Fidélia Cassandra

“Fidélia Cassandra conhece toda força e toda a doçura da palavra poética”, diz Belchior. Uma definição perfeita da sensibilidade poética de Fidélia.

Seu canto iniciou quando criança, no Mosteiro das Clarissas, onde sua tia, freira daquela ordem, a levava para cantar para as noviças enclausuradas. Na tentativa de imitar seu pai, ficava em frente ao espelho, fazendo da vassoura o seu microfone. A música seu grande sonho. Mas, teve que trilhar outros caminhos sem nunca, porém, abandonar a sua arte. Foi bancária, sindicalista. Hoje, professora e jornalista, e sonha em deixar de ser água escondida. Ouvir seu pai cantando, foi o início do seu aprendizado. Os grandes festivais de MPB, sua escola musical. Os saraus na casa de Duduta, juntamente com Waldir, exímios chorões, outra escola. Os longos ensaios nos corais do Dart e Céu da Boca, a tentativa de lapidar a voz. A convivência com grandes músicos, compositores e poetas nordestinos como Fábio Dantas, Geraldo Pinto, Jorge Ribbas, Zezé Duarte, Gabmar Cavalcante, Bráulio Tavares, Hildeberto Barbosa Filho, José Edmilson Rodrigues, Ivanildo Vila Nova e Sinédei Moura a concretização de mais aprendizado e parcerias riquíssimas. Na grande amizade e convivência com o poeta cubano Felix Contreras, o conhecimento e o reconhecimento de seu fazer poético.

Ela não se contenta e se arrisca a “inventar” música, pois diz que “só quem compõe é quem conhece. Quem não domina a música nem na sua teoria nem na prática não passa de um inventor. Compor é com os compositores”. Vários shows fazem parte da sua extensa carreira que se iniciou na década de 80. Em 2002, lançou seu livro de poemas “Amora”, que traz à tona um exercício poético iniciado aos 12 anos. Seu CD – Nu Artístico está pronto e será um presente para o público de Campina Grande que poderá conhecer toda a arte dessa cantora e compositora que vive escondida entre livros, cds, plantas e seus dois filhos a quem tem dedicado muito amor: Pedro e Gustavo.

Incansável, pesquisa do baião à bossa nova, do clássico ao blues, do choro ao jazz, numa procura incessante da melhor forma, da melhor canção. Seus ídolos convivem com ela em seus momentos de pesquisa: Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Catulo da Paixão, Jacó do Bandolim, Noel Rosa, Pixinguinha, Chico Buarque, Chet Baker, Cole Porter, Billie Holiday, George Gershwin, Aracy de Almeida, Tom Jobim, Elis, Omara Portuondo, Compay Segundo e muitos outros. O que a sustenta em sua arte é saber que sempre haverá um lugar em que poderá cantar sua música preferida (MPB) com sua voz de contralto e seu coração com ânsias de eternidade. Segue abaixo uma entrevista exclusiva com Fidélia Cassandra para a 16/01/2012:

1-) Ritmo Melodia – Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Fidélia Cassandra – Eu nasci em Campina Grande, cidade incrustada na Serra da Borborema, na Pequenina Paraíba do Norte, em 19 de junho de 1962.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

FC – Meu primeiro contato com a música foi através do meu pai. Ouvia em casa música clássica, música cubana, o melhor dos grandes compositores da MPB. Noel Rosa, Pixinguinha, Ary Barroso e muitos outros. Ouvia Mário Reis, Osni Silva, Orlando Silva, Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Carmem Miranda, Marlene, Araci de Almeida. Além de todos esses cantores, meu maior professor de música foi meu pai. Tanto no tocante à história da música popular brasileira quanto à questão do canto. Ele cantava muito bem. Ainda ouvia música com meu avô materno, neto de escravos, agricultor e, antes de morrer, vendedor de cachaça. Ele gostava de Ângela Maria e Nat King Cole. Com uma tia paterna, ouvia Waldik Soriano, Lindomar Castilho, artistas que, àquela época, eram considerados de mau gosto. Ouvia os atabaques de um terreiro de xangô, nas vizinhanças da minha casa. E ia dançar iê-iê-iê na SAB (sociedade de amigos de bairro) do bairro do Centenário, onde morei parte da minha infância.

Meu pai se chamava José Pereira de Araújo, e era conhecido como Zequinha. Mecânico de profissão, amante das artes e, principalmente, da música. Boêmio, exímio cantor (tenor) e comunista. Foi preso e torturado durante a ditadura, mas graças a Deus, saiu com vida para contar a sua história e as atrocidades por que passou. Minha mãe chama-se Maria Betânia Pereira, tem 70 anos, já gostou de cantar. Ia para o show de calouros da Rádio Borborema para paquerar meu pai que sempre estava por lá. Hoje, está aposentada como Assistente Social, graduação que conseguiu muitos anos depois de casada.

Meu avô paterno, era Cícero Pereira de Araújo, um mulato, sapateiro e depois motorista de caminhão. Fazia fretes. Morreu aos 40 anos de uma cardiopatia. Infelizmente, não o conheci. Minha avó, Belizarina das Chagas Araújo, a quem todos carinhosamente chamavam de Belinha, era uma avó maravilhosa. Branquinha, pernas roliças, dócil e brava ao mesmo tempo e me ensinou muito sobre o que é amar. Meu avô materno, chamava-se José Pereira de Brito, negro, neto de escravos e trabalhou muitos anos na roça, no município Alagoa Nova – PB. Veio para Campina Grande com os filhos, que eram em número de nove, para ver se conseguia uma vida melhor. Mas, continuava botando roçado, na área rural de Campina e vendia aguardente de cana de cabeça, trazida dos engenhos de Alagoa Nova, para vender nas bodegas dos bairros. Todas as tardes saia com seu burro e os barris cheios de cana. Era uma forma de sustentar a família. Gostava muito de ouvir as estórias que ele contava sobre a época que trabalhava na roça e a história de amor entre ele e minha avó, que por ser branca não poderia casar com um negro, mas, depois de muita peleja conseguiram casar. Era casado com Regina Maria da Conceição, minha avó. Mulher destemida e muito braba. Não tinha medo de nada.

3-) RM – Qual sua formação musical e acadêmica fora música?

FC – Não tenho uma formação musical acadêmica. Formei-me na batucada da vida. Indo a rodas de samba e choro com meu pai aos domingos. Frequentei muito a casa do mestre chorão Duduta. E durante anos, eu ia todos os sábados pra lá. Quando adolescente, cantava nas calçadas da rua Marechal Deodoro, no bairro da Prata, com amigos que tocavam violão. Sempre cantava as músicas que aprendi com meu pai como Malagueña. Sempre gostei de cantar também em espanhol e inglês desde àquela época. Fora a música, sou formada em Letras, pela Universidade Federal da Paraíba e em Comunicação Social/Jornalismo, pela UEPB (Universidade Estadual da Paraíba).

4-) RM – Quais suas influencias musicais no passado e no presente? Quais deixaram de ter importância?

FC – No passado, como já citei anteriormente, foi os grandes compositores da MPB (da Velha Guarda) que me influenciaram. Desde muito tempo cultivo também o gosto pelo Jazz e o Blues. Pesquisei muito sobre esses temas durante muito tempo. Cheguei a ter um programa, chamado Jazz & Cia, na Rádio Campina FM. Atualmente, tenho me voltado um pouco para a música mais nordestina como o Côco, o Maracatu e a Cantoria. Quando criança, ouvia Cantoria todo fim de tarde num radinho de pilhas que ganhei do meu pai. Tempos depois tive a oportunidade de conviver com mestres como Ivanildo Vila Nova, Moacir Laurentino e outros em festivais de Repente realizados em Campina Grande e Caruaru.

5-) RM – Quando, como e onde você começou sua carreira profissional?

FC – Comecei minha carreira nos festivais de música popular organizados pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e pela FACMA (Fundação Artístico Cultural Manuel Bandeira, na década de 80. Profissional mesmo, só nos anos 90, quando comecei a fazer shows solos.

6-) RM – Quantos CDs lançados (quais os músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que se destacaram em cada CD?

FC – Tenho apenas um cd que, na realidade, nunca foi lançado. Coloquei-o na net em sites como o Caiubi, Myspace, Youtube e outros. São instrumentos que muito nos ajudam a divulgar nosso trabalho. O título do CD é NU ARTÍSTICO – é um cd autoral, com apenas três músicas de autoria de outros artistas como Bráulio Tavares (Atlântico Blues), Nu Artístico (Silvestre Almeida/Daera) e Valsa para Fidélia (Valdir do 7 cordas). As músicas que mais se destacaram foram UM NORDESTE BLUES, uma parceria minha com Sinédei Moura, que foi tema do Festival de Inverno de 2007, Delírio, em parceria com Geraldo Pinto e Chorinho Chorado, composto por mim. Jorge Ribbas é responsável pela maioria dos arranjos e fez a direção musical. Há também músicos como Gabmar Cavalcanti, Fábio Dantas, que também é meu parceiro, Geraldo Pinto, Valdir do Sete Cordas, Daera e outros.

7-) RM – Como você define seu estilo musical?

FC – Definiria como MPB. Uma música brasileira com influências das músicas e das cores nordestinas, mas, também, com influência de Jazz e Blues. Estilos que aprecio bastante. Porém, é muito difícil definir ou rotular o que fazemos.

😎 RM – Como você se define como cantora/interprete?

FC – Defino-me como cantora e também como intérprete, uma vez que não canto só as músicas que componho. No fim, creio que cantora é a palavras mais correta. Eu comecei cantando em casa. Ouvia meu pai cantando. A maior parte do tempo que ele estava em casa, ele cantava ou ouvia música e isso fez nascer em mim o gosto pelo canto e pela música. Comecei minha carreira nos festivais de música, em Campina Grande, e nunca havia ouvido falar sobre técnica vocal ou qualquer outra coisa do tipo. Alguns anos depois, comecei a cantar no Coral do Dart, da então UFPB, hoje UFCG, logo depois fui para o Grupo Vocal Céu da Boca. O pouco que sei aprendi nos corais. Nunca fiz aula de canto e, muitas vezes, esqueço-me de aquecer a voz antes de entrar em cena, parece que me viciei em cantar de uma forma intuitiva como fazia quando criança. Tenho um ouvido muito bom e, por diversas vezes, fiquei angustiada porque não utilizava direito os exercícios que fazíamos nos corais. . Acho que hoje tenho internalizadas algumas técnicas que adquiri nos anos de coralista, mas sinto que minha voz é uma pedra bruta ainda. Sou contralto. Isso me parece não ser muito agradável aos ouvidos de muitos. Tenho essa impressão e não sei explicar por que. Sempre gostei de cantar vários estilos e, como meu pai, gostava e, ainda gosto de cantar em espanhol. Não sei dizer qual meu estilo, pois canto samba, forró, Bossa, MPB (será que há muita diferença nesses estilos? Ahhaahahahah – Sou louca por Jazz e também por Blues. Enfim, gosto de música. Gosto de ouvir Clássicos, em especial, Bethoven e Chopin. Adoro Maria Callas, acho-a maviosa. E estou sempre ouvindo Nina Simone, Billie Holiday e ouvindo músicos/cantores como Louis Armstrong, Chet Baker, Bobby McFerrin, Fats Waller, Robert Johnson, Alberta Hunter, Bessie Smith. Adoro Maria Bethânia, Joyce, Nana Caymmi e a maravilhosa Elza Soares. Gosto de cantores antigos como Mário Reis, Orlando Silva e outros cuja memória me trai agora. Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque, Caetano e Tom Jobim para falar em alguns compositores.

9-) RM – Você estudou técnica vocal?

FC – Nunca estudei técnica. Fiz um pouco quando cantei em coral. Mas mesmo assim já trazia uma “técnica” intuitiva adquirida ao longo de anos ouvindo músicas e outras pessoas cantando.

10 -) RM – Quais as cantoras que você admira?

FC – Gosto muitíssimo da Maria Callas. Sempre que posso, ouço-a. Também gosto de Billie Holiday e Nina Simone, minhas duas divas afro-americanas. Gosta da Maria Bethânia. O timbre dela é muito gostoso. Gosto também da Nana Caymmi.

11-) RM – Você compõe? Quem são seus parceiros musicais?

FC – Componho, sim. Porém, de uns dez anos para cá, tenho preferido dar minhas letras ou poemas para serem musicados. É um misto de preguiça e vontade de ter um produto final mais diverso. Fiz algumas músicas com Fábio Dantas e Geraldo Pinto, porém, tenho mais canções em parceria com o Sinédei Moura. No momento, estou sem parceiro.

12) RM – Fale dos seus livros de Poesias?

FC -Tenho dois livros lançados. AMORA, em 2002, pela editora Manufatura, de João Pessoa e cuja segunda edição sairá ainda este ano pela editora da UEPB – Universidade Estadual da Paraíba. O segundo, PLUMAGEM, foi lançado em novembro de 2008, pela editora da UFCG – Universidade Federal da Paraíba. Comecei a escrever o terceiro título CARTAS DE PENÉLOPE, cuja maior parte dos originais perdi numa pane de computador o que me deixou meses numa angústia imensa. Aos poucos estou recuperando o que restou na cabeça, mas não é tarefa fácil.

13-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

FC – Por um lado a independência de podermos cantar o que realmente gostamos. Mas, por outro lado, amargamos com a falta de divulgação e conhecimento do público. Creio que quem se lança nessa aventura tem um público bastante restrito.

14-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

FC – Creio que a música brasileira é uma das melhores do mundo. Há muitos nomes bons como Tom Jobim, cuja obra é lindíssima. Chico Buarque e o Caetano Veloso. Que estão sempre reinventando a própria música e poesia que eles fazem. Surgiram também artistas como Zeca Baleiro, Lenine, Adriana Calcanhoto, Vanessa da Mata, Céu e outros cujos nomes não me vêm à memória agora.

15-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

FC – Egberto Gismonti, Léo Gandelman, Yamandu Costa, Jaques Morelenbaum, João Donato. São tantos!

16-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

FC – Nesses anos todos de carreira houve muito trabalho e poucas situações inusitadas. Como não ter tido tempo para tomar banho no meu primeiro show solo. Sai da produção/divulgação do show e entrei direto na roupa dentro do camarim. Tropecei numa caixa de som quando ia saindo do palco e foi aquele tombo. E, algumas vezes, esqueci alguma letra de música que prontamente inventava uma. Como os atores que inventam cacos quando têm alguma falha de memória. E peguei uma briga com um violonista que trabalhou comigo porque não passou o som e chegou atrasado na hora do show.

17-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

FC – Produzir um trabalho bem feito e subir ao palco me deixa extremamente feliz. O que me deixa triste é não sair do lugar. E, muitas vezes, não saber o que fazer para ter mais espaço para cantar.

18-) RM – Nos apresente a cena musical na cidade que você mora?

FC – Aqui em Campina Grande a cena musical anda é muito pobre. Embora, tenham surgidos alguns nomes. Sinto falta da efervescência de alguns anos atrás. Sinto falta dos festivais e do incentivo à música. Quase não há incentivo na nossa área por aqui.

19-) RM – Quais os músicos ou/e bandas que você recomenda ouvir?

FC – Adoro o Tom Jobim, mas também gosto de Kid Abelha, Cordel do Fogo Encantado que, infelizmente, acabou. Gostava do Chico Science.

20-) RM – Você acredita que sua música vai tocar nas rádios sem o jabá?

FC – Acho que não. Toca por aqui, às vezes. Ela é tocada na Jazz&Bossa, uma rádio de Porto Rico. Lá não pago nadinha. Este é o link da rádio: http://www.krykey.com/Radio/PRSPage.aspx?id=509

21-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

FC – Uma pessoa que queira de destinar à música tem que ter muita paciência, determinação e estudo. O resto vem com a experiência.

22-) RM – Quais os seus projetos futuros?

FC – Lançar meu terceiro livro de poemas CARTAS DE PENÉLOPE e lançar meu cd, gravado há seis anos, porém com uma nova cara.

23-) RM – Quais os contatos?

FC – fideliacassandra02@hotmail.com / http://clubecaiubi.ning.com/profile/FideliaCassandra

Link vídeos:

Modinha Fora de Moda: Fidelia Cassandra; Adília Uchôa e Lara Sales.

http://www.youtube.com/watch?v=T2IZqK_RodY

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