Edvaldo Santana

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O Cantor e compositor paulistano Edvaldo Santana nasceu e se criou no bairro São Miguel Paulista, periferia de São Paulo. Foi o primeiro de oito filhos do piauiense Félix e da pernambucana Judite, nordestinos que vieram tentar a sorte na cidade grande. Os primeiros acordes foram dados no velho violão do pai no final da década de 60, com influências que vão de Manezinho Araújo e Jackson do Pandeiro à Torquato Neto, Hendrix e toda contra – cultura que entra em cena nesse período.

Edvaldo participou de vários festivais estudantis e cria seu primeiro grupo, o Caaxió. E nessa época seu primeiro emprego foi em uma fábrica de brinquedos, deixando os finais de semana para os ensaios com a banda, mas sempre objetivando a profissionalização como músico. Em 1974 no teatro de Arena, o Caaxió apresenta o show “Casca de vento” com Edvaldo como cantor e compositor. Os amigos Fernando Teles, Luciano Bongo e Zé Bores completavam o grupo. Numa época onde a censura era comum, o show teve dez músicas cortadas do seu repertório. Em meio a batalha pela sobrevivência do grupo eles conseguem um contrato com a gravadora Top-Tap que impõe a condição de substituírem o nome do grupo que passa a chamar-se Matéria Prima. Infelizmente o contrato com a Top-Tap é cancelado logo em seguida, mas o nome do grupo já modificado se mantém. Um ano antes da gravação do primeiro disco do Matéria Prima, Edvaldo conhece Tom Zé que os convida para acompanhá-lo em alguns shows. O músico destaca esta fase de convivência com Tom Zé como muito importante para sua formação. O primeiro disco sai pela Chantecler com a “Maria Gasolina” sendo muito executada nas rádios. O grupo consegue espaço na mídia graças ao sucesso e apresenta-se em programas de grande audiência como Silvio Santos, Flávio Cavalcante e Fantástico. Edvaldo também participa como cantor e compositor do programa de Ronald Golias na TV Record, produzido por Arnaud Rodrigues. Em 78 sai o segundo disco do Matéria Prima pela gravadora CBS, e a música tocada nas rádios agora é a “Entranhas do Horizonte”.

No final dos anos 70 acontece o ressurgimento dos movimentos populares e sindicais em todo país, com destaque às greves do ABC, antecedendo e sinalizando a abertura política e o fim da ditadura militar. Edvaldo, seu grupo e outros amigos músicos, poetas e artistas plásticos de São Miguel Paulista, atentos aos acontecimentos, resolvem se mobilizar e criam o Movimento Popular de Arte (MPA) promovendo eventos com música, teatro, poesia e oficinas de cultura. Foi um movimento espontâneo e pioneiro que serviu como orientação para muitos outros projetos de casas de cultura em São Paulo. Severino do Ramo, Pedro Peres, Osnofa, Sacha Arcanjo, Akira Yamasaki são alguns dos nomes de grande importância no movimento. Nesse período o grupo Matéria Prima participa de um evento em comemoração pela visita do Papa João Paulo II ao Brasil tocando para 100 mil pessoas no Morumbi.
No ano de 1985 o MPA, já reconhecido no meio artístico pelo trabalho que vinha desenvolvendo, grava uma coletânea com músicos locais no estúdio da Eldorado. São mais de cinco anos de existência e o movimento começa a apresentar um certo desgaste, conflitos por interferências políticas partidárias marcam o fim do MPA.Com o fim do MPA em 86, Edvaldo Santana parte então para sua carreira solo, vai para o Rio de Janeiro e se instala no Morro de Santa Tereza onde vive entre o bate bola com a rapaziada, suas composições e shows com o parceiro Paulo Aueira. É uma fase de amadurecimento na carreira do músico. Atento à riqueza cultural do Rio, freqüenta de festas do morro e gafieiras às apresentações da Jazz Sinfônica. Circula pelo posto 9, ponto de encontro de personagens como Luís Melodia, Cazuza e Ferreira Gullar. “Sabonete” gravado no disco Lobo Solitário é dessa época.
Estamos em 89 e Edvaldo Santana está voltando para São Paulo, pois mesmo morando dois anos no Rio era na Paulicéia que viviam seus parceiros. Se instala na Avenida Rebouças dividindo um apartamento com a amiga Soninha. Conhece o poeta curitibano Paulo Leminski através do amigo e parceiro, também poeta, Ademir Assunção. Estas parcerias, além das vividas com Tom Zé, Haroldo de Campos e Arnaldo Antunes marcam sua carreira. Consegue um pré-contrato para gravar um disco com a Warner que é cancelado com a vinda do Plano Collor.

Desde 80, época em que o Matéria Prima participava de festivais universitários, Edvaldo mantém um relacionamento com a futura esposa Sueli, que é de Botucatu. Dessa relação nasce em 91 sua filha Carolina, e com ela o poema “Cara Carol” que viria a ser gravado no segundo disco solo. Algumas complicações no estado de saúde de Carolina (uma pneumonia) levam Edvaldo a fazer uma promessa à Cosme e Damião que cumpre com fé até hoje. Em agosto de 92, Sueli e Carolina vem de Botucatu para morarem juntos em São Paulo. O “Lobo Solitário” está em seu repertório de shows desde 89 mas só vem a ser gravado em 93 pelo selo Cameratti. Nesse disco ele conta com Bosco Fonseca, Luís Waack, Marcelo Farias, Daniel Szafran e participação especial de Bocato, Paulo Le Petit e André Magalhães com produção do próprio Edvaldo Santana e do Claudio Lucci, que é do time da Cameratti. O disco é um sucesso de crítica. O Tom Waits da Paulicéia com seu calo na garganta mistura funk, blues e samba. O lançamento é no Sesc Pompéia logo seguindo para outras casas de São Paulo e outras cidades. Infelizmente o selo Cameratti é limitado na distribuição e na divulgação, e o disco tem dificuldade em chegar ao grande público. O mercado da música é monopólio das grandes gravadoras e as rádios estão vinculadas a esse esquema.

O segundo disco “Tá assustado?” vem em 95, agora pela gravadora Velas, com a participação de Duofel e Arnaldo Antunes. Grava o clip da faixa “Caximbo” no centro da cidade de São Paulo que é trabalhado junto á MTV Brasil. Show’s do “Tá assustado?” percorrem o Brasil junto com algumas apresentações em festivais de blues, um público já conquistado pelo músico. É citado no livro “Da lama à fama”, de Roberto Muggiatti, sobre a história do blues, onde o autor tece alguns comentários a respeito do trabalho de Edvaldo Santana. Ainda existe uma grande dificuldade em relação à divulgação do trabalho, mas graças ao prestígio pessoal do músico, que não depende de gravadora, ele consegue um bom espaço na imprensa escrita e participa de alguns programas de TV como o “Ensaio” da Cultura. O terceiro CD “Edvaldo Santana” lançado em 2000 com distribuição da Eldorado tem a participação de Osvaldinho do Acordeon, Fernando Deluque, Titane e Bocato. Algumas músicas foram executadas pelas rádios Cultura e Eldorado, além de rádios universitárias e comunitárias. No repertório, “Samba de Trem’ abre o cd com Edvaldo fazendo suas alquimias – nesta faixa ele mistura o samba com seu ritmo contagiante aos slides da guitarra do blues. Além disso, há uma parceria inédita com Itamar Assumpção, “Blues Caboclo” e uma gravação antológica de “Dor Elegante” poema de Paulo Leminski. Destacam-se ainda “Sem Cena” e “Zensider” composições com letra de Ademir Assunção. Arnaldo Antunes participa com a letra de “Beija-Flor’ que encerra o álbum. Em seu novo trabalho “Amor de Periferia”, a sonoridade é marcada pela diversidade: tem choro, reggae, samba-choro, blues, salsa, mambo – xote.

A mistura testemunha a formação de Edvaldo Santana, um filho de músico que ouvia samba, choro e cantores populares em reuniões domésticas, enquanto escutava um pouco de tudo fora de casa, de Rolling Stones e Beatles a Roberto Carlos e Altemar Dutra. Por isso, “Amor de Periferia” é um caldeirão sonoro, temperado com letras que, acima de tudo, resgatam outros tempos e outros lugares. É o caso da lírica “Variante”, que recupera um episódio biográfico do músico, uma viagem que fez ao Norte do país quando criança – nessa viagem, um de seus irmãos morreu a bordo de um vapor no rio São Francisco. Faixas como “Amor de Periferia” e “Batelaje” funcionam como crônicas musicais, ao focalizar cenas do cotidiano e falar de gente que encontra nas pequenas alegrias e na solidariedade um antídoto contra as agruras do dia-a-dia na periferia. O disco tem uma série de convidados especiais. O pianista cubano Yaniel Matos participa das músicas “Choro de outono” e “Cantora de cabaré”. A cantora Zélia Duncan divide os vocais com Edvaldo na faixa “Desse fruto”, enquanto “Batelaje” tem a participação do Quinteto Preto e Branco e “Guilhotina” tem na guitarra Nuno Mindelis. E a faixa “O jogador” tem os vocais de um grande admirador do trabalho de Edvaldo Santana: Lenine. Este é Edvaldo Santana. Para quem quer conhecer o que é a música popular inventiva, sofisticada, singular, com o amor pela periferia na alma e na voz.

Segue abaixo entrevista exclusiva com Edvaldo Santana para a www.ritmomelodia.mus.br , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em 03.01.2006:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com a música. Qual a sua cidade de origem e a sua data de nascimento?

Edvaldo Santana: Meus primeiros contatos com a música se deram através dos encontros musicais que meu pai Felix de Santana Braga (piauiense), realizava na casa da Vila Nitro Operário em São Miguel Paulista. Além de cantar e tocar violão meu pai recebia nestas reuniões amigos, como: Gervazio, Valdomiro que apresentavam canções nordestinas baseadas na literatura de cordel, choros, boleros, sambas, baiões. A minha Mãe Judite Alves Braga (pernambucana),costumava cantar  músicas que tocavam no rádio naquela época final dos anos 50 e começo dos anos 60. Sou natural do bairro de São Miguel Paulista periferia de São Paulo capital e nasci no dia 17 de agosto de 1955.

02) RM: Quais foram as suas influências musicais? E quais as influências permanecem no seu trabalho?

Edvaldo Santana:  Tive o privilégio de crescer vendo e ouvindo varias manifestações musicais havia um interesse maior dos meios de comunicação em mostrar a  riqueza e a diversidade da música produzida naquele momento e estas criações nortearam minha trilha artística e estética. No rádio eu ouvia: Roberto Carlos, Altemar Dutra, Beatles, Jorge Benjor, Adoniran Barbosa, (O Charutinho), Luiz Gonzaga, Jacson do Pandeiro, Roling Stones, Maria Bethânia. Na rua a literatura de cordel, a embolada, o samba e  na televisão os festivais que traziam: Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina. Além dos movimentos como “Tropicalismo”, onde descobri: Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mutantes, Torquato Neto. O “Pessoal do Ceará”: Ednardo, Belchior, Cirino, Fagner, Jorge Mello. E sem contar a importância de artistas criativos que não se prendiam a movimentos como: Raul Seixas, Sergio Sampaio, João Bosco, Luis Melodia, Tim Maia. Toda esta manifestação artística vivia em ebulição na minha alma e cabeça. Ainda havia a música que vinha dos festivais internacionais como: Woodstock,Monte Rei, em que apareceram: Jimmi Hendrix,Janis Joplin,Bob Dilan,Carlos Santana. Eu estou citando toda esta diversidade cultural para tentar explicar o quanto este momento influenciou a minha trajetória de criação musical. De uma forma ou de outra elas estão sempre presente nas minhas canções. É claro que com o passar do tempo fui buscando outras fontes que também me ajudaram na formação cultural,me aproximei muito da música negra espalhada pelo mundo:  Blues,Jazz, Reggae,Rumba,RAP. E meu relacionamento com os poetas e músicos de vanguarda: Haroldo de Campos, Paulo Leminski, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé. Minha estada no Rio de Janeiro de 1986 a 1989, em que voei livre ouvindo o samba do: Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal e toda gama de shows que o Rio de Janeiro me proporcionava, pois morava num bairro muito especial: Santa Teresa.Não posso negar a influência direta que sofri dos amigos artistas do Movimento Popular de Arte de  São Miguel: Osnofa, Akira, Eder Vicente, Tiziu, Sacha Arcanjo , Raberuan, Zulu de Arrebatá, Fernando Teles, Ceciro Cordeiro, Severino do Ramo, Cláudio Gomes, Gildo Passos. Portanto as criações artísticas densas continuam influenciando a arte que procuro produzir.

03) RM: Qual a sua formação musical? E quando iniciou a sua carreira musical?

Edvaldo Santana: Minha formação musical é autodidata, aprendi a tocar um pouco de violão quebrando varias cordas dos violões de meu pai e dos vizinhos, vendo os caras que tocavam “Rock and Roll”,”Jovem Guarda” nos bailes. Por minha cabeça não passava a ideia de  me tornar um cantor, desde pré – adolescência que tenho calo nas cordas vocais, o meu apelido era “Pato Rouco”. E nosso vizinho era nada mais e nada menos que o cantor e compositor Antonio Marcos. Um  dos grandes artistas do Brasil, que cantava demais. Profissionalmente comecei a cantar na banda “Matéria Prima” em 1975. E nesta época tive o privilégio de trabalhar com Tom Zé, com quem aprendi  o conceito de que a arte é um diamante que precisa ser lapidado sempre.

04) RM: Qual a influência da vivencia e criação poética na sua atuação como músico?

Edvaldo Santana: A poesia sempre esteve colada com a música na minha vida, desde da poesia de cordel que meu pai trazia para casa. Tinha um primo cujo apelido é “Paixão”, que me apresentou a obra do Jorge Amado, do Baudelaire (Flores do Mal), que não tirava do bolso. A poesia tem ritmo próprio é uma arte sofisticada que aguça a sensibilidade da gente e percebendo esta força fui me aproximando dos poetas contemporâneos e me tornando parceiro de: Arnaldo Antunes, Ademir Assunção, Glauco Mattoso. A busca pelo aprimoramento da obra é constante. O artista não deve  dormir em cima da fama, procuro está com a antena sintonizada na arte para encontrar motivação para continuar criando. A música que faço é irmã gêmea da poesia.

05) RM: Quantos discos lançados? Em que anos e títulos? Defina cada obra?

Edvaldo Santana: Na carreira solo são quatro álbuns – “Lobo Solitário”, de 1993, era um disco para ser  lançado pela Warner, mas estava nascendo na Era do governo Collor de Mello, e aí o Brasil ficou parado. Foi lançado em seguida em  parceria com o selo Camerati, de propriedade de Belchior e Jorge Mello que naquela época era dirigido por Cláudio Lucci. E tem o repertório que estava sendo criado desde de 1986 quando morei no Rio de Janeiro, era uma gestação de quase dez anos.Teve duas músicas incluídas: “Sabonete” e “A Rússia pegou fogo na Sapucaí” na coletânea “Vanguarda da Música Brasileira”, lançadas em banca de revistas pela “Áudio News”, em que participavam: Luiz Tatit, Zé Miguel Wisnik, Eliete Negreiros, Suzana Sales, Tetê Espínola, Paula Morenlembaum. Em “Lobo Solitário”, gravei pela primeira vez: “Metrô Linha 743” de Raul Seixas e o título do álbum é uma parceria minha com Sacha Arcanjo.

O segundo CD – “Tá Assustado?” de 1995, a música “Caximbo”, foi gravada para videoclipe e foi exibida pela MTV, teve as participações especiais do trombonista Bocato, dos violonistas Fernando Melo e Luiz Bueno do “Duofel”, e do Arnaldo Antunes, que gravou esta música no seu novo álbum. Vale lembrar que “Caximbo”, também foi gravada pela cantora Patrícia Amaral. Neste álbum gravei “Cara Carol”, canção que fiz quando do nascimento da minha filha Carolina. E tem a música “O dicionário faliu” em parceria com Tom Zé e com “O deus” em parceria com Paulo LeminskiAdemir Assunção. Teve a música “Cabeça Ocupada”, incluída na coletânea Momento MPB, que tinham como convidados: Chico César, Ivan Lins, Vânia Bastos, Flavio Venturini.

O terceiro “CD – Edvaldo Santana” em 2000, tem as participações da cantora mineira Titane, cantando “Canção Pequena” e participação do guitarrista Fernando Deluqui do  RPM na música “Beija Flor” e do trompetista Cláudio Farias no blues “Sem Cena”. E teve a co-produção de Luiz Waack que está envolvido com meu trabalho há dez anos. Gravei  “Dor elegante”, poema fantástico de Paulo Leminski e também “Blues Caboclo” uma parceria inédita com Itamar Assumpção. Foi filmado em São Miguel Paulista para videoclipe a música “Ruas de São Miguel” e gravei “Samba de trem” parceria com Artenio Fonseca e Mauro Paes, em que canto a linha de trem Variante e suas estações, com uma levada de samba recheado de slides blueseiros.

O CD – “Amor de Periferia” é o mais recente álbum lançado, tem as participações do cantor e compositor Lenine, na música “O jogador”, de Zélia Duncan na canção “Desse Fruto”. E o poema de Akira Yamazaki, que musiquei em parceria Osnofa, no começo dos 80 em plena ebulição do Movimento Popular de Arte (MPA), do guitarrista de blues Nuno Mindelis e do grupo de samba “Quinteto em Branco e Preto” em “Batelaje”, que foi gravada para videoclipe e do pianista cubano Yaniel Mattos em “Cantora de cabaré”, uma salsa que compus com, Fernando Teles, parceiro da fase do “Matéria Prima”. Neste álbum busco mostrar o lado da periferia que considero mais bacana, que é o amor, a alegria e a criatividade de um povo que apesar de excluído deste sistema, dá a volta por cima com suas ideias e manifestações artísticas.

06) RM: Comente sobre o seu show.

Edvaldo Santana: Meus shows são baseados no repertório dos CDS gravados e de músicas inéditas que irão ser gravadas ainda. Estes shows são realizados de três formas: (1) acompanhado da banda de cinco músicos; (2) semi-acústico acompanhado por mais dois músicos e (3) solo em que canto me acompanho com meu Violão. Já tivemos a oportunidade de viajar por algumas capitais e cidades pelo Brasil e interior de São Paulo. Já me apresentei em teatros, praças, ruas, centro culturais, ongs, sescs, casas noturnas, recentemente me apresentei juntamente com Gilberto Gil, Manu Chao, Happin Hood, Marcelo Yuca, Paula Lima entre outros no show de abertura do Fórum Mundial de Cultura realizado no Parque do Ibirapuera.

07) RM: Como você analisa a produção musical dos anos 70 e 80 com o que está sendo feita a partir da década de 90?

Edvaldo Santana: Cada momento de nossa vida tem as suas peculiaridades. A música brasileira nunca deixou de evoluir nestas décadas. Ela passou a ser “guetificada” em detrimento da fobia financeira que tomou conta do mercado. Como nos anos 60 e 70 a produção musical encontrava eco nos meios de comunicação, nós vamos ter maiores referências da criatividade, pois tínhamos a possibilidade de ouvir novas invenções. Nos anos 80 a indústria foi dominada por publicitários, produtores e marqueteiros que não tinha nenhum interesse na criatividade da nossa música e começaram a escondê-la. E sabendo de sua potencialidade, de sua movimentação estética, incentivaram os jovens a produzirem discos descartáveis. Mas por outro lado esta marginalização artística deu brecha para que surgissem outros compositores que mesmo sem ter ao seu lado os meios de difusão de suas obras, perceberam que seria o momento da cena independente entrar em ação. Movimentos como a Vanguarda Paulista, de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, o MPA de São Miguel Paulista dos grupos Matéria Prima, Sacha e Raberuan, o Jaguaribe Carne de João Pessoa, estavam formando público,criando alternativas para produção e difusão de seus trabalhos musicais. As gravadoras estavam perdendo o poder de registro da nossa música e a tecnologia  contribuía para que não fosse necessário que obras com densidade cultural ficasse na gaveta por capricho de qualquer produtorzinho vulgar. Lenine, Mangue Beat, Racionais Mcs, Cássia Eller. Os anos 90 começam a colher os frutos plantados pelos independentes e definitivamente a música popular se liberta das prateleiras e vai para as ruas. A socialização dos equipamentos necessários para a produção musical, as alternativas de espaços culturais como Sesc, CEUs, Casas de Cultura a implementação do Movimento HIP-HOP  nas periferias do Brasil. O interesse dos jovens pelo samba, choro, xote apontam novos sinais para a produção e difusão musical, mesmo com a mídia rádio, TV, jornal, revista e publicitários só interessados no superficialidade, jogando contra. Cresce um novo público de artistas que não se renderam aos apelos meramente comerciais deste show bussines pobre de ideias.

08) RM: Quais os prós e contras de fazer um trabalho na cena independente?

Edvaldo Santana: Sua independência ideológica e profissional não tem preço que pague. Sinto-me privilegiado pelo fato  de produzir música autoral na minha terra. Saindo de família de trabalhadores sem pedigree, quantos bons artistas vi desistirem de seus sonhos por falta de apoio. Não tenho a  ambição de ser o maior, não nasci pra fazer teste, nem levo jeito pra réu. Ser independente é o que há de mais consistente hoje para quem faz música sem ser preocupar com o mercado convencional. Sei que é necessário grana para divulgar meu trabalho e como não tenho, durmo tranqüilo.

09) RM: Fale de São Miguel Paulista como o seu habitat profissional.

Edvaldo Santana: São Miguel é a minha identidade cultural. meu porto seguro, foi lá que aprendi a respeitar os mais velhos, tratar bem as crianças e não ter medo de correr perigo atrás das minhas ideias e sonhos. Foi lá que fundamos o “Matéria Prima”, o “Movimento Popular de Arte”. Artisticamente foi onde conheci a diversidade da música popular. Foi em São Miguel que conheci Tercilio, um deficiente físico, cantor ambulante que incentivava minha tendência artística. Reinaldo Alves cantor de voz suave que me levou pra cantar no circo da Vila Verde ainda pré-adolescente. Nunca foi o espaço de ganhar a sobrevivência do dia a dia, sempre tive que buscar fora  a grana para pagar as contas. E também nunca fiz de São Miguel trampolim profissional, pois sei das dificuldades econômicas de sua população. Em meus discos  procuro  referenciar o bairro em forma de parcerias com os amigos, assim como em citações poéticas que escrevo.

10) RM: Nos apresente as principais atividades culturais de São Miguel Paulista.

Edvaldo Santana: São Miguel é um bairro especialmente musical pela sua mistura  pelo contingente de nordestinos que chegaram e chegam para trabalhar. No primeiro LP – “Matéria Prima”, lançado no programa Fantástico da TV Globo, já havia gravado uma citação sobre São Miguel e em todos os meus álbuns gravados, procuro falar do bairro onde nasci e fui criado. Para mim o momento efervescente foi a criação do MPA – Movimento Popular de Arte, em que poetas, músicos, artistas plásticos, atores, bailarinos e interessados em arte se reuniam espontaneamente, valorizando o artista local, proporcionando ao público carente da região lazer e cultura. Foi sem dúvida o movimento que impulsionou a criação de casas e oficinas culturais espalhadas pela cidade nos dias de hoje. E sem contar que o bruxo da música mundial Hermeto Pascoal, morou por muito tempo em São Miguel Paulista e o cara que inventou o “Jequibau”, o músico Macumbinha, saiu de São Miguel para encantar a Europa nos anos 1960.

11) RM: Fale da sua atuação como produtor cultural.

Edvaldo Santana: A gente  aprende a se produzir culturalmente na marra. E sempre fui organizado desde começo com a banda “Matéria Prima”. Eu quem encaminhava para as instituições culturais as propostas que o grupo discutia, desde a produção e divulgação do trabalho até o agendamento artístico de shows e outras atividades. Fui o primeiro presidente oficial do MPA. No momento desenvolvo a direção musical da Missa Afro Brasileira, na cidade de Itu, aonde produzi também o CD de Ico Almiro, um violeiro de 70 anos de idade e que foi muito prazeroso. Nos trabalhos relacionados com a carreira tenho tido o apoio do amigo, Valdir Aguiar, que também é de São Miguel Paulista.

12) RM: Como você analisa a atuação cultural e musical dos seus contemporâneos?

Edvaldo Santana: A música brasileira é muito importante na cena mundial e influência com densidade substanciosa a todas outras culturas. Acredito que a minha geração não está deixando a peteca cair. Fico feliz em vê o grande interesse dos jovens pela nossa música, que é um sinal que artistas como: Lenine, Chico César, Happin Hood, Racionais Mcs, Cássia Eller, Itamar Assumpção, Zélia Duncan, Bocato, Titane, entre outros, continuam contribuindo para a formação cultural do nosso povo. Sinto-me bastante alegre em vê os meus amigos da zona leste empenhados em manter a cultura acesa nos corações. A maioria dos participantes da coletânea do MPA, os artistas: Ceciro Cordeiro, Zulu de Arrebatá, Osnofa, Raberuan, Jocélio Amaro, Sacha Arcanjo, Gildo Passos. E os meus amigos poetas que conheci na estrada: Ademir Assunção, Alice Ruis, Rodrigo Garcia, Marcelo Montenegro. Já gravaram ou estão gravando seus discos, lançando livros, dirigindo e organizando  entidades, se dedicando de corpo e alma ao que nós temos de mais importante que é a nossa cultura popular. Além dos poetas e músicos existem os dramaturgos, atores e diretores de teatro, como: Mário Bortoleto, que com seu grupo Cemitério dos Automóveis, trazem para a cena teatral novidades na forma de expressão artística. E temos também o grupo de teatro: “Pombas Urbanas”, que alimentam a periferia de proteínas estéticas. Há os produtores culturais como: Robson Timóteo, Piti Macaxeira, que desenvolvem trabalhos importantes com Rádio Comunitária no ABC. O meu amigo e jornalista: Gilberto Nascimento, juntamente com a fotografa: Regina Vilela, coordenam a ONG Estação da Arte, no bairro da Penha. Portanto os contemporâneos estão na ativa produzindo, organizando e difundido suas ideias. A semente foi plantada e está dando frutos, mesmo com as dificuldades pelas quais passamos no nosso cotidiano.

13) RM: Qual as suas divergências e convergências com a prática do mercado fonográfico nos últimos anos?

Edvaldo Santana: O artista já dizia, Ezra Pound, é a antena da raça, portanto não pode viver dependendo do mercado que sabemos ser de um mau gosto terrível. Os meios de produção e de difusão são controlados pela grana de grandes corporações que nunca valorizaram as obras de músicos brasileiros. Impedindo com isso que as pessoas tenham acesso a este bem cultural. São poucas as emissoras que contribuem para a formação musical do povo. O Brasil é muito rico em sua cultura e a mídia faz vista grossa para estas manifestações. E esperamos que governo Lula (PT) que tem como ministro da cultura Gilberto Gil, que tem uma obra musical relevante consiga juntamente com as organizações populares, mudar este quadro de letargia em que vivemos. É sabido que as gravadoras não controlam mais a produção musical, mas ainda detém o controle dos meios de difusões de nossas criações. Agora por outro lado também tem que haver por parte dos artistas e das  pessoas envolvidas no processo cultural maior envolvimento nos debates e discussões relacionados com a nossa música, pois temos que juntar forças para conseguir ampliar nosso espaço de atuação. É muito cômodo passar para o Estado o ônus da nossa incompetência. Precisamos ocupar os espaços  e desenvolver nossas ideias, com a sutileza da arte e a beleza de nossos sentimentos de solidariedade e amizade.

14) RM: Quem são seus principais parceiros musicais?

Edvaldo Santana: Tive o privilégio de me relacionar com variados parceiros durante a minha trajetória artística, para mim o parceiro não é apenas aquele que divide uma composição musical, mas também aqueles com quem aprendo a desenvolver a estética de minha obra, então todos os parceiros são importantes posso citar vários como: Tom Zé, Fernando Teles, Ademir Assunção, Akira Yamazaki, Arnaldo Antunes, Luiz Waack, Paulo Leminski, Osnofa, Sacha Arcanjo, Roberto Claudino, Glauco Mattoso, Gildo Passos, Lenine, Haroldo de Campos, Itamar Assumpção. Não posso deixar de citar os parceiros que estão motivando a  minha caminhada, que são: Couronegro, grupo da comunidade negra de Itu. O Sr. Ico Almiro tocador de viola caipira.

15) RM: quais os seus projetos futuros?

Edvaldo Santana:  2005 é o ano do Galo no horoscopo chinês e tenho alguns projetos em andamento. Estamos pré-produzindo o segundo vídeo-clipe do CD “Amor de Periferia”, que é da música “O Jogador”, terá a participação do Lenine. Estou fazendo os arranjos do novo álbum que será lançado no segundo semestre, com músicas inéditas e terá as participações de Bocato, Chico César, Patrícia Amaral, Happin Hood. Pretendo ir ao Piauí (PI), terra do meu falecido pai , Felix de Santana Braga, fazer um show e aprender um pouco com o povo do Nordeste. Fui pré-selecionado no projeto do Itaú Cultural, espero que o trabalho continue se desenvolvendo e se espalhe pelo país. Quero continuar fazendo a direção musical da “Missa Afro Brasileira. E tenho como meta organizar um curso de música para crianças carentes na periferia da Zona Leste de São Paulo e na cidade de Itu. Participei da gravação do DVD da cantora mineira Titane que será lançado este ano. Foram gravadas as minhas músicas: “Variante” pela cantora  Daniela La Salvia; “Caximbo” parceria com Osnofa, pela cantora Patrícia Amaral. Está sendo lançado o livro “A linha que nunca termina”, coletânea dirigida por Fabiano Calixto, com vários poemas e comentários sobre o poeta Paulo Leminski, em que sou um, dos convidados, compus a trilha sonora para o desenho animado “A Cobra”, do poeta Sebastião Nunes, que será divulgado este ano.

Contato para shows: TERAPIA PRODUÇÕES (11) 97321 – 9019 ( Valdir Aguiar) | BARRA VENTO PRODUÇÕES (11) 3259-0808 | [email protected] \ [email protected]

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Criada e editada desde 2001 pelo jornalista, músico, letrista e poeta paraibano Antonio Carlos da Fonseca Barbosa. A revista divulga a música (popular, regional, instrumental e erudita) e os músicos brasileiros. Sejam bem-vindos!