Tavito

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O cantor e mineiro Tavito (Luís Otávio de Melo Carvalho) começou a sua trajetória profissional no princípio da década de 70 na banda “Som Imaginário” (, Robertinho Silva, Wagner Tiso, Luís Alves, Naná Vasconcellos e Fredera).

A banda “Som Imaginário” criada primeiramente para acompanhar o cantor e compositor Milton Nascimento no show “Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário”. O grupo passou por várias mudanças de formação e lançou três discos. O disco – “Matança do Porco”, contou com os vocais de Milton.

Tavito se tornou nacionalmente conhecido pelos seus dois grandes sucessos: “Rua Ramalhete” (com Ney Azambuja) e “Casa no Campo” (com Zé Rodrix). Ele ganhou seu primeiro violão aos 13 anos de idade. Autodidata, começou a participar de serenatas e festas. Foi companheiro de geração de Milton Nascimento e de outros músicos mineiros, tais como Toninho Horta, Tavinho Moura e Nelson Ângelo. Em 1965 conheceu Vinícius de Morais, que apreciou seu estilo e o convidou a participar de suas apresentações na capital mineira. Tavito produziu discos de: Marcos Valle, Renato Teixeira, Selma Reis, Sá & Guarabyra. Ele ficou sem realizar espetáculos entre 1992 e 2004, época em que se dedicou às composições, aos arranjos e à publicidade. Em 2009 lançou o CD – Tudo.

Há um bom tempo ele não vê com bons olhos o mercado e a carreira de músico como algo promissor. Tudo isso por conta da banalização da arte musical. “Eu próprio não vivo de , e sim de publicidade. Com o lançamento de meu novo CD, é provável que isso mude. Mas nada é garantido”.

Segue abaixo a entrevista exclusiva com o Tavito para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 04.10.2009:

01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e a sua cidade natal?

Tavito: Nasci no dia 26 de Janeiro de 1948, em Belo Horizonte – MG.

02) RM: Fale do seu primeiro contato com a música.

Tavito: A música sempre fez parte da minha cabeça. Tenho uma rádio sintonizada todo o tempo, tocando nos meus miolos. Tenho lembranças musicais que remontam aos meus dois anos de idade.

03) RM: Qual a sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica) ou outra formação?

Tavito: Na realidade, nenhuma eficaz. Estudei um ano de Violão Clássico com o genial mineiro Zé Martins. Mas minha formação é prática, quase que inteiramente. Fiz a UMA – Universidade Mineira de Arte – até o segundo ano. Meu curso era Desenho Industrial. Tranquei-o, óbvio.

04) RM: Quais as suas influências musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Tavito: Tive as minhas primeiras informações válidas muito cedo, com a boa música clássica, que meu pai colecionava e ouvia diariamente; paralelamente, fui do céu ao inferno, ouvi muito Ivon Curi, Lana Bittencourt, Monsueto, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Almira Castilho, Marinês e sua gente, Dorival Caymmi, Adelaide Chiozzo, Emilinha Borba, Marlene, um rabicho de Carmem Miranda e tantos outros que não dá pra relacionar aqui. No internacional, ouvi muito Cole Porter, Frank Sinatra, Pat Boone, Paul Anka, Neil Sedaka, Tommy Sands, Rick Nelson, Bob Nelson e os rockers Little Richards, Elvis, Chuck Barry, Fats Domino, The Ventures.

Aí dois momentos piraram-me o cabeção, a saber: “Chega de Saudade”, o genial disco de João Gilberto, que me apresentava a Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Carlinhos Lyra e a Bossa Nova irresistível. Mais tarde, uma sessão de cinema que trazia, no jornal da tela, a chegada dos The Beatles a Nova York. Saí do cinema e comprei imediatamente o compacto “I want to hold your hand” e “She loves you”, pra nunca mais parar de ouvir. Esses são os fatos que modificaram o meu jeito de ouvir música. Mais tarde, conheci Milton Nascimento, que se tornaria uma terceira referência de muito significado. Não tenho preconceito contra nada, escuto de tudo, me interesso por todos os tipos de canção, sou fã de Guilherme Arantes, Flavinho Venturini, Lô Borges, Beto Guedes, Tavinho Moura e um magote de contemporâneos de boa cepa, Toninho Horta, Nelson Ângelo, Ivan Lins, João Bosco & Aldir Blanc, Maurício Maestro, Zé Renato, Eduardo Souto Neto, Marcos Valle. Trabalhei e convivi com a maioria de meus ídolos, e isso também gerou uma série de influências positivas em meu modo de ser e de pensar.

05) RM: Quando, como e onde você começou a sua carreira musical?

Tavito: O poeta Vinícius de Moraes, no auge do com seus afros-sambas com Baden Powell. Ele foi fazer um show em Belo Horizonte e hospedou-se na casa de um amigo, aonde o conheci. Como o Baden Powell tinha uma série de impontualidades no currículo (o gajo se pelava de medo de avião), Vinícius, para se garantir, ensaiou o show comigo, que sabia todas as canções de cor, tiradas acorde a acorde, dos discos do próprio Baden, meu ídolo violonístico. Bom, Baden não apareceu – e eu fiz o show. Depois me transformei no acompanhante oficial do Vinícius em Belo Horizonte, cheguei a fazer uns cinco ou seis espetáculos com ele. Começou assim. Mais tarde, ele me convenceria a me mudar para o Rio de Janeiro.

06) RM: Quantos CDs lançados com banda e solo? Qual o perfil musical de cada CD? E quais as músicas que se destacaram?

Tavito: Com o “Som Imaginário”, foram três discos: Som Imaginário (1970) . Som Imaginário (Nova Estrela) (1971). Matança do Porco (1973). E solos foram quatro: Tavito (1980) pela CBS. Tavito 2 (1982) pela CBS. Tavito 3 (1983) pela CBS. Simpatia/Água e luz (1984) pela CBS (Compacto simples). Tavito – Tudo (2009) o novíssimo que está nas lojas há um mês e ainda não foi lançado oficialmente. Não saberia declinar sobre o perfil de cada um. Meu trabalho toma a verdade como princípio, não saberia compor e gravar canções que não retratassem fielmente a minha personalidade. Meus discos são parecidos, como irmãos. Minhas canções mais famosas são: “Casa no Campo” (com Zé Rodrix); “Rua Ramalhete”; “Começo, Meio e Fim”; “Aquele Beijo” (com Ney Azambuja); “Naquele tempo” (com M. Rocha / Renato Correa); “Água e Luz” (com Ricardo Magno) e mais o tema de futebol da Rede Globo, “Coração Verde-Amarelo” (com Aldir Blanc). E outras que me fogem agora; e dezenas, centenas de jingle que ficaram no imaginário popular.

07) RM: Como você define o seu estilo musical?

Tavito: Não tenho um estilo definido. Faço de Rock a Bolero, passando pelo Samba, Calipso ou Maracatu. Agora, o que gravo em meus discos pode-se chamar de um Pop-brasuca-sem-pretensões-de-modificar-o-que-quer-que-seja…

08) RM: Como é o seu processo de compor?

Tavito: Como todo mundo, faço a música que recebo de meus anjos-compositores. Quando eles não vêm, trabalho sem escalas.

09) RM: Quais são seus principais parceiros musicais?

Tavito: Zé Rodrix, Ney Azambuja, Ricardo Magno, M. Rocha, Renato Correa e Aldir Blanc.

10) RM: Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical dentro de uma gravadora e de forma independente?

Tavito: Desenvolver qualquer tipo de carreira musical hoje em dia é FRIA (uma furada). Procurem outra coisa, meninos, pois só quem consegue ganhar dinheiro com música no Brasil são os que já têm dinheiro guardado no colchão ou nome pré-construído por feitos anteriores, seus ou de seus ascendentes. A Internet banalizou tudo e equalizou o que presta com o que não vale nada. A atenção das pessoas está tão dividida que só se consegue consumir muito superficialmente qualquer manifestação artística. O CD, nosso antigo produto, perdeu-se no processo. E tem muita gente que acha um absurdo pagar por direitos autorais, o que era constitucionalmente nossa única segurança. Não sei exatamente onde as coisas vão parar, mas sei que dificilmente será em bom lugar. O negócio hoje é fazer muitos shows, para garantir o rango na mesa. Eu próprio não vivo de música, e sim de publicidade. Com o lançamento de meu novo CD – TUDO, é provável que isso mude. Mas nada é garantido.

11) RM: Você lança um novo CD com o entusiasmo das primeiras crias? O que muda lançar um CD depois de anos de estrada musical?

Tavito: Sou um eterno entusiasmado com o processo de criação. A distância de discos passados traz vantagens, mas os mais velhos também são mais impacientes com besteiras de ocasião, que são muito presentes em processos criativos.

12) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro? Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Tavito: O cenário musical brasileiro é o retrato da confusão que se estabeleceu com o advento das novas mídias. A banalização da emoção e a enxurrada de novos desinformados que invadiu o mercado. Há incontáveis candidatos ao sucesso, e outros tantos chegam lá tão rapidamente que amanhã de manhã já lhes esquecemos o nome. Os grandes organismos de comunicação ignoram solenemente grande parte dos aspirantes à fama. Não poderia ser de outro modo, são milhões que se renovam diariamente como gafanhotos. E escolhem a esmo (ou não) alguns eleitos que não sabem bem o que fazer para não ser cruelmente descartados, em poucas semanas. Muito raramente se detecta algo com alguma consistência nesse processo. No geral, a música está vivendo um período de irrelevância total. É o que o meu compadre Zé Rodrix dizia, com toda propriedade: “estamos vivendo o tempo da música em vão. Não se consegue interesse do ouvinte de hoje com o que está aí”. É evidente que, em meio a isso tudo, há destaques de talento legítimo, que podem variar do sertanejo à MPB, passando pelo axé e pelo rock. Mas esses mesmos ainda correm riscos sérios nas mãos do novo ouvinte. Essa nova classe de escutadores que não se detêm nem para ouvir um CD inteiro, tal a ansiedade. Mas não se enganem: gosto muito de muita coisa nova. Escutem o grupo Cinco a Seco. Escutem Barbara Rodrix. Escutem Sonekka. Escutem o Grupo Tarumã. Escutem Julia Ribas. Procurem por personalidade e verdade, que encontrarão material à farta. Se esses caras farão sucesso? Não sei – e ninguém sabe.

13) RM: Quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Tavito: Os que estão aí oriundos de outros tempos só o conseguiram por terem talento indiscutível e serem profissionais completos. A “Era Tim Maia” passou.

14) RM: Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical (falta de condição técnica para sghow, brigas, gafes, show em ambiente ou público tosco, cantar e não receber, ser cantado e etc)?

Tavito: Pretendo escrever um livro sobre esse tópico em especial. São tantas situações esquerdas pelas quais um músico com o meu tempo de estrada já passou no decorrer da vida, que não cabem nesse exíguo espaço.

15) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Tavito: Feliz: ouvir minha canção ser cantada pelas plateias. Triste: a falta de chances de mostrar um bom trabalho.

16) RM: Você acredita que sem o pagamento do jabá as suas músicas tocarão nas rádios?

Tavito: Sinceramente, não sei; é uma questão difícil, mas não impossível.

17) RM: Para você o sonho da sua geração a acabou, não acabou, se perdeu ou se transmutou?

Tavito: O sonho não morre jamais, quando ele é forte o suficiente para desafiar as teias de aranha do estabelecido. O sonho de minha geração é o sonho dos homens de bem, que dão valor à verdade, à paz, ao amor sem medidas. Sonhos como esse fazem parte da história da humanidade, e martelarão as consciências até que se desutopizem e se tornem valor real.

18) RM: O que ainda lhe dá orgulho na sua geração e o que lhe envergonha?

Tavito: Não tenho vergonha de coisa alguma. Minha geração é culturalmente privilegiada, e que soube distribuir esse privilégio no muito que realizou. A maior herança de minha geração é o pensamento. As drogas que tomamos tinham uma conotação completamente diferente da de hoje, quando se mantém com a droga uma relação marginal e castradora da mente criativa.

19) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Tavito: Vá fazer outra coisa, meu jovem.

 

20) RM: Fale da sua relação pessoal e profissional com Zé Rodrix e a importância da obra e do artista Rodrix para cultura musical brasileira?

Tavito: O Zé Rodrix foi um irmão que perdi. Um amigo de vida inteira que deixou um legado inestimável em pensamentos e obras. Sua coerência faz muita falta em meus momentos de dúvida. O Brasil perdeu uma referência importantíssima.

21) RM – Quais os projetos futuros?

Tavito: Continuar vivendo e produzindo, com saúde e alegria, sempre.

Contato: http://tudotavito.blogspot.com.br/

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Antonio Carlos Da Fonseca Barbosa

Criador e Editor Responsável pela revista Ritmo Melodia desde 2001, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa, sempre se preocupou em divulgar a música (popular, regional, instrumental e erudita) com entrevistas e artigos sobre os músicos e artistas brasileiros.