Edson Natale

O cantor, compositor, violonista e produtor cultural paulistano Edson Natale é gerente do núcleo de música do Instituto Itaú Cultural.

Publicou o Guia Brasileiro de Produção Musical 1994/1995, o Anuário Brasileiro dos MúsicosProdutores e Estúdios 1996, e o Guia Brasileiro de Produção Cultural 1999, 2001, 2004 e 2007. Produziu CDs de Renato Braz, Parlapatões, Patifes & Paspalhões, Jackson Antunes & Chico Lobo, entre outros artistas. Como músico, gravou os discos Nina Maika, Sol de Inverno, Quando Eu Soube Que Você Viria e Lavoro. Em 2005 ele foi selecionado pelo Prêmio Petrobrás para gravação do CD – Calvo, com sobrepeso. Participou do lançamento de CDs de artistas como Jards Macalé, Itamar Assumpção, Renato Braz, Quinteto Violado, Mônica Salmaso, Renato Borghetti, Maurício Pereira, Dori Caymmi e é autor do livro infantil “A História do Incrível Peixe Orelha”, lançado em 2004, com apoio da ONU. Segue abaixo entrevista exclusiva de Edson Natale para a  em 01/03/2012:

1-) Ritmo Melodia – Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Edson Natale – Eu nasci em São Paulo, em 18 de março de 1962.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

EN – Não venho de uma família musical, pelo menos da parte familiar que tive contato direto. Minha mãe, que é egípcia, me contou que meu bisavô era músico no Egito, mas eu não o conheci. Eu me lembro de alguns LPs do meu pai e dos meus compactos duplos da Jovem Guarda. Depois ganhei um rádio de pilha no Natal, devia ter uns nove, dez anos de idade e o ouvia o dia inteiro. Nessa época o Benito Di Paula estava começando e tocava muito na rádio: pedi para meus pais comprarem o LP dele para mim. Depois comecei a comprar alguns LPs, mas nada que tenha me marcado muito até que ouvi Clube da Esquina, que para mim foi um “achado”…

3-) RM – Qual sua formação musical e acadêmica fora música?

EN – Minha formação musical não é acadêmica. Tive aulas com Ronoel SimõesCelso MachadoUlisses Rocha e também freqüentei o Conservatório Fego Camargo, quando fui fazerAgronomia em Taubaté – SP. Meu instrumento é o violão então, além das aulas com esses professores/músicos que citeie, aprendi muito também com o Paulinho NogueiraAndré GeraissatiSuba que, mesmo informalmente, também foram meus professores. Minha formação também passa pelo aprendizado que tive e ainda tenho com os integrantes do Grupo Dharana: Alex Braga, Toninho Mattos e Roberto Gomes. Fora a música, eu sou formado em jornalismo e freqüentei três anos da Faculdade de Agronomia, mas não terminei porque nessa época resolvi que seria músico e abandonei a faculdade: essa decisão foi tomada em 1984.

4-) RM – Quais suas influências musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

EN – Nenhuma das minhas influências deixou de ter importância, no fundo elas vão se sobrepondo. Além destes todos que citei acima, posso dizer que trago influências dos muitos e muitos músicos, intérpretes, arranjadores e compositores com os quais convivi e convivo: neste aspecto posso afirmar que sou um privilegiado por conviver com tantos craques da música.

5-) RM – Quando, como e onde você começou sua carreira profissional?

EN – Minha carreira começou quando decidi abandonar a Agronomia para me dedicar à música, em 1984. Em 1985 comecei a trabalhar como assistente de produção e minhas funções eram múltiplas: colava cartaz nas lojas da Rua Augusta, comprava sanduíches pros músicos, era motorista e liberava o ECAD, nota contratual da OMB. Essa foi uma fase importante porque comecei a descobrir que poderia trabalhar com produção cultural. A decisão que se solidificou e expandiu quando lancei a primeira edição do Guia Brasileiro de Produção Cultural, em 1994.

6-) RM – Quantos CDs lançados e qual ano de cada lançamento (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que se destacaram em cada CD?

EN – Minha discografia é composta por um compacto duplo (1985), chamado “Tietê” que fiz com Alfredo Victor e que teve arranjos e participação do multi-instrumentista Carioca, do Renato Lemos e do Alex Braga (que se tornou meu irmão desde então). Em 1988 e 1989 já com o Grupo Dharana, lançamos dois LPs: “Dharana” e “Guerreiros do Arco Iris” com participações doAndré Geraissati e arranjo (em uma das músicas) do Hermeto Pascoal. A partir de 1990 comecei minha “carreira solo” e lancei “Nina Maika” / 1990 (com a participações de músicos comoSuba, Toninho Horta, Edson Cordeiro, André Geraissati, João Parahyba e Loren Daé); “Sol de Inverno” / 1992 (com Alex Braga e Suba); “Aboio” / 1993 (com Tuco Marcondes, Natália Barros, Alberto Marsicano, Maurício Pereira e Alex Braga); “Quando eu soube que você viria” / 1995 (com Ulisses Rocha, Hugo Hori, Sizão Machado e Alex  Braga),“Lavoro” / 1999 (que é uma coletânea) e “Calvo, com sobrepeso” / 2007 (com Renato Braz, Paulo Freire, Maurício Pereira, Paulo Brandão, Elizah Rodrigues, Marcelino Freire, Luis Nassif, Simone Sou, Lincoln Antonio, Daniel Szafran, Jards Macalé, Toninho Ferragutti e Arthur de Faria, entre outros).

Além dos discos tenho produzido livros (às vezes não sei se gosto mais de escrever ou de tocar…) como a história infantil chamada “A História do Incrível Peixe Orelha” e o “Pequeno Calendário colorido para os que sabem ler o tempo” (ambos com ilustrações de Carlos Barmak) e as seis edições do Guia Brasileiro de Produção Cultural, junto com Cristane Olivieri; projeto que em 2012 completará 20 anos com a sétima edição.

7-) RM – Quais os prós e contras de usar a lei de incentivo a cultura para lançar um CD e financiar show?

EN – Não tenho lançado CDs ou feito shows com freqüência: minha atividade neste sentido tem sido muito esporádica porque minha prioridade profissional nos últimos dez anos tem sido o meu trabalho no Itaú Cultural. Contudo acredito que nunca se deve acostumar com um único tipo de procedimento para viabilizar a sua produção: as leis de incentivo devem ser encaradas como uma destas possibilidades, mas não a única.

😎 RM – Como você define seu estilo musical?

EN – Não sei ao certo. Gosto muito de conceber, de criar uma espécie de “quebra cabeça” musical e então começo a juntar pessoas e peças para viabilizar essa espécie de sonho musical. Dessa forma meu estilo varia conforme o “quebra cabeça”…

9-) RM – Como você se define como cantor/intérprete?

EN – Como cantor? Sinceramente nem me atrevo a me definir (risos). No meu último disco, “Calvo com Sobrepeso” só me atrevi a cantar porque colei minha voz na da Elizah Rodrigues, essa sim uma cantora. Eu não canto, apenas me coloquei à disposição do “meu quebra cabeças”…

10-) RM – Você estudou técnica vocal?

EN – Nunca. Gostaria muito (aliás mais do que gostar eu deveria…)

11 -) RM – Quais os cantores e cantoras que você admira?

EN – Nossa, são tantos e tantas! Exatamente nesse momento penso no Renato Braz e o cito porque posso homenagear aqui a figura do produtor Homero Ferreira, recém falecido e que foi grande incentivador da brilhante carreira do Renato. Mas não me atrevo a citar os cantores e cantoras: só citei o Renato para homenagear o Homerinho, conforme já disse.

12-) RM – Como é seu processo de compor? Quem são seus parceiros musicais?

EN – Meu processo é aquele que citei, do “quebra cabeças”, vou montando devagar e gosto de mostrar para os amigos (e amigas) músicos. Tenho produzido pouco, portanto tenho mostrado pouco, mas meus parceiros mais constantes são os integrantes do Dharana e também o Paulo Freire, Maurício Pereira, Paulo Brandão. Recentemente quem esteve em casa para tentarmos começar algo foi o Camilo Carrara, mas ainda não evoluímos por causa da minha pouca dedicação. Mas tem um monte de gente na “mira”: vamos ver se terão paciência comigo!

13-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

EN – Hoje em dia esse conceito mudou muito. E acredito que a maioria dos artistas com os quais convivo possuem, de certa maneira, uma carreira independente se for analisar isso sob o ponto de vista de estar ligado a uma gravadora, nos moldes das décadas de 70, 80 ou 90, por exemplo. Eu acho saudável que o profissional da música saiba se “movimentar” de uma maneira independente, sem que isso signifique abrir mão de oportunidades e parcerias com empresas, organizações, cooperativas, coletivos, etc

14-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram as revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

EN – O cenário musica brasileiro é fértil e tem dado bons frutos: a colheita é farta. Não conseguiria citar aqui as revelações porque sinto que serei injusto com muita gente; mas do rap até canção; da música instrumental até o samba, talentos e revelações não nos faltam.

15-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

EN – Um grande exemplo de profissionalismo e qualidade artística; alguém que tenha me ensinado muito? O Suba.

16-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

EN – Olha, uma vez fui tocar em um bar lá em Piracaia, no interior de São Paulo. O bar se chamava “Tô que Tô Bar”. Eu estava tocando uma música do Celso Machado, “ParaZula em Si menor” e me deu um “branco” danado e não conseguia sair de um acorde porque tinha esquecido qual seria o próximo! Então passa um conhecido na beira do palco e eu paro de tocar e “lasco” um caloroso abraço no sujeito. Ninguém entendeu nada, como é que o músico para de tocar para abraçar alguém que passa na frente dele. Mas funcionou! Comecei a música novamente e toquei até o final, sem problemas…

17-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

EN – Mais feliz, a música, os músicos e o silêncio e adoro trabalhar para que a música dos “outros” aconteça. Mais triste? O inevitável da vida quando, por exemplo, músicos como Itamar Assumpção, Suba ou Rafael Rabello vão embora tão cedo…

18-) RM – Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

EN – vishhh. Vivo em São Paulo onde parece que existe um “mix” de “tudo ao mesmo tempo agora” com “salve-se quem puder”! Brincadeira: adoro morar em São Paulo, mas acho que não conseguiria descrever a cena; prefiro dizer que tento (e não consigo) usufruir da cena…

19-) RM – Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

EN – Tenho ouvido muita música árabe, por que meu filho mais velho, Gabriel (16 anos) vai estudar no Egito a partir de setembro, onde viverá por um ano. Ele me apresentou uma cantora egípcia chamada Um Khultoum que recomendo fortemente. Ela faleceu na década de 70, mas é fantástico ouvi-la.

20-) RM – Você acredita que sua música vai tocar nas rádios sem pagar o jabá?

EN – Minhas músicas tocaram e tocam pouco nas rádios. O dia em que recebi a notícia que uma música minha tocaria no Fantástico, da Rede Globo, fiquei muito feliz. Além do que meu primeiro filho tinha acabado de nascer e foi um dinheiro muito bem vindo. Depois tocou mais uma três vezes, sempre pelas mãos (ou ouvidos) do Maurício Kubrusly que tinha um “quadro” no programa. Quanto ao jabá: não existe algo mais pernóstico para a “ecologia musical” de um lugar…

21-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

EN – Seja bem vindo! Tenha paciência, disciplina e controle seu ego. Pergunte-se se quer ser músico para ser famoso ou porque ama a música. No mais são anos de estrada, como em qualquer outra profissão…

22-) RM – Fale de sua trajetória à frente do Itaú Cultural?

EN – Na verdade não estou à frente do Itaú Cultural, mas faço parte de sua equipe. São mais de 10 anos de aprendizados e sou muito grato por poder participar dos projetos “da casa”. Projetos como o Rumos Música, Estéreo Saci, Toca Brasil e tantos outros tem sido fundamentais na minha formação. Genial a convivência, as trocas e a interação com outras áreas de expressão como a dança, literatura, teatro, audiovisual, artes visuais, etc… Só tenho a agradecer, sempre.

23-) RM – Fale da importância do Projetos Rumos para música popular brasileira? Como se inscrever?

EN – Rumos Música têm um papel de mapear, fomentar, difundir e articular músicos e suas produções. E também trabalhamos para instigar, provocar novas formações e possibilidades para que a produção musical aconteça. Obviamente fazemos isso a partir do material selecionado. As inscrições acontecem segundo as regras do edital (www.itaucultural.org.br) e o próximo edital doRumos Música será lançado em 2013.

24-) RM – Você ainda acredita que os festivais de música ainda lançam novos talentos?

EN – Não sei se exatamente “lançam” novos talentos, mas acredito que a sua existência dá oportunidades para que os músicos possam mostrar suas obras, que são sempre bem vindas. Desde que os organizadores sejam capazes de receber e tratar os músicos com dignidade e profissionalismo.

25-) RM –  Você acredita em renovação nos Festivais de música ou é um “revival” com novas músicas e “velhas caras”?

EN – É sempre difícil generalizar, por isso volto a dizer: um Festival bem organizado e bem articulado é importante. E acredito que um Festival que não se preocupe em trabalhar para que sua programação seja instigante, está fadado ao fracasso…

26-) RM – Quais os prós e contras de participar dos atuais festivais?

EN – Isso depende da avaliação, expectativa, necessidade, estratégia, história e objetivo de cada músico ou banda com relação a cada festival.

27-) RM – Na sua opinião existem “panelas” nos Festivais de música pelo Brasil?

EN – São tantos os festivais! E de qualquer maneira digo que não posso acreditar que algum Festival que seja “viciado” possa perdurar.

28-) RM – Quais os seus projetos futuros?

EN – Minha vida profissional é fundamentalmente vivida dentro do Itaú Cultural. E nestes termos temos inúmeros desafios pela frente, o que me faz bem feliz e confiante diante do futuro. Além disso, estou trabalhando, com a Cristiane Olivieri, na sétima edição do Guia Brasileiro de Produção Cultural e no próximo disco do Grupo Dharana, que voltou a tocar após uma “pequena” pausa de 20 anos.

29-) RM – Qual seu Contato?

EN – natalenat@uol.com.br  / www.myspace.com/edsonnatale

O que achou? Comente aqui!