Fábio Cadore

O cantor, compositor e violonista paulistano Fábio Cadore no seu primeiro CD – Lúdico Navegante mostrou ao público seus dotes musicais e criativos através de sua bela voz, suas 12 canções lindas (apenas duas em parceria), seu violonista sofisticado e sua criatividade como arranjador. Um músico completo.

Sua história musical começou aos seis anos, quando aprendeu a tocar violão sozinho. Desde então não parou mais. Antes de se dedicar totalmente à música popular e se especializar em canto e composição, estudou violão erudito durante anos, o que talhou sua técnica apurada e a sonoridade que faz soar de seu instrumento. Aos 13 anos, ingressa no Centro de Estudos Musicais Tom Jobim para cursar música erudita. Começa, então, a se destacar como violonista em recitais solo. Participa de um quinteto de violões e também da orquestra “Bella Camerata”, se apresentando em espaços como Teatro Credicard Hall, Sala São Paulo e Memorial da América Latina. Aos 17 anos, abandona o conservatório musical e se afasta da prática erudita, se dedicando exclusivamente à música popular brasileira. Assim, ingressa na Faculdade de Música Carlos Gomes para especialização em canto popular.

Paralelamente, dá continuidade aos estudos do violão e também laboratórios de composição com Eduardo Gudin e Toninho Horta. Em 2006, após tornar-se graduado em Música, participa de um curso voltado à trilha sonora de cinema na UNICAMP. E começa a divulgar o seu trabalho autoral nos conceituados bares paulistanos e se apresentou no auditório do SESC Vila Mariana, em São Paulo.

Cadore faz a ponte entre o erudito e o popular com sutileza e sensibilidade. Por conhecer bem o universo da música instrumental brasileira masterizou seu CD ao lado de André Geraissati, um dos músicos que mais se preocupam com a técnica e a linguagem musical do violão. Esse trabalho de estréia conta com as participações especiais do cantor e compositor Filó Machado e da cantora Karina Ninni. O ano de 2007 foi marcado pelas gravações do CD tendo como companheiros o pianista Fabio Torres, integrantes do naipe de metais da Soundscape Big Band e Banda Urbana, um naipe de cordas liderado por Ricardo Takahashi. Lançado em Abril de 2008, o álbum chamou a atenção da crítica especializada por suas “boas melodias e letras que trazem cenas cotidianas, tocando em política e sociedade”, segundo o jornalista Beto Feitosa. Já o jornalista André Domingues ressalta o “requinte melódico e harmônico, tributário direto da valorosa estirpe de Djavan, João Bosco, Edu Lobo e outros cultores de linhas sinuosas e imprevisíveis”. O CD é um lançamento independente, que está sendo distribuído para todo o Brasil pela Tratore. O CD está tendo boa vendagem no Japão.

Segue abaixo entrevista exclusiva de Fábio Cadore para a em 05/07/2009:

1-) Ritmo Melodia – Qual sua data de nascimento e sua cidade natal?

Fábio Cadore – Nasci em 01/10/1983 em São Paulo.

2-) RM – Fale do seu primeiro contato com a música?

Fábio Cadore – Foi de uma forma bem inusitada. Um pouco antes de completar seis anos de idade, pedi ao meu pai um violão de presente. Hoje, não consigo me lembrar o porquê de ter pedido o violão, pois minha família sempre gostou de música, mas apenas como ouvintes. Ninguém tocava instrumento algum. Parecia-me apenas capricho de criança, vontade de ganhar um novo brinquedo. Tanto que a primeira pessoa a realmente se interessar pelo violão foi meu irmão, um mês após eu tê-lo ganhado e já o esquecido em um canto do quarto. Bastou eu ouvir os primeiros acordes que meu irmão havia aprendido para surgir à paixão pelo instrumento.

3-) RM – Qual sua formação musical e\ou acadêmica (Teórica)?

Fábio Cadore – Eu permaneci totalmente autodidata desde o primeiro contato com o instrumento até meus 13 anos de idade, quando ingressei na ULM – Universidade Livre de Música Tom Jobim (hoje também chamada “Centro de Estudos Musicais Tom Jobim). Por lá, mergulhei num mundo totalmente diferente, a música dita clássica, ou erudita. Digo “mergulhei” porque realmente “entrei de cabeça” nos estudos clássicos. Estudava para ser concertista e participava de uma orquestra dirigida pela própria ULM. Além de grupos menores de câmara e também apresentações solo. Foi uma paixão alucinante que me fazia estudar cerca de 8 a 10 horas por dia, mas aquilo era pura diversão. Aliás, “diversão” sempre cerceou todos os meus estudos musicais, pois a partir do momento em que eu não me divertia aquilo passava a não fazer mais sentido para mim.

Após cinco anos no conservatório, ingressei na Faculdade de Música Carlos Gomes com especialização em canto popular. Graduei-me em canto, mas sempre mantive os estudos no violão, além de oficinas de composição com Eduardo Gudin e Toninho Horta. Após tudo isso, ainda assisti matérias isoladas do programa de mestrado da Unicamp, especificamente “trilha sonora pra cinema”, mas logo tive de anestesiar minha ambição de me tornar mestre por conta da carreira artística.

4-) RM – Quais suas influencias musicais no passado e no presente. Quais deixaram de ter importância?

Fábio Cadore – Ao contrário da grande maioria dos compositores da MPB, que desde criança ouviam Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, minhas primeiras referencias musicais vieram do rock, ou tudo o que se tocava em rádio nos anos 80 e começo dos anos 90. Aos 12 anos tive meu primeiro contato com a Bossa Nova, através de um show do João Gilberto passado na TV. Gravei esse show em VHS e não descansei enquanto não aprendi todas aquelas lindas letras, melodias e acordes. A partir disso passei a ouvir tudo o possível sobre música brasileira. Hoje, continuo ouvindo música brasileira, mas o Jazz chegou até mim de forma avassaladora, ou seja, já se tornou minha principal influencia musical. O rock não deixou de ter importância, apenas foi amenizado no meu dia-a-dia. Recentemente a música latina, principalmente a argentina, também me tem chamado bastante a atenção.

5-) RM – Quando, como e onde você começou sua carreira profissional?

Fábio Cadore – Considero minha carreira artística iniciada no dia 23 de abril de 2008, por conta do lançamento do meu primeiro disco. Mas profissionalmente já tenho experiência desde os 14 anos de idade, nas apresentações com orquestra, música de câmara, etc. Na música popular minha experiência começou aos 19 anos, tocando em bares e eventos, sempre aqui em São Paulo.

6-) RM – Fale do seu primeiro CD (músicos que participaram nas gravações)? Qual o perfil musical do CD? E quais as músicas que estão entrando no gosto do seu público?

Fábio Cadore – Eu sempre pensava na sigla MPB como uma coisa estranha por significar o óbvio (música popular brasileira). E, ao mesmo tempo, parecer preconceituoso com os outros gêneros musicais também brasileiros. Hoje, pensando novamente sobre a sigla, penso que não haveria melhor jeito de denominar a música que faço = música popular brasileira. Livre de conceitos, estilos. Não gosto disso! Sou influenciado por tudo o que escuto, consequentemente essa é a música que crio.

Gravar o CD – “Lúdico Navegante” foi uma experiência maravilhosa. Principalmente por ter elaborado e produzido o disco, claro, com a ajuda de amigos talentosíssimos como Ivan de Andrade, Bruno Migotto e Adonias Júnior. Tive o privilégio de contar com um time de músicos de primeiríssima qualidade, seja pela “cozinha” (Rafael Heiss – bateria, Bruno Migotto – baixo), como também pela incrível e fundamental participação do músico Fabio Torres, tocando os pianos e Rhodes do CD. Nos metais contei com o que há de melhor em São Paulo (Josué dos Santos – sax e flauta, Cássio Ferreira – sax alto, Rubinho Antunes – trompete, Emerson Will – trombone). Nas cordas (Ricardo Takahashi e Marcos Scheffel – violinos, Alexandre de Leon – viola, Gustavo Lessa – cello), além do guitarrista Leandro Pelegrino, o percussionista Cleber Campos e as participações especiais da cantora Karina Ninni e do mestre e padrinho musical Filó Machado. As músicas do disco que mais obtive resposta positiva perante o público foram: Lírios e veredas, Ato Falho, Bandido e Noturno. Fico feliz, pois são músicas que sintetizam bem todo o projeto.

7-) RM – Como você define seu estilo musical?

Fábio Cadore – Acabei respondendo isso na pergunta anterior… Hoje, vejo a sigla MPB como uma boa forma de definir o que faço: um compositor brasileiro fazendo música brasileira, redundante assim (risos).

😎 RM – Como é seu processo de compor?

Fábio Cadore – Não tenho horário pra compor, nem nada parecido. Tudo o que vira rotina, quanto à criação, pra mim não funciona. No geral, em épocas que estou mais boêmio, meu lado criativo se aguça, mas isso nada tem a ver com bebida e sim com o costume de ir dormir bem tarde. Costumo resolver primeiro a música e depois crio a letra, mas isso pode varias. Tem variado ultimamente por conta de algumas letras que chegam até mim para serem musicadas. No geral, se eu começo escrevendo uma letra, aquilo se torna poema e não gosto de musicá-lo.

9-) RM – Quais são seus principais parceiros?

Fábio Cadore – Meu primeiro disco praticamente não tem parcerias, apenas “Lírios e veredas” cuja letra é do meu irmão Alexandre Cadore e a música “Pode crer, xará” cuja letra é de um grande amigo e talentoso compositor paraense chamado Leandro Dias. Recentemente passei a receber com mais entusiasmo o costume de compor em parceria, e disso surgiram grandes amigos como Leo Minax, Vinicius Calderoni, Léo Versolato e Luiz Murá.

10-) RM – Quais os prós e contras de desenvolver uma carreira musical de forma independente?

Fábio Cadore – Positivamente, eu diria o que a expressão sugere e deixa claro: ser independente. O Contra, eu resumiria na falta de apoio midiático.

11-) RM – Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?

Fábio Cadore – É difícil fazer um panorama de tudo aquilo o que conheço, quiçá do cenário musical brasileiro (risos). Que me lembre agora, Lenine, Zeca Baleiro, Chico César, Chico Pinheiro, colheram ótimos frutos durante essa última década. Dou um destaque especial para o Lenine, que a partir de uma linguagem totalmente particular, se tornou um dos artistas brasileiros mais reverenciados. Acredito que a singularidade dele, pode-se comparar com a do Djavan no decorrer da carreira. Artistas que regrediram? Até penso em alguns, mas prefiro ficar em cima do muro nessa (risos).

12-) RM – Qual ou quais os músicos já conhecidos do público que você tem como exemplo de profissionalismo e qualidade artística?

Fábio Cadore – Um cara que admiro bastante, justamente pelo conjunto qualidade e profissionalismo, é o pianista César Camargo Mariano. Ele sabe conduzir muito bem um trabalho, seja como arranjador, como produtor, no toque ao piano. Tomando os cuidados necessários para que um determinado projeto obtenha os melhores resultados. Espelho-me nele tanto no meu trabalho solo, como também nos trabalhos que atuo como produtor ou arranjador.

13-) RM – Quais as situações mais inusitadas aconteceram na sua carreira musical?

Fábio Cadore – Ah, já passei por diversas coisas engraçadas, mas o que sempre me lembro foi em um evento que estava fazendo com uma cantora. Éramos quatro no palco e próximo a um dos canhões de luz estava uma garrafa de água. Eu estava lá, tocando, bem tranqüilo. De repente o baixista para de tocar, olho para o meu lado esquerdo: cadê o baixista? Só dava para avistar uma fumaça branca que aumentava e aumentava. Parecia efeito de gelo seco, mas sabíamos que não tinha isso ali. Foi o suficiente para eu ter uma crise de riso como nunca havia acontecido (risos). Mesmo assim não paramos a música, a cantora seguiu e o baixista voltou a tocar assim que conseguiu enxergar a partitura (risos). Mas depois seguimos o show numa boa e vimos que a garrafa de água havia caído em cima do canhão de luz e isso provocou um curto-circuito.

14-) RM – O que lhe deixa mais feliz e mais triste na carreira musical?

Fábio Cadore – Particularmente não enxergo a vida ou minha carreira dessa forma, apenas dizendo o que me deixa triste ou feliz. Dificuldades no meio musical? Existem várias. Mas na mesma proporção que qualquer outra profissão. Talvez uma coisa que me incomode é o fato de ainda existirem pessoas que não entendem música como uma profissão. Pelo fato de envolver paixão, prazer, não estaríamos trabalhando? Então ter uma profissão significa voltar para casa; todo dia estressado e, aí sim, ter a sensação de dever cumprido? Moralismo hipócrita.

15-) RM – Nos apresente a cena musical de São Paulo?

Fábio Cadore – Falando em MPB, existem vários novos cantores-compositores surgindo em São Paulo, todos na faixa dos 20 a 25 anos de idade fazendo música madura e consistente. Destaco: Tó Brandileone, Vinicius Calderoni, Dani Black, Pedro Altério e Pedro Viáfora. Também têm surgido várias cantoras com bom espaço na mídia. Destaco: Giana Viscardi, Mariana Aydar, Bruna Caran, Ana Cañas e Céu. São Paulo é uma cidade cosmopolita e sua música caminha da mesma forma. É possível encontrar todo o tipo de manifestação musical por aqui, e também é comum encontrar compositores que se influenciam de tudo isso na hora de criar.

16-) RM – Você acredita que a sua música vai tocar nas rádios sem pagar o jabá?

Fábio Cadore – Em algumas rádios segmentadas já é possível ouvir minhas músicas, como a Rádio Cultura ou USP FM. Fora da capital e mesmo em outros estados acontece o mesmo. Claro que poder tocar numa grande rádio em São Paulo faria muita diferença na divulgação do meu trabalho, mas nesses casos acho que o jabá ainda impera. Hoje há muitas formas de divulgar sua música e a internet nos abriu diversas possibilidades. Basta ficarmos atentos.

17-) RM – O que você diz para alguém que quer trilhar uma carreira musical?

Fábio Cadore – Basicamente você precisa fazer aquilo que sente prazer e felicidade. Não adianta começar uma carreira musical por imposição alheia ou apenas com o objetivo de se tornar uma celebridade. Se começar assim, já é caso perdido. Ou no máximo, com muita sorte, dura pouco. Talento não é questão a ser levantada, porque se supõe que uma pessoa que ama música, doa-se integralmente a ela, tem facilidade para aprender ou desenvolver suas habilidades. Instruir-se também é fundamental. Digo em tudo o que envolva música. Desde a teoria até o mercado de trabalho. Reunindo isso e a vontade de mostrar ao mundo aquilo que você considera arte, os resultados chegarão. Não tenha dúvidas. Persistência e paciência!

18-) RM – Quais os projetos futuros?

Fábio Cadore – Tenho vários projetos em andamento. Alguns deles estão se concluindo ainda esse ano, como minha parceria com o pianista e compositor coreano Jung Bum Kim, que acaba de lançar seu disco solo simultaneamente nos EUA e Coréia. O qual eu participei compondo e cantando quatro músicas. Também estive envolvido no projeto do compositor espanhol Kepa Junquera, cantando canções na língua Basca. Projeto esse que reuniu artistas de várias partes do mundo e o qual tive o privilégio de participar ao lado de Ivan Lins, Vander Lee, Barbatuques e Fabiana Cozza.

Durante todo o ano de 2009 ainda faço shows do meu primeiro disco “Lúdico Navegante”, focando também no mercado latino. Tive uma pequena temporada de shows na Argentina, em março/2009. No segundo semestre, mais precisamente em setembro/2009, volto à Argentina para uma série de shows com apoio da embaixada brasileira e também faço dois shows no Uruguai. Mesmo excursionando com o “Lúdico Navegante”, tenho testado músicas novas nos shows. O resultado será o próximo disco, que espero gravar no primeiro semestre do ano que vem. Antes disso ainda pretendo fazer algum projeto que envolva artistas que eu admiro, mas não quero antecipar nada, pois são apenas idéias, por enquanto.

– Contato:

produção@fabiocadore.com.br / www.fabiocadore.com.br / www.myspace.com/fabiocadore / www.youtube.com.br/fabiocadore

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