Pedro Osmar

 

O cantor e compositor paraibano Pedro Osmar é um guerrilheiro cultural por osmose. Vive, respirar e degusta arte desde tempos idos. Um experimenta lista que segue a penas a regra da expressão artística livre de todas as amarras e regras. Um músico que como os guerrilheiros ataca, recua, avança até ver o inimigo da arte derrotado. Participa das manifestações artísticas paraibana desde da década de 1970. Tem músicas gravadas por: Zé Ramalho, Chico César, Jarbas Mariz, Elba Ramalho, Amelinha, Lenine, Cátia de França, Milton Dornellas, Xangai. É o mentor junto com seu irmão Paulo Ró do grupo de resistência cultural paraibano Jaguaribe Carne. Em 2004 se mudou para São Paulo (Santo André) para desenvolver com músicos que vive na paulicéia desvairada novos desafios e conquistas. Um cidadão cultural do mundo. Que treme de indignação com a falta de respeito com arte de vanguarda e arte pela arte. Confira a entrevista exclusiva para em Abril de 2004:

1-) Ritmomelodia – Fale do seu primeiro contato com a música?

Pedro Osmar – Faço arte desde criança, pois sempre fui meio artista, meio por fora das brincadeiras de todo mundo e a arte foram a minha grande forma de dizer e fazer as coisas. Na adolescência fui estudar música, inicialmente na COEX-UFPB (e aí tive o primeiro impacto). Em relação à música que eu queria fazer e entender e ouvir. Aquelas coisas de partitura, de ter que ler aquelas coisas para poder fazer música. Foi aí que eu entendi que o meu negócio não seria como intérprete de ninguém, isto é, eu mesmo criaria as minhas próprias músicas. (Isso era nos idos de 1973 em João Pessoa – PB). O fato é que a partir daí, desse entendimento e dessa  verdadeira reviravolta cultural na minha vida, fui pro mundo da música inteligente, da música mais exigente, da música criativa e revolucionária, em forma e conteúdo.

2-) RM – Qual sua formação musical ?

PO – Nunca fui de estudar muito em escola ou universidade, pois aquelas lições limitantes sempre me irritaram e não produzia muito com aquelas informações acadêmicas. E aí parti para a experimentação radical e para a vivência de música livre. Levando isso até às últimas conseqüências com as buscas e pesquisas do grupo Jaguaribe Carne, a partir de 1974.

3-) RM – Quais foram e são suas referencias musicais?

PO –  Minha infância foi muito rica em termos musicais já que a minha família era envolvida com música amadoristicamente. Pelo simples prazer de tocar junto com outras famílias vizinhas. E o folclore nordestino e Brasileiro como um todo foi sempre uma presença marcante desde essa época. Meu tio, João Baliza, tocava bandolim e diariamente, quando não estava bêbado, caído nas calçadas junto com o meu pai, (ambos eram operários da construção civil). Aparecia nos saraus que as famílias da Rua da Paz organizavam todo dia.

4-) RM – Fale do seu inicio na carreira musical?

PO – Comecei em 1970 dentro do 4o. Festival Paraibano de Música Brasileira. Foi aí que eu conheci de perto Cátia de França, Carlos Aranha, Vital Farias, Jaiel de Assis, Zéwagner, Ivan Santos, entre outros. A partir daí minha vida profissional teria seu início, de forma crítica, criativa e produtiva. Fui muito feliz neste sentido.

5) RM – Quantos discos gravados? Quais os anos, títulos e música de destaque?

PO – A nossa discografia (Junto com Jaguaribe Carne) é mais ou menos vasta. Considerando que somos um grupo de atuação guerrilheira de cultura. E que tem ousado produzir situações de arte-educação na cidade de João Pessoa. Com algum alcance popular e os discos se inserem nesse contexto de produção.

Nossa discografia se inicia em 2003 com a gravação do LP Jaguaribe Carne -Instrumental, disco esse que gerou uma série de apresentações do grupo no Nordeste. A partir de seu lançamento (Era a fase de uma música para dois violões). Depois vieram:Signagem, com experimentação vocal. Em seguida o Viola Caipira, com experimentações viole iras. O Novóide, com percussão para instrumentos não convencionais (gravado no carnaval de 98). O Piano Confeitado, com experimentações pianeiras. E o mais recente,Dez Cenas de Reviola (Revisão do disco Viola Caipira).

Que fique claro que nem sempre nós fizemos a nossa música tendo como base à música aleatória. Muita coisa minha foi gravada por Elba Ramalho, Amelinha, Lenine, Milton Dornellas, Xangai, Zé Ramalho,entre outros. Nos últimos dez anos, ultrapassando as barreiras da cidade de João Pessoa e chegando à grande mídia. O disco novo: Vem No Vento. É uma síntese de todo trabalho realizado até o momento do Jaguaribe Carne.  

6) RM – Fale do seu trabalho com a música experimental?

PO – Meu contato com a música de experimentação vem desde dos anos 70 quando ouvia as coisas do maestro Pedro Santos (Um paraense radicado na Paraíba) dentro do coral Madrigal em João Pessoa. E daí para estudar e praticar as concepções de música contemporânea foi um pulo. Mas bem antes de Pedro Santos.Eu ouvia em casa nos anos 60/70 a música dos Beatles que é, sem sombra de dúvidas, quem nos coloca as questões de uma música mais diferente,abrangente e mais ousada, vindo pelo Rock. Felizmente eu não me limitei ao rock pauléira como se dizia na época, e fui muito mais longe, fui estudar e ouvir as coisas da música erudita de cunho experimental e de vanguarda. É daí que vêm as nossas maiores inquietações porque simplesmente não entendíamos como é que as rádios do Brasil e do nordeste e da Paraíba era tão atrasadas. E tão idiotas em sua programação diária, já que tínhamos tanta gente boa produzindo uma música inteligente. E esta música não tinha espaço nos meios de comunicação. A conclusão é que partimos para fazer guerrilha cultural como resposta a tudo isso. E para também nos satisfazermos com tudo o que estudávamos e produzíamos em casa e na cidade. Nossos discos são uma espécie de manifesto de afirmação neste sentido.

7) RM – Fale do grupo Jaguaribe Carne? Quem são seus integrantes, filosofia musical e cultural?

PO – O núcleo do grupo sempre foi Pedro Osmar e Paulo Ró (Irmão de Pedro) e seus agregados naturais. Que em várias épocas variavam de acordo com a disponibilidade desses agregados. Numa época era Chico César que estava conosco,em outra era Escurinho, Jorge Negão, Jório Silva,Mazinho baterista, a família Medeiros, Marcelo Macedo,entre outros amigos músicos. E assim desenvolvíamos nossos projetos. A idéia do grupo Jaguaribe Carne sempre foi a de criar situações de interesse público para a cultura na cidade de João Pessoa – PB .E com isso gerar atos educadores importantes para o avanço da música em nosso estado. Não sei se conseguimos atingir nossos objetivos mas bem que a gente continua tentando.

8) RM – Qual era o panorama musical e cultural de João Pessoa na década de 70 e 80?

PO – Era muito rico e cheio de possibilidades. A ditadura militar e sua censura aos meios de comunicação era uma pedra no sapato de todo mundo. Mas que, de alguma maneira nos levava pensar coisas que hoje, na democracia, não conseguimos fazer melhor. Nesse contexto, surge o Jaguaribe Carne para dialogar com outros artistas e outras expressões da arte. E sempre de forma abrangente e preocupada com os aspectos da politização e conscientização. Este talvez seja o traço mais marcante do que foram os agitados anos 70 e 80 na Paraíba. Essa preocupação com a atitude responsável da arte. Bem como com o nível de interesse e de alcance político da arte e dos artistas nos bairros. Base na qual trabalhamos em conjunto com ONGs, partidos de esquerda, pastorais da igreja e grupos anarcopunks. Foi um momento fundamental para nossas vidas de artistas. É nesse momento que nascem projetos importantes como a Coletiva de Música da Paraíba (1976), o Musiclube (1981), o projeto Fala Bairros (1982) e o Movimento dos Escritores Independentes (1984).Que seriam os grandes referenciais das gerações que vieram a partir de então. Praticamente todo mundo da música paraibana que se conhece hoje (Chico César, Totonho, Milton Dornellas, Adeildo Vieira, Jaguaribe Carne, Sérgio Túlio, Dida Fialho, etc.) iniciaram seus trabalhos dentro desses movimento educadores.

9) RM – Em sua opinião existiu ou/e existe rivalidade musical e cultural entre João Pessoa e Campina Grande?

PO – Ainda bem que música não é futebol, pois essa idiotice entre Treze e Botafogo deve ser boa para xingar a mãe, mas é péssima para a imagem dos que moram e trabalham entre Campina Grande e João Pessoa. Culturalmente, artisticamente, eu sinto os ânimos mais civilizados. As pessoas se respeitam mais. E até porque, e isso é um fato,Campina sempre foi o meio do caminho para a capital – João Pessoa para todos aqueles que vinham do interior do estado estudar e trabalhar. E isso desde Jackson do Pandeiro, passando por Zé Ramalho, Elba Ramalho, Sivuca, etc. Hoje as coisas são mais interessantes até, com a estrutura que foi criada nos últimos anos em termos de universidade e isso facilitou muito o intercâmbio. A presença de Bráulio Tavares, Eneida Maracajá e a professora Elizabete Marinheiro foram imprescindíveis para esse desenvolvimento. A atuação de pessoas como estas serviram de base para que o diálogo de Campina Grande comJoão Pessoa e outras cidades do Nordeste e do país fosse viabilizado. Ou seja, nós temos tudo para avançar mais ainda, se a gente for capaz de tirar de cima da gente um atraso que ainda teima e insiste em nos cercar. Coisas menores, idiotas, coisas de treze e botafogo, que tem perturbado outras instâncias da sociedade e da política, mas isso, certamente,  o tempo dirá quem está com a razão.

10) RM – Fale de sua parceria com músicos paraibanos em geral?

PO – Bom, eu sempre fui muito bem relacionado. E sempre me preocupei em criar laços de amizades e Pontes Sonoras com pessoas, grupos, entidades e instituições. Afim de que as minhas idéias pudessem dialogar com outras idéias e daí gerar situações novas e boas para as comunidades e populações. Sempre vi com bons olhos o princípio de que a arte deve estar posicionada no seu objetivo maior de educar, educar para transformar. E aí, sempre estive muito à vontade com meus parceiros. Utilizando-me da sinceridade, da seriedade e da honestidade como base de todos esses diálogos. Acho que até hoje poucos tem a reclamar dessa minha prática. Entendo inclusive que o disco novo do Jaguaribe carne,o Vem no Vento, seja um dos bons momentos dessa minha tese. Xangai, Elomar, Zeca Baleiro, Chico César,Escurinho, Thomas Rhorer, Célio Barros, entre outros.Essas participações, são exemplos da importância dessa minha ponte sonora.

11) RM – Como você vê o mercado musical atualmente?

PO – Sinceramente, eu não me preocupo com o mercado, com gravadoras, máfias de rádio que tanto prejuízo tem causado à nossa música. E porque eu não devo me preocupar ? Porque é uma grande montanha de granito e para derrubá-la. Só mesmo muita dinamite,muitos aviões, muitas ações de pirataria. Que,infelizmente, nós artistas não temos tido coragem para fazer e por isso mesmo eles continuam vencendo a gente,pela força e pela brutalidade analfabeta de uma política de cultura que só interessa ao lucro deles. Querem acertar ? Querem dialogar numa boa com os artistas ? Democratizem os meios de comunicação! Abram as rádios para a música Brasileira e deixem que ela possa existir livremente nas programações diárias. Infelizmente o tipo de mercado que se instalou no país é completamente imbecil em sua política excludente e isso não vai dar em coisa boa. Pensamos que o governo Lula, com toda a sua falácia politiqueira pudesse, de alguma maneira, ajudar a resolver essas questões, mas pelo visto, até agora nada mudou. Vamos continuar esperando de braços cruzados ? Viva a pirataria das ruas!

12) RM – Em sua opinião o sonho acabou em relação à música de qualidade e movimentos culturais comprometidos com as questões sociais?

PO – É o que eu venho debatendo com meus companheiros de trabalho já há algum tempo. Uma música de qualidade pressupõe um mercado de qualidade. Uma política cultural de qualidade, pressupõe um governo municipal, estadual e federal sério e comprometido com os interesses dos artistas e das populações. E também artistas preocupados com o avanço político de suas estéticas e de seus posicionamentos. Há muito atraso em tudo isso! Os artistas tem que se organizar de maneira guerrilheira e colocar suas rádios no ar em cada bairro. Sem esperar por ninguém, uma rádio em cada esquina, rádio nas escolas, rádio nas associações de moradores e pastorais das igrejas, rádios nos partidos de esquerda. Entre outras coisas que fazem com que se gere uma música de qualidade. Afinal, pra que serve uma música de qualidade, se não se tem onde tocar e discutir ? Eis a questão.

13) RM – Em sua opinião qual seria a “cara” da música paraibana?

PO – A cara da diversidade. E esta é a nossa maior riqueza.

14) RM – Já existiu um movimento musical paraibano ou na Paraíba?

PO – O movimento é natural. É o que democratiza as oportunidades para todos. É o que leva os governos a encararem com mais seriedade essa democratização. E por aí vai. Quanto a esses movimentos tipo tropicalismo, bossa nova, jovem guarda, nada disso importa. Foram movimentos criados pelas gravadoras com a finalidade de gravar discos.O que importa são as condições de trabalho para quem produz e isso nós não temos com facilidade. Deveria ser mais fácil.

15) RM – Quais os prós e contras de ser um artista independente e inquieto musical e culturalmente?

PO – Eu direi sempre: abaixo o comodismo! Abaixo o conformismo e viva todas as utopias e libertações,aqui, agora, hoje  e sempre.

16) RM – Você acredita que sua projeção popular não se deu até o momento por não ter investido no universo das canções?

PO – Eu já tenho projeção onde me interessa. Estar na grande mídia não é a coisa mais importante quando se tem pela frente todas as revoluções que precisamos cometer para mudar alguma coisa. O resto não interessa.

17) RM – Quais as convergência e divergências de pensamento musical e cultural entre os artistas paraibano de destaque e contemporâneos como: Zé Ramalho, Elba Ramalho, Chico César, Vital Farias,Bráulio Tavares, Cátia de França? E comente sua relação pessoal e profissional com eles?

PO – Não há divergência entre estes artistas e entre eles e eu. Estamos todos nessa grande batalha para que a música inteligente saia vitoriosa. E possa afirmar cada vez mais a Paraíba no cenário nacional e internacional. A batalha da profissionalização passa por tudo isso. É cada um levantando sua bandeira e que todas juntas formam uma bandeira só, que é a bandeira da dignidade pessoal e profissional em atendimento aos anseios do povo por educação e cultura.

18) RM – Quais os projetos para 2004?

PO – Dar andamento aos projetos iniciados desde 1970, ainda durante os festivais de música. E estar morando em São Paulo hoje significa a continuidade desse trabalho. Sair de João Pessoa e vim morar e viver em São Paulo se tornou o marco zero da minha vida pessoal e profissional.Inclusive já comecei a pensar no disco de Pedro Osmar em parcerias com músicos da cidade, como Loop B, Thomas Rhorer, Célio Barros, Eder Fersanti e o pessoal do grupo Toneladas de Baquirivu.

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