pouco. Algumas poucas aulas com uma professora e só. Por isso, inclusive que pouquíssimo eu canto em meus CDs. Sei de minhas limitações para tal e não quero dar um passo maior que as pernas. Mas pretendendo esse ano ter aulas de canto com o Tadeu Mathias, que além de cantar maravilhosamente bem, é um ótimo professor. E com isso, quem sabe, poder cantar um pouco mais as coisas que eu mesmo componho.

23-) RM – Quais as cantoras(es) que você admira?

Edu A– Pergunta “ingrata”, pois que ao responder posso esquecer nomes maravilhosos. Difícil isso. Posso dizer que hoje ainda considero o Milton Nascimento a voz mais linda do nosso país. A voz mais linda do Mundo, ele cantar emoção e com a alma. E a Marisa Monte para mim é a cantora que mais vem me chamando a  atenção nos últimos 30 anos pra cá.

Agora lógico que Maria Bethania e Elis Regina, além de Caetano Veloso e Gilberto Gil, são vozes sempre “lindas” de se escutar até hoje. Lenine, a sua voz como a forma de interpretar as suas canções é maravilhoso. E o João Cavalcanti, hoje em dia está cantando tão bem quanto o pai (Lenine).  E uma cantora vem me chamando demais a atenção, ainda pouco conhecida de muita gente, que é a Luisa Maita, acho que ainda vai mostrar muita coisa boa pela frente.

24-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Edu A– Hoje existem facilitadores que ajuda os músicos a não ficarem a mercê das gravadoras, exigindo do músico X trabalhos a cada Y de tempo. Hoje podemos produzir um trabalho sem essa pressão e sem intromissões que venham bater de frente ao que o músico quer e imagina para os eu o próprio trabalho.

Por outro lado, lógico que sendo um artista contratado de gravadora, as possibilidades, a “pressão” e as facilidades de divulgação do trabalho, seja nas rádios ou na imprensa, são bem maiores. Existe todo um suporte colocado a “sua disposição”. Para o artista independente é bem mais complicado. Mas tudo na vida é assim, “sacomé”?  Tem seus prós e contras, deve se colocar tudo na balança pessoal e vê o que realmente de fato vale a pena.

25-) RM – Quais as estratégias de planejamento da sua carreira dentro e fora do palco? Quais as ações empreendedoras que você prática para desenvolver sua carreira?

Edu A– Considerando a importância que esse trabalho teve pra mim, pelas homenagens prestadas, pelas participações lindas e tal. Eu fiz desde antes mesmo dele estar pronto, um cronograma de planejamentos sobre como e de que forma “trabalhar” o CD. E isso é o que eu venho fazendo nesse primeiro semestre de 2013.

No primeiro semestre a ideia é divulgar o trabalho de todas as formas possíveis, seja em rádios ou jornais ou TV. O que estiver ao meu alcance. O show somente irá ocorrer, depois desse trabalho. Priorizo inicialmente a divulgação o máximo possível do trabalho em larga escala. Já temos matérias em jornais de diversos lugares, já temos músicas sendo tocadas em diversas cidades. Em suma, é o que eu quero primeiro.

Tem muita gente perguntando quando vai ter show e tal. E o certo é que teremos sim, mas antes quero esse semestre todo passar divulgando o trabalho, para que as pessoas possam escutá-lo, conhecê-lo e saber do que se trata o projeto.

26-) RM – O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento de sua carreira?

Edu A– Sem dúvida alguma o uso correto das mídias sociais para divulgação é muito importante. Não posso dizer que prejudica em nada. Eu gostaria muito de poder ter mais destreza com o uso dessas mídias, pois sou meio “atolado” em utilizá-las com todo o potencial que cada uma pode oferecer. Mas de vez em quando eu consigo (risos).  [Ainda vou encontrar uma “alma caridosa” que vai me ajudar a utilizar todo esse potencial que a cada dia se abre em prol do artista.

Mesmo com parcos conhecimentos, eu não tenho do que reclamar. Até hoje só fui ajudado pela internet nesse meu trabalho de divulgação em geral.

27-) RM – Quais as vantagens e desvantagens do fácil acesso a tecnologia  de gravação (home Studio)? No passado a grande dificuldade era gravar um disco e desenvolver evolutivamente a carreira. Hoje grande não é mais o grande obstáculo. Mas concorrência de mercado se tornou o grande desafio. O que você faz efetivamente?

Edu A– Ter como aliados os produtores que consigam destrinchar o que você quer de verdade, aliados a um bom equipamento. O home estúdio é tudo de bom pelos facilitadores que nos proporcionam, pela agilidade com que hoje podemos gravar um trabalho. E pensar que na época da fita em rolo, cada pedacinho de erro que precisava ser consertado, era “colado” e havia uma pessoas só para isso.!

Em relação à concorrência ter aumentado em função desses facilitadores que a digitalização proporcionou, eu sou muito tranquilo em relação a isso. Música para mim, nesse estágio da vida, é puro prazer.  Não quero saber daquela coisa da concorrência querer me atropelar, passar por cima, daquela coisa de vaidades e sei lá mais quais sentimentos negativos que infelizmente fazem parte da natureza humana.

Quero fazer o meu trabalho! Quem curtir e quiser se juntar a mim será sempre bem-vindo. Quem não quiser, lamento. Sou um cara legal, sabia?(risos).

A verdade é que por ser um musico tardio, muita, mas muita gente olha mesmo com certa dose de desconfiança. Natural isso? Não sei. Só sei que é uma enorme perda de tempo, pois ao invés de somar e agregar. Coisas inerentes a minha vontade ou questões de prioridade não me permitiram tornar-me um músico mais cedo como eu mesmo gostaria que tivesse acontecido, mas, faz parte.

28-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas últimas duas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Edu A– Não existe uma “regressão”. Em minha humilde opinião, existem coisas nas quais algum artista resolve arriscar de fazer, podendo ou não dar certo. Quando ele já tem “muitas moedinhas no cofre”, ele pode se arriscar assim, sem danos a sua imagem. Outros já têm aquela fórmula certa, aquele café com leite e sempre farão aquilo porque é o que curtem e principalmente sabem fazer bem. Não acho que se trata de regressão. Talvez uma momentânea falta de inspiração para repetir aquela fórmula com a mesma competência. Nessas duas últimas décadas surgiu um turbilhão de mulheres na MPB, acho que bisonhamente falando, cem cantoras para cada cantor que apareceu na MPB. Isso acabou meio que gerando certo gosto de “já vi e ouvi isso antes”.

Eu acredito em quatro diferentes situações da MPB em um todo, pela sua grandeza cultural e pelo o enorme tamanho desse país:

01 – Artistas ótimos que conseguiram ser descobertos;

02 – Artistas “não tão bons assim”, mas que também conseguiram ser descobertos;

03 – Artistas ótimos que nunca conseguiram ser descobertos;

04 – Artistas “não tão bons assim” que nunca conseguiram ser descobertos

Artistas “não tão bons assim” você compreenda da maneira que quiser, mas o fato é que tamanho é o mercado, tamanhas as limitações, as crises das gravadoras no Mundo todo (que sempre ganharam fortunas antes de existir a crise). E tudo mais, essas situações fazem parte do nosso cenário. Acho que principalmente a gente vai precisar estar no lugar certo e na hora certa. Aí as coisas poderão acontecer.

Nesses 20 anos pra cá, cantoras como Céu, Luisa Maita, Zélia Duncan, Casuarina (e João Cavalcanti em carreira solo) e artistas já conhecidos do público que foram fazer carreira solo como Arnaldo Antunes e Nando Reis, entre alguns muitos que me foge a memória agora, fizeram acontecer momentos lindos da MPB.

Não sei se citar o Lenine nesse cenário seria correto, pois o trabalho dele vem desde antes mesmo de “Baque Solto” há exatos 30 anos atrás, mas as coisas começaram a acontecer para ele, de forma concreta e maravilhosa, a partir do CD – Olho de Peixe que faz esse ano 20 anos de seu lançamento.

Ivan Santos é outro artista que nesses 20 anos acabou lançando dois CDs, se tornou letrista e parceiro do próprio Lenine, de Zé Renato e de Pedro Luis. É um cara que faz música a mais de 30 anos, é um cara que escreve coisas maravilhosas e poderia se encaixar na minha resposta com certeza.

29-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Edu A– Lenine, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Lula Queiroga, Marisa Monte. É muito difícil responder sem deixar de fora algum nome maravilhoso.

30-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Edu A– Não tenho assim nenhuma lembrança de “nada desagradável”, até porque toquei muito pouco ou quase nada. Tenho certeza de que à proporção que eu for saindo para tocar mais, essas situações poderão acontecer sim, pois fazem parte da nossa natureza, né? Não tem jeito!

31-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Edu A– Feliz é o reconhecimento das pessoas que entendem o meu trabalho e gostam do que ouvem. Que não se deixam levar por idéias pré-concebidas e preconceituosas pelo fato de eu ser um músico tardio. É ver o apoio da minha mulher, que conviveu e convive ainda anos e anos com pessoas intimamente ligadas a música. E dizer que acredita muito no que eu faço, é o olhar dos meus filhos me vendo feliz de finalmente poder fazer o que sempre quis fazer. E não consegui fazer antes.

Triste? Deixa pra lá! Sou o cara mais feliz do Mundo por ter as pessoas que tenho ao meu redor me dando o apoio que preciso para seguir em frente.

32-) RM – Nos apresente a cena musical da cidade que você mora?

Edu A– Rio de Janeiro é uma cidade pra lá de cosmopolita, onde de tudo acontece. E aonde há potencial para todos apresentarem o trabalho em um todo, independente de suas tribos ou estilos.

O problema maior da cidade é que faltam espaços, faltam opções e pior. E quando existem as coisas às vezes vem “recheada” de burocracias gerais. Mas, não há a menor dúvida que as coisas acontecem (ainda) no Rio de Janeiro. Não à toa, um grupo de jovens nordestinos que vieram para o Rio de Janeiro nos anos 80 (risos). São Paulo também é bárbaro. E sem comparação entre ambas as cidades, mas sem dúvidas são as duas que mais concentram essa quantidade e diversidade enorme de artistas.

33-) RM – Quais os músicos, bandas da cidade que você mora  você indica como uma boa opção?

Edu A– Tantas coisas lindas! Lenine, Roberto Carlos, Milton, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Barão Vermelho. Não dá para escrever mais não, porque eu iria acabar com as páginas da revista escrevendo. Sem esquecer, os Filhos de Platão também!

34-) RM – Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios sem pagar o jabá?

Edu A– Algumas músicas já vêm sendo tocadas sem jabá (risos). Mas é muito desagradável esse assunto!  Aqui no Rio de Janeiro uma pessoa de uma das principais rádios que tocam MPB, disse que adorou o meu CD, mas que para tocar algo eu devo dar um “incentivo cultural” (belo nome para Jabá). Algo em torno de trinta a quarenta mil reais para tocar durante um mês. É “levianamente imoral”. Por isso, não acredito que as músicas do meu CD toque no Rio de Janeiro, pois não tenho esse cacife todo não.

No entanto rádios como a Tabajara e a Cabo Branco em João Pessoa – PB e a Inconfidência em Belo Horizonte – MG, tocam pela simples demonstração do gostar do trabalho. É muito bom isso!

35-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Edu A– Perseverança já é meio caminho. Continuar seguindo em frente sem se importar com uma crítica ruim. Eu tive uma crítica negativa a esse meu trabalho e foi à única. Depois só teve coisas boas escritas sobre ele. Se em um primeiro momento fiquei frustrado, hoje faço uma crítica ao crítico e digo que ele não escutou o disco com tranqüilidade. E talvez por alguns deles terem uma rotina de ouvir 500 CDs em 5 minutos, e simplesmente saiu escrevendo sobre o meu. Ou será que todos os demais estão errados e ele está certo?

Acredito que o gosto pessoal sobre um trabalho, seja bem subjetivo e cada qual tem o seu. Que nem o conceito de beleza. Mas deve-se usar sempre o bom senso antes de sair “detonando” algo que pode ter um preço irreversível.

36-) RM – Fale do seu contato pessoal e profissional com Bráulio Tavares, Lenine, Lula Queiroga, Pedro Osmar, Ivan Santos, Alex Madureira, Tadeu Mathias?

Edu A– Todas essas pessoas foram apresentadas a mim por Mônica. Mesmo que antes eu já conhecesse boa parte do trabalho de algumas delas. E já achasse aquilo um som muito bacana, foi através da Mônica que tive contato com elas.

Alex Ivan eu os contatei antes dela saber sobre o projeto, quando ainda estava alinhavando as participações do CD, e ambos foram maravilhosos e receptivos.

Alex e Mônica não se falavam ou se viam a mais de vinte anos. E lógico que havia da minha parte uma preocupação natural de como ele reagiria ao convite. Mas esse cara realmente é tudo o que todo mundo diz sobre ele, e algo mais. Alex é realmente um cara muito massa, “tombado pelo patrimônio histórico musical de João Pessoa“. Que pessoa bacana! Espero voltar em breve a Jampa e poder revê-lo novamente.

Conversando só um pouquinho com o grande Mingo Araújo, conseguimos meio que dimensionar um pouco da importância de Alex, como músico e pessoa, inclusive na trajetória musical de quase todo esse grupo que veio para o Rio de Janeiro ha 30 anos atrás. Não à toa alguns o consideram meio que “um guru”.

Conheci pessoalmente Alex quando estive em João Pessoa e só lamento não termos podido conversar mais e lamento que ele não esteja mais próximo para podermos fazer mais coisas juntos.

Ivan é de uma sensibilidade e um refinamento fora do comum. Adoro saber a opinião dele sobre o que venho fazendo, pois ele tem um discernimento bem bacana sobre tudo e é super exigente. Posso até não vir a concordar com ele sobre alguma coisa, mas faço questão de perguntar (e se ele estiver à vontade, de ouvi-lo falar), pois o acho extremamente centrado e exigente com ele mesmo, inclusive.

Hoje eu considero, um dos maiores letristas em atividade do Brasil e  muito me honrou termos uma parceria nesse novo trabalho.   Eu o coloco fácil no nível de letristas maravilhosos hoje em atividade na MPB, ali entre o Paulo Cesar Pinheiro e Luiz Tatit. Como escreve bem esse parceiro!

Tadeu Mathias, Lenine e Bráulio Tavares eu fui apresentado a eles através de Mônica.

Tadeu abraçou o projeto de forma tão carinhosa, tão bacana que me sensibilizou muito o seu engajamento em tudo. Talentoso demais e extremamente versátil como cantor, mostrou bem isso ao cantar uma música no CD. Meio diferente de tudo o que já havia cantado até então, e mandou muito bem!

Lá em casa, quando estiveram juntos Lenine e Bráulio!  Eu fiz questão de ficar calado só para ter o prazer de escutá-los e absorver tantas coisas boas que os dois juntos produzem até conversando (imagine fazendo música). Ambos com uma percepção diferenciada das coisas, muito bacana!

Pedro Osmar e Lula eu mesmo fiz o contato.

Com Pedro estivemos juntos quando fomos a Jampa em dezembro 2012. Que pessoa querida! Como foi carinhoso com Mônica e como foi simpático comigo. Como foi boa demais a nossa curta passagem pela casa dele. É outro que espero re-encontrar em breve. Como também espero poder fazer algo de novo com ele mais para frente (nossa parceria foi tão loucamente rápida que nem deu para sentir o gosto pela coisa).

Lula foi algo super rápido, em uma noite pré-carnaval de 2012 aqui no Rio de Janeiro (em que ele e Mônica se re-encontraram depois de 20 e tantos anos). E depois rapidamente na noite de março que ele tocou no Circo VoadorLula é extraordinário como artista e pessoa. Ligado sempre “no 220 Volts” e que escreve cada coisa. Lamentavelmente por várias correrias dele, não conseguimos concretizar nossa parceria. Mas, o simples fato dele ter tentado participar e as palavras que ele disse sobre a melodia que eu apresentei a ele, já “valeram o ingresso”.

Vale frisar outras pessoas muito queridas,  que fizeram parte desse meu projeto e foram apresentados “via Mônica” e que valeu demais pelo carinho com que se engajaram nele, como o artistas plástico Romero Cavalcanti, o fotógrafos Gustavo Moura e Hélio Viana (os três de João Pessoa/Jampa), o meu “baixista predileto” Fábio Girão, o guitarrista Paulo Muylaert(todos fizeram parte do disco Baque Solto), o queridíssimo Mingo Araújo, o Firmino, o jornalista Julio Ludemir  e outros mais que me foge a memória agora.

36-) RM – Quais os motivos que lhe fazem se considerar um “músico tardio” ?

Edu A– Porque um cara que começa a prender violão somente com 43 anos de idade, não pode ser considerado uma jovem promessa. Quando eu falei lá em cima da entrevista que o Fróesse considera tardio por ter iniciado aos 25 anos de idade, como eu poderia me autodenominar, senão no mínimo da mesma forma?

37-) RM – Quais os motivos que o levou a ser um “músico tardio”?

Edu A– Desde muito cedo acumulei algumas responsabilidades, que em teoria, não estava programado para ser daquela forma, naquela idade. Mas assim o foi. Comecei a trabalhar bem cedo e não poderia considerar a hipótese de naquele momento parar para aprender a tocar algum instrumento. Ainda que eu até tentasse me enturmar com alguns grupos de amigos, como oMalta D´Areia de Niterói – RJ, mas que, como eu não tinha nenhuma formação musical  prática ou teórica,  naquele momento, a coisa não evoluiu como eu desejava.

Sempre amei a música e de alguma forma, nunca desisti de tentar estar próximo a ela de alguma maneira que fosse.

38-) RM – Quais as atividades profissionais que você fez fora da música?

Edu A– Trabalhei por muitos anos na Embratel, nesse meio tempo conclui dois cursos universitários. E fui trabalhar com a Arquitetura e o  Designer de Interiores, fazendo projetos e principalmente prestando serviços de obras em geral,  para diversos clientes meus ou mesmo de  diversos arquitetos e designers.

39-) RM – Quais os prós e contras de entrar na profissão de músico após os 40 anos?

Edu A– A limitação maior mesmo é a própria destreza minha para com o instrumento. Passo longe de ser um bom violonista, mas, pelo menos me considero um compositor decente. E quando toco junto ao grupo, não comprometo em nada o conjunto. Sei até aonde posso ir, sem comprometer o meu trabalho musical.

O pró é a felicidade de poder mostrar para mim mesmo e os outros que nunca é tarde para se fazer o que se ama. E é possível fazer bem feito, de forma decente. É poder vê o apoio da família. E a família saber que estou feliz por realizar meu sonho.

O contra fica por conta de quem já tenha uma ideia pré-concebida das coisas. E simplesmente ache tudo isso uma bobagem, impossível de as coisas acontecerem seja na idade que for.

Lógico que se eu tivesse me iniciado mais cedo, teria tido um contato muito maior com as pessoas do meio de maneira gera. E seria um pouquinho mais conhecido (talvez?!?!), tarimbado, e tudo mais. Mas, sei lá se eu teria conseguido concretizar o que eu fiz após os 40 anos. Assim, não tenho, de verdade, do que me queixar. Ainda bem que tenho uma mulher maravilhosa e dois filhos lindos que sabem e acreditam no que eu sou. E me amam exatamente da forma que eu sou. Como diria Lenine: “Isso é só o começo!”

40-) RM – Quais os planos para o futuro ?

Edu A– Além da divulgação por agora, e dos convites que surgirem para tocarmos a partir do segundo semestre. E no segundo semestre já começo a me mexer, entrando novamente em estúdio em um novo projeto o qual pretendo ir trabalhando até o fim 2014 ou meados de 2015. Não posso dar muitos detalhes agora porque as ideias estão borbulhando na minha cabeça e elas precisam ir amadurecendo e criando forma.

Talvez até, eu venha assinar como Edu A. e não mais Filhos de Platão? Dependerá de como eu estiver pensando sobre isso até lá (risos). Porém nisso tudo há um desejo grande nesse novo disco de poder repetir minha parceria com Ivan Santos, com Alex Madureira e com Pedro Osmar. E ainda há o desejo de trabalhar novas parcerias com outros letristas fantásticos como meus  amigos Roberto Bozzetti e Bráulio Tavares, o Marcelo Diniz  ou ainda  o  Luiz Tatit.

Não sei se conseguirei, mas sonhar nunca fez mal e até agora consegui realizar boa parte dos meus sonhos.

E não dá pra sair falando muito agora. O melhor é deixar as coisas acontecerem, como acabaram acontecendo em “dias de blumer”.

41-) RM – Quais seus contatos para show e para os fãs?

Edu A–  [email protected]  ou (21) 8400 – 8745

 

Links de Vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=TIUW368X4fk

http://www.youtube.com/watch?v=I_FgsMiVz5o&hd=1

http://www.youtube.com/watch?v=YyeWpMwJY0w&&hd=1

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.