Anastácia

Cantora e compositora pernambucana Anastácia iniciou a sua carreira profissional em 1961 com o Disco: Anastácia No Torrado. Brilhou também como atriz de rádio-novela. Nessa época a única mulher que cantava forró era a talentosa Marinês que recebeu do rei do baião o titulo de: Rainha do XAXADOAnastácia ficou conhecida como a Rainha do Forró. Com uma interpretação original e voz aguda, mesmo sendo fã de Marinês, não podo evitar a disputar salutar pelo trono de diva da música nordestina estimulada pela gravadora de ambas. Foram cinco anos de concorrência com lançamento de um Disco por ano de cada cantora simultaneamente. No final dessa disputa ganhou a música popular nordestina.

Anastácia começou a se destacar como compositora, sendo o ponto da diferença entre ela e Marinês (Que gravou 15 canções sua). Em 1974 Marinês gravou: Eu Só Quero um Xodó (Anastácia e Dominguinhos) que passou despercebida, mas no mesmo ano Gilberto Gil gravou em um compacto simples. E fez um sucesso espetacular que colocou em evidência o lado compositora de Anastácia. Hoje sua obra soma mais de 400 músicas gravadas. Anastácia se mantém em plena atividade.  Reforçando a auto-estima do nordestino que como ela saiu do seu  do seu torrão natal para vencer longe de sua origem.  Segue abaixo entrevista exclusiva de Anastácia para revista musical Ritmo Melodia – www.ritmomelodia.mus.br  , entrevistado por Antonio Carlos da Fonseca Barbosa em fevereiro de 2002:

01) Ritmo Melodia: Fale do seu primeiro contato com a Música. 

Anastácia: Eu nasci  no dia 30 de maio de 1941 em Recife. Fui batizada como Lucinete Ferreira.  E comecei cantar muito cedo, na beira dos açudes com as lavadeiras de roupas e adorava cantar para divertir elas. Com 13 anos de idade houve um concurso na fábrica que minha mãe trabalhava. Tinha uma menina ganhando há três semanas, eu fui lá e ganhei da menina. E fui contratada para cantar na orquestra da Fábrica. Cantei bastante nos SESIs do Recife. Um dia no SESI do Vasco da Gama, um senhor perguntou se eu não queria cantar na Rádio e Jornal do Comércio. Achei que era brincadeira, mas ele estava muito bem vestido e me deu seu cartão. Fiz um teste em uma quarta-feira 10:00. Ele era Clênio Vanderlei um dos grandes atores pernambucanos (Já falecido), que fazia o papel de Jesus Cristo na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém. Passei no teste, fui contratada e comecei a cantar em 1954 na Rádio e Jornal do Comércio, expandi minha carreira como atriz de rádio – teatro. Fiquei em Recife até 1960.

02) RM: Porque você resolveu vim para São Paulo?

Anastácia: Na década de 60 começou a popularização da Televisão. Houve muita contratação de artistas nordestinos para o Eixo Rio – São Paulo. Achei que era hora de sai de Pernambuco e vim para São Paulo em 1960 com minha mãe, cinco irmãs e uma sobrinha, todos eram crianças. Eu tinha 20 anos e não vim pensando em cantar, porque eu achava que meu talento não estava no nível do sudeste. Os artistas eram mais profissionais e populares. Eu vim para tentar qualquer trabalho, tinha uma irmã que já morava em São Paulo. Acho que Deus escreve certo por linhas tortas. Eu acho que meu destino já estava traçado. Quando cheguei, no outro dia andando pelo centro, uma pessoa de dentro de um Bonde gritou meu nome, era um cantor chamado: Nelson Roberto do Recife. Ele tinha vindo antes de mim, mas não estava trabalhando como cantor. Ele me deu um cartão de Venâncio (Da dupla Venâncio & Corumba) que tinha um escritório de caça talentos. Procurei o Venâncio um tempão até encontrá-lo. E deixei meu contato e fui trabalhar na Vasp. Um dia ele me procurou na Vasp propôs um trabalho. Ele foi quem me levou para gravadora Continental, fiz o teste, passei e fui contratada. As coisas aconteceram rápido em 1960. Fiz um disco compacto em 1960 e em 1961 lancei meu primeiro Long Play. Fiz sucesso no nordeste com o primeiro Disco.

03) RM: O que você cantou no teste para gravar o seu primeiro disco? 

Anastácia: No teste na gravadora cantei de tudo. Desde Bolero, Mambo, Samba e no meio do teste, o diretor musical, Palmeira, da dupla Palmeira e Biá, disse: – Lucinete, canta um “forrozinho”, eu lembrei de cantar Sebastiana, ele me mandou parar. Achei que não tinha gostado. Ele disse que fui bem cantando outros gêneros musicais, mas na hora do forró, me denunciei como forrozeira nata com ritmo e suingue. Perguntou se queria gravar um disco de Forró e fiz meu primeiro disco: Anastácia no Torrado. Mudaram meu nome de Lucinete para Anastácia. Eu nem sabia e me surpreendi, mas acho que o nome Anastácia foi uma coisa boa para mim. Deve ter alguma proposta de outra pessoa de sobressair como esse nome e serviu para mim. Moral da historia eu fiz o primeiro Disco e não parei mais.

04) RM: Como era a sua relação profissional e pessoal com os Forrozeiros da época? 

Anastácia: Quando eu comecei, só tinha uma mulher cantando Forró que era Marinês. A Rainha Absoluta e todo mundo que gostava de cantar forró se espelhava nela. Uma excelente cantora e tinha uma performance muito forte. Eu era a sua fã, mas minha voz não parece com a dela. E tenho uma personalidade formada. Ela, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro fazia muito sucesso no Nordeste. Quando eu comecei a gravar perguntavam quem era a mulher que estava cantando forró e fazendo sucesso. Virei uma concorrente da Marinês e éramos de gravadoras diferentes e quando ela gravava um disco, eu gravava também. Foram cinco anos de concorrência no mercado, toca uma, toca outra. Foi muito bom para música  nordestina, uma soma, eu sempre procurei fazer um bom trabalho. Aprendendo e buscando melhorar sempre. Eu conheci Marinês no Rio de Janeiro e Luiz Gonzaga em São Paulo ambos gravaram minhas músicas. Conheci Genival Lacerda em Recife e Jackson do Pandeiro no Rio de Janeiro quando participei do Projeto Pixinguinha e do projeto Seis e Meia da Funart. Conheci Abdias e o Trio Nordestino em São Paulo e depois todos começaram a gravar minhas músicas, inclusive as românticas gravadas por: Waldicke Soriano , Claudia Barroso, Roberto Muller e outros artistas.

05) RM: Como iniciou sua amizade com o Rei do Baião Luiz Gonzaga?

Anastácia: Eu conhecia Luiz Gonzaga desde Recife, mas não pessoalmente. O Venâncio vendia os shows de Gonzaga no Rio e em São Paulo. Um dia eu estava no escritório quando ele chegou e começamos a conversar. Identificamos-nos muito. Eu declarei que era sua fã e apaixonada pelo seu trabalho. Ficamos amigos e trabalhamos juntos. Ele gostava muito de mim. Em 1967 ele me convidou para fazer um programa de TV no Rio, chamado: Noite Impecável. Eu fazia em São Paulo, um programa chamado: Chapéu de Couro, dirigido por Jorge Paulo, eu fazia dupla com Aluízio Gomes. Interpretávamos uma dupla de nordestinos era: Seu Cazuza e Dona SeverinaGonzaga gostava muito desse quadro e me chamou para fazer no Rio de Janeiro.

06) RM: Como você conheceu Dominguinhos e como iniciou a parceria musical e amorosa?

Anastácia: Conheci Dominguinhos pessoalmente em São Paulo. Ele tomava conta do Regional de Gonzaga. O rei do baião me convidou para uma temporada de show no Nordeste e o sanfoneiro Ari Coutinho foi substituído por Dominguinhos. E começou nossa amizade, paixão e primeiras composições: “Um Mundo de Amor” e “De Amor Eu Morrerei” (que a Gal Costa gravou). Em 1974 fizemos: Eu Só Quero Um Xodó que Marinês gravou, mas também Gilberto Gil gravou em 1974. E foi um sucesso nacional. Tivemos um relacionamento amoroso por quase 12 anos (1967 a 1978) e mais de 160 composições em parceria. Ele era casado, sua esposa morava no Rio de Janeiro. E morávamos e trabalhávamos em São Paulo. Foi um relacionamento muito bom, mesmo não tendo terminado muito bem. Ele casou com outra pessoa ( a cantora Guadalupe) e foi cuidar da própria vida. Não tivemos “filhos” carnais, mas filhos musicais. Foi o que mais valeu a pena.

07) RM: Como era visto o nordestino na década 60 em São Paulo? 

Anastácia: O nordestino não tinha muito apoio em São Paulo. Éramos marginalizados, por pura ignorância. As pessoas não conheciam o nordeste nem o potencial do  nordestino. Achavam que todo homem era Lampião e toda mulher era Maria Bonita, coisas da imaginação e ignorância. Fez 42 anos que moro em São Paulo e estou lançando o 42º disco (2002) de carreira. Tenho mais de 450 musicas gravadas por interpretes importantes dentro e fora do Brasil.  “Eu Só Quero Um Xodó” foi gravada mais de 300 vezes. E é uma música nordestina gravada no estrangeiro. Isso é a cultura do Brasil que o povo desconhecia e por desconhecer achava que o artista nordestino não tinha mercado em São Paulo. Agora graças a Deus, a gente pode se dar ao luxo de ver a meninada cantando Xote e dançando Forró. Eu canto e as pessoas começam a se peneirar. É o sinal do tempero nordestino brasileiro. Pode ser um XoteArrasta-péBaião tudo ao mesmo tempo. “Eu Só Quero Um Xodó” foi gravada no ritmo de Arrasta-pé, Xote, Reggae e balada. O país se negava a discutir as questões culturais e educacionais do povo nordestino. Éramos vistos como anti-povo e anti-herói. Com a conscientização que nos brasileiros estamos tomando pode fazer o encontro do Sul, Sudeste com o Norte e Nordeste. Os artistas e formadores de opinião é que mudarão esta realidade para esse país no futuro possa ser um país respeitado pela sua cultura e pela sabedoria do seu povo.

08) RM: Como você define o Forró ?

Anastácia: Olha é tão difícil (risos) definir o Forró. Quando estou cantando com um sanfoneiro bom com aquele som acústico do Zabumba que é a mola mestra e o triângulo. Pinta tanta coisa na minha cabeça, faço tanta coisa, vem mil e uma idéias.

09) RM: Fale do seu Xote em homenagem a Bob Marley.

Anastácia: Eu levantei duas horas da madrugada com um refrão na cabeça e fiz uma música para Bob Marley. Para mim o ritmo dele música nordestina. O Reggae é um Xote jamaicano. Vocês vão ouvir meu Xote-Reggae-Xote, essa música vai dá o que falar. Eu acho que nem fui eu que fiz, acho que recebi uma mensagem duas horas da madrugada de  Deus ou Jah que me inspirou. A um encontro, uma identificação incrível desses dois ritmos. Eu fico sem saber se é realmente música do nordeste ou música universal.

10) RM: Como você vê o reconhecimento do seu trabalho como cantora e Compositora no Brasil? 

Anastácia: Existe um problema muito serio no Brasil. É muito difícil uma cantora fazer sucesso em relação a um cantor. Eu acho que tem mais público feminino para os cantores do que masculino para as cantoras. Existe um número maior de cantores do que de cantoras. Eu por gravar sempre música nordestina que já sou colocada em segundo plano, às gravadoras não tinha nem tem interesse de me promover nacionalmente. A gravadora me promovia para o nordeste. Depois do carnaval todos os forrozeiros viajavam para o nordeste para divulgar da Bahia até Belém os seus discos. Como sendo o único espaço para divulgar o nosso trabalho. Esqueceram que no sudeste foi crescendo a colônia nordestina querendo conviver com seu habitat musical e  costumes. Eu acredito que o que contribuiu também para eu não ter um reconhecimento foi minha parceria com Dominguinhos. Quando o conheci, ele era um desconhecido, tocava com Luiz Gonzaga e depois veio trabalhar comigo. Quando fizemos à música: “Eu Só Quero Um Xodó”, ele foi trabalhar com a Gal Costas. E se achava senhor absoluto, terminamos o relacionamento. E ele fazia tudo para me boicotar. Em  entrevista não falava das parcerias comigo. Muita gente até hoje duvida que fiz a letra de: “Eu Só Quero Um Xodó”. É uma coisa que não guardo magoa, mas foi uma bobagem da parte dele. Quando perguntam de mim, diz que fui “agregada”. Uma pessoa agregada vive sob a dependência financeira do outro. E nosso relacionamento era diferente, minha posição social era melhor quando nos conhecemos. Fui uma companheira de longas batalhas, renasci das cinzas e continuo mostrando que tenho Talento. Ele colocou no seu site pessoal que eu não quis mais fazer música com ele. Não quis por esse motivo, porque 100% das minhas músicas em parceria com ele, a letra é minha e em algumas a melodias também, mas ele nega para poder se sobressair. Como é um excelente músico e homem, existe esse problema de homem ter mais espaço. As pessoas achavam que eu não era ninguém, mas continuei mostrando que fazia e faço minhas composições. E as pessoas que fazem parceria comigo sabe que eu participo efetivamente de tudo. Por egoísmo de uma pessoa, outra ficou em segundo plano.

11) RM: Fale da importância de Pedro Sertanejo na divulgação do Forró em São Paulo.

Anastácia: Pedro Sertanejo marcou na história nordestina. Um baiano de Canudo que morou no Rio de Janeiro e veio para São Paulo com a ousadia de montar uma casa de Forró típica para os nordestinos. E pessoas desavisadas achavam um horror tanto nordestino num só lugar. Havia pessoas de todo o nordeste. Casavam, encontravam amigos e parentes que fazia anos que não se viam. Era o encontro obrigatório do pessoal que fazia música nordestina. Quando os músicos viam do Rio de Janeiro, perguntavam onde tinha canto para tocar e o pessoal levava para o Forró de Pedro Sertanejo. Ele sempre colocava para cantar, mesmo os que não eram contratados ou convidados.  Eu não cantava muito lá, porque tinha outros espaços para fazer shows. Eu ia poucas vezes, mas às vezes que eu ia, era bem recebida. Eu prestei uma homenagem a ele no meu disco. Foi uma pessoa que nos deixou, mas que iniciou todo esse movimento do Forró em São Paulo. 

Contato: (11) 5012 – 5557 | 99257 – 4051 |   contato@anastacia.com.br ; www.anastacia.com.br

O que achou? Comente aqui!